30/09/2014

O TERCEIRO SEGREDO DE FÁTIMA

                   
Nota preliminar  
                                                                                   
Os textos que se seguem foram transcritos para computador por João Daniel G. Maia Saturnino a partir de fotocópias dos manuscritos do seu autor, que no início de cada uma das duas partes diz chamar-se Edgar de Vilas Boas Veloso Leite e que as assina de modo pouco legível.
Foram respeitadas, dentro do possível, tanto a disposição gráfica como a ortografia originais. 
O transcritor informa que não conhece o autor, nem se lembra como as referidas fotocópias chegaram às suas mãos. Esclarece, contudo, que está completamente de acordo com o que está escrito e aproveita para felicitar o autor, um dos poucos com coragem para desafiar essa sinistra instituição chamada Igreja Católica Apostólica Romana que, como as outras religiões, é alimentada pela crendice humana que cega até as maiores inteligências. Quem estiver interessado nestes mitos, e na posição agnóstica do transcritor, poderá consultar alguns textos sobre o assunto no seu blogue que tem por título “O Suplício do Disparate”.
Por outro lado dá os seus parabéns ao autor pela interessante e sarcástica mistura de palavras eruditas com termos de gíria, o que provoca um franco sorriso, apesar da importância do tema abordado. 
Aproveita ainda para dizer que ignora as referências bíblicas indicadas no nº2 da Iª parte.
Quanto ao Cardeal Marcinkus (nº8 da 2ª parte) esclarece que se trata de Paul Casimir Marcinkus, norte-americano de origem lituana, que protagonizou um dos maiores escândalos financeiros da década de 80 do século passado. Ligado à máfia siciliana, calcula-se que tenha desviado mais de mil milhões de dólares para “paraísos fiscais” e outras situações que se desconhecem. Foi sempre protegido pelo Papa João Paulo II, sob o pretexto de imunidade diplomática! Ficou conhecido pela alcunha de “ O Banqueiro de Deus”.
Para mais informações procurar o nome Marcinkus na internet.

                   Amadora, 24 de Setembro de 2010 *
                                O transcritor:
                   João Daniel Gomes Maia Saturnino

Segue-se o texto original.

***
  
Edgar de Vilas Boas Veloso Leite                Barros Brancos, 8/5/2000
Nº 266- E. n.125-8400-453                           Lagoa
Porches

                           Revelação do terceiro “Segredo de Fátima”
                                                 - Outras Verdades -

Parte 1ª:
                         1. Deus, afinal, não é tão poderoso como se diz. Precisa de segredos. E precisa dos seres humanos para os guardar, a fim de poder continuar a “existir”. A Igreja Católica ao protagonizar e promover o mais descarado exemplo de como invocar o santo nome de deus, em vão – doutrina sua – arvorou-se, levianamente, em guardiã dos “segredos de deus”, e meteu-se numa alhada dos diabos. Não sabe, agora, como descalçar a bota. O inqualificável embuste das “aparições” de Fátima enredou a Católica num labirinto de contradições insanáveis, as quais, apesar dos aturados e sublimes exercícios de congeminência teológica e doutrinária, a cargo de autênticos mestres da lábia e astúcia na arte de baralhar, não encontram saída nem fuga possível, menos ainda explicação racional. A inteligência, bem supremo dos seres humanos normais e livres, não verga, antes repudia, as patranhas intragáveis e o ardil insidioso da agressão absurda dos dogmas e da mentira.

                                                         OS FACTOS: 
                        2. Vamos por partes: a “senhora” de Fátima exprimiu-se em português? No dialecto de Ourém? Mas ela, a ter existido, analfabeta, mãe de 14 filhos e filhas, descendente de três vezes três gerações – Bíblia He 2.1.7. e Me 12. 46.50 – terá vivido 2000 anos antes da era actual, numa altura em que Portugal ainda não existia.
                        3. Só depois de fenícios, gregos, cartagineses, romanos, celtas, godos, visigodos e vândalos – sobretudo vândalos! – nos terem caldeado e, segundo Aquilino Ribeiro,  mestre de português e investigador rigoroso, terem tomado as nossas melhores terras e casas e as melhores mulheres (via sinuosa), deixando para a maralha o refugo da ralé - as feias, as fáceis e as pobres - só depois Portugal se começou a desenhar! Isto cerca de 1200 anos após a “senhora” ser levada no space shuttle “Assunção”. Ora o modo de falar dos tempos da Fundação e mesmo muito depois, era bem diferente do de agora.
                       -“Acudam ao Mestre que matam!”
Em que escola andou ela? No Colégio Moderno?
                       4. A “senhora” mandou rezar o terço?
Mas há 2000 anos o único terço então conhecido, na Judeia, era o terço das coortes romanas, sob cuja férrea lei foram crucificados os três ladrões: O Bom, o Mau e o do Meio!
                                   NA VERDADE:
                        5. Na verdade, as “aparições” foram urdidas e levadas a cabo, de conluio com o pároco, por uma professora primária de Ourém ajudada pelo chulo dela. Estes são os factos por demais conhecidos da Igreja Católica. Há, pelo menos, um livro editado próximo da época, que relata, situa e documenta os acontecimentos da trama engendrada na Cova da Iria. Os historiadores sabem-no. Não falam, porém. Não se atrevem. Por medo, pactuam. Ou porque são sequazes da padralhada e pagos para se calarem.
                        6. Ora acontece que a tal professora primária, com verdade ou sem ela, tinha má reputação e, para a disfarçar, logrou insinuar-se entre os privados do então Bispo de Leiria, um pederasta bastante badalado na região, embora mais comedido que o Cardeal Cerejeira, que esse, toda a gente sabe, foi um paneleiro ardoroso, incontinente e desbragado. Chegou mesmo a zangar-se com Salazar, porque o Salazar gostava de fazer minette. Isto também é histórico. O Salazar, à sua maneira, gostava de mulheres.
                         7. A tal megera primária teve papel importante na morte prematura dos pastorinhos Francisco e Jacinta. Visitava-os com frequência e mantinha-os sob coacção, com o apoio e conluio de Lúcia, já mula sabida, cuja tarefa consistia em corroborar a veracidade da farsa, influenciando e envolvendo os primos em afirmações que convinham à credibilidade da fraude, empurrando-os assim para sessões de violentas e pródigas cargas de porrada dadas pelos pais, pelo regedor, pelo pároco e pelos esbirros do Bispo de Leiria. Os meninos enfardavam que era obra!
Não foi só a tuberculose que os vitimou, não! A tuberculose surge como efeito e desfecho dos insuportáveis maus-tratos e serve de desculpa e encobrimento aos torcionários da Igreja.
Se, de facto, por absurda hipótese, tivesse sido a mãe de Jesus a aparecer àquelas crianças, jamais se poderá pressupor ou aceitar que ela permitisse a tortura ignóbil dos seus interlocutores.
Mas, como pode aparecer o que não existe? A “senhora” era outra, bem mais terrena e maculada!
                         8. Esta é, pois, a autêntica verdade verdadeira da 1ª parte do famigerado 3º “segredo”. A Igreja Católica bate o mea culpa e reconhece que as “aparições” foram uma fraude grosseira e indigna. Trata-se, porém, de uma fraude de sucesso irrecusável, uma verdadeira mina de ouro inexaurível, um manancial magnífico, um rendimento que, embora despudorado, assegura refazer o rombo colossal perpetrado pelo Cardeal Marcinkus do Banco Ambrosiano. Estranho deus e estúpida religião que precisam de usar a má-fé e o logro, para extorquir dos simples, dos pobres, dos deserdados da vida, as esmolas retiradas do magro mealheiro, penosamente guardado para, sob o óbolo da desgraça, ostentarem fausto e opulência!
                         9. É sintomático que as “aparições” e os “milagres” ocorram em países atrasados e miseráveis, económica e culturalmente indigentes. Portugal era, à época, uma nação de mendigos, país exportador de imigrantes analfabetos, exaurido por uma cáfila de safados instalados no Poder e por um esforço de guerra iníquo, que devorou, em terra estranha, os sonhos, as famílias e as vidas de milhares de moços bisonhos, mal equipados, mal preparados e mal comandados. E desmotivados, também. Nem um sequer da corja de pulhas que detinham o Poder, pôs os pés na Flandres ou em La Lys para combater.
Foi neste país desgraçado, num clima vil e mesquinho de chicana política e entre ignorantes, que a Igreja Católica encontrou ambiente para programar, organizar e levar à prática o medonho embuste.
                        10. Por paradoxal que pareça, o panorama não mudou muito. A Igreja Católica nunca beneficiou de tantos privilégios e benesses como agora. As honras, os cargos, as ajudas, os subsídios, as doações, as isenções de impostos, o compadrio e a promiscuidade de poderes nunca atingiram grau tão elevado de desvergonha e escândalo, nem mesmo nos tempos da Ditadura.
A Igreja, em Portugal, tomou o freio nos dentes e possui uma organização tentacular, bem organizada e muito mais poderosa do que 100 Al Capones todos juntos. Os métodos são mais subtis, mais sinuosos, mais maléficos e audaciosos.
Curiosamente, a denúncia de Fátima e do seu pagode, surgiu no seio da própria Igreja, feita por dois homens íntegros e bons: O Bispo do Porto – Bispo do Porto só há um, D. António Ferreira Gomes e mais nenhum – e o padre Mário.
O Bispo do Porto a escorraçar os vendilhões do Templo e a abjurar o infame comércio de Fátima, abjurando-o. O padre Mário desmascarando a cabala e usando a verrina exemplar e admirável da sua frontalidade, ao romper com a indecorosa extorsão aos crentes, perpetrada pela suja súcia do Episcopado e pela voracidade insaciável da Cúria romana.
Mas o dinheiro pode muito mais do que as vozes incómodas de dois Homens honrados, ainda que sacerdotes.
                          11. Os tempos, mesmo assim, são outros. A circunspecção e processos mais racionais deram lugar à hipocrisia de amigo, à humildade simulada, ao discurso ecuménico. Os beleguins do Vaticano sabem que já não podem recorrer aos autos-de-fé. Quando o Papa pede desculpa, está a praticar um exercício de teologia retrógrada, forçada pela evolução que lhe escapa, nunca por convicção ou arrependimento. Verte, apenas, tretas que, por não reflectirem uma contrição genuína, podem considerar-se obscenas, pois não restituem as vidas ceifadas nem balsamizam as torturas inenarráveis dos condenados ao cárcere e às fogueiras; menos ainda devolvem os bens que a Igreja lhes roubou.

