04/06/2015

POR FAVOR, NÃO DIGAM CORÃO!

No primeiro artigo deste blogue inventei um pequeno texto sobre este tema e expliquei porque é que o artigo invariável árabe “al” é um prefixo que não pode ser omitido nas cerca de seiscentas palavras portuguesas derivadas daquela língua.
Até o Dr. Suleiman Valy Mamede, presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa, explicou isso no prefácio da edição do Alcorão que possuo.
Mas, volta e meia, temos de ouvir muitos jornalistas a omitirem aquele prefixo, imitando, como sempre, o que ouvem noutras línguas. Excepto em espanhol, como é evidente por razões históricas.
Trata-se de mais alguns “apátridas da língua”, como tão bem classificou Pacheco Pereira em relação aos que adoptaram o chamado acordo ortográfico.

É gente mais papista que o papa ou ignorante, uma vez que (julgo eu, pois já não sei nada) tal asneira não faz parte das outras que proliferam no aludido acordo.
Sei que muitos jornalistas estão contra mais esta traição à nossa língua, mas têm de cumprir as ordens dos directores, por sua vez lacaios do Poder. No fim de contas, é preciso ganhar a vida.
Num exemplar de “O Correio da Manhã” que, como já escrevi, folheio uma vez por semana num clube que frequento, li um artigo do excelentíssimo vice-director daquele jornal, onde dizia que “era preciso acabar com a distinção entre os que seguem, ou não, a ‘nova ortografia’”. Mas, quem é esse senhor para emitir semelhante opinião? Cumpra as ordens e não critique os outros, ou talvez fosse melhor ir plantar batatas, porque há muita fome no mundo.

Hoje telefonei a uma velha amiga, ‘velha’ de mais de cinquenta anos, que reside no Brasil e aproveitei para saber o que por lá se diz sobre o assunto.
Fiquei a saber que cada qual escreve como quer (incluindo a imprensa) e, como já calculava pelo que se lê na Internet a maioria não acerta numa palavra.
Falei depois com outra amiga que é tradutora, e que tem recebido reclamações do estrangeiro devido aos supostos “erros” que estão a surgir nas traduções. Quando esclarecidos, os Ingleses acham tudo muito estranho e confuso!
E concluiu: “o que diriam os norte-americanos, os australianos e demais países de língua oficial inglesa, se a Inglaterra modificasse a sua grafia e quisesse chegar a acordo com eles?” O mais provável era fazerem 'aquele gesto' bem português atribuído a Rafael Bordalo Pinheiro.
Querem apostar que nos países da chamada Comunidade de Povos de Língua Portuguesa, acaba por ficar tudo em águas de bacalhau, pois não é com a assinatura de um político que se impõe uma língua ou um modo de escrever?
Se isso acontecer, lá ficaremos mais uma vez “orgulhosamente sós” impregnados de saudade e empenhados, não só em dinheiro, mas em arranjar outro modo de voltarmos ao tempo das caravelas.

Nota:
Para quem não queira procurar no blogue o que escrevi a respeito da palavra ‘Alcorão’, vejam o excerto a seguir. 
“Presunção e água benta, cada qual toma a que quer”, lá diz o velho rifão.

 (Excerto)
Uma vez resolvi passar um fim-de-semana em ‘Bufeira, no ‘Garve.
Assim, abandonei cedo as ‘mofadas, vesti uma camisola de ‘godão, meti algum dinheiro na’gibeir, e lá fui na minha carripana.
Passei o vale de ‘Cântara, atravessei a ponte dita 25 de Abril, e deixei ‘Mada para trás.
Chegado a ‘Cácer do Sal, parei para comer umas ‘môndegas de ‘catra, acompanhadas de com salada de ‘face temperada com um excelente ‘zeite*.
Prossegui viagem, e tendo passado por ‘Justrel, aproveitei para beber uma cerveja sem ‘cool e ver uma antiga ‘zenha*
Finalmente cheguei a ‘Bufeira onde, para meu espanto, não encontrei nenhum odor relacionado com essa palavra, a qual parece mais empestar a Língua Portuguesa do que as narinas dos cidadãos!

