12/04/2014

A PROPAGANDA DE UM POLÍTICO NA VARANDA, E A POPULAÇA APLAUDINDO NA PRAÇA

“Não discutimos Deus e a Virtude, não discutimos a Pátria e a sua História, não discutimos a Autoridade e o seu Prestígio, não discutimos a Família e a sua Moral, não discutimos a glória do Trabalho e o seu Dever, mas, se algum de vós me quiser seguir…”
Todos, gritava a populaça na praça respondendo à voz de falsete de Salazar a que não faltava o característico sibilar de quase todos que andaram no Seminário.

“Nicht für uns, alles für Deutschland”, berrava histericamente Hitler acompanhando a frase com os seus dotes teatrais adquiridos em frente de um espelho.

“Heil Hitler, über alles, Sieg Heil”, ululava a populaça na praça estendendo o braço em saudação à glória do seu “Führer”, da Alemanha e do seu povo. E porque não? O terceiro “Reich” iria durar mil anos.

“Liberté, égalité, fraternité” proclamava a populaça na praça antes de iniciar a matança que deu origem ao Terror.

Em 1940, Mussolini na varanda anunciava a sua resolução de meter a Itália na guerra do lado dos Alemães, e a populaça na praça, em vez de gritar “un corno”, aplaudia maravilhada, como se fosse aquele palhaço a ir combater.

E Estaline, e Mao-Tsé-Tung, e Hiroito, e…fico por aqui, porque destes espertalhões, esteve, está e estará a História sempre cheia. E apenas estou a referir-me a alguns destes espécimes que infectaram o século passado. Se fosse possível nomeá-los a todos, não haveria memória de computadores que chegasse. Mas, de quem é a culpa? Deles? De modo algum; a culpa é da populaça que acredita nesta espécie de gente.
É a fartura, a paz, a liberdade para todos os homens de boa (ou má) vontade por todos os séculos dos séculos, ámen.
“Sou eu quem vai endireitar o país e o mundo. Construir o homem novo, organizar a sociedade sem classes, acabar com a exploração do homem pelo homem, a paz para todo o sempre”.

E a populaça eufórica mas ignorante, necessitando sempre de um chefe (nem que seja de cozinha) e, acreditando como é seu hábito, nas palavras dos políticos, berra, dá vivas e morras, estende o braço de mão aberta ou de punho fechado, esfrega-se digital ou manualmente conforme o sexo e fica feliz, radiante, eufórica porque, finalmente chegou o fim de todos os seus problemas. “Com este é que vai ser bom. Vamos pagar menos impostos, ter aumento de ordenado, comer mariscos todos os dias, comprar automóvel novo de rabinho alçado para mostrar aos vizinhos, computadores e telemóveis última moda, ter uma casa com piscina e cores garridas, frequentar festarolas com vestidos espampanantes para aparecer naquelas revistas onde só tem cabimento aquela gentalha dita importante, fazer cirurgias plásticas “à moda de Caneças” para esconder a velhice, trabalhar o menos possível, adoecer quando nos apetecer para aproveitar a baixa como segundas férias nas Caraíbas por indicação do médico, e todas essas coisas básicas para podermos viver decentemente”.

E o político na varanda, promete o reino da fartura à populaça que o aplaude na praça, já esquecida das promessas do espertalhão anterior. Mas não é só na varanda. É no terreno, como agora se diz, que o político faz as promessas da luta final. Vai às cidades, vilas e aldeias, escolhendo os locais de que mais gosta, como as feiras, ou por necessidade imperiosa, as retretes públicas onde desabafa toda a sua sede de poder.
Dá abraços e apertos de mão a todos os que, entusiasmados, caem na esparrela de o aplaudir. Nem as crianças escapam aos seus “beijos de Judas” e, como crianças que são, aplaudem como fazem a qualquer palhaço por muita ou pouca graça que tenha.
E, como é óbvio, em vez de se abster, a populaça vai votar para oferecer ao político o “tacho” que lhe permitirá desafiar a lei da gravidade, isto é, cair sempre para cima quer roube muito ou pouco. Afinal para que é que alguém se mete na política? Salvo raríssimas excepções, toda a gente sabe porquê, mas vota!
Pouco tempo depois a populaça volta à praça mas, desta vez o político não aparece na varanda. Surge na televisão (sempre é mais seguro) e justifica o incumprimento das suas promessas com a ignorância da pesada herança que recebera do governante anterior. Esse sim, é que deu cabo do país, dos trabalhadores e dos reformados.
E enquanto ri interiormente porque sabe que, aconteça o que acontecer, o seu futuro está garantido, tenta justificar que as medidas de austeridade são provisórias. Para ele e os seus acólitos, é claro.

Mais uma vez, frustrada e enganada por sua própria culpa, a populaça volta à praça, mesmo sem o político na varanda. Grita, apupa tudo e todos, tenta invadir o chamado Parlamento onde enriquecem os “representantes” do povo, e desata a cantar, desafinadamente, a já fora de moda “Grândola, Vila Morena”, virando o disco para afirmar a estafada utopia que diz que “o povo unido jamais será vencido”.

Para terminar a grandiosa manifestação de massas, das classes trabalhadoras, da Função Pública e dos pensionistas, vem o momento solene para entoar (também desafinado) o Hino Nacional.
Como ninguém lhes liga nenhuma, até porque a Polícia está lá para evitar desacatos, travam-se interessantes diálogos, um dos quais poderia ser este:

-Olhe que não é “igrégios”; é egrégios.
-Desculpe, mas os meus avós foram sempre à igreja
-Eu logo vi! É por causa dos seus avós, e de todos os lacaios da padralhada, que o País está como está.
-Já vi que vossemecê não acredita em Deus.
-Claro que não. Sou ateu.
-Não se preocupe com isso. Há quem tenha alcunhas piores. E quanto a nomes, ainda ontem um automobilista me chamou cabrão.
-E o que é que lhe respondeu?
-Ora! Que isso não era comigo, mas sim com a minha mulher.
-O quê? Você aceita que lhe chamem cabrão como se a sua mulher fosse uma puta?
-E, como posso saber se é ou não? Apenas por descargo de consciência e quando chego a casa c’os copos, dou-lhe uns enxertos de porrada para desabafar. Mas, cuidado, meu caro senhor; não admito que chamem puta à minha mulher. Se eu dissesse o mesmo da sua mãe, gostaria?
-Partia-lhe os cornos, sua besta!
Entra em cena um terceiro manifestante.
-Calma amigos. Estamos aqui para exigir o cumprimento dos nossos direitos, e não para tratar de questões de família. Lembrem-se que o povo unido jamais será vencido!
-Tem razão, diz um dos dois agastados. Mas o problema é que ninguém nos ouve e ainda arranjo uma cãibra à força de tanto gesticular. Por isso tenho de discutir com alguém. Mas ainda bem que falou de “cãibras” Lembrou bem; Também devíamos exigir que as “cãibras” municipais sejam dirigidas apenas pelo povo.
-Para isso é necessária a “dentadura do pretolariado”.
- Nem pense; já cá temos pretos que cheguem.
-Seu racista de merda; ao menos eles têm os dentes mais brancos do que nós. E não usam nenhum detergente, daqueles que lavam sempre mais branco.
-Isso é do contraste com a cor da pele. Já vi que você julga que todos somos iguais. Se fosse assim não havia inteligentes e estúpidos como você. E isto acontece em todas as etnias. E digo etnias porque agora é proibido dizer raça. Se a censura da democracia continua como está, ainda temos de dizer “etnista”.
-Porra que você agora, além de se armar em esperto, também julga que é sábio e inteligente. Porque não vai para a política ou para presidente de um clube de futebol, seu reaccionário? E a propósito: É do Sporting ou do Benfica?
-Sou do Porto, carago! A única cidade deste País onde se trabalha!
-Isso é uma mania que vocês têm, os lá da chamada “invicta”. Mas Lisboa é que é a capital do país, coisa que lhes provoca uma grande dor de corno.
-E uma grande dor nos tomates se continua a insultar as gentes do Norte.
-Mas ao menos, temo-los sítio. E muito bem blindados.
-Você não passa de um reles “fachista”. Já que é tão valentão, veja lá se é capaz de estender o braço direito à maneira dos nazis.
-Essa de julgar que foram aqueles tipos que inventaram aquele gesto, é de cabo de esquadra; já os Romanos faziam o mesmo quando saudavam alguém. E como sou um homem de “coltura”, sei que diziam AVÉ ao mesmo tempo. Será que agora é proibido dizer “Avé-Maria”?
-Lá vem, outra vez, a porra da religião. Você também acredita que Deus dá o frio conforme a roupa? Pela minha parte acho que faria melhor em dar a roupa conforme o frio.
-Quero lá saber disso; já lhe disse que sou ateu. Porque não vai expor esse argumento ao padreca lá do seu sítio? Seria divertido ver o tipo a pregar isso na igreja. À saída davam-lhe uma sova, à falta de uma fogueira.
Outro manifestante interrompe tão interessante diálogo:
-Irra! Vocês nunca mais acabam com isso? Afinal o que vieram aqui fazer?
-É este “fachista” de merda que me está a provocar. Foi ele que começou. Se eu mandasse enviava-o para a Sibéria para saber como é.
-Cala-te, “comuna” de merda. Não passas de um “fachista de esquerda e foste tu quem começou. Vai fechar o punho em nome do Estaline, esse comparsa do Hitler. Se eu mandasse, ias já para Caxias.