                             … Onze vezes de folhas revestida,
                                  Onze vezes de flores adornada,
                                  Onze vezes de frutos carregada,
                                  Te vi, ameixieira, aqui nascida.
                                  
                                  Outras tantas também te vi despida,
                                  De folhas, flores, frutos despojada, 
                                  Pelo rigor do Inverno saqueada,
                                  E a seco tronco toda reduzida.

                                  Também a mim me vi já revestido,
                                   De folhas, flores, frutos adornado,
                                   De amigos e parentes assistido.

                                   De todos eis-me aqui tão desprezado,
                                   Mas tu voltas a ter o que hás perdido,
                                   E eu não terei jamais o antigo estado!

António Serrão de Castro. “ Estendido no potro e atado de pés e mãos, foi-lhe protestado pelo notário”
                              “ que se ele morresse no tormento, quebrasse algum membro, perdesse algum sentido, a culpa seria sua e não dos Senhores Inquisidores que o julgavam ao dito tormento, segundo o merecimento do seu processo”
                    -Episódios dramáticos da Inquisição Portuguesa – António Baião, Presidente da Secção de História da Academia das Ciências de Lisboa. Director do Arquivo da Torre do Tombo -.

                              “ Denunciou tudo. Denunciou todos! Na cabeça do rol, denunciou os próprios filhos!!”
                                 Foram-lhe confiscados os bens. Dos seus quatro filhos, dois foram condenados à fogueira; os outros, entre eles uma rapariga de 18 anos, Teresa de Jesus, assediada e violentada, perderam a razão e ficaram dementes.
Os assassínios, os roubos e os estupros foram de muitos e muitos milhares…
A Igreja Católica é herdeira contumaz desses assassínios hediondos, precedidos, todos eles, de tortura infame. E não tem emenda.
Olhai Pio XII que não foi, pròpriamente, um lírio do campo. Os nossos governantes avalizam e agraciam os perpetuadores dos facínoras e cumulam-nos de distinções e favores. A Católica não mudou. Os tempos é que mudaram.
Porém, a peçonha da víbora continua letal.
                            12. Aproxima-se uma revisão da Concordata. Por quê uma Concordata? Que deve Portugal a Roma? O que é que faz correr o Governo? Que obrigações nos acorrentam? Que direitos especiais terão de ser dados? Porquê?
Os padres não se consideram cidadãos dos países onde nascem. Só invocam a cidadania  para exigirem privilégios  Escapam aos seus deveres quando os interesses do Vaticano falam mais alto.
O descaro é tão acintoso e o topete tão descarado, que os Bispos se atrevem a marcar a agenda e a estabelecer condições prévias para a revisão.
E como temos um Governo jesuíta, teremos de rastejar. É bem verdade, para nosso pesar que, com o PSD, as coisas não nos correriam melhor.
Triste sina a nossa! Perdemos a dignidade. A Comunicação Social do Estado é vomitiva. Vivemos numa Democracia fascista. Todos os desmandos são permitidos, porque são democráticos.
                                     (assinatura do autor)

                                              SAÍU-NOS NA RIFA
Depois de andar,                                                               No céu prometida
De cú para o ar,                                                                 Uma vida simbólica.
A Beijar meio mundo,                                                       E na Terra? Ardida,
É preciso saber                                                                  Porém, mal parida,
O que vem cá fazer                                                           A seca fodida
O Marcinkus Segundo!                                                     Da igreja Católica?

Consolar as freiras,                                                           Bênçãos e Orações
Dengosas, matreiras,                                                         O Papa a rezar,
E, mesmo às feias,                                                            Com fé nos milhões
Num gesto de gula,                                                           Que vem cá sacar!
Por baixo das saias,
Meter-lhes a bula?                                                     Arre, porra, que é de mais:
                                                                           Esta não rima, mas é verdade.
Ou então, maravilha
De Fé, genial!
Inaugurar a bilha                                                       (assinatura do autor)
A um Cardeal?
                                                                                  Barros Francos, Lagoa
O Inferno se lh’abra                                                    8/5/2000
Se ele ainda fode,
Fazer a uma cabra
O que faz um bode!

Ó Deus, se é que sois
E podeis muito mais
Que uma junta de bois,
Que sorte nos dais?                      

                                                 ………………………..

Revelação do Terceiro “Segredo” de Fátima
                                  O “Segredo” – Parte 2.

O terceiro “segredo” de Fátima é um manancial de surpresas, Como se viu, na parte 1ª, a Igreja Católica está a ser compelida a tirar “o véu diáfano da fantasia” e a enfrentar “ a nudez forte da verdade”, ao ter de reconhecer, até ao pormenor mais insólito, as tramas que forjou e que estiveram por detrás do embuste que suscitou e alimentou a crença de que algo de sobrenatural teria acontecido, em 1917, na Cova da Iria.
Nesta parte 2ª do “segredo” o espanto não é menor. Com efeito, o 3º “segredo” contém, no seu epílogo, matéria que abala, profundamente, a hierarquia e ameaça fazer desabar, desde os alicerces, toda a estrutura da Igreja de Roma.
A mensagem expressa no documento escrito com base nas declarações da “vidente” que resta é muito corrosiva e demolidora. Mexe até ao âmago das entranhas –caramba!- com a praxis romana e com a autoridade dos papas, ao ponto de os tribunais pontifícios, depois de haverem decretado o adiamento da revelação durante tantos anos, terem ponderado, muito seriamente, a destruição pura e simples do malfadado testemunho de Lúcia, que mais parece um esquiço dos diabos.
Porém, acabou por prevalecer o bom senso: o parto é doloroso, mas a Igreja jamais poderia ensaiar e muito menos concretizar um aborto em matéria de Fé. Eis, então, como a professora primária de Ourém, o tal vasculho que se entroixou num lençol branco para se fazer passar por santa, encavalitada na azinheira, eis então como baralhou os dados e ditou, para a Lúcia, contar ao “Visconde de Montelo” – na verdade o Cónego Manuel Nunes Formigão – a versão autêntica da mensagem de Fátima: “Que a Igreja Católica, pelo muito que fez sofrer tantos seres humanos inocentes, designadamente índios no Brasil e noutros países subjugados pela ferocidade da Fé imposta aos naturais, nomeadamente pelos missionários que acompanharam Cabral, Cortez e Pizarro e, principalmente, pelos missionários enviados para o continente africano na época dos Descobrimentos e da Conquista, onde mataram, deceparam, queimaram ou, por outras formas desvairadas, sacrificaram e assassinaram os “gentios”, erguendo sarcàsticamente a Cruz e mandando para o Diabo do Inferno os que agonizavam de tormentos indescritíveis, imaginados e perpetrados com o intuito de  fazer prolongar a dor; e ainda pelo envolvimento decisivo da Igreja no saque e na caça às populações nativas durante os tempos da escravatura.
Que a Igreja Católica humildemente implore, a um Cardeal de raça negra ou índia, a aceitação de fazer sair fumo branco da negra chaminé do Vaticano, para o que a Cúria e o Conclave haverão de formalizar convite especial, com a eleição assegurada”.
Este é o tema genuíno da parte 2ª do 3º “segredo” de Fátima. É de embasbacar!
Um índio ou um preto a mandar nos brancos, arianos de raça pura, nazi-fascistas do jaez de Pio XII, é do caneco!
                                                  Será que se atrevem?
Parece que sim. Sabe-se já que a Conferência Episcopal Portuguesa e a sua congénere Torquemada estão de acordo e vão apoiar não só a divulgação do 3º “segredo”, como defender o seu conteúdo “com unhas e dentes”. Esta “com unhas e dentes” foi o que transpirou de “fontes habitualmente bem informadas”, designadamente a Rádio e a TV do Estado.
                                                  É de ficar varado!
Temos Igreja! Habemus Papa!

São insondáveis os desígnios do senhor! Deus é grande! Glória nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade!

                                                    Post Scriptum
Para a Igreja Católica, homens de boa vontade são os do género do Idi Amin, do Bokassa, Mobutu, Salazar, Hitler, Mossulini, Pinochet, Stalin, Mão-Tse-Tung e Pol Pot.
Embora os três últimos suscitem fortes dúvidas ao Papa actual. Mas que o João Paulo I gostava deles, ninguém duvide. Dizem que morreu assassinado pelos Bórgias. Vá!
                                                   
                                                  IMPRIMATUR
                                                  (ass. ilegível)


Nota do transcritor: Segue-se uma fotografia de dois mamíferos ( talvez um bode e uma cabra) a copular, à qual o autor atribuiu o comentário e quadra seguintes:

- Recepção protocolar, infalível, dada pelo Papa, nos jardins do Vaticano a todos os Chefes de Estado e de Governo, Ministros e outros Corruptos notáveis que o visitam. Pelo seu estilo e mais alta posição, se distingue e destaca o Papa do papado. O Papa “confraterniza” muito com todos eles. Ternamente, trata-os por fratelo. Ora:
                                           
                                                Fratelo é sê-lo de irmão feito a martelo,
                                                Bastardo sombrio e difuso, sem contornos;
                                                De incesto gerado em ventre profanado,
                                                Ou fruto dum sublime e valente par de cornos!

                                                                          IMPRIMATUR
                                                                       (assinatura do autor)        
                                                                                           Lagoa, 10/5/2000


*Passados quatro anos após a transcrição deste texto, e não tendo conseguido identificar o autor, resolvi publicá-lo sem a sua autorização. Estou, no entanto, certo que como apóstolo da busca da verdade, compreenderá e apoiará este meu atrevimento se dele tiver conhecimento.
                        