*O alfabeto árabe distingue dois tipos de consoantes, as lunares e as solares.
Se a primeira consoante for lunar soará “al”. (Ex. al-qaçr);
Se for solar, o “l” passa a “z”. (Ex. az-zait).  
  



17/05/2015

O FIM DO “PUM-TCHIM-PUM”
NOS AUTOMÓVEIS.

Já repararam que a moda do “pum-tchim-pum” com um nível sonoro capaz de provocar lesões auditivas, além de outros danos físicos causados pela adição dos chamados subwoofers passou a ser uma raridade?
Quando um carro equipado com aquele estúpido sistema passava perto de mim ou fazia vibrar os vidros das janelas, sentia vontade de encurralar a besta do condutor e mantê-lo dentro do carro até ficar surdo de vez. Depois, e porque embora defensor da pena de Talião, não sou mau de todo, pagava-lhe as consultas no otorrinolaringologista.
Agora que este fenómeno social, como tantos outros, passou à história, ocorreu-me escrever um texto sobre aquilo a que, comummente, se chama moda.
Desde criança que nunca compreendi esta faceta da espécie humana tão peculiar aos símios. Será por descendermos de um ramo comum?
É óbvio que apesar de não compreender, em criança tive de usar boina, calças “à golfe” (como o Tim-Tim)*, suspensórios e, mais tarde, a gravata. E é óbvio porque, se recusasse, no mínimo a desobediência resultava numa repreensão com a respectiva ameaça de açoites
Mas, já que tinha de andar “fardado” segundo a idade e a época, gostava, para meu divertimento, de reparar nas mudanças de indumentária à medida que os anos iam passando.
Ao princípio vinha tudo de Paris. Até os bebés, embora viessem todos com o mesmo trajo natural, diferindo apenas no peso e outros atributos naturais, como o que tinham (ou não tinham) entre as pernas.
Depois, tornou-se “chique” comprar as fatiotas numa casa chamada Old England , situada na Rua Augusta, em Lisboa.
Lembro-me dela porque, como filho varão de uma das “boas famílias” lisboetas, andei vestido com as últimas novidades “Made in England”.
Na mesma rua havia a “Casa Africana”, que exibia como reclame um preto carregado de malas. A coisa não incomodava ninguém, até porque era usual dizer-se que “o trabalho era bom para o preto”. Hoje, aquela figura seria considerada como racismo imperdoável, a menos que a casa tivesse mudado o nome para Casa Europeia e o preto fosse substituído por um branco, que naquela época era classificado de galego ou moço de fretes.
Os Portugueses, sempre amantes de tudo o que é estrangeiro, começaram a perceber que o francês estava a ficar fora de moda e adoptaram o inglês, hoje no apogeu da idiotice e servilismo a “Sua Majestade” britânica.
Mas deixo este assunto para o próximo artigo, para desabafar o agastamento que o anúncio da cobertura que a RTP ia fazer (e deve ter feito) das eleições no reino da dita majestade me provocou.
Serão as modas provocadas pela necessidade de imitar, inveja, medo de destoar dos outros, necessidade de afirmação ou tudo junto? E aquelas que são impostas por motivos religiosos? Os sociólogos que respondam. Para mim, estas razões são o motivo para que a grande maioria das pessoas siga os chamados ditames da moda. Mas, reconheço que sou eu quem esteve sempre fora de moda neste mundo. E, para alivio das minhas inquietações metafísicas, oxalá tivesse nascido só com essa preocupação.
Após este desabafo, veio-me à memória alguns aspectos curiosos das modas que fixei, e que ainda hoje me fazem sorrir para alívio das minhas “iscas”.
Era eu ainda criança, quando surgiu a moda dos chapéus com “pára-raios” usados pelas senhoras. (Entenda-se como senhoras as mulheres das classes média e alta). Chamava-se assim aos chapéus ornamentados com uma grande pena de ave colocada quase na vertical. Como nem nos cinemas as senhoras descobriam as cabeças, foi necessária uma determinação governamental a proibir o uso daquele ornamento durante as sessões, para não prejudicar a visão de quem estava atrás.
Algum tempo depois surgiram as saias apertadas, de tal modo que as senhoras pareciam umas 'entrevadinhas', produzindo um “tique-tique” acelerado com os saltos dos sapatos, quando tentavam caminhar mais depressa. Jacques Tati, no filme Play-Time (em português “Tempos Modernos”) parodia com o seu característico humor sem palavras, aquela moda tão ridícula como incómoda.
Muitos anos depois, veio a moda da mini-saia, logo seguida, como não podia deixar de ser, pelo oposto para dar nas vistas: a maxi-saia.
Ainda não estava reformado, quando surgiu a tristemente famosa moda das calças rotas, uma autêntica ofensa a quem é pobre. Recordo o momento em que uma colega descia num dos elevadores do edifício da RDP, então situado nas Amoreiras. Adepta dessa moda, teve o azar de encontrar o presidente do concelho de administração, que descia também.
-“A senhora não tem dinheiro para comprar umas calças?”, perguntou.
O resultado foi uma ida à loja mais próxima comprar outras. Pelo menos naquela casa, aquela moda não pegou.
De há uns anos para cá, temos os cabelos caídos sobre um olho, o que provoca o contínuo sacudir de cabeça ou o afastamento da madeixa com a mão que, como é óbvio, volta a cair. Já dei por mim a fazer o mesmo enquanto via uma entrevista a uma senhora na televisão. É que, tal como os bocejos e a loucura, os tiques são contagiosos.
E, para terminar, porque não falar da autêntica loucura que se vê em lugares públicos de lazer? É rara a pessoa que não tenha um telemóvel, ou outra maquineta do género, e passe o tempo a esfregá-lo com o dedo indicador.
Bem sei que este dedo não tem só a função correspondente ao nome mas, se ele se gastar, como vai poder continuar a esfregar coisas muito mais sensíveis do que um aparelho electrónico? Francamente, não encontro resposta e, a verdade, é que cada um usa o dedo indicador como quer, mesmo que, como se dizia no meu tempo, “não se aponta que é feio”. A partir daí, tabu!

