"PRÓS E CONTRAS" COM PAPAS NA LÍNGUA
MAS O QUE VIMOS E OUVIMOS FOI APENAS... "PRÓS"!
(1ª PARTE)
No programa de Fátima Campos Ferreira “Prós e Contras” do passado dia 10 de Maio, foi abordada a visita de Bento XVI a Portugal. Que me recorde, e referindo-me apenas aos programas que vi, este foi apenas “prós” já que, e como é costume na RTP, quando se fala da Religião Católica, há sempre um estranho esquecimento no que respeita a ateus e agnósticos, para não falar de outras religiões com menor implantação mundial, mesmo que sejam cristãs.
Daqui podemos concluir que a RTP é mais papista que o Papa, considerando que os Portugueses elegeram Jorge Sampaio Presidente da República por duas vezes (e possivelmente mais se a Constituição permitisse) apesar de ter declarado antes de ser eleito, e perante as câmaras da Televisão Pública, que era ateu. Para um país com tantas tradições católicas, o que é inegável, é caso para começar a meditar sobre o que está a acontecer na mente do povo português. Será que começa a abrir os olhos?
Mas voltemos ao programa que deveria ter sido intitulado “Pró-Papa”.
Como nota introdutória Fátima Campos Ferreira falou dos que têm outra religião e dos ateus (esqueceu-se dos agnósticos) e apresentou os convidados entre os quais se destacaram Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa e coordenador geral da visita papal, o professor Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da "Caritas" Eugénio da Fonseca e a psiquiatra Margarida Neto. Na plateia destacou a figura da actriz Glória de Matos, o representante da Direcção Nacional da PSP, comissário Pedro Flor, o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, padre Manuel Morujão, o padre Tolentino Mendonça, os responsáveis pela construção do altar de Lisboa, Pedro Castro e Marta Roquete, as deputadas Teresa Damásio e Isabel Galriça Neto e, pela Comunidade Islâmica de Lisboa, um senhor cujo nome não consegui perceber para além de Mohamet, e que acabou por não aparecer.
O bispo auxiliar foi o primeiro a ser interrogado sobre o significado de tão transcendental visita mas, como era de esperar, repetiu o mesmo discurso que todos fazem nestas ocasiões, seja qual for o tipo de visitante. Como é óbvio, e como se tratava do patrão, lá veio a inevitável alusão a Fátima e ao Deus em que crê. Mas, e o comentário é meu, delega nas suas criaturas as soluções para todas as crises, por mais que as suas ovelhas orem a pedir o seu auxílio, mostrando que, na realidade, não passa de um mau pastor. Ao menos o cão, também criatura de Deus, mostra-se muito mais zeloso, dedicado e protector.
Por sua vez, Marcelo Rebelo de Sousa, como sempre defendendo a sua dama, ainda aludiu à Inquisição, criticando o facto de se matar pela fé. Esqueceu-se, porém, que a morte infligida aos desgraçados que caím nas garras dessa instituição, não era rápida, o que até seria uma bênção. Para além dos terríveis meios utilizados para chegar a ela, as torturas incapacitaram fisicamente ou levaram à loucura famílias inteiras num total de muitos milhares de pessoas.
Quanto à visita de Bento XVI referiu a alegria que todos os católicos iriam sentir ao receber o seu líder espiritual, e afirmou com a sua característica entoação que não admite dúvidas, não haver provas sobre o encobrimento dos casos de pedofilia na Igreja Católica. Antes pelo contrário. Ó senhor professor: não lhe chega o documentário da BBC, exibido pela SIC, com tantas testemunhas e relatos de membros da própria Igreja Católica sobre o encobrimento do documento Crimen Sollicitationes, datado de 1962, e de que foi vigilante durante vinte anos o cardeal Ratzinger, depois promovido a Papa pela “inspiração”divina que bafejou os seus colegas eleitores, e que se manifestou por uma pequena fumaça branca saída de uma chaminé? E que este documento impõe silêncio aos clérigos, às vítimas e às testemunhas sob pena de excomunhão? Bem sei que o senhor é doutorado em Direito, pelo que não quero de modo algum meter-me em disciplinas que desconheço. Mas, não será que a sua fé lhe faz ofuscar a razão, como aconteceu, por exemplo, com um Leibniz ou um Einstein, como já referi num texto deste blogue? Aconteceu a muitos grandes génios em todos os tempos e há que respeitá-los tanto pelas suas obras como pelas suas crenças, desde que estas últimas não prejudiquem as primeiras. Porque, no fim de contas, religião e ciência, em virtude do dogmatismo da primeira, nunca se deram bem. Como disse Carl Sagan , "a supressão de ideias desconfortáveis pode ser comum na religião e na política, mas não é o caminho para o conhecimento". Pela minha parte, acrescento: na ciência, muitas delas tornaram-se leis ou princípios. Na fé, não passam de hipóteses sem fundamento.
Quanto à crise sem paralelo que a Europa atravessa, permito-me perguntar ao professor se a História do Velho Continente (e de todo o planeta) não é toda feita de crises, sejam elas maiores ou menores, e relativas à época e ao local onde se desenrolam. Antes de embarcar nas suas entusiásticas retóricas, lembre-se da História Universal que estudou no liceu e que, na sua esmagadora maioria, é constituída por guerras, crimes, pestes, e catástrofes de toda espécie. A maior parte delas foi originada pelas estúpidas sucessões dinásticas das monarquias e, no caso da Europa, pelas várias cisões dentro do próprio cristianismo. O mundo só mudou científica e tecnologicamente. Em tudo o resto está absolutamente na mesma, por mais Moisés, Budas, Cristos e Maomés que apareçam a apregoar a liberdade e justiça em nome de todos os Deuses que quiserem. Seria fácil confirmá-lo se houvesse imagens gravadas do passado. Talvez muita gente passasse a dizer “como o mundo é” e não apenas “como o mundo está”. E é disso e do progresso científico, que a religião católica tem e sempre teve medo. "Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o Reino dos Céus.". Consta que Jesus Cristo disse isto mas, francamente, não vi o filme «Jesus de Nazaré» de Zefirelli. (Perdoem-me a ironia) Ou ainda: "não lhes abras os olhos patrão; o que é que vão ver? A sua miséria? Eles passam fome, fazem filhos e dizem: Deus seja louvado" (in «Alexis Zorba» de Nikos Kazantzaki).
Eugénio da Fonseca, presidente da “Caritas”, uma organização a todos os títulos louvável mas que seria desnecessária se “tudo corresse pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”, como afirmava Leibniz, teve de responder a uma daquelas perguntas inúteis e disparatadas que os jornalistas costumam fazer. Ao ser interrogado se a visita do Papa era importante, uma vez que ia ter um encontro com as várias redes sociais portuguesas, respondeu que…era importante, já que o Papa, na sua primeira Encíclica, mostrara interesse pela obra caritativa da Igreja e que, por isso, tinha ficado surpreendido! Depois acrescentou que todos os Pontífices tinham feito o mesmo!?
Mais clara foi a psiquiatra Margarida Neto, quando afirmou que, e passo a citar, que "a Igreja preenche as mulheres e os homens do nosso tempo como preencheu ao longo da História, e perdura o grande milagre que é uma instituição com certeza ter sido ferida em muitas falhas, que são de natureza humana; os casos de que aconteceram, que acontecem, são porque padres, os religiosos e as religiosas são homens e mulheres e, portanto, com fragilidades como todos temos, mas preenche porque, e voltando à mensagem principal do Papa, que era aquela que eu mais tenho expectativa de ouvir, e tenho a certeza que vou ouvir, é este grande chapéu que começa na primeira encíclica de que o professor Eugénio estava a falar, que Deus é amor, e é isso que me parece que é o centro da fé". Referiu-se também à solidão e às mulheres, realçando que sendo Deus amor, significa tudo para uma mulher, e que a presença desta começa com Maria.
Depois de ter ouvido e tentar compreender tanta erudição, e enlevado pelo extraordinário misticismo por ela revelado, comecei seriamente a pensar em consultar uma (ou um) psiquiatra. Mas, uma vez acalmados os meus hipocondríacos receios, considerei que talvez este acto de possível terapêutica ficasse melhor à referida doutora, ou consultando uma colega de ofício, ou fazendo uma auto-consulta.
Mas foi a deputada do CDS ,Teresa Damásio, que fazendo eco da confusa verborreia da senhora licenciada em psiquiatria, e fazendo jus ao elevado cargo que ocupa na sociedade portuguesa, velando, qual sentinela firme e erecta, pela religião tradicional dos cidadãos, confirmou de maneira incontestável, os sagrados caminhos da doutrina cristã. Para isso utilizou uma retórica capaz de fazer inveja aos mais eruditos. Insistiu que a Igreja actual tem sabido acompanhar a evolução dos tempos, até porque foram mulheres que acompanharam Cristo na Galileia quando foi crucificado, e ainda que foram elas que foram ao Santo Sepulcro verificar que tinha ressuscitado. (Mas, segundo a Bíblia, só apareceu em carne e osso aos seus discípulos, verificação muito materialista confirmada por S. Tomé. Depois armou-se em astronauta e subiu aos céus, não fosse o seu povo entregá-lo de novo á populaça por quem lutou). E continuou dizendo que as mulheres estão presentes na Bíblia e na Igreja, e espera que um dia sejam ordenadas padres. Por isso não se sente discriminada. Disse, ainda, que a vinda do Papa nesta altura de crise, é muito importante para Portugal, tanto para os crentes como para os não crentes, e que o Espírito Santo vai iluminar todos. Fátima Campos Ferreira acabou por interromper tanta eloquência, o que não foi má ideia visto que a doutora Margarida tinha dito mais ou menos o mesmo.
Nesta parte do "imparcial" programa televisivo, lembrei-me da Mary Poppins e de Julie Andrews a cantar supercalisfragilisticexpialidocious, ou seja “uma coisa que se diz quando não temos nada para dizer”. A propósito: Quem não se recorda deste delicioso filme da Disney?
Continuando o interessante espectáculo que a Televisão Pública proporcionou, entrou em cena o padre Manuel Morujão, falando com aquele sibilar característico de quase todos que andaram no Seminário. Porque o fazem, nunca cheguei a perceber. Nem o doutor Salazar escapou a essa espécie de contágio. Enlevado por um ar de beatificação e de felicidade, parecendo rodeado por uma aura só comparável à da Sra. Dª. Aura Miguel, conceituada jornalista da Rádio Renascença que teve a honra sublime de ter falado com João Paulo II, parecia ser o possesso da verdade. Cheguei a recear que começasse a levitar, quanto mais não fosse para provar que o Deus da Bíblia pode anular a Lei de Newton. Explicou, assim, que não podíamos ver os papas como um Wojtyla ou um Ratzinger, já que todos eram Pedro. (que confusa hereditariedade!)
E prosseguindo com aquele ar de quem anda numa nuvem rodeado de anjinhos e de virgens, (até porque as outras mulheres são pecadoras), também se esqueceu que o papado é feito por homens com todas as suas qualidades e defeitos, tal como os Deuses das religiões que, na minha opinião, foram criados pelo ser humano à sua imagem e semelhança, e não o contrário como tentaram impingir-me em criança. Por isso omitiu (ou fingiu não saber) que no Vaticano, como em qualquer sociedade humana, facto aliás mencionado pela Drª Margarida Neto, existem qualidades e defeitos susceptíveis de serem apoiadas ou condenadas conforme o modo como são apresentadas, ou a maneira de ser de quem as vê ou quer ver.
Por isso não falou dos filhos dos Papas, das suas taras sexuais, do Grande Cisma do Ocidente em que pontificaram simultaneamente dois Papas, um em Roma e outro em Avinhão (França), nem da Papisa Joana que reinou dois anos no Século IX, e que deu origem à célebre frase “Habemos Papa”. Acreditem ou não, depois daquela bronca, os novos Pontífices tinham que se sentar numa cadeira com um buraco, pelo qual um inspector, verificando se tinha testículos, confirmava com aquelas palavras que se tratava de um homem, não fosse o Diabo tecê-las e colocar no lugar de Pedro esse ser desprezível, estúpido e ignorante chamado mulher. Viva o machismo. E, já agora, pergunto se não será por isso que a RTP tem grande afinidade com a Igreja Católica e os seus chefes. É tudo uma questão de ter “tomates”, como o seu funcionário José Rodrigues dos Santos, que se julga muito engraçado, afirmou ao terminar um telejornal dizendo que era um final com os ditos penduricalhos. Sobre esta e outras gracinhas desse senhor, que pode ter jeito para muita coisa menos para apresentar o telejornal, já escrevi um pequeno artigo neste blogue.
Numa outra intervenção, o senhor bispo auxiliar esclareceu que a alegria cristã nunca ofende a tristeza dos outros, e que os critérios dos mercados vão contra a verdade dos factos. Mais uma vez a falta de memória ,ou o ópio da fé, fez que não dissesse que o Vaticano está a abarrotar de riquezas, a maioria roubadas, o que contraria a chamada “missão caritativa da Igreja”.
Marcelo Rebelo de Sousa tudo ia ouvindo com um ar de bem-aventurança, intervindo aqui e acolá, impregnado como estava pelo seu dogmatismo. Aliás foi o convidado que falou durante mais tempo. Se estivesse sozinho teria, certamente, eclipsado Fidel Castro. Este defendendo as "virtudes" do comunismo, aquele as "verdades" do catolicismo. Ossos do ofício.