25/09/2014

SE EU TIVESSE NASCIDO PRÍNCIPE

Agora que a conceituada e isentíssima imprensa (também chamada os media), sempre preocupada em noticiar os acontecimentos “importantes” em grandes parangonas, e relegar para terceiro plano factos relacionados com pessoas verdadeiramente dignas de primeira página dei por mim, mais uma vez mergulhado (antes de conseguir adormecer) nas minhas meditações transcendentais, a pensar no que faria se tivesse nascido príncipe.   
Para tornar as coisas mais folclóricas, escolhi para berço, entre as poucas coroas que já restam no planeta, a inglesa. Razões?
Primeiro, por ter sido proprietária do maior império que existiu.
Segundo, por ter tido uma rainha, uma tal Vitória, também imperatriz da Índia, que reinou (mas não governou) sobre todas as suas “quintas” durante sessenta e quatro anos, durante os quais a hipocrisia humana atingiu alguns dos seus múltiplos paroxismos.
Terceiro, porque os “escândalos” que começaram com o pedido da mão (e não só) da Margarida, irmã da Isabel Nº 2, por um “reles” fotógrafo. Para poder penetrar, com rígida nobreza a principesca vagina, foi primeiro promovido a lorde, não se sabendo se as partes “fodengas” foram examinadas por peritos e preparadas para tão colossal como principesco efeito.
Quarto, porque tive notícia que ia nascer mais um bebé real, acontecimento a que já me referi no último artigo.
Quinto, e último, pela embirração biológica que tenho por quase tudo o que é inglês. Não há nada a fazer! São feitios, como dizia o nosso grande e saudoso Raul Solnado.

Divertido, comecei a idealizar o momento em que o espermatozóide de raça real, penetrou o óvulo irrigado de sangue azul da receptora, enquanto os amantes extasiados suspiravam fazendo o menor ruído possível. Receavam que ouvidos indiscretos captassem qualquer som, envergonhados como estavam depois de terem dançado um frenético e ruidoso minuete. Se alguém tivesse dado por tal, não haveria mais nenhuma notícia que coubesse na imprensa, nem que fosse para anunciar o fim do mundo.
Finalmente, depois do embrião se ter desenvolvido naquele útero forrado de seda cravejada de pedras preciosas, chegou o tão ansiado dia da parição.
Fora do palácio, onde o grande e raro acontecimento ia acontecer, uma multidão de imbecis e jornalistas, tinha acampado olhando para as janelas, como se esperassem a vinda de outro Cristo que, mesmo que o fosse, não resolveria nada dos problemas do mundo, tal como o primeiro.
É um macho, é um macho, começou a berrar a multidão ao saber que a nova cria tinha algumas excrescências entre as pernas. Vai ser o próximo rei, porque as mulheres só servem para rainhas quando não há um “piludo” para o efeito, e nós os seus súbditos dedicados e obedientes. E tudo isto 'graças a Deus'; como ele é grande!

Divertido com estes pensamentos, dei comigo a imaginar como seria a minha educação, necessariamente diferente dos outros humanos, já que pertencia a uma raça rara e em vias de extinção. Mas, como todas as crianças, a curiosidade impunha-se às palhaçadas que me obrigavam a fazer (protocolos, chamavam-lhes os meus tutores) e dei por mim, num misto de vergonha e chacota, a ver um filme sobre aquilo a que chamavam 'a coroação da minha mãe'.
Sem ofensa aos palhaços, profissão que muito admiro porque é muito mais fácil fazer chorar do que rir, interroguei-me como era possível uma pessoa sujeitar-se a fazer semelhante figura.
Sentada num cadeirão a que chamam trono, com uma espécie de turbante cravejado de pedras cintilantes, um pau na mão (chamam-lhe ceptro) e uma capa com uma cauda de muitos metros de comprimento.
Com ar aparvalhado, esteve ali sentada durante horas, rodeada por uma multidão, também mascarada, ouvindo os inúteis e hipócritas discursos que alguns vomitavam em adulações e elogios capazes de fazer perder a paciência ao Diabo.
Depois entrou para um coche, puxado por cavalos bem ajaezados e conduzido por criados de libré. Cá fora a populaça, que tanto aplaude um Robespierre, um Hitler ou um Estaline, comprimia-se em delírio, em êxtases, em transe (talvez até com orgasmos) para ver a sua nova proprietária, classificada de 'sua majestade', termo que ainda hoje é usado pela nossa imprensa, sempre subserviente a tudo o que é inglês.
Dentro do coche, a nova dona dos Ingleses, Escoceses e Galeses, mantinha a mão direita levantada, como mandava o protocolo, num gesto de gratidão aos seus súbditos que nem sequer tinham votado para que ocupasse aquele cargo.
(Quando o meu delírio chegou a este ponto recordei o facto de a ter visto em Lisboa quando tinha catorze anos. Para pormenores remeto o leitor para o artigo “O Disparatado Planeta das Falsas Celebridades”, publicado em 23 de Maio de 2011).

Findo isto, resolvi pensar no que faria se tivesse nascido príncipe, herdeiro ou não.
Primeiro teria de cumprir o protocolo, com vista a aumentar, ao máximo possível, os rendimentos que me caberiam por ser tão estudioso e disciplinado. Depois, e isso seria o principal, tornar-me o mais hipócrita possível, tanto nos actos como nas palavras. É uma norma banal felicitar todos os sabujos que, mesmo fazendo figas, aplaudem os seus donos (excepto os cães quando abanam a cauda).
Assistir a recepções, mascarado com uma farda ornamentada de condecorações herdadas de um antepassado qualquer que, por sua vez, as tinha herdado de outro. Viajar tanto pelo país como pelo estrangeiro, sempre com o sorriso protocolar e a mão a acenar à populaça contente de ter nascido só para me ver. “Comer” com os olhos as belas sonhadoras que adorariam que fosse eu o seu príncipe encantado, mesmo que fosse vesgo ou capado. Admirar os vestidos espampanantes e os rostos retocados das muitas senhoras que não aceitam o natural envelhecimento, mesmo que a pele e as mamas tenham sofrido várias operações 'ditas estéticas' (porque será que me lembrei da vila de Caneças?) e já estavam próximas do umbigo.
Enfim: todo um manancial de chatices das quais viria, no futuro, a procurar uma indemnização paga pela cretinice humana.
Para isso teria juntado muitos milhões nos chamados paraísos fiscais, e assim que achasse conveniente, pisgar-me-ia para uma ilha distante, gritando bem alto: "obrigado meu povo, pelas vossas contribuições e impostos. Agora arranjem outro ou governem-se sozinhos!"

Nota: qualquer comentário a este artigo escrito segundo o chamado novo acordo ortográfico, será considerado como tendo erros grosseiros e, como tal, corrigido.




12/09/2014

MORREU MAGDA OLIVERO

Com cento e quatro anos, morreu um dos grandes sopranos do século passado, cuja carreira decorreu, espantosamente, durante cinquenta anos.
Que eu saiba, o acontecimento, quanto mais não fosse pela idade da cantora, 104 anos, passou despercebido nos telejornais.
Em compensação, ficámos a saber que vai nascer mais um “bebé real” e que um tal futebolista do Benfica espatifou o seu 'bruto' carro.
Como não sou antropólogo, gostaria de saber a que raça pertence aquela cria humana, e se vai ser objecto de estudo científico.
Quanto ao segundo caso, confesso que tive muita pena; do automóvel, claro.

Francamente, jamais me entenderei com este famigerado planeta.  


AVIÕES BOMBARDEIROS A COMBATER INCÊNDIOS…E HINO "A CAPELLA" COM ORQUESTRA!

Durante a chamada “época de incêndios” (que não existia no tempo da “velha senhora” em que a maioria dos comboios era a vapor e o português, sempre descuidado, atirava a “beata” pela janela do automóvel), alguns jornalistas resolveram traduzir o nome da firma canadiana Bombardier.
Como alguns desses aviões são utilizados em Portugal contra esse flagelo, passámos a atacar os incêndios com "AVIÕES BOMBARDEIROS”! 
Não há dúvida que, para além da arte do desenrasca, temos inventores excepcionais, como provam os prémios que muitos deles ganham no estrangeiro. Sugiro, até, que aos inventores desses aviões, seja atribuído o Prémio Nobel; ficaríamos com três, o que não era nada mau.
E, já que falamos de incêndios, pergunto: para quando um governo com coragem para ordenar aos militares do exército que façam a vigilância e o combate a esse inimigo interno? É claro que isto é uma utopia. Se fosse assim, como arranjariam tempo para brincar aos polícias e ladrões com os dispendiosos carros de assalto, ou irem ganhar bom dinheiro na Bósnia ou no Afeganistão?

Estava quase a terminar este artigo quando ouvi um dos comentadores do jogo de futebol Portugal vs Albânia dizer, após a execução do nosso hino: "foi fantástico ouvir estes milhares de pessoas cantarem a capella!"
Ora este termo italiano, universalmente aceite, significa cantar sem acompanhamento instrumental, o que não foi o caso. De resto, pergunto como seria possível afinar esses milhares de pessoas para começar todas no mesmo tom, para além da ausência de um maestro que, no mínimo, teria de dar a entrada. E a verdade é que, apesar da habitual desafinação, todos terminaram praticamente ao mesmo tempo.
Mais uma vez, assistimos à mania que alguns apresentadores têm de acrescentar coisas das quais pouco ou nada sabem. Bastava a omissão daquele termo italiano, e tudo teria sido, de facto, fantástico. Excepto o resultado do jogo, claro.

A propósito de acabarem todos quase ao mesmo tempo, veio-me à memória um cartoon parodiando uma banda que tocava num coreto de aldeia: no final, um dos músicos de pé, apontando para uma página da sua pauta, perguntava: “já acabaram? A mim ainda me falta uma página”! 