*Em “Tim-Tim e os Pícaros”, último álbum do imortal herói de banda desenhada, Hergé substituiu as calças “à golfe” por jeans. Esta decisão desagradou a muitos dos seus admiradores, embora a história seja fantástica.


                                                                                            

31/03/2015

HINO A CAPPELLA…COM ORQUESTRA!

“Lá fora, a excessiva quietude da noite de província fazia um grande barulho ao contrário” (Fernando Pessoa).
Tão realista como poética, esta definição veio-me à memória quando um comentador da RTP disse, antes do jogo de futebol Portugal vs Sérvia, que o Hino Nacional tinha sido cantado a cappella, termo italiano que significa canto sem acompanhamento instrumental.
E veio-me à memória porque começo a temer que esteja a ficar surdo ao contrário. A razão foi porque “pareceu-me” ouvir instrumentos enquanto o público cantava.   
Depois de me ter convencido de que não fora vítima de uma ilusão, lembrei-me que, com um pouco de jeito, poderia arranjar um texto para a introdução que é só orquestral, e que normalmente não se ouve porque o comentador continua a falar. Depois de muito estudar o assunto, concluí que o mais apropriado seria “batatas, senhor comentador!”
E, fazendo da capo, isto é, voltando ao início, seria interessante acrescentar termos culinários como “assadas”, “fritas”, “cozidas” ou, de preferência, “A MURRO”!



23/03/2015

CENSURA OU LIBERDADE DE IMPRENSA? 
O DIABO QUE ESCOLHA!