Noutro momento do programa, Fátima Campos Ferreira pediu ao senhor bispo auxiliar que explicasse como foi possível o Papa, como coordenador da verdade, ter escondido o documento Crimen Sollitationes. O bispo auxiliar meteu os pés pelas mãos e tentou atirar a explicação para o passado, dando a entender que o Papa, na sua nova condição, já não era a mesma pessoa. Por isso agora já assumia o problema da pedofilia na Igreja Católica mas, que de qualquer modo, tudo não passava de uma campanha para o denegrir.
Depois Glória de Matos falou sobre as diferenças entre os dois últimos Papas. Como é óbvio todos somos diferentes (mas afinal não são todos Pedro?) e foi eleito numa altura em que se contestam todas as lideranças e valores. Mas, tal como ao nosso pai, temos que obedecer ao Papa mesmo que não concordemos. Até porque "as pessoas estão secas e andam umas contra as outras".
Mais uma vez a amnésia, essa estranha doença que a algumas pessoas faz esquecer o que não lhes interessa, entrou em cena. Assim não falou dos conflitos que desde sempre animaram a história da humanidade, como por exemplo as Cruzadas, a chacina dos Judeus em Lisboa no reinado de D. Manuel I, o chamado "Venturoso", na matança da noite de S. Bartolomeu ocorrida em França em 1572, em que os católicos se deleitaram a massacrar dezenas de milhar de protestantes, etc. etc. Tudo isto foi olvidado pelos convidados e pela apresentadora, facto que se estendeu à assistência que, aliás, não se mostrou nada avarenta nas suas entusiásticas ovações. No fim de contas tratava-se de aplaudir mais um "santo padre"!
Rita Neto, tentando mudar de assunto sem dizer nada, falou da Ressurreição, e disse que esta é alegria e que os católicos vivem num mar de alegria. Mas não disse que também os católicos têm medo da morte, e quando o Papa está para morrer fazem uma choradeira tremenda e rezam para que isso não aconteça. Até porque quando uma pessoa se salva “graças a Deus”, ninguém diz que Deus não a salvou, mas que apenas adiou a morte. Não será óbvio?
O padre Tolentino Mendonça, à pergunta se Bento XVI sente a necessidade de uma nova evangelização da Europa, começou por criticar o intelectualismo e afirmar que o Papa é um homem com ideias claras. (Deve conhecê-lo há muito tempo) . Depois veio com a velha história dos Evangelhos e dos grandes valores europeus, do modo como o Cristianismo faz parte da cultura da Europa e de Paulo de Tarso, que veio dizer que nas cidades gregas e em Roma já não havia cidadão nem bárbaro, nem escravo nem homem livre, nem distinção entre homem e mulher, donde se conclui que o Cristianismo lançou um novo ideário civilizacional. Sem dúvida que o encontro da Europa com o melhor de si própria está no coração de Bento XVI, e até há quem diga que este Papa é o último iluminado da Europa! Possivelmente, digo eu, quando morrer transmitirá o cognome por herança. De facto não há nada como louvar o patrão actual. Mas a sua amnésia apenas lhe permitiu falar de Paulo de Tarso, esquecendo-se de grandes pensadores cristãos tais como Abelardo, Erasmo, ou Lutero que criticaram ou revoltaram-se contra a Igreja de Roma devido aos seus crimes e contradições.
A irmã Fátima Guimarães, da “Pastoral Social”, ao ser instada sobre como se espalha o amor (lá veio o inevitável “no terreno” repetido três vezes no espaço de apenas vinte e dois segundos) explicou, com latim pelo meio, que visita reclusos com outros elementos da organização a que pertence para lhes comunicar que Deus os ama mesmo na condição em que se encontram, que podem recomeçar do zero, anuncia-lhes Jesus com alegria, e faz uma saudação da palavra. Depois “vamos para o sítio onde eles estão, vamos com a deles, entramos com a deles e saímos com a nossa” (sic).
A empresa portuguesa “Gelpeixe” veio mostrar a prenda que ia oferecer ao Papa: uma caixa com a assinatura de todos os funcionários contendo peixe congelado, já que o desenho de um peixe era a senha secreta usada pelos Cristãos para se identificarem em Roma durante as perseguições, e é também um símbolo de Portugal, tanto como descobridor de novos mundos como pescador. Bacalhau, polvo, sardinha e mariscada, já que o Papa é um grande apreciador de bacalhau. Marcelo Rebelo de Sousa interveio, mais uma vez, para dizer que aquela oferta era uma mostra da alegria que católicos e não católicos sentem por receber o Papa. Sempre a eterna mania que muita gente tem de falar em nome de todos. Aconteceu na nossa História recente com as chefias militares hoje conhecidas como “A Brigada do Reumático” que, com excepção dos generais Spínola e Costa Gomes, foram prestar juramento de fidelidade a Marcelo Caetano em nome de todas as Forças Armadas. Cerca de um mês depois deu-se o 25 de Abril!
E agora vou fazer um intervalo, tal como no programa “Pró-Papa". Assim, peço desculpa (o que a RTP há muito já não faz) por esta interrupção; o programa segue dentro de momentos!
Começou por ser uma tentativa utópica para corrigir os disparates que se ouvem, vêem e lêem na comunicação social neste mundo louco onde reinam a estupidez e a ignorância. Finalmente, decidi-me a escrever sobre tudo o que me ocorrer e achar relevante ou divertido partilhar!
08/06/2010
05/05/2010
CUIDADO COM A LÍNGUA?
CUIDADO COM A LÍNGUA?
BEM PREGA MARIA FLOR...!
BEM PREGA MARIA FLOR...!
Como escrevi no artigo anterior, a maior vergonha é insistir no disparate. É o que se passa nos órgãos de Comunicação Social que parecem ficar indiferentes ou, o que é pior, a gozar com os ensinamentos e chamadas de atenção constantes no programa “Cuidado com a Língua”, finalmente regressado à RTP, da autoria do Professor José Mário Costa e com locução da minha ex-colega da RDP Maria Flor Pedroso. De facto é triste ouvir dizer nesse programa que low-cost, por exemplo, pode e deve ser substituído por “baixo custo” e, pouco depois, ouvir um jornalista ou um apresentador repetir o mesmo anglicismo. Ou então frases do género "fulano reuniu com...em vez de reuniu-se", como se o verbo reuinir não fosse transitivo directo, ou ainda "as crianças saíram a correrem", usando erradamente dois verbos no plural na mesma frase. E isto também acontece por vezes na chamada Televisão Pública, o que prova que há lá dentro quem não se importe em insistir nos disparates, revelando uma total falta de respeito pela Língua Portuguesa e pelos ensinamentos lidos por uma colega, apoiada por uma competentíssima equipa de colaboradores. Se não têm tempo para ver o programa "Cuidado com a Língua", façam como eu: gravem-no para ver depois e guardar como elemento de consulta.
Felizmente já estou voluntariamente reformado da Antena 2 da EN/RDP, hoje fundida com a RTP, e na qual trabalhei trinta e quatro anos. Como tenho um pouco de zaragateiro, quando vejo pisar por ignorância ou propositadamente a nossa Língua, as Artes e as Ciências torno-me chato e, possivelmente, já teria arranjado conflitos com alguns desses novos colegas importados da Televisão para a Rádio. Vejamos agora alguns exemplos para além dos famigerados anglicismos:
Aquando da tempestade que atingiu a ilha da Madeira, um jornalista da SIC ao entrevistar o Professor Anthymio de Azevedo, a dada altura veio com o clássico galicismo “climatérico”, tendo o entrevistado respondido que essa palavra não existe em climatologia. Só não acrescentou, talvez por respeito ao seu interlocutor, que deve dizer-se climático ou climatológico, como foi explicado por Maria Flor num dos seus programas. Curiosamente, quando a mesma entrevista foi repetida na SIC Notícias, este pormenor foi omitido. Coisas!
E já que estamos a falar de fenómenos meteorológicos, e aproveitando a tromba de água que se formou sobre o Tejo, será que os senhores jornalistas terão aprendido o que é uma tromba de água? É exactamente aquilo que aconteceu: um tornado sobre uma superfície líquida que, ao aspirar a água, assume uma forma de tromba (daí o seu nome), e não uma grande chuvada como costumam dizer. Espero que a tenham visto com os próprios olhos. E escrevo esta típica frase para justificar a promessa que fiz no artigo anterior: falar de pleonasmos.
Derivada do grego pleonasmos, que significa excesso, amplificação, exagerar, etc., a palavra pleonasmo constitui, como facilmente se depreende, a qualidade de suficiência, da inutilidade ou da superfluidade. Assim, o seu uso deve ser apenas utilizado como reforço de uma ideia ou situação, tornando-se inútil e enfadonha quando empregada sem qualquer critério ou, como agora infelizmente é usual, devido ao mau ensino que se pratica e que infesta o chamado português europeu que se lê na internet. (Nem ouso falar no apelidado português do Brasil)!
Mas como toda a medalha tem o seu reverso, e já que falámos (e não “falâmos “ como se diz agora) do Brasil, recordo uma piada do grande humorista brasileiro Juca Chaves quando se refere a um garotinho que, ao ser interrogado sobre o que gostaria de fazer quando fosse grande, respondeu que o seu sonho era ser comentador desportivo, para “dizer coisas inteligentes e sábias na televisão”. (Que a memória de Alves dos Santos e o seu eterno “sempre ele”perdoe a inocente criancinha e esta humorística citação).
Em compensação temos hoje de aturar “avança no terreno, recua no terreno, cai no terreno, rola no terreno, sai do terreno, entra no terreno, cospe no terreno, etc.” (já agora a locução conjuntiva latina et cetera também no terreno), como se o futebol não se desenrolasse no terreno de jogo, e tudo isto apenas para “castigar” um infeliz “esférico” ou “redondinha” sujeito a pontapés e cabeçadas de todos os tipos, incluindo os “de primeira”! Mas, e como é óbvio, estas últimas palavras fazem parte da gíria do futebol, tão respeitáveis como as que existem noutras profissões.
Mas voltemos à sobejamente conhecida frase “ver com os próprios olhos”. Neste caso trata-se da intenção de convencer os auditores, como fez Camões na estância nº XVIII do Canto 5º de “Os Lusíadas” quando utiliza a expressão “vi claramente visto o lume vivo”, referindo-se ao fenómeno que os marinheiros denominaram fogo-de-santelmo.
Como é sabido trata-se de descargas de electricidade estática que, durante uma tempestade, por vezes faíscam nas pontas das mastreações dos navios.
Também é costume dizer-se “vinte e quatro horas por dia” entre outros exemplos rotineiros.
Mas o que não é aceitável são frases como “subi para cima” ou “desci para baixo”, ditos que sempre provocaram o sorriso dos auditores com um mínimo de conhecimentos gramaticais.
Mencionemos agora dois pleonasmos que, embora haja quem os não considere como tal, constituem, no meu modo de ver, autênticos disparates. Trata-se de abalo sísmico e habitat natural.
Quando iniciei a minha carreira profissional na Emissora Nacional em 1968 como assistente de programas musicais, havia normas reguladoras sobre a linguagem a usar aos microfones, normas essas que também eram extensivas a todos os órgãos de comunicação ente os quais, e como é óbvio, estava a jovem RTP, então com apenas onze anos. Uma dessas normas proibia (é o termo) o uso da expressão abalo sísmico porque, na realidade, trata-se de um típico pleonasmo que tem tanto de inútil como de mau gosto. E é fácil perceber porquê. Abalo parece provir do latim advallare, que por sua vez vem de vallis, que significa vale. Assim o verbo significa “lançar-se ao vale” e, por generalização, “deslocar-se ou mover-se”.
Por sua vez sismo vem do grego seismós que tem vários significados como “comoção, abalo, emoção, agitação, tremor de terra”. Assim, abalo sísmico pode “traduzir-se” por “abalo abalado”, que é um verdadeiro exemplo dos mais ridículos e inúteis pleonasmos, embora seja aceite pelo Dicionário Houeiss da Língua Portuguesa, com o apoio da Academia das Ciências de Lisboa. Pela minha parte, porém, e porque sou casmurro, continuarei a dizer sismo, abalo telúrico (do latim tellus que significa terra, globo terrestre), tremor de terra, terramoto ou maremoto, no caso deste último ocorrer no mar. Neste último caso poderá provocar raz de maré, termo empregado, como já mencionei num artigo anterior, em “Lições de Geologia” para o antigo 3º ciclo dos Liceus, de que possuo um exemplar pelo qual estudei. Mas agora temos o termo japonês tsunami, em que “tsu” significa porto, ancoradouro, e “nami” onda, mar. Portanto o significado é “onda no porto” (invadindo o porto), e não onda gigante como já ouvi num telejornal uma professora “ensinar” aos seus alunos. E depois não querem avaliações!
Quanto a habitat natural, na minha modesta opinião, é outro pleonasmo. Senão, vejamos: habitat, palavra latina que, literalmente, significa “ele habita”, refere-se, em ecologia, a um ambiente em que estão reunidas todas as condições naturais nas quais um animal ou um vegetal habitam. Ora, e por exemplo, uma pobre ave presa numa gaiola, ou outro animal em qualquer tipo de jaula, por mais “dourada” que esta possa ser, peca sempre, pelo menos, pela falta de espaço. Um golfinho dentro de uma piscina, por maior que esta seja, será sempre para ele uma simples banheira comparada com a imensidade do oceano. E mais ainda quando é obrigado a fazer palhaçadas, para as quais não nasceu. Portanto, um habitat artificial, no meu entender, não existe, embora haja quem defenda essa ideia, talvez porque nunca esteve preso. Estou certo ou estou errado?
E por hoje fico por aqui, cumprindo assim a promessa que fiz no texto anterior, de ser mais breve. Já aliviei mais um pouco a “carga hepática”, conforme revelam as últimas análises que fiz.