04/09/2014

PEQUENA ANTOLOGIA DE DISPARATES SOBRE MÚSICA (2ª Parte)

Continuando no mesmo tema, vou contar algumas broncas que, na conceituadíssima Emissora Nacional (a “maçadora nacional” como era designada pelo bom-humor lusitano tão amante de trocadilhos), tive conhecimento pessoal ou foram contadas por colegas mais antigos.
Nesse longínquo ano de 1968, quando entrei para aquela estação de rádio como assistente de programas musicais (não vou referir outra vez os pormenores da minha carreira naquela casa), puseram-me na “onda curta” a responder às cartas dos nossos desgraçados imigrantes, rudes e analfabetos, que tinham partido para França onde habitavam nos bidonvilles. (Hoje não são os analfabetos mas os cérebros que imigram, por sugestão de um coelho que vai marcando os seus passos nos destinos do nosso ditoso País).
Um pouco frustrado com aquele trabalho, para o qual não tinha concorrido mas, naquele tempo começava-se pela base, atendia tentando compreender o “português” rabiscado nas cartas que eram colocadas pelo chefe na minha secretária, os pedidos de transmissão das música que mais gostavam de ouvir. Como é fácil de adivinhar (e estou a fazer História) era o “Fado do Emigrante”, cantado por Deolinda Rodrigues, o mais solicitado. Mas, havia também o “conjunto de Maria Albertina” com os seus êxitos semi-folclóricos mas muito populares e um tal Teixeirinha, músico popular brasileiro que fazia as delícias dos nossos quase escravizados compatriotas em terras da França e da Alemanha. 

Mas, politicamente falando, eram as suas remessas de dinheiro que contribuíam para que o escudo fosse uma das moedas mais fortes de todo o mundo.
Quis o acaso que Salazar fosse atingido por um acidente vascular cerebral (a versão oficial dizia que tinha caído de uma cadeira), cerca de um mês depois de eu ter entrado para a Emissora Nacional. Este acontecimento provocou um reforço da censura, já que qualquer tipo de alusão ao facto, tinha de passar por uma mais meticulosa inspecção dos censores.
Por isso foi publicada uma ordem interna que obrigava os assistentes musicais a ouvirem todos os discos com música vocal, antes da elaboração final do programa. Em caso de dúvida, era necessário o parecer do chefe do serviço, o qual, por sua vez, atirava a “batata quente” para o chefe da respectiva divisão.
Receoso, e sabendo que as culpas caem sempre sobre quem está mais abaixo (tinha aprendido isso na tropa), qualquer palavra ou frase que pudessem prestar-se a trocadilhos, apontava numa folha de papel para submeter à autorização superior que, depois de assinada, me livrava da responsabilidade da transmissão.
Hoje, passados tantos anos, recordo duas que me fizeram rir e que, obviamente, não valia a pena submeter ao exame censório. Não sei se pertenciam a fados, cançonetas ou a “baladas”, fenómeno este que começava a entrar nos meios juvenis contestantes do regime, e que atingiriam o apogeu no programa “Zip-Zip-“ da RTP, já no tempo de Marcelo Caetano.
Uma delas dizia assim: “estive entre a vida e a morte” e a outra, a “melhor” de todas, repisava “vai-te embora António”!
É claro que perante isto, era muito difícil encontrar qualquer letra que o nosso sempre bem disposto povo, mesmo longe da sua terra, não encontrasse qualquer semelhança com a situação de “suspense” que se vivia. Por isso, ficou decidido arranjar as coisas de modo a dar preferência à música instrumental, até que a “crise” abrandasse.

Voltando ao tema principal, e como isto já vai longo, como é meu hábito quando começo a escrever, vou relatar apenas alguns disparates e situações caricatas que ocorreram naquela “casa de doidos”, como era conhecida por quem lá trabalhava.
Com a mania que os Portugueses sempre tiveram de pronunciar os nomes e outras palavras estrangeiras, tentando melhor ou pior, aproximar-se o mais possível da fonética original, quebrando a musicalidade da nossa língua, era frequente ouvir coisas de pasmar; aliás hoje, devido à multiplicidade de estações de rádio e TV, a epidemia tornou-se, dramaticamente, mais virulenta. Ainda há poucos dias ouvi pronunciar o nome da cidade australiana Perth com um sotaque tal, que só depois de perceber que o assunto se referia àquele continente, é que consegui identificá-la como “Perte”. Foi assim que aprendi e que, a meu ver, deve ser pronunciada para as pessoas entenderem. Ou, qualquer dia vamos, também, ouvir London em vez de Londres?
Ora naquele tempo, em que a moda do francês dava lugar ao inglês, agora na berra mas indiferente para os franceses (e não só) que pronunciam Beethoven, Schubert ou Wagner acentuando a última sílaba, como podemos ouvir no canal “Mezzo” (pronunciam mèzô), Mozart era uma das “vítimas” preferidas. Mais valia pronunciar o seu nome à portuguesa que sempre soava mais parecido com o alemão. Mas, isso era revelar uma saloiice imprópria de quem sabe todas as línguas, mesmo que saia asneira; assim, os locutores diziam “môzart” acentuando a primeira sílaba. Mas chegaram a acontecer coisas muito mais espectaculares, como aconteceu com Bizet e Wagner, que foram anunciados como “baizit” e “uogner”!
Casos como este continuam a acontecer nos órgãos de comunicação social, em que topónimos não ingleses são pronunciados como se o fossem; já me referi num artigo anterior a casos como seja a cidade Russa de Irkutsk (grafia latina aproximada do cirílico) ter sido pronunciada como “àrkàtsk” e a ninfa 'Io' ter sido chamada de “aiâu! Também referi que o meu saudoso e querido pai pediu em Espanha uma “escueva” quando, afinal, é escova como em português, apenas com uma pequena diferença de sotaque.  

Quanto aos disparates de português, recordo uma colega jornalista, profissão que inventa, deturpa e exagera na ânsia de espantar e chegar primeiro com a notícia (é óbvio que, como em tudo há excepções) que, referindo-se a uma cantora lírica disse, ao microfone, que ela já desde nova “traulitava” canções! É claro que isto já foi muitos anos depois do 25 de Abril.
Estou a ser muito mauzinho, não é verdade? Mas eu também cometi alguns erros nas centenas de programas que escrevi e procurei aceitar sempre com agrado os reparos e ensinamentos que me fizeram. Errare humanum est, mas a dificuldade em admitir pessoalmente esta máxima, é característica da maioria das pessoas. Principalmente entre colegas de trabalho, onde a inveja, o compadrio e a hipocrisia são rainhas.

E vou terminar com duas pequenas histórias que, se fizessem parte de uma obra teatral, dificilmente teriam acontecido com tanta naturalidade.
A primeira aconteceu comigo. Fui encarregado de fazer a gravação de um concerto dado por um grupo coral feminino, dirigido por um maestro alemão bastante idoso e há muito radicado em Portugal.
Quando entrei na sala onde estava a ensaiar, o coro cantava uma composição inglesa da Renascença que, a certa altura repetia as palavras “fud it”. Não sei se é assim que se escreve (nunca soube o inglês moderno, quanto mais o antigo), mas era assim que soava. E, foi no preciso momento em que entrei que todas aquelas senhoras, cuja maior parte conhecia, repetiam aquelas palavras.
A minha entrada provocou, como é óbvio, que todos os olhares se dirigissem para mim. Como nunca tinha ouvido tanta mulher a dizer semelhante coisa para mim, é claro que comecei a rir, facto que se estendeu a todas elas.
Sem perceber a razão daquela hilaridade porque se encontrava de costas, o maestro parou de dirigir e, no seu português com sotaque alemão, disse não “perrceberr” onde estava a “grraça”, ao que uma das cantores respondeu: "é natural, na sua idade já não consegue ver”!
Uma sonora gargalhada geral seguiu-se a esta resposta mas, como bom alemão que era, o maestro repôs a ordem e o ensaio prosseguiu.
A outra história passou-se alguns anos antes da minha entrada na Emissora Nacional. Foi-me contada e confirmada pelos colegas mais antigos e é do tempo dos discos de 78 rotações.
Estava em moda uma canção chamada “Caminho Errado”, cantada por Luís Piçarra, cuja voz ainda hoje se pode ouvir com frequência cantando o Hino do Benfica.
A letra da canção diz, a certa altura, “eu não sou quem tu procuras”…”nossas vidas vão atrás de uma ilusão, caminho errado”.
Acontecia, e não eram poucas as vezes, que os discos sendo manuseados por vários funcionários, muitos deles desleixados, estavam de tal modo riscados que a agulha do gira-discos ficava presa numa espiral. A solução era um pequeno empurrão para continuar a leitura.
Mas o Diabo (para os crentes) também tem sentido de humor e, daquela vez, “ordenou” que a agulha ficasse presa na palavra "procuras", ficando a repetir “procu, procu, procu...” perante a aflição do locutor.
Mas o Diabo continuava atento e, depois do piparote no braço do gira-discos, a agulha acertou em cheio na espira onde estavam gravadas as palavras “caminho errado...”.
- “E esta, heim?" - Como dizia Fernando Pessa.

27/08/2014

PEQUENA ANTOLOGIA DE DISPARATES SOBRE MÚSICA (Primeira parte)