Confesso que me custa muito pôr esta questão mas, a verdade é que há muito tempo que penso nela. Há dias, porém, ao ver a cena vergonhosa entre aquela cambada de “melgas” e o advogado João Araújo, confesso que a embirração que sinto pela maioria dos jornalistas voltou a dominar-me. Caramba! O homem até foi mal-educado; mas, não terá direito à indignação uma pessoa que não pode sair à rua sem que lhe chovam em cima dezenas de perguntas e lhe barrem a passagem com microfones? Com que direito é que essa gente interroga, fotografa e filma sem perguntar se o visado a isso está disposto?
“Este senhor não compreende a nossa profissão”, é o clássico comentário quando alguém reage mal aos seus ataques, mas não se lembram que os outros podem estar a fazer o mesmo, como foi o caso.
Será que, na pomposamente chamada Escola Superior de Jornalismo, não se ensina que é falta de educação insistir em perguntas quando alguém declara não estar disposto a fazê-lo? Uma das meninas protagonistas daquela triste cena, até teve o arrojo de insistir argumentando que “precisava de saber”!
Com que direito? Nem nos tribunais os réus são obrigados a responder aos juízes.
Agora, dizem que vão processar o advogado. Quem se deve estar a rir é Alberto João Jardim, que não hesitou em classificar de “bastardos, para não lhes chamar filhos da puta”, alguns (note-se) jornalistas do Continente quando estes se meteram com a reforma que ia receber. Ficou com tanto medo das ameaças do presidente do Sindicato dos Jornalistas que, algum tempo depois, até fez uma valente “caralhada” dentro de um autocarro para os chamados media.
Vendedores de um produto chamado notícia, a maioria actua como qualquer comerciante, apenas com uma diferença: o vendedor que tenta impingir fruta de aspecto duvidoso, não corre atrás de nós ou barra-nos o caminho. Quando muito, murmura algumas imprecações e tenta enganar outro.

Mas, há mais. Na ânsia de vender os seus produtos, investigam tudo o que lhes cheira a escândalo ou catástrofe para depois exibirem grandes títulos seguidos de textos onde deturpam, ampliam (nunca o contrário) lançando muitas vezes o pânico entre a população.
Quem não se lembra das vacas loucas e das gripes suína e das aves, para só falar destas? Bastava aparecer uma avezita morta para abrir os telejornais com um jornalista logo enviado para “o terreno”, olhando para o pequeno cadáver desejoso de que a causa da morte fosse a famigerada gripe. Pouco depois já se falava de epidemia! Mas, se a desejada tragédia não se confirmava, o desmentido passava para terceiro plano, como é prática normal entre estes vendedores de tragédias.
“Cinco polícias na casa da morte”, era o título em letras enormes que o “Correio da Manhã” exibia na primeira página há uns tempos atrás. Como frequento um clube que adquire esse jornal, uma vez por outra folheio um exemplar apenas para me divertir com os contumazes cabeçalhos bombásticas.
Daquela vez, porém, fiquei chocado; a notícia referia-se à investigação policial sobre a morte do filho de Judite de Sousa. Francamente! Nem o respeito pela tremenda dor de uma colega de profissão, deteve a ganância de vender. Não lhes chega a exibição a cores de centenas de cus e de mamas, estas curiosamente com uma pudica estrelinha sobre os mamilos, do putedo nacional!
Aquando das obras de alargamento do tabuleiro da ponte chamada “25 de Abril”, um jornal publicou na primeira página uma fotografia tirada de modo a que se visse bem a curvatura côncava que o dito tabuleiro apresentava. Por cima, o título era eloquente: “A ponte deu de si”.
Eu já tinha notado isso face ao desempenho do motor do carro,  habituado à natural convexidade, facto que nunca me preocupou.
No entanto, uma colega sabedora das minhas travessias semanais, teve o cuidado de me avisar do “perigo” que corria.
Embora confiante nos engenheiros responsáveis pela obra, deu-me para ler o texto onde se procurava lançar o pânico entre os utilizadores da ponte.
Numa entrevista a um dos engenheiros, este explicou (para provável desespero do jornalista) que o tabuleiro iria arquear um pouco mais, mas sem atingir os limites de segurança.
Depois de ler, só lamentei o facto de o entrevistado não ter dito: olhe, quando a ponte voltar à posição normal, não se esqueça de publicar uma fotografia e referir-se ao assunto com as mesmas parangonas.