Palavra puxa palavra, empurrão daqui e de acolá, em breve os dois representantes do povo unido, em que ficámos sem saber a que partido ou crendice pertenciam, chegaram a vias de facto. Enquanto uns os incitavam em nome da política, outros tentavam separá-los por via da mesma.
Finalmente, tudo serenou, Após umas bastonadas da política da polícia, a praça ficou vazia, enquanto para lá da varanda ninguém bulira.
Só tempos depois, nas eleições seguintes, outro político voltou à varanda. E a mesma populaça na praça, como sempre crédula e ignorante, aplaudiu entusiasmada.

Conceito: O POVO UNIDO CONTINUA E CONTINUARÁ A SER VENCIDO!

Depois de ter escrito esta historieta para me divertir, ocorreu-me fazer um comentário sobre o seu conteúdo. Afinal, se o povo continua (e continuará) a ser vencido, no meu modo de ver talvez pessimista, pareceu-me oportuno fazer uma pequena resenha histórica do passado.
Ficará, assim, completada a trilogia: passado, presente e futuro.
Será este o tema do próximo artigo. Cruel, divertido, ou ambas as coisas?
Uma única certeza: será inútil, mas ajudará a aliviar as minhas ‘iscas’ já bastante abaladas após setenta e um anos neste disparatado (e famigerado) planeta!

Obs: não sei quando farei o comentário. Como disse num artigo anterior, tenho andado ocupado (quando me apetece) a escrever a história da minha ida à Guerra Colonial. Vou a caminho das cem páginas, e ainda não cheguei à partida para Angola.
Se conseguir acabá-la, é pouco provável que a publique neste blogue. Iria incomodar algumas pessoas, principalmente militares e anti-racistas primários. Mas, quem sabe? Por enquanto penso mandar fazer uma edição privada para a família e amigos. O futuro dirá.

Nota: Qualquer comentário escrito conforme o chamado 'novo acordo ortográfico' será considerado como contendo erros grosseiros e, como tal, corrigido!


19/02/2014

SEBASTIÃO DEL CANO? NUNCA OUVI FALAR!

FERNÃO DE MAGALHÃES? NÃO ME DIZ NADA!

Estes são os “deliciosos” comentários de uma professora, julgo que de línguas, no concurso “Quem quer ser milionário” transmitido no canal-1 da RTP no passado dia 14 de Fevereiro.
A pergunta era esta: “Quem foi o português, ao serviço da Espanha, que comandou a primeira viagem de circum-navegação”? 
As hipóteses eram, como de costume, quatro: Sebastião del Cano, Fernão de Magalhães, Diogo Cão e Vasco da Gama.
A douta professora começou logo por dizer que nunca tinha ouvido falar no primeiro; quanto ao segundo, declarou que o nome nada lhe dizia, e de Diogo Cão nem falou. Quanto a Vasco da Gama sabia, apenas, que não fora ao serviço da Espanha. (É de perguntar se sabe quem foi que descobriu o caminho marítimo para a Índia).
Enquanto a docente raciocinava para responder correctamente a tão difícil pergunta, Manuela Moura Guedes parecia querer disfarçar a sua incredibilidade com uma expressão da grande profissional que é.
Depois de muitos raciocínios, a professora chegou a mencionar o Estreito de Magalhães. Mas, saberá onde fica? Tanta ginástica mental lembrou-me o único raciocínio lógico que Obélix conseguiu fazer em todas as suas aventuras (para os fans de Astérix, ver a página 23 de “La Grande Traversée” [A Grande Travessia]). A diferença residiu em não ter deitado fumo, como o gordo gaulês, provocado pelos curtos-circuitos dos neurónios.
Por fim, e após ter repetido várias vezes que nunca tinha ouvido falar em Sebastião del Cano, lá concluiu, por exclusão de partes, que fora Fernão de Magalhães. 
Os meus mais sinceros parabéns! Só foi pena que Manuela Moura Guedes não tivesse dado um lição a essa senhora, explicando porque o “desconhecido” navegador espanhol também é
lembrado nessa primeira viagem de circum-navegação.
Mas vieram mais duas perguntas de cultura geral que atrapalharam a professora, embora tenha conseguido acertar, como na anterior, após muitos raciocínios confusos e demorados.
Primeira: As auroras, boreais e austrais, são devidas a: asteroides, magnetismo, satélites de outros planetas, ou buracos negros?
Perante esta pergunta que, aliás, é um pouco especializada, revelou, no entanto, o seu desconhecimento básico do assunto. Interiormente divertida, Manuela Moura Guedes perguntou-lhe o que responderia a um aluno se a interrogasse sobre o que era um buraco negro.
Naturalmente, respondeu: “diria que é um buraco negro”. 
- "E se ele perguntasse o que era um buraco branco?" 
- “Diria que é um buraco negro!”
Depois deste jogo de palavras, que quero acreditar não ter passado disso mesmo, a apresentadora perguntou: "já viu alguma aurora?" 
Por entre mais trocadilhos engraçados (haja Deus) disse que não sabia, mas que eram comuns nos países do Norte. O problema estava nas auroras austrais. Para ajudar a evitar mais confusões (ignorância?), Manuela fez um gesto com as mãos para mostrar polos opostos. Perante isto, a concorrente perguntou se eram duas coisas que se encontravam no meio. Finalmente, e mais uma vez por exclusão de partes, lá acertou no magnetismo.
Segunda: o país mais pequeno do mundo, uma ilha, é: Madagáscar, Arménia, Nauru ou Jamaica?
É claro que não pretendo que alguém saiba que a resposta é Nauru.
Embora, e desde criança, eu seja um apaixonado por geografia, não sabia que era o mais pequeno (em população).  Não ignorava, porém, que faz parte da Micronésia, grande grupo de ilhas dispersas pelo Pacífico Sul.
Depois de após longo raciocínio ter eliminado Madagáscar e Jamaica pelas suas dimensões, e mostrar espanto sobre o que seria a Micronésia, lá acertou na resposta, parecendo que desconhece que a Arménia não é uma ilha. Nem deve saber onde fica esse país nem o ressentimento que ainda hoje o seu povo mantém pelo massacre feito pelos Turcos no primeiro quartel do século XX, e nos últimos tempos recordado na Comunicação Social. Ou, ainda, que só recobrou a sua independência após a queda da União Soviética.
Se eu fosse o apresentador do concurso, decerto teria estragado a minha carreira porque seria difícil conter-me perante a ignorância de quem tem a obrigação de ter um mínimo de cultura geral. 
Não sei quais foram os motivos (falsos ou verdadeiros) que levaram a censura da ditadura-democrática em que vivemos a afastar durante tanto tempo Manuela Moura Guedes da sua vida profissional. Mas, para uma pessoa que não tem papas na língua, conseguiu manter-se séria.
Lembro-me de há alguns ela ter corrigido o português de um (uma) Secretário de Estado da Cultura, com esta frase: “e é isto um (uma) Secretário da Cultura; mas eu corrijo."  E corrigiu!
A terminar, sugiro à digníssima “sotôra” que aprofunde os seus conhecimentos antes de se apresentar em público, e não repreenda os seus alunos se estes gozarem, com o devido respeito, é claro, a triste figura que fez. E que nunca falte às manifestações contra a avaliação dos professores porque, e citando o velho provérbio ao contrário, “quem deve teme”!