Foi no início da década de 90 que eu e outro colega fomos encarregados de fazer a revisão do boletim mensal da programação da Antena-2 da RDP.
Só os revisores das firmas editoras e afins poderão compreender quanto exaustivo é este trabalho, tornado, no nosso caso, ainda mais difícil devido à quantidade de nomes estrangeiros, como compositores, intérpretes, etc.
Mas, tanto eu como ele, desde novos habituados a lidar com nomes como Stanislaw Skrowaczewski devido aos discos que possuíamos, e à experiência adquirida após muitos anos na Emissora Nacional/RDP, esse não era o maior problema. Eram as famosas “gralhas” tipográficas que, mesmo após três, ou mesmo quatro revisões das provas conseguiam sempre escapar. E o curioso é que, por vezes, descobríamos a falta de uma simples vírgula, enquanto uma falha de maiores dimensões escapava à nossa argúcia.
E, a propósito: sabem que num exemplar do “Diário de Notícias” do ano de 1968 houve uma “gralha” que deu brado? Foi “apenas” isto: num anúncio que publicitava colchões de molas faltou o segundo “c”!
Procurem na Internet  e encontrarão alguns deliciosos comentários sobre aquela bronca. Mas voltemos à música.
Desde garoto apaixonado pela música dita clássica, séria, erudita ou como lhe queiram chamar (Leonard Bernstein achava preferível apelidá-la de música exacta pois tem de ser tocada exactamente como o compositor escreveu), coleccionava todos os catálogos de discos que conseguia arranjar, e sublinhava as obras que ambicionava ter.
Quando conseguia reunir a quantia de duzentos escudos, preço médio de um LP naquela época, vinha sempre o embaraço da escolha na lista que elaborara. É que, arranjar aquela quantia não era fácil mas, com poupanças como ir e vir a pé do liceu, guardando o dinheiro do autocarro e as “semanadas”, lá ia conseguindo aumentar a minha discoteca.
E, quando fazia anos, tinha sempre algumas prendas monetárias, entre as quais não posso esquecer a da minha madrinha de duche (perdão, de baptismo) que, apesar de “podre” de rica, dava-me cem escudinhos pelo meu aniversário. Não era mau; chegava para comprar “meio-disco”! Mas foi assim que a minha colecção foi aumentando até que, juntamente com discos de 78 rpm (dos tempos de criança) atinge os mil exemplares, todos catalogados e, alguns, autografados pelos intérpretes, o que era fácil de conseguir devido à minha profissão. É claro que com o advento dos CD, a colecção deixou de aumentar.
De vez em quando dá-me para folhear aqueles catálogos, a maioria em francês, alemão e inglês. Como fui sempre avesso às línguas estrangeiras, fiquei, pelo menos, a saber palavras e frases relacionadas com a música nessas línguas não esquecendo, como é óbvio, o italiano, a língua internacional utilizada pela quarta arte. Isto facilitou imenso o trabalho na rádio.
Mas houve quem se atrevesse, sem ter o menor conhecimento do assunto, a traduzir alguns desses catálogos, como demonstra a edição portuguesa da celebérrima editora de discos Deutsche Grammophon Gesellschaft. A impressão foi feita pela tipografia Barreiro-Lisboa em 27 de Setembro de 1957, sendo a tiragem de 3.000 exemplares.
É claro que na altura engoli todos aquelas asneiras mas hoje, com a idade e conhecimentos que tenho, acho melhor classificá-los, contradizendo o título deste blogue, como “A Alegria do Disparate”!
Como seria fastidioso referir todos os erros de tradução, até porque é rara a página onde eles não acontecem, apontarei apenas, os mais conspícuos. Aqui vão.
O mais “clássico”, e que ainda hoje perdura, é “Cavalaria Rusticana”. O saudoso Dr. João de Freitas Branco contava que quando escrevia sobre aquela ópera de Mascagni, era frequente o revisor corrigir Cavelleria par cavalaria, como se o erro fosse dele. A isto costuma-se chamar “ser mais papista que o papa”!
Ora, o nome da ópera é Cavalleria Rusticana”, e nada tem a ver com cavalos. Traduzido à letra, aquele nome significa, aproximadamente, “cavalheirismo rústico”, no sentido de honra e justiça populares.
O enredo é muito simples: um marido cornudo, depois de várias peripécias em que a música simples mas sublime tornou numa das óperas mais populares, mata o amante da sua mulher à facada num duelo sem regras nem padrinhos. É uma história de faca e alguidar, a que, apenas, falta este último.
Continuando a folhear o catálogo, onde a asneira referida não poderia deixar de existir, (Goebels, o ministro da propaganda nazi afirmava que uma mentira muitas vezes repetida, neste caso uma asneira, transforma-se numa verdade) encontrei mais uma espectacular: a Rapsódia para contralto, coro masculino e orquestra, Op. 53, de Brahms, traduzida por “velha rapsódia”!
A ignorância desta tradução é fácil de adivinhar; abreviando o nome desta obra, os alemães costumam dizer e escrever Alt-Rhapsodie em que alt é uma abreviatura de contralto, a tessitura mais grave da voz feminina. Por sua vez, alte significa antigo, velho, o que fez com que quem traduziu, que até podia ser um “barra” em alemão, cometeu aquele erro por se meter em assuntos que desconhecia e, o que é pior, não se preocupou em investigar.

“Carmina Burana”. Esta cantata de Carl Orff é, ainda hoje, mencionada com o artigo definido “A” no início, como se este estivesse implícito. Trata-se de um erro derivado, possivelmente, do facto de as duas palavras parecerem do género feminino. A realidade, porém, é outra. Carmina é uma palavra latina, do género neutro, e no plural. Do singular Carmen vem o termo Carme que significa canto, poema ou versos líricos.
Quanto a “Burana”, provém de Beuren na Alemanha, onde, no convento dos Beneditinos, foi encontrada uma compilação de textos referentes ao modo de vida naquela confraria, feita por um autor anónimo do séc. XIII. Assim, podemos traduzir por “Cantos Buranos” ou, se quisermos manter a designação consagrada (que acho preferível) devemos dizer “Os Carmina Burana”.
Desta vez o tradutor do catálogo não se meteu em aventuras, e manteve o nome como estava no disco. Porém, julgou, certamente, que os nomes das três partes que constituem a obra eram composições diferentes, e relegou “Carmina Burana” para um tipo de letra mais pequeno e entre parêntesis.
Como consequência disto, a distribuição dos intérpretes ficou de tal modo baralhada, que só quem conhece a obra e está dentro do mundo discográfico, consegue perceber.  
Mas, a mais maravilhosa “tradução” constante neste catálogo, onde em cada página se vê que foi feita por quem nada percebia do assunto, é esta: “escravos vendáveis” e, noutra página, “escravos para venda”, são os títulos de uma ária do “Rigoletto” de Verdi. 
Quando, agora, li isto (e fi-lo de certeza naquele longínquo ano de 1957), detive-me por uns momentos, pensando que não estava a ver bem. Mas era verdade!
Nessa época, o que conhecia daquela famosa ópera, eram uns pequenos fragmentos gravados num disco de 78 rotações que ainda hoje conservo. Mas, não foi preciso muito tempo para, depois de ouvi-la e vê-la representar dezenas de vezes, poder dizer que a conheço de fio a pavio. Não como cantor ou maestro, como é óbvio.
Fechei o catálogo e comecei a tentar raciocinar sobre que diabo de ária seria aquela. No “Rigoletto” não há escravos, nem para alugar ou para vender, mesmo a prestações. Onde encontrar, então, uma explicação para semelhante título? Fui buscar o libreto e tentei encontrar algo que pudesse ter dado origem àquela “tradução”. A única hipótese é o dueto final do segundo acto si, vendetta, tremenda vendetta! (sim
vingança, tremenda vingança)! E isto devido à palavra italiana vendetta, ser um pouco homófona de vendável. Mas, nem esta hipótese é parece-me viável, já que o catálogo menciona apenas o barítono Hermann Uhde e neste caso, como dueto que é, falta o nome do soprano. E, mais palavras para quê? Se alguém conseguir esclarecer-me, fico muito grato.
Mas, não se pense que durante toda a minha vida, tanto pessoal como profissional ligada à música, só no referido catálogo encontrei erros de palmatória. Na Emissora Nacional/RDP, também tive de lidar com alguns que parecem anedotas. Mas, isso ficará para o próximo artigo.
Entretanto, não se esqueçam de procurar os tais colchões de molas na internet.

Nota: qualquer comentário escrito segundo o chamado acordo orográfico, será considerado como tendo erros grosseiros e, como tal, corrigido.



11/08/2014

COMO É POSSÍVEL ENSINAR A ESCREVER PORTUGUÊS?

Começo por pedir desculpa aos meus leitores por, mais uma vez, intercalar um texto antes do que prometi dedicado aos melómanos.
Isto deve-se a um comentário sobre o erro que encabeçava o objectivo deste blogue. Obrigado a quem se esconde sob o anonimato, e chamou a atenção para o erro que, e já lá vão cinco anos, tem perdurado desde o início: o correcto (será?) é vêem e não vêm, grafia agora corrigida como o leitor poderá verificar. Mas, vamos ao âmago da questão.

Foi com alguma nostalgia que reli, saltando aqui e acolá, alguns dos romances de Emílio Salgari que fazem parte da minha biblioteca. Não vou falar de Sandokan ou das dezenas de romances de aventuras com que o desditoso escritor italiano povoou a minha infância e adolescência, tal como Júlio Verne. Entre os que possuo, chamou-me a atenção Os Bohemios (sic), a única história divertida, julgo, que Salgari escreveu.
Como a capa estava em muito mau estado, fiz uma fotocópia com que consegui uma nova encadernação, e comecei a folhear, procurando alguns episódios que tanto me fizeram rir há cerca de sessenta anos.  
Bem disposto, acabei por ler a obra na íntegra, e a minha mulher, que não a conhecia, também a “devorou” em dois ou três dias.
A história foi inspirada no livro “Cenas da Vida Boémia” de Henri Murget. O tema focado, como o nome indica, relata as diabruras que um grupo de artistas faz na Itália da segunda metade do séc. XIX.
Puccini escreveu sob o título La Bohème uma das suas mais belas óperas, e Leoncavallo, o autor de I Paliacci, fez o mesmo; porém, a versão deste compositor caiu quase completamente no esquecimento, embora alguns “intelectuais” afirmem que é melhor do que a de Puccini, quanto mais não seja para divergirem da opinião da maioria dos amantes do canto lírico.
A principal diferença de adaptação da história reside no trágico final das duas óperas: a morte da protagonista Mimi, vítima de tísica. Salgari descreve só cenas divertidas e o livro termina com a dissolução do grupo de boémios, sem alegrias nem tristezas.
Voltando ao livro, e justificando o título deste artigo, vou referir três exemplos da ortografia usada nesta edição, que à falta de datação impressa, julgo ser dos anos trinta do século passado. Aqui estão:
Sótam (sótão); rasão (razão); ha (há). E poderia citar muitos mais exemplos.

Em face disto resolvi folhear alguns dos livros de Júlio Verne que possuo, editados pela Livraria Bertrand igualmente sem data, e que também li na minha meninice.
Eis alguns exemplos da ortografia encontrada:
Elle, anno, sciencia, creado, systematico, phylosophia, etc. etc.
E, nem que de propósito, encontrei um prospecto dentro de um dos livros a informar do lançamento de uma nova edição “reimpressa de acordo com a moderna ortografia”.
Ora eu aprendi a ler e escrever pela “Cartilha Maternal” de João de Deus, com lições dadas em casa por uma professora particular, pois passei todo esse tempo quase sempre doente com todas as doenças virais que atingiam as crianças. A única vacina que havia era apanhar a doença o mais cedo possível; só não tive escarlatina, como a minha irmã mas, em “compensação”, não escapei à difteria, que poucas décadas antes era quase sempre fatal.
Será que hoje não reina a mesma confusão provocada pelos diferentes tipos de ortografia que numa criança, ávida de livros como eu era, tinha de suportar?
Uma vez entrado num colégio para frequentar a terceira classe, tive de aceitar o que se ensinava; mas qualquer falha ortográfica era um erro sublinhado a vermelho pela professora, embora o caos ortográfico que reinava na minha pequena biblioteca fosse o responsável por algumas das “faltas” cometidas.