Até à próxima.
20/04/2010
NÃO É VERGONHA SER IGNORANTE
NÃO É VERGONHA SER IGNORANTE.
VERGONHA É NÃO QUERER APRENDER OU, PIOR AINDA, INSISTIR NOS DISPARATES.
VERGONHA É NÃO QUERER APRENDER OU, PIOR AINDA, INSISTIR NOS DISPARATES.
Mais um título para este blogue que pouca gente vai ler. Para quê, então, escrevê-lo? Simplesmente porque me dá prazer e, fazendo jus ao cabeçalho, trata-se de mais uma tentativa utópica de corrigir os disparates que todos os dias suportamos nos canais televisivos e que titulei de tradutores ignorantes e locutores papagaios num dos primeiros artigos deste blogue.
Mas, e sem falsa modéstia, quem sou eu para julgar a sapiência ou ignorância dos outros? Sem querer entrar em exageros vou citar a célebre frase de Sócrates (o grego!): “Sei apenas uma coisa: é que nada sei”. É óbvio que este dito pretende apenas fazer com que entendamos a pequenez, e a dificuldade (ou impossibilidade) de alcançarmos aquilo a que, vulgarmente, chamamos verdade. Santo Agostinho disse que “se é verdade que a verdade não existe, logo a verdade existe”. Mas isto sugere-me apenas um jogo de palavras em que o pensamento lógico, criado “oficialmente” por Aristóteles, é fértil e até fecundo, mas que também levou a conclusões absurdas, como o facto das entidades eclesiásticas da Idade Média, impingirem à populaça ignorante a ideia que aquele filósofo tinha resolvido todos os problemas científicos. Logo, quem tentasse investigar ou fazer experiências era classificado de herege, tornando-se assim candidato a churrasco humano.
Mas parece-me também, e dentro dos ínfimos limites que nos condicionam no espaço e no tempo, que Pitágoras tinha razão quando afirmava “ser o homem a medida de todas as coisas”. É notável como este filósofo e matemático grego do século VI AC, ao formular esta ideia, teve uma noção da relatividade que caracteriza o Universo, para mais se atendermos aos limitadíssimos conhecimentos da sua época. E, assim, se compararmos o saber desses tempos antigos com o actual, muito, muitíssimo mesmo, a Humanidade aprendeu à sua custa, com os inevitáveis avanços e recuos, mas com os primeiros a desenvolverem-se de uma maneira extraordinária a partir da chamada Revolução Industrial, iniciada nos princípios do século XIX, e para a qual teve a maior importância a invenção da máquina a vapor, devida entre muitos outros, a Papin, Potter e Stevenson, homens cuja "profissão" era experimentar, aprender e fazer. E acabámos por chegar à Lua, esse grãozinho de pó que gira à volta de um grão um pouco maior chamado Terra.
Porém, e como a dualidade de pólos opostos é a lei do mundo que conhecemos, toda a medalha tem o seu reverso. Fleming, por exemplo, ao descobrir a penicilina e abrindo o caminho para os antibióticos que se seguiram, provocou um enorme desastre ecológico, desencadeando a destruição de bactérias patogénicas que deviam matar não só os humanos como outras espécies que partilham connosco o enigma da vida neste e, possivelmente, em muitos outros planetas além do sistema solar. Também o desenvolvimento vertiginoso da cirurgia e dos medicamentos contribuíram para a longevidade da espécie humana e consequente explosão demográfica que já começou a extinguir outras espécies, tanto animais como vegetais, e essenciais para o equilíbrio ecológico. Pergunto, embora me considere um pacifista, se já não estaríamos a devorarmo-nos uns aos outros, se não continuasse a haver guerras que, no século passado, e também graças ao desenvolvimento da ciência, possivelmente mataram mais seres humanos do que em épocas anteriores, nas quais às guerras se juntavam as epidemias e outras catástrofes naturais que faziam o seu “trabalho de limpeza” eliminando os menos aptos. Porque não tenhamos dúvidas: a vida tal como a conhecemos é escrava da selecção natural, desde o único espermatozóide que entre centenas de milhões consegue chegar ao óvulo, passando pelo macho mais forte ou dotado que derrota o mais fraco para ser ele a copular, até ao homem que vence na vida pela força, inteligência ou esperteza. E mais além, e até porque “somos a medida de todas coisas”, fica o macrocosmos que julgamos conhecer só porque enxergamos uns milhões de galáxias pelos diversos instrumentos de observação astronómica.
Mas lutar por todos os meios pelo prolongamento da vida está presente em cada ser, animal ou vegetal, o que põe sempre a problemática do porquê e para quê. Por sua vez aquela coloca-nos entre a simples explicação de puras reacções químicas, que basicamente nada explicam, e o nebuloso mundo da metafísica onde cada qual pode ver o que quer, até tudo o que lá não está, com o mesmo resultado: a velha interrogação sobre o que apareceu primeiro, o ovo ou a galinha. De tudo isto vem o meu agnosticismo perante a criação de tudo o que existe, mesmo considerando que o chamado “big-bang” pode explicar a origem do Universo tal como hoje o conhecemos, mas não diz como surgiu a primeira partícula que lhe deu origem.
Ora e porque sendo agnóstico recuso a ideia de falar sobre a hipótese de um Deus criador, e até porque ao sabor do prazer de “filosofar” costumo perder o fio à meada, vou regressar ao título deste texto, pedindo desculpa pela diversão (perdão, “faits-divers”). Mas onde é que já ouvi isto? Não me digam que também estou a adquirir o vício de usar e abusar de palavras estrangeiras sem necessidade. Espero que isso nunca me aconteça (perdão, “jamais”, "jamais”!!!). Outra vez!? Bem. Vou fazer uma pausa como acto de contrição. “Deo gratias”!
Continuando:
Sendo o Homem o rei da Natureza pelo direito do bacamarte (in “Eusébio Macário” de Camilo Castelo Branco), poderia, de vez em quando, dedicar-se a aprender alguma coisa quando põe aquele de parte. (Esta rima saiu-me improvisada. Talvez tenha dotes poéticos nalgum recôndito sítio do meu já envelhecido cérebro.)
Ora, e citando a antiga máxima que o saber não ocupa lugar, volto a insistir que seria bom que tradutores, jornalistas e todos os que fazem da comunicação entre as pessoas uma profissão, investigassem os assuntos que desconhecem ou têm dúvidas, afim de não transformarem o disparate numa bola de neve que só serve para propagar a ignorância por este ditoso planeta, até porque quem conta um conto acrescenta um ponto, contribuindo deste modo para a chamada tendência universal da asneira.
É óbvio que errar é humano, mas há situações que se tornam imperdoáveis pela falta de cuidado posta na investigação daquilo que não se sabe, porque ninguém pode saber tudo.
Nem de propósito! Acabo de fazer um intervalo e estive a ver um programa sobre a Lua num dos meus canais de televisão favoritos: Discovery. Não fixei o nome da empresa tradutora, mas era mais um a juntar a tantas que aparecem como formigas. A certa altura surgiu na legendagem uma referência a graus “Calvin!” em vez de Kelvin, o que revela a falta de interesse em aprender e cumprir o dever de bem informar do tradutor. E isto numa época em que temos o precioso e fácil auxílio de uma coisa chamada Internet! Permitam-me então que seja eu a explicar porque, como já disse num artigo anterior, gosto muito de aprender mas também de ensinar.
A temperatura mede-se na maior parte dos países na escala de Anders Celsius , astrónomo e físico sueco do Século XVIII, inventor da escala que tem o seu nome. Já os povos anglo-saxónicos utilizam geralmente a escala de Daniel Fahrenheit (1686-1736) físico alemão que criou a escala também baptizada com o seu nome.
A primeira tem como extremos os pontos de fusão e ebulição da água sob a pressão atmosférica de 760 milímetros de mercúrio, e está dividida em cem graus, (de zero a cem) sendo por isso também chamada centígrada.
A segunda encontra-se também dividida entre os mesmos fenómenos físicos, mas na razão de 1/180, o que dá como resultado que zero graus na escala de Célsius correspondam a 32 graus Fahrenheit e cem a 212. Para converter uma na outra basta resolver as equações: C=5/9 (F-32) ou F=9/5 C+32, em que "C "representa graus Celsius e "F" graus Fahrenheit. Se não quisermos puxar pela cabeça, o que é muito mau, ou se já tivermos esquecido equações, o que é de aceitar, basta consultar uma tabela de conversões.
Quanto á escala de William Thomson Kelvin, físico britânico do século XIX, trata-se da chamada escala absoluta ou do zero absoluto, uma vez que é praticamente impossível fazer descer mais a temperatura de um corpo. Corresponde a 273,15 graus negativos na escala de Célsius e, tal como esta, divide-se em fracções iguais. Fui suficientemente claro? Assim espero, tanto como desejo não voltar a ler Calvin!
E por hoje fico por aqui. Como sempre alonguei-me demasiado, crítica muito pertinente feita por um grande amigo, o mesmo que, tal como eu, andou na Guerra Colonial e que agradecia os pedidos de protecção que a mãe fazia ao chamado Criador, respondendo que como tinha “cunhas” lá ia escapando; os que não tinham é que se “lixavam”.
Para a próxima, e mantendo como base o título deste texto, vou dissertar um pouco sobre pleonasmos, prometendo mas não jurando, que não me alongarei tanto. E não juro porque sinto que escrever muito desintoxica-me o fígado, às vezes agredido por umas cervejinhas a mais (ou a menos). Também acho que puxar pela cabeça dentro do seu ritmo natural talvez possa prevenir a doença de Alzheimer, esse estranho mal que ataca o cérebro, talvez gasto pelo esforço inglório de tentar equacionar tantos disparates, para os quais o meu também contribuiu, como é lógico. Assim o espero.
02/03/2010
A MANIA DO GLOBAL E DO TERRENO PEGOU, MESMO SOBRE A ÁGUA
A MANIA DO GLOBAL E DO TERRENO PEGOU, MESMO SOBRE A ÁGUA.
MAS O QUE É VERDADEIRAMENTE GRAVE É O USO E ABUSO DE TERMOS E PALAVRAS INGLESAS. E VIVA A PIRATARIA LINGUÍSTICA, E NÃO SÓ (MAS TAMBÉM…)
MAS O QUE É VERDADEIRAMENTE GRAVE É O USO E ABUSO DE TERMOS E PALAVRAS INGLESAS. E VIVA A PIRATARIA LINGUÍSTICA, E NÃO SÓ (MAS TAMBÉM…)
Num dos artigos deste “blogue” comentei que, tal como os vírus, é espantoso como certas expressões ou palavras, uma vez surgidas da boca de alguém, vindas neste caso dos anglicismos “in the ground” e “global”, logo se tornam epidémicas, transformando as pessoas em autênticos papagaios, sem ofensa a estes, é claro.
O último exemplo mais notório veio da boca do comandante português da força naval que se encontra no oceano Índico para combater (será mesmo?) os piratas somalis. Segundo ele os navios continuavam no terreno para o referido efeito. Ao ouvir isto lembrei-me do filme “O Grande Elias”, onde o actor Estêvão Amarante, referindo-se à fábrica de loiças da Marinha Grande, lhe chama a marinha terrestre.
E, já que falámos de piratas, vou desviar-me um pouco do assunto inicial. Será normal e aceitável que a comunidade internacional (perdão, global) gaste milhões com navios de guerra para combater uns bandidos que, em três ou quatro lanchas, mesmo que estejam bem armados, conseguem sequestrar navios de centenas ou milhares de toneladas e muitos metros de altura? Mas em que mundo é que estamos? Não seria muito mais simples permitir o uso de armas aos comandantes das embarcações visadas, cujo dever é defender os seus navios, passageiros, tripulantes e carga, e que se encontram impedidos de fazê-lo? Após uma descarga de aviso, se esta não resultasse, o que é pouco provável, a única solução seria atirar a matar, ao mesmo tempo que as lanchas seriam furadas e, consequentemente, afundadas. É devido a esta impunidade que as coisas chegaram ao ponto em que se encontram, com os contribuintes e honestos habitantes deste planeta (perdão, globo) a pagar esta palhaçada. Então por que não fazê-lo? Serei eu que estou a ver as coisas de um modo simplista?
Mas que estúpido sou! Esqueci-me que existe um diploma chamado Declaração dos Direitos Humanos, com o qual, aliás, concordo plenamente. Mas o problema reside no facto de também proteger os maiores facínoras deste mundo. Por isso sempre considerei que alguns pontos desse diploma não deveriam ser aplicados a quem o violasse, apesar de contrariar os puros ideais de algumas pessoas que Fernando Pessoa tão bem classificou como “amigos de gente”. Até já houve um deputado da chamada Câmara dos Lordes de Inglaterra (estranha democracia onde existem Lordes e Comuns) que proclamou que os terroristas também têm direitos! Pela minha parte, e como não sou tão mau como possa parecer, apenas desejo que tanto ele como os seus familiares e amigos nunca sejam vítimas desses criminosos que, mesmo que lutem por causas chamadas justas, perdem logo a razão quando sequestram ou assassinam pessoas entre as quais até podem estar algumas do seu lado, demonstrando assim que estão nas tintas (passe a expressão) para os direitos dos outros. Ou será que neste caso não se trata de crimes contra a Humanidade? Mas deixemos os piratas e o tempo em que foram a alegria do oceano Atlântico, animando as monótonas viagens nos lentos galeões que ligavam a Europa ao Novo Mundo e vice-versa. Como foi possível permitir que essa boa rapaziada, que nem sequer tinha um sindicato com advogado gratuito para a defender, fosse barbaramente enforcada quando era apanhada na sua honesta, respeitável e fatigante faina marítima, fruto do seu sustento, e à qual se dedicava com o máximo profissionalismo, chegando a estripar vivos os que caíam nas suas pobres mãos ou obrigá-los a comer as próprias orelhas depois de cortadas numa inocente cirurgia estética? Um desses pobres diabos, chamado Montbard, por alcunha “O Exterminador”, tinha uma embirração biológica para com os espanhóis. São feitios, como dizia o saudoso Raúl Solnado num dos seus célebres monólogos revisteiros. Se apanhava um dos "nuestros hermanos", abria-lhe a barriga com uma faca, puxava os intestinos para fora, e pregava-o a uma árvore. Depois chegava-lhe um archote aceso ao rabo. É fácil imaginar o espectáculo que, por incrível que pareça, não foi inventado nem utilizado pela também boa gente que passava horas fastidiosas em escuras caves, cumprindo os divinos e sagrados deveres impostos pela Santa Inquisição em nome do seu amantíssimo e misericordioso Deus.