Nota para os “coca-bichinhos” como eu:
Indonésia, Micronésia, Polinésia e Melanésia, são grupos de ilhas do oceano Pacífico cujos nomes significam, respectivamente, ilhas indianas, pequenas ilhas, muitas ilhas e ilhas de pretos.
As etimologias são as seguintes:
O prefixo “indo” deriva do latim e refere-se à Índia e tudo com ela relacionado. Os outros três, “micro”, “poli” e “mela” provêm do grego mikós (pequeno) poly (muitos) e ”mélanos” (preto). O sufixo “nésia” também procede do grego nêsos (ilha, península).
Sebastião del Cano: navegador espanhol que assumiu o comando da primeira viagem à volta da Terra, após a morte de Fernão de Magalhães em combate com os indígenas nas Filipinas.

E a propósito:
Quem se lembra de o Pedro Santana Lopes, ex-Secretário de Estado da Cultura, afirmar que gostava dos “concertos para violino” de Chopin?...


06/02/2014

TSUNAMI

ONDA GIGANTE, MARÉ GIGANTE, MAREMOTO OU RAZ DE MARÉ?


Acabo de receber imagens, enviadas por um amigo, de um tsunami num rio do Japão. Não vi, como esperava, nenhuma “onda gigante”. Esta talvez não chegasse a um metro de altura, mas os estragos que provocou foram devastadores, coisa que uma onda, por maior que seja, pode provocar. Mas, a comunicação social é fértil em falar de “ondas gigantes”, quer se trate das provocadas por um sismo submarino ou das que, na praia da Nazaré, brindam os surfistas.
Mas, então, porque é que estas últimas estão muito longe, felizmente, de provocar uma catástrofe? 
Vamos a factos concretos.
Uma onda é uma vibração que atravessa qualquer corpo sólido, líquido ou gasoso. As moléculas dão um “coice” umas nas outras, mas ficam sempre no mesmo sítio. Toda a gente que toma banhos de mar sabe que, para lá da rebentação, subimos e descemos sobre as ondas, mas continuamos onde estamos. O movimento é apenas vertical. O que faz cair (rebentar) a onda, é o atrito que as moléculas que estão junto ao fundo sofrem, diminuindo a sua velocidade que não é acompanhada pelas que estão em cima. Gera-se, assim, uma sucessão de travagens que faz com que a onda desenhe aquela curva tão característica. Depois dá-se a “explosão” à medida que as partes superiores encontram um obstáculo sólido, seja areia ou rocha.
No primeiro caso, e conforme a extensão e inclinação da praia, bem como a altura da onda, esta progride em maior ou menor distância, recuando logo a seguir.
Quanto ao tsunami, cujo étimo japonês quer dizer “onda no porto” e não gigante, é provocado por um desnivelamento dos fundos marinhos que, por vezes, acompanham os sismos subaquáticos. O que importa é a maré que resulta desse desnivelamento e não as ondas, maiores ou menores, que a precedem. Estas são empurradas pela maré que, a uma velocidade muitíssimo maior das marés normais, progridem como resultado do princípio físico dos vasos comunicantes. Foi isto que aconteceu em Lisboa aquando do terramoto de 1955. Toda a gente pode ver as inúmeras imagens que circulam na internet e, se repararem bem, nenhuma onda se compara às da Nazaré.
Quanto ao uso (e abuso) da palavra tsunami, que se popularizou após a catástrofe que atingiu a Indonésia e outros países em 2011, declaro que sou neutro, apesar de ter aprendido a designar o fenómeno por raz de maré, como consta nas “Lições de Geologia” do antigo terceiro ciclo dos liceus. Isto é uma resposta às críticas que tenho recebido por causa da minha aversão aos neologismos e provo, assim, que não sou tão fundamentalista como dizem. Eles só enriquecem as línguas e as relações entre os povos. Odeio, sim, é a “snobeira” com que muita gente e a maioria do comércio gostam de se exibir, com os fast-food, take-away, resort, call-center, e um nunca mais findar de anglicismos inúteis que emporcalham a nossa língua, ignorando que existem os equivalentes no nosso idioma. Em criança tive de aturar os galicismos, agora tenho de suportar aqueles e, talvez ainda viva o suficiente para ver a invasão do mandarim, quanto mais não seja por ser moda.

Nota para os curiosos:
Se quiserem verificar o movimento ondulatório nos corpos sólidos, façam a seguinte experiência: ponham duas moedas bem encostadas uma à outra sobre uma mesa. Com um dedo, segurem firmemente uma delas. Depois, atirem uma terceira moeda de encontro à que não está segura com o dedo. As ondas de choque vão propagar-se através da moeda fixa e empurrar a que está encostada, que se detém logo que perde a energia recebida. Simples, não é? Pois isto é que é uma onda! 


   

15/01/2014

CARTA A EUSÉBIO

Meu caro Eusébio.

Se o Além existe, o que muito duvido, talvez leias esta carta. Nasceste no mesmo ano que eu, em plena Segunda Guerra Mundial. Tu na então Província Ultramarina Portuguesa de Moçambique, e eu em Lisboa, na época a Capital do Império.
Tiveste uma origem muito modesta. O mesmo não posso dizer, porque a minha família pertencia à classe média-alta.
Muito antes de pensares vir para a Metrópole (se é que sabias o que isso era) eu ia com o meu pai ver alguns jogos do Sporting, clube de que sou apenas simpatizante. À parte isto, o futebol pouco me interessa.
Nessa época tão distante, e para afirmar a portugalidade dessas terras hoje tão desgraçadas, o Estado Novo tinha feito vir para Lisboa algumas promessas do futebol nacional, onde se destacaram os irmãos teus conterrâneos Matateu e Vicente, ambos no Belenenses.
Quando chegaste à capital, foste “caçado” pelo Benfica que se adiantou ao Sporting na contratação. Poderias, assim, ter sido sportinguista, mas o mundo é de quem chega primeiro.
Só te vi jogar na televisão, e não posso esquecer os dois jogos em que o Benfica se sagrou campeão europeu, transmitidos em directo, novidade na época.

Depois, veio o “Mundial de 66”. Eu estava em Luanda, onde não havia televisão, mas ouvíamos todos os relatos da selecção, cujas vitórias punham todos, brancos e pretos, em autêntica loucura. E posso afirmar que eram manifestações verdadeiramente espontâneas. 
Não vou falar do Portugal-Coreia (toda a gente sabe a história) mas de uma situação caricata que se passou no jogo com a Inglaterra. Jantava em casa de um amigo enquanto, pela rádio, ouvíamos ansiosos o relato feito por Artur Agostinho. A certa altura, quando perdíamos por 2-1, pareceu-nos ouvir “Eusébio remata e gooolo!” Com o entusiasmo levantámo-nos e a mesa, que era de tripé, virou-se deitando tudo para o chão. O meu amigo escorregou e parece-me que ainda o estou a ver no chão a exclamar: “se, ao menos tivesse sido golo!...”