Hoje penso nas dificuldades que os professores de português tiveram naquela época tal como os de hoje! É que tem havido em Portugal várias corjas de vendedores da Língua Pátria que, com o pretexto de irmos atrás do Brasil e das antigas colónias, a que juntámos agora a Guiné-Conacri numa ânsia idiota de manter um império subjectivo, fazem-me lembrar a teimosia irrealistamente histórica de Salazar do Portugal uno e indivisível do Minho a Timor.
E, paradoxalmente, a ideia parte dessa gente que, se por um lado é uma subserviência, por outro tenta convencer esses países a seguirem o mesmo caminho. Basta ver as reticências que, da parte deles, continuam a surgir.
Sei que as línguas não são estáticas e, por isso, as respectivas ortografias vão sendo alteradas. Mas, estar sempre a mudar por dá cá aquela palha, é apenas incentivar ao erro ortográfico, infelizmente tão corrente no nosso País.
No outro extremo estão os Ingleses que, no futuro, talvez venham a ter uma grafia quase ideográfica se não fizerem uma adaptação fonética. Quando tive, por obrigação, contacto com essa língua, ocorreu-me esta sátira que já publiquei num artigo anterior: “escrevem Sebastião José de Carvalho e Melo e lêem Marquês de Pombal!" 
Ou, como diz um professor de Esperanto, "escrevem hipopótamo e lêem jacaré!" Mas isso é com eles.
As consoantes mudas não se escrevem, dizem os autores do actual “acordo ortográfico”. Mas, quando consultamos essa aberração, verificamos que são só algumas. Por uma questão de lógica, acabe-se com o “h” inicial que já existiu, por exemplo, em “hontem”. A verdade é que, na língua portuguesa, não existem vogais aspiradas. Porquê, então, manter o “h” no início de hoje, haver, hora ou humidade? Porque não imitar o Brasil e escrever “úmido” ou propor-lhes o uso daquela letra na mesma palavra e seus derivados? 
Na linguagem do dia a dia dizemos “pâ” (para) “tô” (estou) e muitas outras modalidades que até variam segundo as regiões. Vamos, então, escrever segundo pronunciamos, conforme vemos na Internet o modo como muitos brasileiros escrevem “português”? 

Como já disse, este fenómeno operado por vendedores da língua nacional parece ser endémico, já que não é de agora. Nas pesquisas que tenho feito sobre este assunto, encontrei um guia turístico sobre Portugal escrito em português, francês e inglês. Tem por título “Ensaio Sobre Costumes e Coisas” e foi escrito por César de Oliveira* e ilustrado por Fernando Bento**. A edição é de 1959.
O realismo e a graça com que são retratados o povo, o clima, os costumes e outras coisas necessárias a interessar o turismo que timidamente se manifestava, são aliciantes e fazem o leitor pensar que, afinal, o nosso povo pouco mudou nos últimos cinquenta anos.
A certa altura pode ler-se isto: “A nossa língua é difícil. Mesmo para nós, acredite. Os acordos do idioma com o Brasil só têm trazido como resultado complicar ainda mais, linguisticamente, as coisas. Cá e lá!”
Comentários para quê? Ainda há duas ou três décadas os advérbios de modo cujo radical tinha acento agudo, passavam a ser indicados com acento grave (só, sòmente). A sua omissão foi mais uma dança interminável, também extensível aos acentos diacríticos, que faz com que muita gente, como eu, cometa erros ortográficos como o que constava na informação sobre os objectivos deste blogue. Mas, serão mesmo erros? Em que ficamos, quando a cambada que está por detrás desta palhaçada “consola” os recalcitrantes dizendo (democraticamente) que quem quiser pode continuar a escrever “à moda antiga”?
Por isto tudo, louvo os verdadeiros professores de português que discordam desta lamentável situação. Sugiro, até, que façam uma greve de zelo deixando passar todos os erros ortográficos dos seus alunos.
Quanto aos ilustres autores deste (des)acordo, como sou bem-educado, mando-os apenas bugiar acompanhados por um tal Aníbal que ratificou esta venda da nossa língua. Mas, como sou livre de pensar, lembrei-me de outros destinos mais adequados que, por uma questão de decoro, abstenho-me de indicar.

E a propósito de vender e bugiar: sabem que as Ilhas Desertas, (Deserta Grande, Ilhéu Chão e Bugio) que fazem parte do arquipélago da Madeira (não confundir com as Selvagens que os Espanhóis cobiçam por causa de aumentarem a extensão das nossas águas territoriais) foram vendidas a um casal inglês em 1894 (juntamente com as Selvagens), só voltando todas ao território pátrio em 1971, por um processo de compra?
Ai Portugal, Portugal! Lembra-te que em 2043 vais comemorar os novecentos anos do reconhecimento como nação independente!

*César de Oliveira: acho muito pouco provável que seja o fundador do M.E.S (Movimento de Esquerda Socialista) que nasceu em 1941 e morreu em 1998. Como referi, a edição é de 1959.

**Fernando Bento (1910-1996): foi um desenhador que colaborou, principalmente, no semanário juvenil “Cavaleiro Andante”.
A título de curiosidade, informo que possuo a colecção completa e encadernada (doze volumes) desse semanário nascido em Janeiro de 1951, tendo sobrevivido onze anos.
Se alguém a quiser comprar, informo que não a vendo por preço nenhum!



29/07/2014

“NE, SUTOR, ULTRA CREPIDAM” : SAPATEIRO, NÃO PASSES DO CALÇADO.

Esta frase, latinizada pelo historiador romano Plínio, o “Velho” (23dC-79dC), é atribuída a Apeles, pintor da Grécia Antiga, (352aC-308aC) que tinha por costume esconder-se quando expunha os seus quadros, mas a distância suficiente para ouvir os comentários daqueles que os contemplavam.
Certo dia, ouviu um sapateiro criticar alguns pormenores das sandálias de uma figura presente num dos quadros expostos. Apeles saiu da sombra e fez as emendas segundo os conselhos do sapateiro. Este, porém, resolveu apontar outros defeitos no quadro, o que motivou a resposta do pintor, que hoje continua a ser sinónimo do provérbio que diz, entre várias versões, “não fales ou não opines sobre assuntos que desconheces”.
É claro que a maioria das pessoas não respeita esta máxima. Eu próprio me penitencio porque já o fiz algumas vezes, quanto mais não fosse pelo gosto de contrariar o interlocutor que, por seu lado, fazia o mesmo. Contudo, procuro sempre não entrar em assuntos sobre os quais, infelizmente, pouco ou nada sei como as artes plásticas; ou, se entro, é para aprender com o interlocutor quando este é versado no assunto.

Este artigo já estava preparado há algum tempo, e destinava-se a divertir os melómanos com uma série de traduções que se encontram na minha colecção de catálogos de discos fonográficos. São de morrer a rir e um autêntico “suplício do disparate”!
Mas isto ficará para próximo tema pois, como prometi, vou dar uma explicação à senhora Inês Gonçalves sobre a órbita da Terra. 
É pouco provável que a leia, mas fico, como de costume, com o fígado mais aliviado. 
Antes, porém, quero dizer que sobre este assunto, escrevi há muitos anos para o semanário “Tal e Qual” por causa de uma apresentadora da “SIC” ter dito o mesmo disparate; a este juntei “pérolas” ditas na mesma altura na televisão, tais como ‘a Nova Guiné ficar situada na África’, ‘haver tigres de Benguela’ e, como era Secretário de Estado da Cultura o senhor Santana Lopes, aproveitei para fazer referência à sua extraordinária e mundialmente famosa “descoberta” dos ‘concertos para violino de Chopin’. Aquele antigo semanário deu-me a honra de publicar o meu texto, acompanhado de um cartoon com a legenda “uma coltura de sucesso”!

A primeira das três leis de Kepler diz o seguinte: as órbitas dos planetas são elipses, ocupando o sol um dos focos. Ao mencionar isto não pretendo que todos os que andaram no liceu se recordem daquelas leis espantosamente descobertas pelo célebre astrónomo quinhentista com os meios rudimentares de que dispunha.
O mais provável é não saberem quem foi Johannes Kepler nem o que é uma elipse (não confundir com a elipse gramatical), um dos três tipos de cónicas juntamente com a hipérbole e a parábola. (Não confundir, também, com as parábolas atribuídas a Jesus Cristo e, por favor, não deturpem a palavra cónica)!
O facto mais simples e notório que advém de as órbitas dos planetas serem elipses, é a variação da distância ao Sol que se verifica nas suas órbitas. Como no caso da Terra a variação é muito pequena (cerca de dois milhões e meio de quilómetros numa órbita média de pouco mais de cento e quarenta e nove milhões) a distância, em termos astronómicos, pode ser considerada quase sem variação. Ora o que faz as diferenças de temperatura anuais, bem como a duração dos dias e das noites, é a inclinação do eixo da Terra cuja superfície recebe, por isso, a radiação solar sob ângulos diferentes. O resultado são as conhecidas estações do ano que todos aprendemos em criança e que a maioria das pessoas julga serem extensíveis a todo o planeta, já que as suas mentes não conseguem sair, geograficamente, do local onde nasceram e vivem. 
Se a senhora Inês Gonçalves pensasse um bocadinho não teria dito aquela asneira, uma vez que no hemisfério sul começava o Inverno! Será que, por artes mágicas, a outra metade da Terra estava mais afastada do Sol? E por onde andavam as regiões equatoriais, que não têm estações do ano? Sem comentários!