Se houvesse um Sindicato dos Trabalhadores Piratas poderia acontecer que decretasse uma greve à sexta-feira, como é normal os sindicatos fazerem, e assim os navios carregados de ouro e de espanhóis, teriam um cruzeiro com fim-de-semana prolongado. Monótono sim, mas tranquilo.
Voltemos, porém, à vaca fria, termo que gosto de empregar, já que as frases idiomáticas são uma das grandes riquezas de qualquer idioma, mesmo que tenham uma origem obscura como este.
Como há pouco tempo uma amiga e antiga colega da RDP me telefonou para dizer, que qualquer dia temos de andar na rua com um dicionário de inglês-português, afim de percebermos o que vamos vendo e ouvindo pelas ruas deste ditoso País, lembrei-me do que Edite Estrela disse num dos seus antigos programas televisivos a este respeito, e que foi mais ou menos isto: mais grave do que aqueles que usam esses termos por ignorância , são os que o fazem por snobismo, modernismo ou para mostrar os seus conhecimentos de línguas estrangeiras. E, pela minha parte, acrescento que também se trata do nosso infelizmente típico complexo de inferioridade e a respectiva mania de dizer que “lá fora é que tudo é bom”, frase dita até por pessoas que nunca saíram de Portugal. E basta vir um espanhol perguntar a um português qualquer coisa, para logo ouvir como resposta uma espécie de espanholada à portuguesa do género “ma qui carajo, ômbré; ió parlo y intiendo todas las língás del mondo, a coméchar pelo jinêché, paxando pelo arábê e finilando al jinamarquêché. És qué tu, ustédé, ai comprénidô iô? Ou qiérês qui iô espikê in englichê”?
E agora duas pequenas histórias passadas comigo há já bastantes anos.
A primeira ocorreu durante um jantar onde estavam cerca de uma dúzia de pessoas, de vários modos ligadas ao mundo da ópera. Entre elas encontrava-se um italiano há muito residente em Portugal, e que exercia funções no Teatro Nacional de S. Carlos. Como é natural falava e compreendia razoavelmente a língua portuguesa. Num ápice eu e a minha mulher sentimo-nos como se estivéssemos rodeados por um grupo de italianos. Nós éramos os únicos que falavam português! Assim, passado algum tempo e apesar de estarmos agradavelmente com amigos portugueses que partilhavam connosco a paixão pela ópera, inventámos uma desculpa e fomos embora comentando o facto.
A segunda deu-se à saída de um concerto sinfónico. Rodeada por um grupo de pessoas estava a viúva de um célebre maestro português, de naciomalidade francesa, mas há longos anos residente no nosso país. Todos à volta dela falavam francês, o que motivou o seguinte comentário de um colega meu: "esta vive em Portugal há tantos anos e não fala português"; ao que respondi: "fala e compreende perfeitamente. A culpa não é dela mas daqueles que a rodeiam, a começar pelo próprio marido que também falava francês com ela. Mas isso era lá com eles. Lamentável é a "snobeira" desta gente que a rodeia e que quer mostrar-se amável com ela e erudita com os outros".
É óbvio que uma boa parte da responsabilidade pelo uso e abuso de estrangeirismos cabe à Comunicação Social (perdão, dos "media"). E, já agora, aproveito para perguntar a quem saiba como se pronuncia esta estranha palavra, uma vez que para soar "média" necessita de um acento agudo no "e", bem como no "i" no caso de "mídia". Além disso o artigo definido utilizado não concorda com ela em género e número. Até os brasileiros, cuja maioria já não os respeita, (mas isso é lá com eles), utilizam a expressão "a mídia"). Porque será? Que preguiça é esta que infesta a nossa língua e que impede a normalizaçáo dos estrangeirismos?. O resultado poderá ser uma verdadeira cagada, uma vez que o acento agudo de cágado qualquer dia também poderá desaparecer, como já foi proposto.
Mas voltemos novamente à vaca fria. Como ia dizendo cabe à Comunicação Social uma grande parte da responsabilidade neste estado de coisas, já que é ela que, por óbvio dever profissional, tem que “dar a cara”, seja na rádio, na televisão ou na imprensa escrita. Nesta, talvez seja o semanário “Visão” um dos campeões das estrangeiradas, apesar dos protestos de vários leitores de uma revista tão conceituada como é.
Mas, se a dita Comunicação Social que deveria ser a primeira a dar o exemplo, procede a seu bel-prazer, a culpa continua a ser dos Governos que não estabelecem regras, como já afirmei num artigo anterior. No entanto, e como não há liberdade sem lei, não ficaria nada mal que fossem dadas directrizes aos respectivos directores sobre este assunto, não se limitando, no caso da RTP, ao programa de Maria Flor “Cuidado com a Língua” que, finalmente, voltamos a ver numa nova edição já anunciada desde Setembro! As minhas maiores felicitações à autora e seus colaboradores, embora me pareça que alguns jornalistas e apresentadores, tal como fizeram em relação às séries anteriores, não vão dar grande importância aos seus ensinamentos.
Mas, heresia das heresias! Directrizes a interferir na Comunicação Social (perdão, dos "media"). Isso seria censura, e viriam logo os senhores jornalistas cuspir cobras e lagartos para todo o lado, mesmo aqueles que nunca souberam o que isso foi. Podem culpar Salazar e o seu Estado Novo, de muitas coisas, mas o que não podem negar é o seu patriotismo na defesa da nossa língua. Ensinava-se a falar bom português, e os estrangeirismos, na sua maioria, eram proibidos, alguns até de uma maneira que hoje nos parece ridícula, como a obrigatoriedade de dizer ou escrever sobrescrito em vez de envelope. Mas, e como atrás disse, não há liberdade sem lei, e ser um pouco ecléctico é, pelo menos para mim, a única filosofia com alguma lógica. A dificuldade, porém, está em determinar as fronteiras, tão relativas como tudo o que acontece no Universo. Mas para alguns senhores jornalistas, que tudo distorcem e inventam, às vezes é preciso estarmos apenas de um lado da barricada. Para esses chega um tal Alberto João!
Perdoem-me este último comentário mas trata-se apenas duma diversão (perdão, de um “faits divers”). E, já agora, e como amante de banda desenhada, eclareço que já li, reli e espero voltar a ler sempre com o mesmo prazer, todos os álbuns de Tim-Tim em francês. Curiosamente, e que me lembre, só encontrei a expressão “faits divers” no início da primeira prancha de “Le Secret de la Licorne”. Coisas…! Sugiro também, sarcasticamente, que quando se fala de futebol, se passe a chamar à divertida Liga dos Últimos, qualquer coisa parecida com “League of the Last”, para não destoar dessa maravilha que é a “Champions League”.
E por hoje chega. Sem querer entrar no que para algumas pessoas pertence ao domínio da escatologia, em vez de “merda, sou lúcido”, como Fernando Pessoa, sob o heterónimo Álvaro de Campos, escreveu no poema “cruzou por mim, numa rua da Baixa”, grito: Merda, basta de tantos estrangeirismos!
E agora vou tentar dormir metendo os habituais tampões nos ouvidos. Mas não vou contar carneiros. Vou simplesmente contar os anglicismos que me vierem à cabeça. Boa noite a todos! Vou começar!
1-Low coast, 2-fair play, 3-fast food, 4-spread, 5-take away, 6-shopping, 7-timing, 8-hot dog, 9-champions league, 10-stand by, 11-car jacking, 12-home jacking, 13-help phone, 14-footsal, 15-look, 16-off shore, 17-resort, 18-check in, 19-sea life, 20-feedback, 21-over booking, 22-background, 23-call center, 24-know-how, 25.remix, 26-playoff, 27-duty-free, 28-flat, 29-no name boys, 30-carrental, 31-in, 32-on, 33-feeling.......zzzzzzzzzzzzZZZZ…rom…room… rooom… roooom… Ai! O que foi? Estava a ressonar! Mas que pesadelo! Tinha caído nas garras da Santa Inquisição e ia ser torturado afim de confessar o pecado de não aceitar palavras estrangeiras, pelo menos aquelas cuja grafia não tivesse sido adaptada para português. Felizmente foi só um pesadelo. Mas, embora não acredite em sonhos, não terá sido uma espécie de premonição? Oxalá!!!
06/12/2009
CAIM…CAIM…CAIM…! (2)
DE FACTO A MAIOR CEGUEIRA É A DE QUEM NÃO QUER VER!
Continuando a pensar na disparatada polémica entre José Saramago e a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, de seu nome completo, ocorreu-me uma frase do escritor grego Nikos Kazantzaki na sua novela “Alexis Zorba”, publicada em português como “O Bom Demónio” e levada ao cinema com o título de “Zorba, o Grego”: Tens fé, e uma lasca de uma porta velha transforma-se na santa cruz; não tens fé, e a santa cruz inteirinha transforma-se numa lasca de uma porta velha. É claro que quem leu o livro e depois viu o filme, notou que as muitas “heresias” constantes no primeiro, não aparecem no segundo, o que não é de estranhar, uma vez que o livro esteve no “índex”, esse censor da referida Igreja, à qual não convém que as pessoas abram os olhos. Creste porque viste; felizes os que creram e não viram. Ou ainda: bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Mas, e lembrando Vasco Santana no filme “O Pátio das Cantigas”, pergunto: onde é que já li isto? Mas que memória a minha! Na Bíblia, é claro, e também ouvi várias vezes quando era obrigado a assistir à Missa, até porque se faltasse a essa chatice cairia em pecado mortal, tal como um vulgar homicida não arrependido. Estranha equiparação de castigos! Mas era necessário manter a clientela, quanto mais não fosse para recolher esmolas, já que era uma vergonha os fiéis não darem nem que fosse um tostão, que sempre ajudava para mais umas dúzias de velas, hóstias, vinho e despesas afins. E já agora duas pequenas histórias da minha infância relacionadas com as missas. Como a crise continuava (e continua) presente, o prior da Igreja de Nossa Senhora de Fátima em Lisboa, informou os fiéis que no domingo seguinte seria ele, e não o sacristão, a pedir a clássica esmola. Temos de concordar que a ideia foi genial. E assim lá passou ele entre as pessoas, muito curvado e com ar humilde, enquanto as moedas prateadas e até notas de vinte escudos, uma pequena fortuna para a época, iam caindo na bandeja. Não me recordo da quantia que a minha mãe deu, mas os meus olhos seguiram-na a pensar nos chupa-chupas e rebuçados que poderia comprar, enquanto o prior possivelmente iria gastá-la naquelas rodelas de pão achatado que tínhamos de engolir sem mastigar e se colavam ao céu da boca, e numas garrafas de vinho.
Continuando a pensar na disparatada polémica entre José Saramago e a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, de seu nome completo, ocorreu-me uma frase do escritor grego Nikos Kazantzaki na sua novela “Alexis Zorba”, publicada em português como “O Bom Demónio” e levada ao cinema com o título de “Zorba, o Grego”: Tens fé, e uma lasca de uma porta velha transforma-se na santa cruz; não tens fé, e a santa cruz inteirinha transforma-se numa lasca de uma porta velha. É claro que quem leu o livro e depois viu o filme, notou que as muitas “heresias” constantes no primeiro, não aparecem no segundo, o que não é de estranhar, uma vez que o livro esteve no “índex”, esse censor da referida Igreja, à qual não convém que as pessoas abram os olhos. Creste porque viste; felizes os que creram e não viram. Ou ainda: bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Mas, e lembrando Vasco Santana no filme “O Pátio das Cantigas”, pergunto: onde é que já li isto? Mas que memória a minha! Na Bíblia, é claro, e também ouvi várias vezes quando era obrigado a assistir à Missa, até porque se faltasse a essa chatice cairia em pecado mortal, tal como um vulgar homicida não arrependido. Estranha equiparação de castigos! Mas era necessário manter a clientela, quanto mais não fosse para recolher esmolas, já que era uma vergonha os fiéis não darem nem que fosse um tostão, que sempre ajudava para mais umas dúzias de velas, hóstias, vinho e despesas afins. E já agora duas pequenas histórias da minha infância relacionadas com as missas. Como a crise continuava (e continua) presente, o prior da Igreja de Nossa Senhora de Fátima em Lisboa, informou os fiéis que no domingo seguinte seria ele, e não o sacristão, a pedir a clássica esmola. Temos de concordar que a ideia foi genial. E assim lá passou ele entre as pessoas, muito curvado e com ar humilde, enquanto as moedas prateadas e até notas de vinte escudos, uma pequena fortuna para a época, iam caindo na bandeja. Não me recordo da quantia que a minha mãe deu, mas os meus olhos seguiram-na a pensar nos chupa-chupas e rebuçados que poderia comprar, enquanto o prior possivelmente iria gastá-la naquelas rodelas de pão achatado que tínhamos de engolir sem mastigar e se colavam ao céu da boca, e numas garrafas de vinho.