E quatro décadas passaram. Um acaso fez com que te visse no aeroporto de Munique, aquando do “Mundial de 2006”. Estavas sentado, encolhido é mais o termo, numa cadeira. Algumas pessoas cumprimentavam-te e outras, tal como eu, apenas olhavam. Já íamos muito alto quando, olhando para trás, reparei que ias no mesmo avião.
Disse para a minha mulher: “o Eusébio está sentado mais atrás; até parece que ninguém dá por ele”. E, como poderia dar se a tua imagem, como sempre, irradiava, nobremente, a contumaz singeleza?

Agora morreste! De repente, todo o Portugal se levantou, chorou, recordou (embora muito mais de metade dos portugueses não ser ainda nascida ou era criança no tempo da tua glória) e até te querem colocar no Panteão! Se soubesses disto penso que ficarias horrorizado, já que a tua verdadeira modéstia compreenderia que há valores muito mais altos do que o futebol.
Sem querer meter-me na vida alheia e pedindo desculpa por abordar este assunto, julgo que também ficarias admirado com a “pensão” que o Benfica atribuiu à tua mulher. A maior parte dos portugueses trabalhou quarenta anos ou mais, e recebe menos de um décimo dessa quantia! Votado ao ostracismo quando a tua glória se eclipsou, foi o Benfica que te deu, merecidamente, a mão, agora tornada hereditária.
Claro que ela não tem culpa, até porque é humanamente agradável viver à custa da glória dos outros.

Para terminar, e porque sei que isto te faria rir, acho oportuno dizer que os ilustres deputados que fazem as leis deste país deviam propor a substituição da esfera armilar da nossa Bandeira por uma bola de futebol. Por sua vez, os castelos iriam sendo substituídos, à medida que Eusébios e Ronaldos fossem desaparecendo, pelos seus retratos.
Será talvez o provável futuro desta ditosa Pátria, há várias décadas governada por ladrões, corruptos e oportunistas. Salvam-se uns poucos que, por não quererem fazer parte das quadrilhas, ou com medo da ‘censura’ da chamada Democracia, estão calados e quietos.

Um grande abraço, do planeta Terra para o Além.



17/12/2013

SOCORRO!

SOCORRO!
QUEM NOS SALVA DOS ECONOMISTAS?

Esta noite tive um pesadelo. Vi a troika na sua verdadeira acepção da palavra, isto é, o carro russo montado sobre esquis puxado por três cavalos. Mas, estes, para além de serem homens, não emparelhavam bem no que respeito ao aspecto físico. Um, alto e careca, tinha um ar patibular, outro a cor típica dos monhés e, o terceiro um pouco rechonchudo de estatura média. Em comum, e em vez de arreios, tinham pastas de cabedal recheadas de papeis referentes a acções, obrigações, títulos, empréstimos, câmbios, juros, tesouro, produto interno bruto, IVA (Imposto Validador das Aldrabices), IRS, IRC e todas essas trapalhadas que os economistas inventaram para complicar a vida dos outros, e entreterem-se a calcular se são precisas meia ou uma dúzia de galinhas para valerem um porco. E, o mais curioso é que raramente estão de acordo uns com os outros, o que faz com que nenhum resolve algo que se veja. Até os que ganharam o Prémio Nobel! (Quanto ao povo, ora o povo. Deus ajuda quem tem fé!)
Por seu lado, o carro estava atascado de políticos, deputados, corruptos, ladrões, militares do exército, trabalhadores com falsa baixa médica, trabalhadores em greve por “dá cá aquela palha”,  dirigentes sindicais, cronistas sociais, traficantes e todos os outros parasitas da sociedade amontoados num delirante bacanal ritmicamente marcado por guizos pendurados nas pastas e pescoços dos três tipos que puxavam aquela carripana de perdição. 
Atrás, com ar submisso de bom aluno e mão estendida, implorava, o nosso venerando, sábio e excelentíssimo Presidente da República, com a sua característica voz de asmático agora tão cavernosa que até metia dó.
Mas, para completar este cortejo dantesco, numa massa impossível de descrever, seguia a arraia-miúda de lusitanidade nascida ou malparida, agitando-se numa confusão de ritmos de fado, fandango e, principalmente, de chulas. À sua frente marchava, solene e altaneiro, um chefe. Mas, não era a espada de D. Afonso Henriques que ele empunhava. Autêntica cópia da figura do Zé-Povinho, tal como Rafael Bordado Pinheiro criou, fazia aquele gesto tão gracioso que, por vezes, provoca mais efeito do que as mãos postas em frente da estátua da chamada Virgem Maria que, passados quase dois mil anos, ressuscitou e apareceu em Fátima num tipo de nuvem desconhecido dos meteorologistas. As suas emanações pestíferas mataram uma pobre azinheira mas, em compensação, continuam a fazer entrar muito dinheiro que, despois de analisado pelos economistas, os políticos distribuem com a sua costumada imparcialidade.
E, todo aquele abençoado povo, descendente de santos e heróis, para não destoar dos puxadores da troika, arrastava consigo barris que, em vez de carrascão, estavam também cheios de papeis. Estes, porém, tinham nomes diferentes, tais como, dívida soberana, dívida pública, dívida externa, dívida bancária, dívida à farmácia, dívida à mercearia, dívida ao chulo, enfim, dívidas de todos os tipos e para todos os gostos.
Entretanto, a minha bexiga a abarrotar da santa e omnipresente cerveja, deu sinal de alarme. Mal-humorado por ter de sair do quentinho, e, depois de cumprida a missão de aliviar aquele órgão do seu conteúdo exagerado, voltei a deitar-me. Pus-me de barriga para cima, posição em que costumo entrar nas minhas meditações metafísicas, e a música das finanças começa a martelar-me, de novo a cabeça, desta vez acordado: acções, obrigações, juros, tesouro, dívida pública, dívida soberana, dívida externa, produto interno bruto, etc. etc.
Enquanto isto soava dentro da minha pobre cabeça, comecei a sentir uns estranhos formigueiros pelo corpo. As coisas começaram a baralhar-se mais até que me fixei no chamado produto interno bruto.  A brutalidade deste termo, obrigou-me a por instintivamente a mão numa zona delicada do corpo, como que para a proteger. Sem perceber porquê, lembrei-me ao mesmo tempo do gesto do Zé-Povinho!
Perto do delírio comecei a ver notas de banco a voar, o chamado papel-moeda. Mas, se é papel, não pode ser moeda, pensei. E, se pode, porque não há de haver moeda-papel?
E o ouro, esse elemento metálico que tem mais valor do que os outros, embora haja muitos mais raros! Com as “injeções” de Mandela que os telejornais, lembrei-me que a África do Sul está cheia dele, mas está longe de ser um país rico. Pela minha parte prefiro uma boa feijoada, já que o ouro deve ser muito indigesto. E até perde alguma graça pelo facto de não provocar gases. Por outro lado os países árabes estão ricos graças ao petróleo, crude, brent, ouro negro ou como lhe quiserem chamar. Pelo menos, em termos do número de nomes, vale mais que o ouro amarelo, embora também deva ser terrivelmente indigesto.
Tentei acalmar-me mas não consegui, pelo que resolvi tomar um ansiolítico. Mas, enquanto não fazia efeito, apeteceu-me gritar: acções, obrigações, títulos, câmbios, juros, empréstimos, dívida pública, dívida soberana, divida isto ou aquilo, cifrões, milhões, biliões de cifrões, o Produto Interno Bruto e…aaaa!!! Tive de correr para a casa de banho, e, com uma tremenda explosão, livrei-me daquele famigerado produto! Nem queria acreditar, mas era verdade!
Muito mais aliviado, voltei para o “quentinho” e deitei-me de barriga para baixo como é meu hábito.  Afinal é melhor pensar que tudo isto não passou de um disparatado pesadelo num mundo disparatado, originado pelas lavagens ao cérebro que são os malditos telejornais. Vou deixar de os ver porque a paciência tem limites. É uma utopia, bem sei, mas o melhor é pensar e sonhar que a realidade é outra.
Para mim, e dentro do possível, é muito mais interessante e aprazível saber quando chega a Primavera!