Mas, falar primeiro e pensar depois (se é que pensam) é uma propriedade inata à maioria dos seres humanos. Muitos animais, como os cães que por vezes rosnam a quem lhes vais dar mimos, ou abanam a cauda e aproximam-se, prazenteiros, para depois levarem um enxerto de porrada de algumas bestas humanas, fazem o mesmo. Mas estes, segundo se diz, são irracionais! 


(Nota: Qualquer comentário escrito segundo o chamado 'acordo ortográfico' será considerado como tendo erros grosseiros e, como tal, corrigido).

13/07/2014


SEGUNDO UMA APRESENTADORA DA RTP, NO INÍCIO DO VERÃO O SOL ESTÁ MAIS PRÓXIMO DA TERRA!

Embora um pouco fora de tempo, não posso deixar escapar mais uma asneira em que os jornalistas são pródigos.

Foi no dia 20 de Junho que Inês Gonçalves, acompanhada por Jorge Gabriel num programa sobre futebol, em vez de se limitar ao evento (o começo do Verão), resolveu acrescentar que naquela data "A Terra  está mais perto do Sol". É um erro muito comum mas, para quem comunica com os outros, principalmente através de um meio tão abrangente como é a televisão, mais vale estar calado do que dizer asneiras; ou melhor, não fazer comentários sobre o que não sabemos, até porque errare humanum est.

É assim que o disparate, esse autêntico suplício, razão primeira deste blogue, vai correndo de boca em boca até se tornar numa verdade. E, assim, a ignorância expande-se depressa, ao contrário do saber porque, afinal, este só interessa a alguns.

No próximo artigo, cujo título será em latim, explicarei a razão de ser daquele disparate. Apesar de não saber aquela língua dita morta, convenhamos que soa a erudição, por mais falsa que seja. E eu, como humano que sou, também gosto de me exibir.

Entretanto, ponho esta interrogação a quem julga que no solstício de Verão a Terra está mais próxima do Sol: como explicar, então, que no hemisfério Sul comece o Inverno?



(Nota: Qualquer comentário escrito segundo o chamado acordo ortográfico será considerado como tendo erros grosseiros e, como tal, corrigido).



09/07/2014

POLÍTICO NA VARANDA...Comentário

Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são 
Só o que passa!
(Fernando Pessoa in “Mensagem”)


Finalmente, aqui está o meu comentário sobre o artigo que publiquei em Abril. Desta vez não vou deixar que a cerveja, a canonização de novos santos ou as asneiras que se dizem na RTP (esta última será o alvo do próximo artigo) me impeçam de cumprir o prometido.

Durante o tempo que levo até conseguir adormecer, em vez de ler qualquer coisa disparatada como a lista telefónica, deu-me, mais uma vez, para folhear o “Resumo da História de Portugal” da autoria de Tomás de Barros, e oficialmente aprovado pelo regime do Estado Novo (edição de 1948).
Comprei-o há poucos anos, juntamente com outros livros escolares da época em que nasci e onde aprendi o que, oficialmente, se ensinava na instrução primária e no liceu.
Eram os chamados livros únicos que depois de examinados e censurados, eram definitivamente aprovados pelo Ministério da Educação Nacional.
Em boa hora foram reeditados para o saudosismo de velhos como eu, para conhecimento da juventude actual (se é que esta quer saber alguma coisa do tempo em que os pais viveram) e, principalmente, para historiadores não facciosos.
A sua leitura é imensamente pedagógica no aspecto em que, se por um lado mostra a realidade da vida portuguesa naquela época onde havia ordem e respeito, por outro, como se contornava e deturpava a verdade histórica, não fosse esta ofender a “moral e os bons costumes”, a doutrina básica do Estado Novo baseada na trilogia “Deus, Pátria e Família”.

Hoje, e apesar da propaganda anti-salazarista primária que surgiu após a revolução de 25 de Abril, e da qual fui um grande entusiasta como quase todos os portugueses, começo a olhar para trás e a compreender porque a História só se escreve anos depois dos acontecimentos e, na maioria dos casos, se repete.

Ao abrir ao acaso as primeiras páginas referentes à Fundação de Portugal, recordei factos que éramos obrigados a saber de cor e papaguear nos exames das terceira e quarta classes, bem como no de admissão aos liceus.
Decorava-se, repetia-se, e nem nos passava pela cabeça imaginar como a trilogia atrás referida podia justificar as lutas entre familiares para alcançar o poder sob a vigilância de um Deus que protegia alguns em detrimento de outros.
Bastava saber de cor nomes, datas e locais e não fazer perguntas incómodas. Além disto, ainda havia a obrigação de decorar as montanhas, os rios e seus afluentes e as linhas de caminhos-de-ferro, tanto em Portugal Continental como nas Colónias e Ilhas Adjacentes. Aliás, era este o título que encabeçava o mapa do Portugal da época, afixado junto ao quadro preto e acompanhado por uma cruz e as fotografias de Salazar e do presidente Óscar Carmona. Vieram, depois, as de Craveiro Lopes e Américo Thomás, mas a de Salazar permanecia como se fosse eterna.
Todas aquelas lutas, fosse entre pais e filhos, irmãos, sogros e genros e outros graus de parentesco, a que se juntavam os filhos ditos bastardos ou naturais, eram “engolidos” com uma única justificação: o nome de Portugal, pátria de santos e heróis cuja História era a mais bela de todas!

Mas se não se podia explicar o que eram filhos bastardos ou naturais, o autor Tomás de Barros arranjou uma engenhosa maneira de contornar a definição de amante. Refere-se ao conde Fernão Peres de Trava como receptante dos favores de Dona Teresa, mãe de D. Afonso Henriques. E sobre estes ou qualquer outro pormenor mais delicado, não havia que fazer perguntas; até porque o professor poderia ficar embaraçado e, na melhor das hipóteses, mostrar apenas a régua.
E, depois, havia os moiros que, não tendo abraçado a fé cristã como os Visigodos, eram classificados de Infiéis. Era motivo suficiente para lhes roubar as terras que eles, por sua vez, tinham roubado aos que já estavam na Península Ibérica depois de os vencidos terem feito o mesmo aos que já lá se
encontravam, e...etc, etc! Uma variante da conhecida interrogação sobre quem apareceu primeiro: o ovo ou a galinha.

E continuei a folhear o livro, parando aqui e ali, como no episódio de D. Pedro I e Inês de Castro, em D. Sebastião e Alcácer-Quibir ou no assassinato de D. Carlos e de seu filho, poucos anos depois seguido pelo do presidente Sidónio Pais.
Curioso por recordar tantos factos históricos, mas indiferente a toda a série de crimes que a ânsia do poder, a cobiça e a cupidez tornam o ser humano o maior inimigo de si próprio, voltei atrás e detive-me na parte que dá início à era dos Descobrimentos. Aí, pode ler-se: “Portugal sentia necessidade de expandir-se”. “Os filhos mais velhos de D. João I, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, querendo mostrar o seu valor militar, resolveram continuar a luta contra os moiros, em África. Por isso, lembraram ao pai a conquista de Ceuta, cidade muçulmana, rica e importante, no norte daquele continente”. (sic)

Isto recordou-me um facto ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, quando Winston Churchill, primeiro-ministro do Reino-Unido, se encontrou com Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos da América, na Terra Nova em 1941.
À rasca com o bloqueio que os submarinos alemães impunham à sua ilha, e que quase fez os Ingleses morrerem de fome, a ideia de Churchill era convencer Roosevelt a entrar na guerra ao lado dos Aliados.
Há um relato de Elliot Roosevelt, filho do presidente que assistiu à reunião, e do qual faço o seguinte resumo: “a certa altura o meu pai fez referência ao Império Britânico e à exploração desses territórios pelos Ingleses sem qualquer
contrapartida”.
“Contrapondo à resposta de Churchill que esses territórios eram intocáveis, pois pertenciam à Coroa Britânica, o meu pai deu a entender que era isso que a Alemanha (Hitler) estava a fazer na Europa”. (texto adaptado).

Quando recordo este episódio interrogo-me porque é que Churchill não lhe atirou à cara o massacre e quase extinção dos índios, comparável à dos judeus, com a única diferença de os métodos utilizados serem outros. Mas, como sabemos, os alemães são um povo altamente industrializado, e, por isso,
utilizaram as câmaras de gás. Estas tinham a grande vantagem de não fazer feridos ou derramar sangue, coisa que horrorizava Himmler, o chefe da polícia política nazi.

Assim, os dois “geniais” políticos, um a pedir socorro e o outro a hesitar na ajuda, teriam ficado empatados, o que não alteraria em nada a máxima que diz: “fazer a guerra para conseguir a paz”; e eu troco esta sequência dizendo: fazer a paz para conseguir a guerra. É outro empate, embora bastante mais pacífico, já que se trata de um simples jogo de palavras.
Quando se lê um livro de História, do princípio ao fim só encontramos alusões a guerras, batalhas, massacres e usurpações festejadas pelos vencedores, e despertando o sentimento de vingança nos vencidos. Esta, se possível, não
tardará a realizar-se, e, de ambos os lados, haverá sempre heróis, por mais ou menos crimes que tenham cometido.
Mas a memória e a ignorância dos homens são curtas. Além disto existem uns pândegos que se incriminam, a si e aos da sua raça (perdão, etnia!), arranjando justificações para tudo e acreditando que todos os homens são iguais.

Citemos, por exemplo, o caso da África. Esses esclarecidos analistas da História, dizem que os conflitos existentes na África se devem ao facto de os brancos terem feito fronteiras “à régua”. É verdade. Mas, será que aqueles povos viviam num autêntico Eldorado antes da chegada dos Europeus? Por
favor: não brinquem comigo.
Quando começou o comércio esclavagista, eram os próprios sobas que vendiam os seus súbditos aos negreiros a troco de algumas missangas, espelhos ou chapéus-de chuva. E, foi preciso ter estado em Angola na Guerra Colonial, paracompreender muitas coisas. Hoje, e apesar de ter tentado fugir a esse conflito, não estou nada arrependido de ter participado nele. Isso dá-me o direito de falar porque estive no local, ou “no terreno”, como agora se diz.