A segunda história relaciona-se com o já referido pecado mortal que era faltar a essa chata cerimónia. Corria, se bem me lembro, o ano de 1958. Como era costume passava com a família as férias de Verão em Santo Amaro de Oeiras e, tal como em Lisboa, tinha que ir assistir à missa, sempre à espera do desejado "ite, missa est". Ora aconteceu que fomos convidados por uns amigos para um piquenique na praia do Guincho, exactamente num domingo. Dividida entre o "sacrifício" e o "prazer", a minha mãe foi pedir dispensa da missa desse domingo ao pároco da Igreja Matriz, já que o meu pai não se metia nesses assuntos. Assim obtivemos todos a respectiva autorização do senhor padre, ficando todos livres do fogo do Inferno desde que fosse só por essa vez. Como não havia "internet", ou "fax" e o alcance dos telefones era muito limitado, ainda hoje estou para saber como é que a cunha chegou ao Céu. Mas voltando atrás lembrei-me também de Albero Caeiro, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, quando no poema “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia”, diz que navega nele ainda, para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, a memória das naus, e ainda quando satiriza o Menino Jesus tradicional e cria o seu próprio, infantil, real e humano. Há um número infindável de casos que provam que cada pessoa, muitas vezes, só vê o que quer, seja por medo, por crença, por educação, ou por simples misticismo, ilusão, ignorância ou estupidez. A demagogia e a intolerelância surgem quando se acerba qualquer tipo de crendice e mergulha-se no fundamentalismo irracional, situação que se pode tornar dramática quando uma instituição ou alguém tenta impor aos outros os dogmas dos quais não quer ou não consegue libertar-se, seja por convicção ou por conveniência. Temos assim a profissão de missionário, ou seja, os pregadores das verdades deles, como escreveu Fernando Pessoa. Aí a razão e o positivismo cedem lugar às mais absurdas superstições, que podem ir da astrologia ao espiritismo, da quiromancia à vidência, até às religiões e crenças mais disparatadas. A magia, por exemplo, aparece como sendo a interpretação dada pelo homem aos fenómenos de força anímica na qual se revê. Só quando se vai afastando do mito para a razão e provando cientificamente a verdade dos factos, sem cair na aparência falsa ou pretendendo ver as coisas como quer, é que há progresso. A explicação científica é um produto da reflexão humana mas, infelizmente, só uma minoria nasce com esse dom e, devido à dualidade cósmica, tanto cai em boas como em más mãos. Quantas pessoas saberão, por exemplo, que no terceiro século antes de Cristo, o grego Eratóstenes, para além de afirmar que a Terra era redonda, determinou com um erro de apenas 114 Km. o perímetro do meridiano terrestre? Porém, o reino da ignorância humana voltou a imperar, vindo como sempre de todos lados. Na Europa a Igreja Católica, essa grande castradora das mentes, apoiando-se nas teorias de Pitágoras e Platão que recusaram a experimentação científica iniciada por Tales de Mileto e seguida por tantos outros como Demócrito, e durante pouco tempo restaurada por Aristarco de Samos três séculos depois, impôs a falsa doutrina geocêntrica durante toda a Idade Média, que por isso também é chamada “A Noite de Mil Anos”. Só uns poucos, como o frade inglês Roger Bacon, conseguiram brilhar nas trevas. Mas na realidade essa “noite” prolongou-se por muito mais de dez séculos, terminando "oficialmente" para a Igreja Católica, e no que respeita ao sistema solar, só no final do século passado quando o papa João Paulo II redimiu Galileu da sua "herética" teoria heliocêntrica. Espantoso! Tudo no Céu é estúpido como a Igreja Católica, escreveu Fernando Pessoa. Mas também no Inferno, no Purgatório ou no Limbo não reina a inteligência de um Deus omnipotente, omnisciente, e detentor de todos os “omnis” que lhe queiram atribuir, seja no Bem ou no Mal. Tudo isto são, após uma análise racional, interpretações da Bíblia, onde cada qual pode ver o que quiser ou até não ver nada, embora salte à vista a existência de um Deus criado à imagem e semelhança do Homem, como todos os outros Deuses, e não o contrário. Sempre a tendência, aliás muito natural, para todos tipos de antropomorfismos. Afinal não é o Homem "a medida de todas as coisas"? Mas o que é a Bíblia senão uma colectânea de narrativas, compiladas sem nexo e comprimidas num tempo e num espaço geográficos? Tendo como referência apenas o Antigo Testamento, facilmente se conclui que este foi escrito por um ou mais filósofos de um povo, que obviamente se intitulava e intitula o “Povo Eleito”, e que procurava explicar o início do mundo com os precários conhecimentos da época. É natural e existe em todas as crenças. Pretende também organizar a genealogia de Jesus Cristo, surgido como o salvador do seu povo tantas vezes oprimido, situação que em maior ou menor grau todos os povos passaram, mas que acabou por entregá-lo aos seus dominadores. Por bem fazer, mal haver. Como de costume, e em relação ao livro de José Saramago, apareceram logo os fundamentalistas a apregoar que este "tirou o texto bíblico do contexto histórico". Mas acho que ninguém nega que a Bíblia opoia-se em factos históricos e verdadeiros, como acontece com todas as lendas e textos da antiguidade. Quem conhece a “Ilíada” ou a “Odisseia” sabe que a primeira descreve a Guerra de Tróia e a segunda o atribulado regresso de Ulisses a casa, onde o esperava a sua fiel esposa Penélope e o filho Telémaco. As duas obras estão impregnadas das mais imaginativas fantasias, como as da Bíblia, próprias da época e da região onde os possíveis factos terão ocorrido. Já no Renascimento tornou-se vulgar adornar os poemas com as divindades dos chamados tempos mitológicos, e daí o nome desse período histórico. Também Camões em “Os Lusíadas” usou do mesmo processo, tendo até recebido o parecer favorável da Inquisição, cujo texto de um tal frei Bertholameu Ferreira termina assim: …toda via como isto he Poesia e fingimento, e o autor como poeta não pretende mais que ornar o estilo poetico, não tivemos por inconveniente ir esta fábula dos deuses na obra, conhecendo-a por tal, e ficando sempre salva a verdade da nossa santa fé, que todos os Deuses dos Gentios sam Demónios. E por isso me pareceu o livro digno de imprimir… Mas aqui surge a velha questão: se os deuses dos gentios são demónios, ou os muçulmanos são “infiéis”, o que é que nos pode obrigar a crer que só a Bíblia e o seu Deus são verdadeiros? Porque será que temos de acreditar sem hesitações nesse Deus e não num Marduk, num Osíris, num Zeus ou num Wotan,? Por serem personagens de religiões politeístas? Mas, tal como nessas crenças existe sempre um chefe e toda uma hierarquia à imagem e semelhança das sociedades humanas. A ideia de um só Deus surgiu no Egipto cerca de 1350 antes de Cristo, portanto antes de Moisés, quando o faraó Amenófis IV impôs uma religião monoteísta, tomando para si o nome de Akhenaton que, em egípcio antigo, significa “o espírito actuante de Aton“, sendo Aton o disco solar, símbolo da vida, da verdade e do amor. Esta concepção opunha-se à religião oficial, dominada por um clero que formava um estado dentro do estado, situação que se vem repetindo ao longo dos séculos e em todos os lugares. Como é óbvio pouco tempo durou, até porque um romance com um só personagem desperta pouco interesse. Falta-lhe toda uma trama de intrigas, ódios e paixões, vinganças e perdões, guerras e tréguas, tão do agrado da espécie humana. E talvez seja por isso que surgiu o chamado mistério da Santíssima Trindade, dogma fundamental da Igreja Católica para fazer as pessoas acreditarem no sobrenatural. Como escreveu Nikos Kazantzakis na obra supracitada, os profetas só têm para transmitir aos seus seguidores uma mensagem imprecisa; e quanto mais imprecisa for essa mensagem, maior será o profeta. Não é preciso muito esforço para concluir (cada qual pode ver as coisas como quiser) que a religião católica é politeísta; senão, vejamos: Há um só Deus em três pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo que, talvez por mera coincidência, são todos machos. Depois temos o Belzebu do Novo Testamento, um Deus do Mal, também chamado Diabo ou Demónio, mas criado pelo tal Deus infinitamente bom, e toda uma “tropa” de anjos, arcanjos, querubins, serafins, santos, santas, Maria (as mulheres finalmente aparecem) e, já na terra, o papa, os cardeais, os bispos, os priores, os sacerdotes, etc...etc. (que me perdoem os que foram omitidos). Até houve gigantes que, segundo a Bíblia, …depois que os filhos de Deus tiveram comércio com as filhas dos homens, geraram estas filhos, que foram homens possantes e afamados no século. (Génesis Cap.6 nº 4). Também na mitologia escandinava temos gigantes representados por Fasolt e Fafner, personagens da Tetralogia de Wagner “O Anel do Nibelungo”. Na verdade todo o Céu da Bíblia assemelha-se ao paganismo de um Walhalla ou de um Olimpo. Deve ser por ter de aceitar a referida “tropa” que quando entramos numa igreja católica vemos aquele espectáculo deprimente de todo o tipo de estátuas, relíquias e caixinhas a pedir esmola para os santos e santas que o Vaticano inventou para aliciar os crentes, e que os seus funcionários apoiam e aproveitam. Que diferença entre uma igreja protestante, onde normalmente o pároco é casado, e se vê respeitado o mandamento que diz: Não farás para ti imagem de esculptura, nem figura alguma de tudo o que ha em cima no céu, e do que ha em baixo da terra, nem de coisa, que haja nas aguas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto: porque eu sou o Senhor teu Deus, o Deus forte, e zeloso, que vinga a iniquidade dos paes nos filhos até á terceira, e quarta geração d’aquelles que me aborrecem: E que usa de misericórdia até mil gerações d’aquelles que me amam, e que guardam os meus preceitos. (transcrição dos números 4 a 6 do capítulo 20 do Êxodo, na edição da Bíblia de 1913 aprovada em 1842 por Dª Maria II e traduzida da Vulgata Latina pelo padre António Pereira de Figueiredo). Temos aqui um dos muitos exemplos vingativos e adulatórios do Deus da Bíblia, bem como da hipocrisia da Igreja Católica. Deve ter sido na vingança hereditária que La Fontaine se inspirou ao escrever a fábula “ O Lobo e o Cordeiro”. Surge a propósito a velha história do pecado original que foi confirmado no Concílio de Trento realizado de 1545 a 1563, e que entre outras medidas para combater a Reforma de Martinho Lutero, reorganizou a Inquisição e fixou o texto da Bíblia, que foi traduzida da versão grega para latim por S. Jerónimo no século IV, passando a ser designada por Vulgata. Considerando a antiguidade da Bíblia, é caso para perguntar o que resta do texto original depois de tantas cópias e traduções, sujeitas aos erros mais grosseiros devidos a falhas, pressões ideológicas ou conveniências político-sociais. Dirão os crentes que as mãos dos que a escreveram foram sempre orientadas por Deus. É sempre a velha desculpa quando não se encontra explicação para aquilo em que se acredita e se tem, aliás muito humanamente, a razão ofuscada pela fé ou pela ignorância cega. Tive um colega “Testemunha de Jeová” que apostou comigo que o mundo acabaria em 1973, segundo “cálculos” efectuados após um estudo aprofundado da Bíblia. Também afirmava que o mundo tinha sido criado por Deus apenas há seis mil anos e que a datação da idade dos fósseis pelo carbono 14 era falsa! E ficou indiferente após a trágica morte de uma filha de quinze anos, já que após a ressurreição voltariam a encontrar-se e viver eternamente! Outro ainda, comunista faccioso e falecido antes da queda da União Soviética, trouxe uma porção de terra quando visitou a Rússia, dizendo que era “terra sagrada”. Estes dois exemplos mostram como a cegueira humana pode relegar a mente para as crenças mais fundamentalistas, mesmo que o tempo venha provar que são absurdas e ridículas, seja em que campo for. O corpo de Lenine foi embalsamado e exposto para adoração dos seus fiéis como a Igreja faz com as relíquias dos seus santos e das suas estátuas. Ainda me lembro, julgo que há cerca de cinquenta anos, da fantochada que foi a trasladação de um braço de S. Francisco Xavier da Índia para Portugal. E, ainda este ano, quando o cimento do Cristo-Rei em Almada recebeu de braços abertos (é óbvio que a rigidez do betão não lhe permitiu fechá-los) o gesso da chamada Senhora de Fátima, continuando a violar o mandamento já aludido. E depois querem impingir-nos a superioridade do espírito sobre a matéria. De facto, maior que o universo só a estupidez humana. Mas será que estou a chamar estúpidos àqueles que acreditam em Deus? De modo algum. Leibniz e Einstein, para só citar estes, foram crentes convictos, tendo o primeiro afirmado, que sendo o mundo a obra de um deus infinitamente bom, tudo o que existe tem de ser perfeito, concluindo assim que "tudo corre pelo melhor no melhor dos mundos possíveis". Este dogma absurdo, denominado "O Optimismo", foi severamente criticado por Voltaire que, após ter conhecimento do terramoto de Lisboa de 1755, escreveu uma pequena obra intitulada “Candide” na qual ataca, entre outros poderes como o militar, o da Igreja Católica, que não hesitava em queimar os hereges afim de evitar catástrofes naturais. Este livro deu origem à genial ópera homónima de Leonard Bernstein composta em 1952. Por sua vez Einstein lutou até morrer para encontrar uma teoria que conciliasse a Relatividade com a Teoria Quântica, já que Deus nunca poderia ter criado um universo onde a improbabilidade existe. Se tivesse vivido mais alguns anos, teria assistido às primeiras aplicações práticas da mecânica quântica, como os transistores, os computadores e os telecomandos. Como se vê, até as maiores inteligências podem ser bloqueadas pela fé. Afirma-se, para desculpar Deus das imperfeições do mundo que criou, que ao homem foi dada a faculdade de actuar segundo a sua consciência. Mas se Deus é omnisciente já sabia como ele iria proceder. Qualquer pessoa, mesmo ignorante, sabe que brincar com o fogo pode conduzir a resultados desastrosos. Mas de entre vários factos narrados na Bíblia que contrariam o livre arbítrio do homem há aquele que relata as chamadas sete pragas do Egipto, e que passo a transcrever tal como vem na já referida edição de 1913: E disse o Senhor a Moysés: eis ahi te constitui deus de Pharaó, e Arão teu irmão será o teu propheta… e elle falará a Pharaó, para que deixe sair os filhos de Israel da sua terra. Mas eu endurecerei o seu coração, e multiplicarei os meus prodígios e maravilhas na terra do Egypto. E não vos ouvirá: e eu estenderei a minha mão sobre o Egypto, e farei sair de lá os filhos de Israel… (números 1 a 4 do capítulo 7 do Êxodo). E assim Deus endureceu e amoleceu o coração do faraó, jogando a seu bel-prazer com avanços e recuos a libertação do “seu” povo, cuja situação de escravatura já durava há 400 anos, e depois de mais peripécias como o pilar de fogo e a abertura do mar Vermelho com os egípcios sempre no encalce, situações dignas de um filme de “suspense”, fê-lo caminhar durante 40 anos pelo deserto à procura da chamada Terra Prometida, finalmente “encontrada” após a Segunda Guerra Mundial, com todos os problemas que daí advieram. Até já sabia que o faraó, na altura Ramsés II, não os ouviria. Como referência a um Deus infinitamente perfeito, esta história está muito mal contada. E temos depois a subida de Moisés ao Monte Sinai para receber os Dez Mandamentos, muito depois da criação do homem, do dilúvio, e por aí fora. Assim Deus foi emendando a sua obra reconhecendo que estava muito longe de ser perfeita.