20/11/2013

ARMAS QUÍMICAS!

ONDE ESTÁ O PROBLEMA?


Este artigo vai ser curto por dois motivos: primeiro, porque estou a escrever “A minha ida à guerra colonial”, o que vai levar longos meses; segundo, porque já me referi a assuntos semelhantes no artigo “SERÁ QUE NO SÉCULO XX SÓ HOUVE UM HOLOCAUSTO?”. 
A histeria que se está a criar sobre o uso de armas químicas na Síria é tão hipócrita que poderia ocupar páginas e páginas numa repetição de acontecimentos que toda a gente conhece, e que seria tão fastidioso como inútil.
Assim, e como inútil que é, será apenas como um desabafo de quem há muito não entende este mundo.

Mas depois de muito rir (sim, rir!) sobre este assunto, e como já considerava a estupidez e a crendice humanas como as únicas coisas passíveis de serem maiores do que o Universo, resolvi formar uma trilogia juntando-lhes a HIPOCRISIA!

Que horror! Gasear as pessoas como os Alemães fizeram na Primeira Guerra Mundial? Nem pensar! Por isso, tal tipo de armas foi proibido. Não é suficiente a quantidade de produtos químicos que os exércitos utilizam na arte de matar, como o napalm, as minas, os desfolhantes, a pólvora, etc. etc.? Não chegam estes? Claro que sim, até porque sob certos aspectos os seus efeitos são muito mais requintados, provocando esgares e gritos de dor e não de alucinados. O que vale é que Deus, Alá, Xiva, e todos os seus ‘comparsas’ são grandes…

E, a propósito disto e para terminar, não resisto a transcrever um excerto do livro de Norman Dixon, “A Psicologia da Incompetência dos Militares”:
- «O serviço militar trás consigo muitas privações. A boa comida, o lar, o conforto, a segurança, a vida em família são sacrificados à luta contra um inimigo para o qual muitos dos combatentes sentem pouca animosidade. É dentro deste contexto que eles são obrigados a violar o Quinto Mandamento. Se obedecerem a este comportamento não-cristão, serão recompensados; se desobedecerem, serão punidos. Cabe aos capelães tentar a reconciliação. A sua função será tranquilizar o rebanho militar, dizendo-lhes que, estando Deus do seu lado, é possível ignorar o Quinto Mandamento enquanto dura a guerra. Como conseguem eles reconciliar isto com a consciência que terão de que, muito provavelmente, os soldados inimigos estarão a ouvir o mesmo discurso dos seus capelães, continua a ser um dos mistérios da mentalidade eclesiástica.»

E da minha, também. Por isso, e pedindo muita desculpa, grito: "porra, porra e mais porra, até nas profundezas do Inferno”. Mas, como João Paulo II acabou com ele, apesar de ser uma obra de Deus, transfiro a minha raiva para o Céu - se é que algum futuro papa não vai proceder também à sua extinção. Até acho que seria uma boa ideia, porque São Pedro já não sabe o que fazer com os milhões e milhões de desalojados que agora batem, cheios de frio, à porta do Céu!

24/10/2013

O CURIOSO MUNDO DOS TUBOS DE ESCAPE HUMANOS

Resultado de um estudo aprofundado sobre as emanações gasosas do tubo de escape dos seres humanos, vulgarmente designado por ânus ou cu, conforme o seu estatuto social.
Este estudo fundamentou-se numa análise superficial, mas verdadeira, realizada pelo meu prezado amigo J.P.B., perito neste tema devido ao seu rubicundo traseiro, que é um manancial de emanações pestífero-gasosas. Obviamente, tal tubo de escape é também pertença de todas as criaturas de Deus, e tem como objectivo expulsar os resíduos do que comem.
Segundo ele, e após um longo e cansativo trabalho de observação, mesmo enquanto descansava das suas lides culinárias e as digeria com evidente satisfação, as  ventosidades anais classificam-se em 3 grupos e 2 subgrupos, a saber:

1º TRAQUE
2º PEIDO
3º BUFA
Por sua vez, esta última subdivide-se em dois tipos:

1º BUFA VOLÁTIL  
2º BUFA MAGNÉTICA

Ao tomar conhecimento desta classificação, de inegável interesse científico, fiquei interessado em investigar mais e, como sempre me interessei pelas Ciências Físico-Químicas e possuir alguma veia poética, sempre necessária quando se investiga temas tão delicados e pungentes como este, atirei-me ao exaustivo trabalho de fazer umas análises sobre o assunto, embora com a modéstia suficiente para não pretender a candidatura ao Prémio Nobel. Assim, e depois de muitas observações em que tive de aplicar toda a sensibilidade do meu nariz, dos ouvidos, e até dos olhos, cheguei às seguintes conclusões:

Conceito geral:

Todas as ventosidades anais são o resultado de reacções bioquímicas provocadas por bactérias, que quando trabalham mal ou fazem greve (também têm direito a isso), desencadeiam autênticos tornados intestinais, constituídos por gases repletos de miasmas corrompidos pela má digestão da paparoca ingerida pelo buraco antípoda do ânus, a que se dá a designação de boca. Esta, como é sabido, tem uma língua que não só ajuda a deglutição, como intervêm na fala e ainda serve para lamber coisas como as convexidades de um gelado ou as concavidades mornas e húmidas de certas fissuras mais ou menos saborosas.
Como primeiro resultado da produção gasosa, temos a dilatação da cavidade abdominal que se transforma numa espécie de bombo que rufa com diversos timbres e intensidades, numa sucessão de compassos diferentes que, sem ofensa a esses geniais compositores que tanto admiro, fazem-me lembrar os ritmos de Stravinsky ou as harmonias de Prokofiev.
Esses miasmas corrompidos pela fermentação da caca, passeiam em voluptuosas ondas no intestino grosso, facilmente sensíveis no ventre do possuidor e nos dedos do apalpador. Este último, se tiver uma certa intuição musical, conseguirá até extrair alguns sons que poderá aproveitar para uma futura sinfonia, se carregar em diversos pontos do abdómen e com níveis de pressão diferentes, tal como num piano.
Às vezes, tal como donzelas púdicas, vão fugindo à apalpação, o que provoca doces melodias como que emitidas por fagotes dentro de uma caverna cheia de diarreia.
Mas, como nada nem ninguém gosta de estar preso, o momento culminante, e por vezes dramático, aproxima-se: as ventosidades, até aí vogando num grande espaço, vão ser obrigadas a passar pelo apertado buraco do tubo de escape, o tal designado por ânus ou cu. De notar que o referido tubo não possui a característica panela de escape dos automóveis para reduzir a intensidade dos ruídos que vão acompanhar o autêntico furacão de miasmas fedorentos que se aproxima, capaz de fazer fugir um furão, no caso de se tratar de uma bufa.
Chega assim o grande momento: a largada com a consequente emoção do que virá a sair. Conforme a pressão interna, variável segundo as reacções bio-químicas ocorridas, ou sai traque, peido ou bufa numa das suas divisões, pertencentes ao domínio da Física, e que serão explicadas a seguir.
Consideremos, então, os possíveis efeitos que cada um dos três tipos irá provocar:

1º O TRAQUE.

Possuidor da maior intensidade sonora do grupo, e preenchendo vários graus da escala musical cromática, a nota produzida tende sempre para uma tessitura aguda, com valor metronométrico geralmente muito curto. Possui, também, a subtil propriedade de subir ou descer na escala musical, raramente mantendo a mesma nota.
Por sua vez é muito pobre de odor, que pode até ser nulo, mas provoca uma grande inquietação na pessoa que o imite quando está acompanhada. Assim, se está sentada, obriga as nádegas a uma dança sincopada, tentando demonstrar, inutilmente, que foi a cadeira que rangeu, já que o seu pudico cu jamais emitiria tão incomodativo sinal de alerta.
Se está de pé, é com os sapatos que dança, o que é mais natural, tentando a obtenção do mesmo efeito mediante uns passos da antiga dança chamada raspa.