Aos tais pândegos “de biblioteca”, proponho a seguinte questão: será que o “Tratado de Versalhes”, que pôs fim à Primeira Guerra Mundial não fez o mesmo na Europa?
Desmembrou o Império Austro-Húngaro, já de si uma amálgama de povos, línguas e cultura, para reuni-los em novas fronteiras. Foi dar de mão beijada o pretexto a Hitler para desencadear, pouco mais de vinte anos depois, a Segunda Guerra Mundial.
E isto apesar de os políticos, horrorizados com as primeiras imagens que o cinema realizou no teatro da guerra, terem declarado: “uma loucura destas nunca mais se repetirá!”
Viu-se e continua a ver-se que nem com as mais violentas imagens de morte e destruição hoje acessíveis a todos, o homem não consegue viver em paz. Não passamos de seres vivos tais como os outros, que necessitam de “espaço vital”
para sobreviver, seja de que modo for.

Em criança tive de aturar aquela “cançoneta”, ainda hoje em moda em Fátima que, a certa altura, diz assim: “imaculada rainha do céu...faz com que a guerra acabe na terra”.
Mas essa rainha, não sei de que galáxia ou se de todas, ou é surda ou está-se nas tintas para este minúsculo e disparatado planeta. Porém, parece-me muito mais plausível e justo atribuir essa incapacidade ao facto de essa mulher, mãe de vários filhos entre os quais um chamado Jesus, ter morrido há vinte séculos. E isto se é que na verdade, tal dama existiu.
É esta a verdadeira História do Mundo onde, só por excepção, surge um político, um governante, um chefe, ou como lhe queiram chamar, HONESTO!
Mas, seja ele quem for, a populaça (na praça) aplaude sempre qualquer aventureiro que apareça a proclamar mundos e fundos e que as coisas vão melhorar. Para ele, familiares e amigos, como é óbvio.

E, continuando a folhear a História de Portugal, detive-me nas últimas páginas onde surge a figura de Salazar. O motivo deve-se, talvez, ao facto de ter sido “educado” por ele. Por isso voltarei a referir-me a este período da nossa História num dos próximos artigos que terá por título “40 anos após o 25 de
Abril”. Entrementes surgirá uma pequena crítica à jornalista da RTP Inês Gonçalves sobre o começo do Verão.

Conclusão:
Para quê mais citações históricas? Só os idealistas é que dizem que caminhamos para um mundo melhor. Tecnologicamente isto é verdade mas, tal como tudo, a tecnologia serve as duas forças opostas, o bem e o mal. Mas, pergunto: onde está a fronteira? Será que algum dos chamados filósofos consegue defini-la com exactidão?

A realidade é que cada um puxa a brasa à sua sardinha. Seja por razões económicas, territoriais ou hierarquia social. O problema é que, e principalmente nesta última, aplica-se o “Princípio de Peter”. Mas a populaça (na praça) não sabe ́, nem quer saber, o que é. Crer, crer e mais crer, mesmo sem ver, em tudo que lhe impingem.

O ser humano, como todo o ser vivo, é um ladrão porque não pode sobreviver sem se alimentar à custa de outros seres. A vida, tal como a conhecemos, tem de alimentar-se de si própria, senão não consegue sobreviver. Não sei o porquê nem para quê existe esta força inata, mas quem souber a explicação, peço que me elucide. Imploro, apenas, que não me venha com a chamada metafísica. Como escreveu Fernando Pessoa, esta “é uma consequência de estar mal disposto” e já me chegam as indisposições que tenho.

Para atingir o Eldorado, seria necessário desumanizar o homem. Mas, e voltando a citar o poeta, isso exigiria “um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender”.
Nós, europeus, que vivemos actualmente num mundo onde nada falta (comparado com a miséria e os esqueletos vivos das crianças da maior parte do mundo), continuamos a queixarmo-nos de tudo e de todos, quanto mais não seja porque a máquina de lavar se avariou, ou porque o preço de tal produto subiu. Será que pensam no trabalho quase escravo dos que o fabricaram nos chamados países emergentes, ou nos lucros que intermediários e revendedores obtêm? Claro que não! Isso não interessa porque essa gente está muito longe, e ninguém quer baixar de cavalo para burro. Se tenho quatro televisores em casa, como é que vou viver só com três devido a avaria de um deles?
Neste aspecto nós, Portugueses, somos useiros e vezeiros nas lamentações e comparações erradas. Frases como “isto é que vai uma crise”, lá fora é que é bom”, “coisas destas só neste país”, etc. fazem parte do reportório das lamúrias nacionais.
Porém, a verdade é que, para melhor ou para pior, vamos fazer nove séculos de História; e, com algumas pequenas variações, temos as mais antigas fronteiras do mundo! E, embora a nossa privilegiada posição geográfica seja uma das razões, a verdade é que há mais de duzentos anos não sofremos a humilhação de ver o nosso Portugal ocupado ou partilhado por abutres vencedores de todas as guerras que são o dia-a-dia da Humanidade. Como única excepção, temos a ocupação espanhola do tempo dos “Filipes” mas da qual, (rapidamente em termos históricos) nos livrámos. Até fomos reconquistar Angola e o Brasil aos Holandeses, além de termos aguentado a Guerra da Restauração durante vinte e oito anos.

E vou ficar por aqui. Para contradições naquilo que penso e escrevo, já basta nunca me ter entendido com este mundo, o maldito, famigerado ou disparatado planeta, como costumo chamá-lo.

Para mais esclarecimentos, sugiro às pessoas que leiam História. Isto apesar de todas as inexactidões e incoerências que contém.


Nota: Qualquer comentário a este artigo escrito segundo a ortografia do chamado Novo Acordo Ortográfico, será considerado como contendo erros grosseiros e, como tal, corrigido.


20/06/2014

POLÍTICO NA VARANDA E A POPULAÇA NA PRAÇA

Comentário ao meu artigo sobre este assunto publicado em 1 de Abril deste ano. Não conduz a nada nem serve para aliviar o meu fígado, já que as últimas análises clínicas mostraram estar em boas condições. E isto apesar dos ataques a que está sujeito por essa divina bebida chamada cerveja. Mas, como há outros órgãos anatómicos que necessitam ser aliviados, seja por estarem cheios ou erectos, transfiro essa necessidade para onde muito bem me apetecer.
Continuando a desviar-me do assunto há tempos prometido por culpa da grata companhia de uma caneca cheia dessa divina bebida que espuma em cima da secretária (ou 'em cima da mesa' como agora se diz), julgo prioritário propor à “Santa” Igreja Católica Apostólica Romana a canonização ou a beatificação de tão sagrada bebida. (Já repararam que com tanta crise, a Central de Cervejas, tal como as agências funerárias, continua sem problemas? A explicação é simples e aplica-se às duas: não lhes faltam clientes!) 
Mas, adiante.
Sem querer intrometer-me nos “divinos “assuntos do Vaticano, julgo que seria interessante utilizar a hierarquia existente entre as divindades que pululam nos céus segundo essa seita sediada naquela cidade-estado. E, já que os anos não têm mais dias disponíveis, era fácil juntá-los em magotes conforme os “milagres” que aquela instituição (e outras afins) apregoa para encher os cofres à custa da crendice humana.
Assim, quem compra (como eu) o venerando almanaque “Borda d’Água” teria, para além das “previsões” meteorológicas (para um ano!) onde se lêem coisas muitos compreensivas, credíveis e científicas como “tempo brusco”, “tempo mudável” ou “calmarias”, as “certeiras” informações astrológicas  ou, ainda, que um planeta qualquer vai ser o responsável por tudo que irá acontecer no ano a que “preside”, encontrar outros santos, beatos  e entidades afins. É que são sempre os mesmos. 
Por que não, e para quebrar a monotonia, fazer uma alternância como, por exemplo, ano sim ano não? Não seria divertido aumentar a rivalidade entre Lisboa e Porto trocando, periodicamente, o Santo António com o São João? Até se poderia dar um jeito para que esses feriados municipais caíssem sempre às Sextas ou Segundas-Feiras.
Mas como isto é impossível, e porque não sofro de falsa modéstia, proponho que no dia 29 de Novembro, dia de S. Saturnino* (terá sido algum meu antepassado?) se acrescentem mais estes: Santa Sagres, protectora dos sequiosos; Beata Superbock, ajudante das drenagens renais; Santa Cergal, amparo dos faxinas dos urinóis públicos; Santo Tuborg, mártir de viquingues embriagados de cerveja; Beata Amstel, que continuou a ser virgem depois de “comida” por um leão no circo de Roma; Santíssima Coral, que enlouqueceu por ter protegido durante trinta anos o presidente da Região Autónoma da Madeira; Mártires Cuca e Nocal**, que caíram sob a tirania de uma família de santos onde pontifica um tal Eduardo dos ditos; Santo Guiness que, apesar de ser morno, não tinha a solidez necessária para acalmar a avidez dos diversos tipos de lábios; Santíssima Cristal, padroeira das virgens de um buraco só; e tantas e tantas outras que, juntas, talvez fizessem o milagre de convencer as outras entidades celestiais para descerem, de canecas de cerveja na mão, ao Inferno. À falta de ar condicionado, era uma oportunidade para refrescar os seus habitantes. E estes diriam, agradecidos: 'Obrigado, Deus Todo-Poderoso, criador dos Céus e da Terra, por esta divina graça recebida!'
E, é óbvio que só um tipo mesmo idiota acrescentaria: 'e do Inferno e do Purgatório'! Ficaria em seco!

E, agora, vou entrar no assunto há meses prometido. Antes, porém vou ao frigorífico buscar mais uma garrafa de cerveja. Está fresquinha e deliciosa, espumando na caneca onde a verto. Ah, meu bom Diabo! Por tua culpa vou adiar, mais uma vez, o assunto. Mas, como posso culpar-te se não acredito em ti? Ora, é sempre fácil arranjar um bode expiatório. Por isso transfiro a acusação para a cerveja. Espero que, para a próxima, não me obrigues a faltar ao prometido. Além de ser feio, a verdade é que não sou político.

* S. Saturnino de Tolosa: Missionário romano nascido em Patras (Grécia) enviado com outros “turistas” para cristianizar a Gália no século III.
** Cervejas angolanas.


Nota: Qualquer comentário escrito segundo o chamado “Acordo Ortográfico” será considerado como contendo erros ortográficos grosseiros, e, como tal, corrigido.