Concluíndo: Ao fim de milhões de anos de evolução e com o homem já "pronto" havia muito tempo, Deus reparou finalmente que este se portava mal e, depos de muito matutar, resolveu intervir com dilúvios, mandamentos, persiguições, ameaças, castigos, etc. que, curiosamente, só atingiam uma pequena parcela da Terra, onde vivia o "seu povo", o chamado Povo Eleito. Enfim; são apenas parcialidades! Como isto não deu resultado, séculos depois enviou o seu filho (seria mesmo?) outra vez para a Palestina para que, morrendo cruxificado, levasse com ele todos os pecados do mundo e nos salvasse não sei de quê, já que a morte, como consequência necessária da vida terrena, foi por ele criada. Mas, "Deo gratias": Cristo ressuscitou ao fim do terceiro dia e a guerra, a fome, a miséria, a maldade e todos os horrores que Deus na sua omnisciência sabia que iriam seguir-se à criação do mundo, desapareceram para sempre na cegueira daqueles que não querem ver ou, pior ainda, que só vêm o que querem . Apenas alguns, já com a vista cansada, tentam meter cunhas agora à chamada virgem Maria, e cantam hinos do género faz com que a guerra se acabe na terra. De facto, a Jesus por Maria é uma frase muito ouvida da boca das entidades eclesiásticas. E, pela minha parte poderei acrescentar: A Deus por Jesus, seu filho, já que o primeiro se encontra muitas vezes distraído ou preocupado com outros assuntos, e precisa que lhe chamem a atenção para quem necessita dos seus préstimos, situações pouco próprias de um ser infinitamente perfeito. Trata-se de uma espécie de Concílio dos Deuses onde, no primeiro canto de “Os Lusíadas”, Vénus intercede perante Júpiter pelo sucesso da viagem de Vasco da Gama. Um dos meus melhores amigos, que tal como eu esteve na África durante a Guerra Colonial, conta que a mãe lhe escrevia dizendo que rezava muito por ele. Como resposta, e certamente para horror e escândalo da bondosa e saudosa senhora, o meu amigo respondia que como tenho uma cunha lá vou escapando; aqueles que a não têm é que se "lixam". É claro que isto só em parte é verdade, já que muitos se “lixaram” apesar das cunhas em que os portugueses são mestres. Basta pensar que quando há uma tragédia os que se salvaram foi graças a Deus. Ninguém diz o mesmo em relação aos que morrem., apesar de irem para a vida eterna. Mas e seguindo uma análise histórica simplista, quem foi Jesus Cristo, e todos outros ungidos deste mundo? (a palavra Cristo vem do grego “kristós” e significa ungido, untado, o que deu posteriormente “o que recebeu a santa unção”, “o Ungido do Senhor”). Tudo indica, a crer nos Evangelhos, que foi um homem que através de um certo misticismo tentou levantar o seu povo contra a dominação romana, tal como Moisés fizera séculos antes em relação aos egípcios, embora haja muitas dúvidas históricas sobre a permanência no Egipto de judeus na condição de escravos. Ele próprio intitulava-se rei do seu povo, mas o seu poder persuasivo foi tão pequeno que acabou por ser entregue ao governador romano Pôncio Pilatos. Este, apesar de ser tão criticado pelos crentes, fez o que podia, embora o Direito Romano tal não consentisse. Mas Roma estava longe e, como bom político que era, lavou as mãos de uma responsabilidade que, de facto, não era sua. Como lenda temos o seu poético nascimento sobre as palhinhas de um estábulo, parido por uma “virgem” (sempre o gravíssimo problema do hímen feminino), perante o olhar contemplativo do pai que afinal não era pai dele. Como prémio de consolação promoveram o carpinteiro a santo, o que não costuma acontecer com aqueles cuja testa fica maior. Mas adiante. Os funcionários da Igreja Católica têm a mania de condenar quem não acredita na ressurreição de Jesus Cristo. Mas será que ele morreu na cruz? A crucificação, normalmente destinada aos escravos, foi um dos mais cruéis suplícios inventados para a execução lenta de uma pessoa. Aquele aparentemente simples pormenor de colocar um apoio debaixo dos pés, servia para o condenado encontrar algum “alívio” para as dores que os pregos lha causavam. Assim que a cruz era erguida começava o verdadeiro suplício. Não podendo suportar o corpo com os braços, com os pregos a lacerarem-lhe os pulsos, onde estes na realidade eram cravados, tentava apoiar-se nos pés e, assim, era invadido por outra onda de dor. Começava então a tremenda luta para manter a mesma posição, o que se tornava impossível devido à fadiga muscular. Surgiam então as cãibras, a infecção das feridas e todo um conjunto inenarrável de sofrimentos tão do agrado da “Santa” Inquisição, embora sob outras formas não menos cruéis. Como é óbvio seria um pecado grave aplicar aos hereges os mesmos sofrimentos de que Cristo padeceu, tendo sido talvez por isso que a crucificação não fazia parte do catálogo dos inquisidores, ou então porque o assado de um ser humano vivo, acompanhado de horríveis contorções e gritos lancinantes, era muito mais espectacular e mais limpo do que sangue, suor, fezes e urina a escorrerem de uma cruz. Finalmente, e ao fim de três ou quatro dias, o desgraçado acabava por morrer por asfixia se antes não lhe quebrassem as pernas, não fosse estar vivo num dia de sábado. Ora e segundo os Evangelhos, a crucificação dos três condenados ocorreu numa sexta-feira e a morte de Jesus ocorreu entre três a seis horas após o seu início. Será possível que um homem de 33 anos, mesmo depois dos espancamentos a que foi sujeito, morra tão rapidamente enquanto aos dois ladrões foi necessário fracturar as pernas para não estarem vivos no dia seguinte? E a esponja impregnada em vinagre, que tem algumas propriedades analgésicas e era muitas vezes utilizado para atenuar o sofrimento dos crucificados, não teria uma droga qualquer que fez com que Cristo parecesse morto? É certo que da ferida provocada pela lança do soldado jorrou sangue e água, prova da morte por colapso pulmonar. Mas esse efeito poderia ter sido resultado de um simples truque ao alcance de qualquer prestidigitador. O que de facto interessa é que os quatro Evangelhos concordam em que a morte ocorreu imediatamente após a ingestão do vinagre, tendo Jesus dito que tudo estava consumado. Já em relação à ruptura do véu do templo e aos fenómenos que aconteceram logo após a morte não há consenso. S. João a nada se refere e, por outro lado, S. Mateus chega a dizer que nesse momento abriram-se as sepulturas; e muitos corpos de santos, que eram mortos, ressurgiram. Sempre as trapalhadas do costume! Mas mesmo que tivessem ocorrido, tratou-se apenas de fenómenos locais, não observados em mais nenhuma parte do mundo. Melhor do que isto só a famosa “dança do sol” vista apenas em Fátima em Outubro de 1917 . Assim que morreu ou ficou narcotizado houve a preocupação de o tirar rapidamente da cruz, e veio José de Arimathéa, illustre senador, que também elle esperava o reino de Deus, e foi com toda a resolução a casa de Pilatos, e pediu-lhe o corpo de Jesus. E Pilatos se admirava de que Jesus morresse tão depressa. E chamando o centurião, perguntou-lhe se era já morto. E depois que o soube do centurião, deu o corpo a José. E José, tendo comprado um lençol, e tirando-o da cruz, amortalhou-o no lençol, e depositou-o num sepulchro que estava aberto em rocha, e arrimou uma pedra à bocca do sepulchro . Entretanto Maria Mgdalena, e Maria mãe de José, estavam observando onde elle se depositava. (Números 43 a 47 do capítulo 15 do Evangelho segundo S. Marcos da edição supracitada). É óbvio que cada um pode interpretar este relato como quiser, mas se acrescentarmos que José de Arimateia teve a preocupação de levar consigo folhas de aloé, conhecidas pelo seu poder cicatrizante, e não ervas para embalsamamento, começa a tornar-se evidente que a crucificação foi um embuste genial para salvar Jesus Cristo da morte. Aliás, mesmo que tivesse morrido e ressuscitado, teria sido facílimo para o seu omnipotente pai realizar esse milagre. Mas, mesmo que tenha morrido e voltado à vida, o que é que o mundo lucrou com isso? Em Roma bem como em todo o mundo, incluindo os então desconhecidos povos americanos, a vida continuou como até hoje com todas as perfeições e imperfeições que a caracterizam. Já Eça de Queiroz em “A Relíquia” satiriza a encenação que foi a crucificação de Cristo, e hoje cada vez se encontram mais provas de que Jesus (que obviamente só terá aparecido aos seus discípulos) conseguiu fugir da Palestina com a mãe, os irmãos e Maria Madalena, com quem acabou por casar. Surgem porém dúvidas para onde terá fugido. Duas hipóteses baseadas em tradições e lendas locais apontam, com um certo fundamento, para Caxemira ou para a Gália, a actual França. Embora esta última seja a mais verosímil, segundo os actuais estudiosos, surge a objecção de a Gália estar na altura sob a dominação romana, o que equivalia a uma mais que provável crucificação, desta vez a sério. A menos que tenha conseguido chegar a uma aldeia gaulesa “que resiste ainda e sempre ao invasor”. (esta é para os amantes de Astérix). E vou terminar esta lengalenga sabendo que se alguém a ler e for crente, lançará sobre mim todos os anátemas, dependendo do seu grau de fundamentalismo. Assim poderei ser classificado apenas como um ignorante que se mete em assuntos de que nada percebe, ou ser votado à condenação eterna. Pelo caminho fico sujeito a penas mais leves, como insultos a minha mãe ou à minha mulher, ou ainda a preces pela salvação da minha alma. Mas como depois de morrer irei à presença de Deus para ser julgado, e por outro lado e segundo a Bíblia ressuscitarei para o mesmo fim quando o ”mundo acabar”, fico bastante baralhado quanto ao juízo que terá valor. Mas pode ser que o segundo actue como recurso ao Supremo Tribunal Divino da sentença proferida no primeiro. AMEN! Como lógico que sou, e não pensando apenas neste nosso planetazito, mas sim na extensão de um Universo que a astronomia cada vez dilata mais, desde há muito que sou agnóstico. E como gosto de aprender e também de ensinar o pouco que sei, e considerando que nem todos sabem o que significa agnosticismo, esclareço que é um termo arranjado por Thomas Huxley, biólogo inglês do século XIX, por oposição a gnosticismo, na palavra grega “ágnôstos” que significa «ignorante», «que é impossível conhecer». Por sua vez este adjectivo deriva do verbo da mesma língua “agnôein”, que se pode traduzir por «não saber», «ignorar». Huxley arranjou esta palavra para se opor ao dogmatismo da Igreja que sempre pretendeu ser a dona da verdade contra as realidades científicas. Assim trata-se de uma doutrina que defende como inacessíveis à compreensão humana os problemas postos pelas religiões ou pela metafísica, como a existência de Deus e do Universo, e a clássica interrogação de quem somos, porque somos, donde viemos, porque viemos, para onde vamos e porque vamos. Enfim, toda a razão de ser de tudo o que existe. Esta doutrina também foi seguida por Charles Darwin, outro proscrito. De um modo mais restrito pode enunciar-se assim: não acredito em Deus porque não posso provar a sua existência; não nego Deus porque também não posso provar que não existe. Isto no que se refere a um Deus que estará fora de qualquer religião, porque o Deus da Bíblia , Alá, Buda, Xiva e todos os que as religiões inventaram, não podem ter a mínima credibilidade. Seja como for a Igreja Católica se quiser conquistar ou, no mínimo, manter a sua clientela, terá de modificar muitas coisas, o que não parece muito do consenso do actual papa Bento XVI, que já foi acusado de ocultar padres pedófilos num documentário realizado pela BBC e transmitido há alguns anos pela SIC às quatro horas da madrugada, claro! Em 1971 no seu livro “Fátima Desmascarada", João Ilharco escreveu: Se a Igreja Católica pretende ser o guia espiritual de centenas de milhão de indivíduos, tem de rever os seus processos de acção e pô-los de acordo com a mentalidade do homem moderno. Ora desde esse já longínquo ano de 1971, o mundo mudou drasticamente no que respeita às Ciências e às Tecnologias. Só as bases como o amor ou o ódio, a paz ou a guerra, o perdão ou a vingança, continuaram e continuarão a manter-se por mais orações que as religiões façam a um Deus que se mostra totalmente indiferente ao mundo que dizem ter sido por ele criado. Sempre a tendência humana para explicar com divindades o que não consegue entender... E já que falámos deste livro lembremos que o autor lançou no final um desafio, por carta registada, a dois dos principais dirigentes de Fátima, o bispo de Leiria e o cónego Galamba de Oliveira. Nesse repto desafiou os seis teólogos mais abalizados em ciência fatimista para, perante as câmaras da RTP, contestarem as afirmações feitas em “Fátima Desmascarada”. Se não fosse aceite, todo o livro seria considerado verdadeiro, provando assim o embuste das aparições. Claro que não houve resposta, mas até sinto alguma pena da atrapalhação desses dois senhores perante tal desafio. Mas, na verdade, o calado é o melhor. Se o tivessem aceite e não soubessem defender convenientemente a sua dama, cairiam certamente na alçada dos seus patrões, ou sob a ira dos chamados “Doutores da Igreja”, entre os quais se encontra um monstro chamado Cirilo que acirrava a populaça cristã contra os que não seguiam o Cristianismo. Entre as múltimas vítimas desse possesso de Deus, conta-se a filósofa e matemática grega Hipácia, nascida em Alexandria em 370 D.C., e esfolada viva em 415 pela turba cristã. Pois esse monstro foi canonizado e proclamado "Doutor da Igreja", sendo hoje adorado como São Cirilo. No outro extremo destes estranhos "doutouramentos", "canonizações" e "beatificações" estão duas pobres e inocentes crianças, ignorantes, analfabetas e precocemente falecidas, metidas à força na fábula de Fátima. Chamavam-se Jacinta e Francisco. Como facilmente se depreende, a crueldade e a pureza andam de mãos dadas no seio da Igreja Católica. Mas disso não se fala, como é óbvio. Nero e outros imperadores romanos é que foram oa maus da fita. A história das represálias depois realizadas pela Cristandade, estilo olho por olho dente por dente, não consta das homilías dos funcionários do Vaticano.