2º O PEIDO.

Segundo na escala natural das ventosidades anais, o peido revela-se como um ente mais discreto no que respeita à acústica, mas revela um odor muito característico. Como sempre a mãe Natureza não desperdiça energias. Assim, quando ultrapassa a saída do tubo de escape, provoca uma estranha vibração entre as nádegas, semelhante à nota mais grave de um contra-fagote, e que obriga a pessoa que a emite, a uma ligeira mudança de posição se está sentada. Porém, se está acompanhada por pessoas que não sejam muito íntimas, cora um pouco e tenta disfarçar, atirando com a velha desculpa de que os esgotos não estão a funcionar em perfeitas condições. (para si própria sabe, evidentemente, que se trata do seu esgoto) e, se tem a sorte de estar presente um cão, é óbvio que as culpas vão logo para o inocente animal que, no mínimo, será classificado de “inconveniente”. De qualquer modo o peidorreiro fica inquieto, e, se percebe pelos movimentos e ruídos internos do baixo-ventre que outro peido luta pela liberdade, o melhor que tem a fazer é ir soltá-lo na casa de banho. Mas antes tem o cuidado de informar que está com uma pequena indisposição, e solicita que suspendam a conversa até voltar. Amaldiçoando o inoportuno peido, mas aliviado de o ter parido sem afectar os nervos olfactivos dos outros, retoma a conversa antes iniciada, assumindo um ar de que nada de anormal se passou.

3º A BUFA

No que respeita ao odor, é a mais espectacular, fantástica, conspícua, aterradora,  
avassaladora, dramática, agressiva, acutilante, e mais todos os adjectivos do género que se possam aplicar a semelhante fenómeno. Na verdade, tudo que se possa dizer fica muito aquém das pestilências emitidas pelos miasmas super fermentados que fluem, algumas vezes, na forma líquida, emitindo, neste caso, um ruído semelhante ao vapor de água fervente saindo do bico de uma chaleira.
Mas, e isto é que interessa, façamos a análise da sua física gasosa e, principalmente, os efeitos produzidos numa sala onde, para além do bufador, se encontram outras pessoas, um cão, um gato, plantas e moscas.
Tudo começa com um estranho calor que aflora as bordas do cu, provocando no peidorreiro a necessidade de levantar uma das nádegas. Tenta apertar a ventosidade que se aproxima com desesperadas contracções dos esfíncteres anais, o que provoca uma dança de cu, muito diferente da erótica dança do ventre, como se tivesse uma almofada eléctrica por debaixo das nádegas. Mas a bufa é dinamicamente muito mais forte e, assim, abrindo as goelas que a mantinha presa, eis o monstro que sai, subrepticiamente, produzindo apenas um delicadíssimo e suave suspiro, que se transmite à boca como um eco de alívio e o pensamento de: já está!
Depois, tudo parece calmo como os momentos que precedem um furacão. Mas, passados poucos segundos ela aí está, Sua Majestade a BUFA, rainha dos ares pestilenciais e de todos os esgotos do Universo.
A primeira reacção das suas vítimas quando aquela manifestação gasosa invade as fossas nasais, é a palidez. Depois o ar torna-se amarelo e a seguir verde, misturando-se em matizes azul-acinzentados, como os gases pestíferos emanados pelos milhares de cadáveres putrefactos que descem as barrentas e lodosas águas do rio Ganges. Por sua vez o cão começa por farejar o monstro, mas logo a cauda recolhe-se entre as patas traseiras e, com olhos humildes, tenta explicar que não foi ele! Seria incapaz de fazer semelhante coisa! E, no cúmulo do desespero, desata a uivar com uma intensidade capaz de ser ouvido pelos seus ascendentes lobos na Serra da Estrela.
E às plantas, o que é que lhes acontece? Privadas quase instantaneamente de clorofila, as folhas amarelecem e pendem exangues ao longo do caule, perguntando às suas flores já murchas, porque raio a sua semente não foi germinar em cima de um cagalhão deixado por algum herbívoro. Teriam adubo grátis e do melhor.
Quanto às moscas, esperneiam aflitas no solo, amaldiçoando o inventor de semelhante insecticida. Ao menos com os outros, produto da crueldade humana, morrem perfumadas. Sempre é um pouco melhor!
E, a terminar, façamos uma rápida análise das duas variedades com que Sua Majestade a BUFA se pode manifestar, e que são mais destrinçáveis quando andamos na rua.

a) BUFA VOLÁTIL:

Trata-se da bufa que nos larga rapidamente conforme vamos andando, deixando para os que vêm atrás a horrenda tortura de a suportar.


b) BUFA MAGNÉTICA:

Muito territorial e amante do seu produtor, esta variedade persegue-nos durante um certo tempo, num adeus triste e apaixonado, mesmo que estuguemos o passo e sacudamos as saias ou as calças. Os nossos pensamentos baralham-se, e clamam: 'mas porque é que esta gaja não me larga?'

E são estas as conclusões a que cheguei após o doloroso, mas apaixonado, estudo científico a que dediquei muitas noites perdidas, atascado de feijões, favas e outros explosivos legumes, regados com a indispensável e gasosa cerveja.
                                                                               
Nota final:
Tendo comido, depois do referido estudo, um desses característicos queijos da Beira Baixa, tão saborosos como fedorentos, cheguei à conclusão que o seu odor se mistura numa mescla grandiosa de perfumes nauseabundos, capazes de fazer disparar os disjuntores da instalação eléctrica. Felizmente, quando os emiti, tratou-se de peidos e não de bufas. Neste último caso teria sido a hecatombe universal!
Por isso, sugiro à Comunidade Europeia que recomende a colocação nas embalagens do citado queijo o seguinte aviso: «COMA, MAS NÃO PEIDE!»
Mas, por outro lado, esta recomendação poderia provocar incómodos patológicos nos cumpridores, já que, como dizia a minha avó e confirmava a minha tia, 'um peido bem tirado é porco, mas alivia!' Que fazer, então? Não sei! Os políticos, senhores do mundo, que resolvam.
Assim, neste mundo de trampa, e democraticamente falando, digo: cada qual que se desenrasque e não chateie os esfíncteres anais com esforços inúteis. Os outros que se lixem porque, no fim de contas, as ventosidades anais deveriam ser Património Imaterial da Humanidade. Problema para ser resolvido pela UNESCO.
                                          …………………………

Este estudo foi realizado por João Daniel Maia Saturnino no ano da Graça do Senhor de 2010, ao qual agradece o “engenho e arte” com que foi bafejado pelo seu Criador. No fim de contas foi Ele que tudo criou, não tendo olvidado, na sua infinita sabedoria, a importância que tiveram, têm e terão até à eternidade, as tão mal amadas, mas também famosas VENTOSIDADES ANAIS.

AMEN.

Amadora, 21 de Outubro de 2010.

                                                    Visto da

                                SANTA E GERAL INQUISIÇÃO.

                                                Nihil obsta

                                           (IMPRIMATUR)


24/08/2013

O FEÉRICO MUNDO DOS “POPóS”

Prosa satírico/realista escrita depois de mais uma leitura dos poemas ‘Manucure’ e ‘Apoteose’ de Mário de Sá-Carneiro. Peço desculpa à sua memória e a todos os admiradores do grande Poeta, por algum eventual plágio.

Nunca senti o chamado prazer da condução. Para mim trata-se de um autêntico frete, que reconheço tratar-se de uma excepção. Mas, como útil que é, também tenho automóvel, embora o considere meu escravo e não o inverso. Tanto se me dá que esteja à chuva como ao sol. Quero-o simplesmente obediente e que não me atazane a vida com avarias.
Porém, o meu gosto pela mecânica levou-me, muito cedo, a conhecer o funcionamento dessas máquinas. Mas, foi no norte de Angola, quando cumpria o chamado serviço militar obrigatório que, utilizando a teoria, conduzi por curiosidade um camião e comecei a fazer alguns “passeios” de jipe até às fazendas vizinhas pelas picadas existentes naquelas inóspitas paragens. Como é óbvio não havia polícia de trânsito (os polícias éramos nós) e o comandante da companhia, um capitão miliciano que declarava, corajosamente que “se estava nas tintas para a puta da guerra”, tal como todos nós, não se incomodava com os meus talentos automobilísticos sem carta de condução. O que era preciso era esperar que os dias passassem depressa, para mandar a África, Angola e a guerra para longe das nossas 'cacimbadas' cabeças.

Foi só depois do regresso à “Metrópole”, como o Governo e os seus lacaios militares da época “aconselhavam” que se designasse Portugal continental, que o meu pai quase me obrigou a tirar a carta de condução. Foi em Janeiro de 1969. A experiência adquirida com o camião e o jipe, permitiram-me tirar a carta em dez lições e fazer exame num “carocha” de três velocidades. Aliás, o examinador não me deixou passar da segunda e, após duas voltas a esse monumento à crueldade que é a praça de touros do Campo Pequeno, fiquei aprovado. E lá veio a prenda: um ‘Hilmann Himp’ oferecido pelo meu pai que, passado o primeiro entusiasmo, passou a ficar à porta de casa enquanto ia e vinha de transporte público para a Emissora Nacional para a qual tinha entrado meses antes.

Hoje, passados quase quarenta e cinco anos, e quando conduzo apenas o necessário graças à situação de reformado, sinto-me como um operário (agora diz-se trabalhador) numa linha de montagem. Em vez de enfiar parafusos em porcas, numa sucessão de cópulas intermináveis, acelero, travo, piso a embraiagem enquanto meto mudanças e olho para os rotineiros semáforos nas suas vetustas cores, na sua ordem sempre igual por causa dos daltónicos, embora haja quem não seja do Sporting ou do Benfica, e continua em frente, pensando que os que ficaram para trás não passam de uns pobre idiotas cumpridores do código da estrada.

E continuo guiando, desejoso de chegar ao destino e descansar do frete, como aquele que se faz à velhota do lado que, com todo o direito, precisa de assistência social, e julga ter ainda um corpo atraente graças a uma dúzia de operações plásticas que realizou, e lhe permitem ter as mamas plastificadas e a pele repuxada em todos os sítios devido à arte que os cirurgiões plásticos possuem, em alguns aspectos parecida com a dos fabricantes de enchidos. É claro que isto é só para as velhas ricas, como uma tal 'Lili das Canecas', que gostam de exibir os remendos nas revistas dedicadas a esse tipo de gente e a outras falsas celebridades. 

Entretanto, os meus olhos rodopiam olhando o exótico mundo que me rodeia. Reparo num já raro condutor de chapéu, e recordo o conselho do meu pai, depois repetido pelo instrutor das dez lições: "cuidado com os condutores de chapéu; e, quanto aos de boné, fuja deles".
Esquecendo esses já raros espécimes, até porque “é dos carecas de que elas gostam mais”, presto atenção ao carro da frente, normalmente conduzido por uma mulher (perdoem-me este antiquado machismo), que trava por tudo e por nada, ou desce uma rampa sempre com o pé no travão. Talvez seja accionista dos fabricantes de pastilhas de travagem ou ignore, o que é mais provável apesar das múltiplas lições a que hoje os condutores são sujeitos, a função inversa das caixas de velocidades. Seja como for, consegue dar cabo dos nervos de quem vai atrás, que não sabe se travou por emergência ou porque tem um tique nervoso na perna direita, que produz um bailado descompassado no respectivo pé.
Mais à frente, uma fumarada negra invade os meus pulmões e reduz o horizonte que os meus olhos ávidos de espaço procuram. São os restos de um automóvel, outrora o encanto do primeiro dono, que ainda consegue andar poluindo tudo e todos, embora aprovado na inspecção e passando nas barbas da Polícia de Trânsito que finge ignorar a poluição, como ignora, aliás, o barulho dos escapes propositadamente rotos, a que se junta a barulheira da maioria dos motoqueiros. Alguns desses condutores, não satisfeitos com o ruído produzido pela cloaca do motor, ainda acrescentam um infernal “pum-tchim-pum”ou “pum-pum-pum” continuamente repetidos, para afirmar a sua “personalidade” e mostrar que “gosta” de música. É o inato exibicionismo humano. 
E lá vai ele, ultrapassando tudo e todos em manobras arriscadas, contente de ter nascido apenas para possuir a máquina dos seus sonhos e mostrar, pelo menos nesse campo, que é um génio. 

Mas não é só nos carros velhos que se revela esta faceta da mentalidade humana. Naqueles, normalmente vai um pobre diabo cuja única ambição na vida foi ter um automóvel com uma ruidosa aparelhagem e não arranjou dinheiro para mais. Nas carripanas novas topo de gama, muitas vezes adquiridas a crédito por pessoas pouco endinheiradas ou a pronto pagamento pelos novos-ricos que, à custa da política, burlas e corrupção, abundam em Portugal, o que interessa é exibi-las aos vizinhos com vetustas cores ou, o que é melhor, passear ante os basbaques num descapotável com 'frente agressiva' e, de preferência, com uma 'boazona' ao lado. Depois é estacionar a maravilha em frente de uma esplanada, logo a seguir a um sinal de paragem proibida e, enquanto bebe um copo, olhar embevecido para o “popó”, tentando chamar a atenção para o facto de que aquela coisa é dele.

Mas existem também os grandes usuários do vernáculo vicentino. Tudo é motivo para qualquer género de insultos, seja por causa de uma buzinadela ou por um sinal de luzes. Esses são os campeões dos complexos de inferioridade, a que alguns juntam as tradicionais “caralhadas” aliadas à classificação da mãe do outro como trabalhadora da mais velha profissão do mundo. Mais adiante um carro pára e desafia o condutor como um forcado (essa disparatada herança marialva) faz a um touro. E, das duas uma: ou o “touro” é mais forte, quanto mais não seja pelo volume físico, porque os cornos não se vêm, e o primeiro foge, ou dá-se a situação inversa e assistimos a uma cena das simpáticas e cordiais relações humanas. 
Chego, então, a um cruzamento onde, por vezes entre uma multiplicidade de sinais que quase nos faz parar para destrinçar uns dos outros, há um que informa que não tenho prioridade. Porém, da esquerda surge um cidadão cumpridor que, não tendo uma sinalização contrária, provoca a conhecida dança de “ó passas tu ou passo eu”. Isto no caso de ser educado. O mesmo se passa com o sinal “stop”, o mais disparatado sinal de trânsito que existe. “Mesmo no deserto stop é para parar”, mostrava um antigo anúncio. Mas, parar para quê quando, na maior parte das vezes, a visibilidade para os dois lados é total? Qual é a diferença entre o “stop” e o sinal que indica perda de prioridade e quem é que decide entre um e outro? O mais divertido é que é considerado uma infracção muito grave que quase ninguém respeita, incluindo eu. Nem a própria Polícia, posso testemunhar.