Quanto à outra criança, uma tal Lúcia que julgava que a Rússia era uma senhora feia e má, tal como as madrastas das histórias dos irmãos Grimm, foi isolada até ao fim da sua longa vida. Nem sequer a deixaram ir ao enterro da mãe, e só podia falar a estranhos perante um funcionário da Igreja. Curiosamente as chamadas aparições aconteceram em 1917, ano da Revolução de Outubro ocorrida na Rússia. Para quem defende as leis e regras dessa sinistra instituição chamada Igreja Católica Apostólica Romana, não há como instituir uma espécie de PIDE ou KGB, com todos os Sousas Laras e Mários Davides à frente, não vá aparecer mais algum "herege" tipo Saramago a desmistificar as suas crenças absurdas. Apesar de tudo, e talvez devido a uma ligeira abertura, já não temos as fogueiras da Inquisição. Será por isso, por estarem fora de moda, ou porque a carne humana queimada irradia, para as narinas mais sensíveis, um cheiro nauseabundo? Seja porque motivo for, penso ficar livre desses horrores, o que não aconteceu a milhares de desgraçados. E digo penso porque, como não sou omnisciente, ignoro o que me espera no dia de amanhã. Se esse bom Deus que tudo perdoa e simultaneamente castiga com suplícios eternos, e gosta de ver aqueles que criou a sofrer e rastejar para conseguirem a "salvação", absolva-me ou condene-me à pena que entender. Pelo menos, e porque não sou rico, tenho algumas hipóteses de entrar no chamado Reino dos Céus e ficar junto aos pobrezinhos e remediados deste mundo, vogando com eles pelos caminhos da eternidade. Até porque qualquer pateta percebe que é impossível um camelo passar pelo buraco de uma agulha. (esta é para bom entendedor). Mas, se algum dia vier a acreditar num Deus, nunca se sabe, certamente que não será nesse. Talvez seja algo parecido com o Menino Jesus de Alberto Caeiro... E chega. A nada este texto vai conduzir mas, ao menos, fez-me bem ao fígado e, quem sabe, também a alguns órgãos externos, como os dedos por exemplo, que são capazes de fazer os mais variados gestos. P.S. Aos crentes no Deus da Bíblia que sejam lúcidos ou não se portem como avestruzes, sugiro que vejam na internet as encantadoras imagens dos instrumentos de tortura tão do agrado da “Santa” Inquisição, e aprovados (ou ignorados) pelo seu Deus infinitamente bom. Às vezes é melhor ver do que crer, quanto mais não seja para não morrermos estúpidos, ou o que é pior, ignorantes. Aos inventores e utilizadores desses instrumentos, envio um póstumo e comovido DEO GRATIAS!
06/11/2009
CAIM! CAIM! CAIM…! (1)
MAIS UMA DISPARATADA POLÉMICA
NESTE DISPARATADO PLANETA
“Caim! Caim! Caim”…! Esta onomatopeia de gritos de dor usada nas bandas desenhadas, não corresponde, decerto, aos que se ouviam nas sinistras caves da “Santa”Inquisição, instituída pela “Santa” Madre Igreja, quando arrancava, através das mais diabólicas torturas, as “confissões de heresia” àqueles que, com ou sem fundamento, caíam nas suas garras. Seriam certamente urros inumanos que as espessas paredes daquelas caves abafavam, ou que ecoavam pelos ares quando as primeiras chamas começavam a lamber os pés dos condenados à fogueira nos espectaculares “Autos-de-Fé “. E o deus da Bíblia permitiu que os homens por ele criados, à sua imagem e semelhança cometessem, em seu nome, actos mais próprios de um ser diabolicamente sádico do que de um Deus infinitamente bom e que tudo perdoa.
E, já agora, convém lembrar, e isto é apenas um pequeno exemplo da nossa História, que o garoto-rei D. Sebastião, digníssimo netinho e sucessor de D. João III ,“O Piedoso"(!), introdutor da Inquisição em Portugal, foi propositadamente a Évora assistir ao grandioso espectáculo da queima em vida de mais de uma dezena de hereges. Depois arvorou-se em D. Quixote lusitano, e lançou-se na paranóica aventura marroquina com as consequências que todos sabemos. Ao menos, o também demente personagem de Cervantes limitava-se a combater carneiros e moinhos de vento.
Erros humanos, justificarão os que crêem e seguem essa igreja. Mas como conciliar tamanhas monstruosidades com uma instituição que diz representar um deus com os maravilhosos predicados que apregoa ?
Vem isto a propósito da disparatada polémica que, mais uma vez, surgiu entre José Saramago e a dita igreja, com os seus actuais, dignos e respeitáveis inquisidores, surgidos da poeira do tempo, a defenderem e a impor os seus paradoxos e frustrações a que chamam fé.
Alguém se lembra ainda de um tal Kruz Abecassis, já falecido, e que enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa mandou demolir o cine-teatro Monumental e ameaçou destruir (talvez por força do hábito) o cinema onde se ia estrear o filme “Je Vous Salue Marie?
E de Sousa Lara, antigo subsecretário de estado da cultura, que tirou “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” da lista dos concorrentes ao Prémio Literário Europeu porque, segundo esse fanático, a obra não representa Portugal?
Apareceu agora um senhor Mário David, deputado do PSD em Bruxelas, a pedir a Saramago que mude de nacionalidade. Só nos faltava mais esta. Ficávamos apenas com o Prémio Nobel atribuído, em 1949, ao Prof. Egas Moniz pela descoberta da leucotomia pré-frontal, há muito posta de parte, mas que na época permitiu um controlo razoável dos doentes com esquizofrenia. Talvez não fosse má ideia voltar a aplicá-la àqueles que pretendem ver e impor tudo como querem que seja, ignorando o mundo que os rodeia, a bem da “moral e dos (chamados) bons costumes”.
Temos assim três grandes Inquisidores do nosso tempo: um ex-presidente de câmara, um ex-subsecretário de estado da cultura, e um actual deputado a representar Portugal no Parlamento Europeu. Tivessem eles vivido uns séculos atrás e teriam feito inveja a Torquemada. O primeiro fazia a pira; o segundo lançava-lhe fogo, para gáudio do anterior; o terceiro erguia a cruz para mostrar ao condenado, contorcendo-se e lançando gritos lancinantes no meio das chamas, como a misericórdia e perdão do Deus da Igreja Católica funcionam. Talvez os gritos fossem psico-somáticos, servindo a cruz de anestésico.
Não sou comunista e, de um modo geral, a Política pouco me interessa, visto que tenho coisas muito mais interessantes em que pensar. Mas respeito os ideais desse génio da literatura que se chama José Saramago. Como escrevi no artigo anterior, sempre procurei no eclectismo, seja qual for o tema, um modo de viver neste mundo de contradições.
Quanto à existência de Deus sou agnóstico e, como tal, não perco tempo em debates inúteis. No entanto esclareço que fui educado e obrigado a crer nos ensinamentos da Igreja Católica, ser forçado a assistir à missa dominical, e ouvir o catequista sem poder fazer perguntas. Porém, ao olhar o mundo que me rodeava, muito cedo comecei a duvidar de tantas coisas disparatadas e paradoxais que me impingiam, e que tinha de aceitar sem protestar. Era o o todo poderoso dogma castrador das mentes! Não vou, para já, expor essas contradições aqui. São tantas que resolvi deixá-las para outro texto. No entanto, vou citar uma que, pela sua comicidade, ainda hoje me faz rir, bem como a alguns dos meus amigos aos quais tenho contado. Ouvi-a nos anos cinquenta da boca do prior da Igreja de S. João de Brito, situada no bairro de Alvalade, na altura o mais moderno de Lisboa. Durante a chamada “prática”, esse senhor não arranjou melhor coisa para dizer que, no Verão, Deus enviava as moscas para nos castigar!!!. Espantoso, não é? E eu, com os meus dez ou onze anos, olhava para todos aqueles adultos que, respeitosamente e sem protestar, engoliam semelhante patranha que tanto tinha de ridículo como de absurdo.
Mas voltemos a Saramago ao qual acrescento todos aqueles, crentes ao não crentes, que contestam o Deus da Bíblia.
Todos eles, embora em minoria num país assumidamente católico, mas cuja Constituição define como estado laico, armam um alarido se alguém toca na sua crença. Mas as minorias não têm direitos? Porque será que temos de ouvir os sinos das igrejas, mesmo que haja protestos de alguns moradores das proximidades? E as procissões que em algumas povoações bloqueiam as ruas? E a televisão pública a transmitir horas a fio cerimónias religiosas como as peregrinações a Fátima, ou a permitir que Dina Aguiar se despeça com o clássico “se Deus quiser”, violando assim o mandamento que diz "não invocarás o santo nome de Deus em vão".
E, aquando da morte do Papa João Paulo II, em que tivemos de aturar horas a fio vendo os fieis a rezar para que ele não morresse (mas afinal não ia ter com Deus?) e, dias depois, com os rostos já enxutos e expressões transbordantes de alegria, paz e felicidade, tornar a ver os mesmos fiéis a darem vivas ao novo Papa. Rei morto rei posto, como é costume dizer-se. E já que falamos de Papas, ocorre a muito boa gente perguntar porque é que depois do atentado contra João Paulo II, ele e o seu sucessor passaram a deslocar-se num veículo à prova de bala, e rodeados da maior segurança? Não será uma provocação à chamada protecção divina? Afinal, e citando José Saramago, parece que o Deus da Bíblia não é de fiar, e deve ser por isso que põem pára-raios nas igrejas e outras protecções similares, não vá o Deus do mal, perdão, o Diabo, fazer das suas e colocar o seu criador, o Deus do bem, numa situação que nada tem a ver com omnipotencia. Ora isto parece-me completamente absurdo já que, no caso de um atentado fatal, Deus teria mais uma ocasião para mostrar os seus dotes vingativos no homicida, conforme fez, segundo a Bíblia, matando os primogénitos egípcios como represália ao decreto de Herodes. A meu ver, este episódio da Bíblia é o mais vergonhoso de todas as suas páginas, repletas de maldade e contradições
A Igreja Católica, sempre parada no tempo, opondo-se por todos os meios, mesmo os mais cruéis, a tudo e todos que tentam apontar-lhe os seus erros, usando como defesa um Deus que tudo perdoa mas que, quando lhe não convém, passa a ser uma divindade castigadora com suplícios eternos, ou que para angariar clientela ameaça atirar as crianças não baptizadas para essa coisa ignóbil chamada Limbo, não pode ter credibilidade. Perdão! esqueci-me que João Paulo II acabou com o 'Limbo' e com o 'Inferno'. Portanto, das duas uma: ou Deus mudou de ideias, ou o seu lacaio na terra desobedeceu-lhe.