Mais adiante chego a um entroncamento e, devido ao respectivo sinal de perda de prioridade, espero que um carro que vem da esquerda passe. Mas ele é conduzido por um egoísta que vira à direita sem fazer o respectivo sinal, o que me permitiria não ficar à espera que sua excelência passasse. 'São feitios', como dizia Raul Solnado. Falta de educação e de civismo, digo eu.
A seguir deparo com outro um cruzamento sem qualquer sinalização, e começa outro tipo de bailado por causa de outro absurdo: a prioridade à direita, patetice existente em Portugal como em quase todos os países, em que a condução se faz pela direita. Senão, analisemos apenas os factos: conduzimos do lado mais afastado da viatura e podemos ter um passageiro ao nosso lado a tirar-nos a visibilidade, e quando surge um carro da direita, este apresenta-se com um ângulo mais pequeno do que os que vêem da esquerda, com a consequente diminuição do ângulo de visão e do tempo de reacção. E ainda outras conclusões lógicas que não vou citar aqui, mas que qualquer simples análise das várias situações consegue demonstrar. Curiosamente, nos países onde se conduz pela esquerda (caso dos ingleses que estão sempre ao contrário do resto do mundo) a prioridade é também da direita. Desta vez até estão certos.

Mas toda esta bizarria desaparece da minha cabeça, quando um festival de luzes desperta os meus olhos, já fatigados de tanta beleza mas cautelosos. É a emoção completa que me faz esquecer o cansaço e o aborrecimento, ao ver os novos popós com desenhos luminosos dos mais diversos feitios, apregoando aos outros condutores criancices do género “o meu é mais bonito que o teu”, ou “o meu parece uma árvore de Natal enquanto o teu se assemelha às estátuas cobertas de crepes na chamada Semana Santa". Ó feéricas luzes que excitam, que embriagam, que resplandecem, rodopiam e começam a faiscar nos meus óculos de lentes progressivas. Como as minhas retinas ficam impressionadas e enviam as suas espectaculares mensagens para os meus neurónios ávidos de beleza.

Mas, agora já é noite e começo a pensar em pôr óculos escuros para não ficar encandeado com os modernos faróis de luz branca azulada que dificultam a admiração provocada pelas traseiras radiantes de luzes vermelhas com os mais diversos desenhos, tornando mais eróticos os rabinhos alçados dos automóveis actuais. E aquela placa horizontal, que mais parece um porta-malas apropriado para transportar os grandes baús que as antigas criadas de servir traziam da província para a capital. Chamam-lhe “ailerons”, como se fossem muito funcionais a velocidades que não podem exceder os 120 quilómetros por hora. Mas imitam os carros da fórmula-1, e isso é que importa. Mas nesses, as tais placas são grandes e móveis, como nos aviões, o que justifica a sua existência.
Mas, olhai senhores, e vejam aqueles conduzem pelo meio da auto-estrada de três faixas, o que até está certo. Nas bermas existem placas que dizem: circule pela direita. Ora, como numa auto-estrada ninguém pode andar em círculos, cada qual pode utilizar a faixa que mais gosta. Por isso, ultrapassa-se pela esquerda ou pela direita, já que eles não saem da faixa central, por mais sinais que lhes façam.
Tudo isto acaba por se tornar num turbilhão onde a fronteira entre normal e psicopata se desmorona. Chego a pensar que sou um pobre idiota por não partilhar tão feérico mundo. Breve começo a falar sozinho, aumentando gradualmente a intensidade da voz: "Ei lá! Olha para aquele carro". É velho mas exibe o tal porta-malas acrescentado e bem levantado que lhe dá, julga ele, toda a segurança necessária para desafiar tudo e todos. "Oh! Cuidado!" Um pouco adiante segue um descapotável com o condutor de óculos escuros afirmando a sua personalidade, aumentada pelo bailado aerodinâmico dos cabelos ao vento da mulher ou da amante que vai a seu lado. Não é preciso ter cabeça. O que é preciso é ter automóvel e afirmá-lo perante a sociedade. 
Mais longe aparece um carro vermelho, outro amarelo gema de ovo, ou ainda um de cor verde de alface cediça. E, também um grande carro de luxo, possivelmente pertencente a um político qualquer, enriquecido pela corrupção e compadrio, ou a um honrado cidadão, coisa que, afinal, ainda existe. Adiante, a pouca distância de um sinal vermelho, um paranóico da velocidade acelera a fundo para logo travar perante o semáforo já pouco antes avistado. Agita-se, enervado, à espera do sinal verde para ser ele o primeiro a arrancar. Deixa traços de pneus queimados no asfalto, mas queixa-se do preço da gasolina, dizendo que é impossível viver assim. Até está certo. Tenta compensar as suas frustrações pela libertação de uma energia cujo preço é superior aos rendimentos que consegue auferir. Que interessa a família? O importante é exibir o automóvel e libertar através dele as energias, as frustrações e os complexos do dia-a-dia. Já que não consegue que lhe ponham umas dúzias de virgens à disposição, usa o pé como substituto.

 Ai! O tipo acabou de bater na erótica traseira do que ia à frente. Pás, catrapás, crac, croc! E começa a trágico-comédia do costume. Mas, que importa? O outro é que é sempre o culpado e a companhia de seguros é que deve resolver o assunto porque, como dizia aquele antigo anúncio (depois proibido): “E agora? Bate-chapas e tintas Robbia…crac”! 
Mas, se entretanto chega a Polícia, a cena torna-se mais demorada, embora plena de beleza. Depois de lerem e relerem as papeladas, palavreado cruzado e perguntas inúteis, os agentes curvam-se para medir, com vetustas fitas métricas, as posições em que ficaram os 'popós'. É o momento solene em que exibem toda a épica majestade dos seus traseiros, em posições iguais às dos Alemães quando perderam a guerra.  

Não tem fim a maravilha!!!

Quase em pânico chego ao destino e tento esquecer e libertar-me daquele mundo louco. Deixo a carripana no primeiro local que encontro, ao sol ou à chuva, sem voltar a olhar para ela, tique que a maioria dos homens tem. 
Ah! Finalmente estou na paz da minha casa, e procuro esquecer todo o apocalipse que me rodeou. Mas não! De súbito, os vidros das janelas vibram por causa de um “pum-tchi-pum” que vem da rua, enquanto os anúncios na televisão apresentam as novas maravilhas no que respeita a popós. Venha ver o novo “cadilata” agora com novo motor que debita muitos cavalos e éguas, de milhares de centímetros cúbicos de cilindrada, computador de bordo, ar condicionado, espremedor de frutas, fornecimento automático de preservativos, pensos higiénicos, sanita para casos urgentes com limpa-ânus e piaçaba eléctricos, máquina de barbear, depilador, vibradores de vários tamanhos e sabores etc. etc... E que até anda, consumindo apenas “n” vírgula nove litros aos cem. Além disto temos ainda alguns extras interessantes que, por uma módica quantia, podem ser adicionados como, por exemplo, um pneu sobresselente para o caso de ter um furo. Visite o nosso concessionário onde poderá adquirir o novo”cadilata” para embasbacar os vizinhos, apenas por noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove euros e noventa e nove cêntimos, ou em suaves prestações de uns míseros noves vírgula noventa e nove por mês.
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Depois de umas cervejinhas, deito-me e adormeço após um maior ou menor tempo de leitura. Mas, e talvez por culpa da cerveja, tenho um pesadelo:
Luzes às cores em desenhos feéricos e garridos, rabos alçados, porta-malas vistosos ridiculamente aumentados pelos chamados tunings, cabelos ao vento loiros, pretos, ruivos, azuis e mais cores das tinturarias, carecas luzidias, pum-tchi-puns que nos dão murros no estômago, motoqueiros ruidosos e soberanos da estrada, fumos pretos, cinzentos, brancos perfumando o ar com os odores dos combustíveis....

- Acordo, mas volto a dormir, desta vez acompanhado por um pesadelo pior: 
e a carente vizinha do lado aparece-me com ar sarcástico ameaçando-me com uma espécie de moca, enquanto berra: “O que é que você, tão velho quanto eu, quer? Olhe, sua espécie de castiçal murcho. Comprei isto!”.  E mostra-me um VIBRADOR!!!
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“Ao ver escoar-se a vida humanamente,
Em suas águas certas eu hesito,
E detenho-me na torrente
Das coisas geniais em que medito”

‘Mário de Sá-Carneiro’