Instituição sectária, dogmática e intolerante, que entre outras coisas irracionais faz do hímen da mulher (também presente nas fêmeas de muitos animais, desde a chimpanzé à mosca da Malásia) um dos seus principais dogmas, não quer compreender que o mundo de hoje tecnológico e científico, com as suas naturais consequências, evolui tão rapidamente que se arrisca a perder uma grande maioria dos seus adeptos num futuro não muito longínquo. Mas o problema é dela. Bento XVIII, se quiser, resolva o assunto. Albarda-se o burro conforme o dono.
E por hoje fico por aqui. Prometo voltar a esta disparatado assunto, ainda que saiba que daí nada virá de novo, já que a maioria das pessoas, seja por fé, ignorância, crendice ou simples estupidez, prefere viver de mitos.
“Todos aqueles que não têm espírito de crítica sobre tudo o que julgam ser uma certeza ou uma finalidade, estão condenados a alimentar-se de sombras” (citação do escritor de ficção científica Alfred Elton van Vogt no seu livro “Xadrez Cósmico”, nº 31 da Colecção Argonauta, e que foi uma das delícias literárias da minha adolescência).
Agora vou sair e comprar o livro de José Saramago. Penso que só encontrarei nele uma análise racional do deus bíblico mas, mesmo assim, estou interessado em lê-lo.
PS. Acabo de receber uma mensagem enviada por um amigo com o artigo de Vasco Graça Moura intitulado “Melhor Crer do que Ler?” Os meus parabéns ao autor, embora ache que peca por um excesso de erudição, bem como do uso de palavras latinas e de português antigo, que aliás não condeno, mas que, infelizmente, torna difícil a compreensão para a maioria das pessoas. Mas fiquei a saber que a leitura da Bíblia já esteve proibida em Portugal! Comentários para quê?
E por hoje fico por aqui. Prometo voltar a esta disparatado assunto, ainda que saiba que daí nada virá de novo, já que a maioria das pessoas, seja por fé, ignorância, crendice ou simples estupidez, prefere viver de mitos.
“Todos aqueles que não têm espírito de crítica sobre tudo o que julgam ser uma certeza ou uma finalidade, estão condenados a alimentar-se de sombras” (citação do escritor de ficção científica Alfred Elton van Vogt no seu livro “Xadrez Cósmico”, nº 31 da Colecção Argonauta, e que foi uma das delícias literárias da minha adolescência).
Agora vou sair e comprar o livro de José Saramago. Penso que só encontrarei nele uma análise racional do deus bíblico mas, mesmo assim, estou interessado em lê-lo.
PS. Acabo de receber uma mensagem enviada por um amigo com o artigo de Vasco Graça Moura intitulado “Melhor Crer do que Ler?” Os meus parabéns ao autor, embora ache que peca por um excesso de erudição, bem como do uso de palavras latinas e de português antigo, que aliás não condeno, mas que, infelizmente, torna difícil a compreensão para a maioria das pessoas. Mas fiquei a saber que a leitura da Bíblia já esteve proibida em Portugal! Comentários para quê?
10/10/2009
SERÁ QUE NO SÉCULO XX SÓ HOUVE UM HOLOCAUSTO?
SERÁ QUE NO SÉCULO XX SÓ HOUVE UM HOLOCAUSTO?
Quando o general Eisenhower visitou os campos de extermínio nazis, disse:
- "fotografem e filmem o máximo que puderem; recolham o maior número de testemunhos possíveis, não vá um dia aparecer algum idiota a dizer que nada disto aconteceu”.
Ora, passados mais de 60 anos, já apareceram vários idiotas tornando real a profecia do general.
Mas será que no século passado só houve um Holocausto? Será que toda a História da Humanidade não está repleta deles?
A palavra holocausto deriva do grego holókauton e significa “sacrifício em que se queima a vítima inteira”, não especificando se viva ou morta. Porém, seja pelo fogo ou por outro método qualquer, e houve-os horrendos, sendo muitos deles criados pela Inquisição instituída pela chamada Igreja Católica Apostólica Romana, em nome de um Deus que diz ser infinitamente bom, o resultado foi sempre o mesmo: A Morte. A hipocrisia dessa sinistra instituição, que provocou um holocausto de milhares de vitimas durante três séculos, chegava ao ponto de pedir ao braço secular, a quem entregava os condenados, muita ”justiça e misericórdia” para os que iam ser queimados! Tal como Pôncio Pilatos, que tanto critica, “lavava daí as suas mãos”. João Paulo II pediu desculpa dessas atrocidades e reabilitou Galileo, reconhecendo ao fim de 350 anos (!!) o sistema heliocêntrico!! Porém "esqueceu-se" do frade Giordano Bruno, queimado em 1600 por ter dito que cada estrela é um sol com planetas, podendo até alguns deles ser habitados. Olvidou também todas as outras vítimas anónimas (nem todas podem ser génios) torturadas até enlouquecerem, ou "confessando" o que não fizeram, acabando no Holocausto já referido. João Paulo II, "o Papa que mudou o mundo" (não sei em quê) teria feito muito melhor se tivesse distribuído as riquezas incalculáveis que enchem o Vaticano, e que foram roubadas às vítimas da “Santa” Madre Igreja, pelos milhões de carenciados deste mundo, como Jesus Cristo mandou. Até porque Jesus disse (ou inventaram que disse) ser mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus.
Segundo consta, o próprio Afonso Henriques, mesmo habituado às barbáries da época, tentou opor-se aos desmandos dos Cruzados que, em nome do tal Deus, cometeram toda a espécie de violências sobre os vencidos após a conquista de Lisboa. E isto é apenas um exemplo entre os inumeráveis factos idênticos que a História regista, seja em nome de um deus, de um diabo, ou de um manipanço qualquer. Mas, e respeitando o título deste comentário, voltemos ao século XX. Ninguém ignora, excepto os tais idiotas profetizados por Eisenhower, que o nazismo fez um autêntico holocausto sobre seis milhões de Judeus cremando os corpos, fazendo assim juz à etimologia da referida palavra. E os Norte-Americanos lançando sobre o Vietename napalm (de Na, símbolo do sódio mais palm, abreviatura de palmitato) e desfolhantes queimando pelo fogo ou por substâncias químicas todos os seres vivos atingidos, e cujos efeitos ainda hoje se fazem sentir? Para aumentar a eficácia do napalm, juntaram substâncias que o faziam aderir à pele e que nem a água apagava. É incrível ao que pode chegar a crueldade humana!!!
Mas troquemos holocausto por massacre, palavra derivada do francês, embora de origem obscura. Na prática significa o assassínio de pessoas sem defesa, seja por civis ou, mais frequentemente, por militares. Estes, se têm a coragem de reunir as vítimas e abatê-las olhos nos olhos, são considerados criminosos de guerra; se passam com um avião sobre elas lançando bombas incendiárias provcando também um holocausto são heróis e, muitas vezes, condecorados. Mas passando para o campo da política, esta “diferença”como pretendem alguns idiotas, encontra-se entre um Hitler, um Estaline ou um Mao-Tsé-Tung. O primeiro foi “o Mau da Fita”, o segundo “o Pai dos Povos” e o terceiro “o Grande Timoneiro”.
Perante isto parece haver um patológico complexo de extrema-direita que faz com que todos os políticos dessa facção sejam uns demónios enquanto que os chamados de extrema-esquerda, que cometeram os mesmos crimes, sejam considerados uns santos que só lutaram pelo bem estar dos dos seus povos. Mas Hitler também fez o mesmo pelos alemães, derrotados e humilhados na chamada Grande Guerra (1914-1918). Depois deu o resultado que todos sabemos. Mas adiante.
Durante o chamado Terror que Robespierre, em nome da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, instaurou durante a Revolução Francesa, rolaram milhares de cabeças entre as quais a do químico Lavoisier e a do poeta André Chénier. Ao mesmo tempo a populaça delirante cantava uma versão de “La Carmagnole”, nome de uma dança rústica adaptada à Revolução com um texto que parodiava Maria Antonieta, e também sinónimo da jaqueta usada pelos “Sans-Culottes" (sem calções), a classe mais baixa dos trabalhadores, ou ainda “Ah! Ça ira, Ça ira”, outra canção revolucionária que pedia a morte pela forca de todos os aristocratas. Ambas as canções foram proibidas após a ascensão ao poder de Napoleão, outro tirano. Como sempre, os extremos tocam-se.
Conta-se que durante o “julgamento” de Lavoisier num “tribunal popular”, alguém gritou que a Revolução não precisava de sábios. Nós também tivemos vários idiotas após o 25 de Abril, entre os quais um tal capitão Paulino, que mostrando perante as câmaras da televisão as mãos calejadas de um trabalhador rural alentejano, afirmou que” não são precisos doutores para coisa nenhuma”. Isto ocorreu em 1975, durante o chamado "Verão Quente". Alguém se lembra ainda?
Ora entre o anónimo da Revolução Francesa e os mentores do chamado PREC (Processo Revolucionário em Curso) que se seguiu ao 25 de Abril , parece não haver muita diferença, exceptuando o facto do segundo caso ter ocorrido num país de “brandos costumes".
E que dizer da Revolução Cultural ocorrida na China sob o beneceplácito do “Grande Timoneiro” que, depois de massacrar dezenas de milhões de pessoas, até se virou contra os pardais, imitando um rei inglês que mandou massacrar estas aves porque desvastavam as searas? Mas, além dos grãos, os pardais também comem os insectos que infestam os campos. Depois, e tal como o rei inglês do qual não me lembro o nome, e que séculos antes teve a mesma “brilhante” ideia, necessitou de importar centenas de milhares daquelas aves para repor o equilibrio ecológico. Correram mundo as imagens chocantes do povinho estúpido e ignorante batendo com todos os objectos que tinha à mão, para impedir que as pobres aves poisassem até morrerem por exaustão. Depois, e devido à fome que reinava na China, fritaram-nas, o que provocou mais um Holocausto na verdadeira acepção da palavra, desta vez de pardais.
E que dizer também das deportações e execuções em massa de Estaline ou dos hospitais psiquiátricos de Brejnev na antiga União Soviética?
E das vítimas de Pol Pot na Birmânia, hoje Mianmar, cujos ossadas estão agora expostas para os turistas mal ou bem intencionados verem, tal como o campo de Auschwitz na Polónia?
E da “dinastia Kim Jong” na Coreia do Norte? E de Batista ou de Fidel, que apenas virou o esque ma da extrema-direita para a extrema-esquerda? E de Ceausescu na Roménia? E os Idi Amins, Bokassas e Mugabes da África Negra? E...?
Meus senhores: quando se compara nos livros de História do nosso ensino secundário o "macartismo” ao “maoísmo”, o que me obrigou a explicar à minha neta a verdadeira diferença, há qualquer coisa que não está bem na nossa Democracia. Porque será que se podem exibir as bandeiras com as carantonhas de Estaline e Mao, e não a de Hitler? E com a Foice e o Martelo e não a Cruz Suástica? E fechar o punho e não estender a mão direita, gesto que, aliás, foi importado da Roma antiga? Afinal onde estão as diferenças entre os dois sistemas políticos?
Pela minha parte eu, o ignorante, menciono as semelhanças:
1º - Ambos lutam pelo bem-estar dos seus povos, mas há um Chefe e uma classe dirigente que tem acesso ao luxo, enquanto o chamado povo trabalhador é nivelado pela base.
2º - Os dois defendem o direito de todos os povos à auto-determinação e independência, mas invadem-nos se eles se desviarem das ideologias pré-estebelecidas.
3º - Recusam o direito à greve.
4º - Criam uma polícia política para prender, torturar e até matar os opositores.
5º - Estabelecem a Censura.
6º - Proibem as manifestações populares, excepto se forem “organizadas” para apoiar os respectivos regimes.
7º - Só permitem a existência do seu Partido, ilegalizando todos os outros.
Francamente. Comparado com eles até Salazar foi um digno representante do “País dos Brandos Costumes”. Até houve, com o nosso clássico sentido de humor, quem chamasse à Ditadura do Estado Novo, a “Ditamole”.
Não sou defensor da política salazarista, para além do facto de ter salvo Portugal da bancarrota a que os politiqueiros da 1ª República iam levando mas, comparado com outros ditadores, quase foi um menino do coro, como é costume dizer-se.
E, para terminar faço uma recomendação: leiam o Livro Negro do Comunismo, porque a pior cegueira é a de quem não quer ver. Como disse Churchill, a Democracia é um sistema político péssimo, mas até agora não se encontrou melhor. No fim de contas parece estar no eclectismo uma maneira mais lógica de viver, ou sobreviver, neste Mundo disparatado.
Houvesse imagens reais de todos os holocaustos e massacres da História, dos campos de batalha com corpos despedaçados, mas ainda vivos, ou das torturas e autos-de-Fé da Inquisição, como as contemporâneas que hoje se vêem a todo o momento nos telejornais, e talvez não nos batessem à porta outra espécie de idiotas a proclamar o fim do mundo.
P.S. Porque será que nunca ouvi os senhores jornalistas perguntarem e exigir uma resposta concreta a Francisco Louçã ou a Jerónimo de Sousa como governariam Portugal se fossem eleitos primeiros-ministros? Fariam o mesmo que o bem intencionado Salvador Allende fez no Chile, com o resultado que se viu? Como sempre, o excesso até na virtude é defeito!
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