“Palavras cruzadas, perguntas inúteis”, era uma frase omnipresente num divertido programa de rádio do início da minha adolescência. Ainda não havia televisão, e a telefonia estava ligada durante todo o dia. Julgo que era protagonizado por Camilo de Oliveira.
Aquela frase vem-me frequentemente à memória quando oiço as tão idiotas como inúteis interrogações que devem fazer parte do programa de ensino da delirante escola de jornalismo: “Ganhou esta prova; está contente? Porquê?” “Ficou desempregado; isso preocupa-o? Porquê?”
Quando oiço isto, nas poucas vezes que tenho pachorra para aturar um telejornal mais de dez minutos, recordo uma entrevista de uma senhora jornalista a uma menina, amante do desporto, e que, devido a um acidente, tinha ficado paraplégica.
-“Tens pena de não poderes voltar a correr?
-“Tenho!”
-“Porquê?” perguntou a estúpida besta enquanto a mãe, ao lado da filha, em vez de partir a cara àquela profissional da coscuvilhice, esboçava um sorriso de tristeza.

“O que irá acontecer quando a sociedade de consumo chegar à saciedade de consumo?” é o tema de uma das tiras da imortal Mafalda criada por Quino. Quando me lembro disto, chego a ter saudades dos telejornais em que um locutor começava por dizer: “do País”, e lia os papeis que tinha à frente. Depois, anunciava “do Estrangeiro”, e prosseguia na leitura.
Devido às limitações técnicas da época, apenas apareciam as imagens mais relevantes e, como é óbvio, o que a censura autorizara.
Hoje, caindo no extremo oposto, os telejornais abusam do tempo que lhes é concedido, em que cada notícia é apresentada por um jornalista diferente. A maior parte das vezes, nem sequer dá a cara, substituindo-a por imagens que apenas servem para desviar a atenção. Fala-se de um banco, e logo aparece a fachada de uma das agências e gente a levantar dinheiro; fala-se de crise (oiço-a desde que nasci) e vê-se pessoas a passarem nas ruas; e, para quê mais?
Agora que se aproxima a chamada “época de incêndios” lá vamos ter como pano de fundo uma floresta a arder. E, como título, PORTUGAL EM CHAMAS!
Concluindo: censura não! Mas que, por vezes, é necessária, sim! “Cruel dilema”, como diz Vasco Santana em “O Pátio das Cantigas.








14/03/2015

TÊVÊPUBLICIDOFOBIA”

Tal como “O Terceiro Segredo de Fátima”, este artigo não é meu. Fui encontrá-lo entre as minhas papeladas, e julgo que será divertido e interessante para aqueles que se lembram da publicidade que a RTP nos impingia na década de sessenta.
Oxalá fosse apenas nessa época já tão longínqua que, apesar de tudo, era  uma gota de água relativamente ao que os pagantes da taxa têm de aturar, ainda por cima com o aumento ilegal do volume do som.
Apareceu na rubrica Notícias da Capital e Província, na edição de 30 de Abril de 1966 do antigo vespertino lisboeta “Diário Popular”.
Como simples curiosidade, menciono alguns dos títulos daquela página: “Ferroviários agradecidos ao Diário Popular”, “Raptado e roubado em condições estranhas”, “Atropelou três homens e pôs-se em fuga”, “Em ruína o pavimento da Rua da Palmeira” e “Militares falecidos no Ultramar”. Esta última, oriunda de Moçambique, é divulgada em caixa pequena, como é óbvio. E, a propósito, recordo que, menos de um mês depois, eu embarcava para Angola no “Niassa”, cumprindo o serviço militar obrigatório, do qual continuo a escrever a história.

Agora, vou transcrever exactamente o texto publicado com o título supracitado, e a nota introdutória da redacção do jornal. De notar que as frases escritas entre aspas e a negrito, correspondem às de anúncios que o autor utilizou no seu protesto.

  O título não é nosso – e a prosa também não. A carta que publicamos a seguir, assinada pelo Sr. Flávio Duarte, da rua Alberto de Oliveira,   27, 1.º, dto., tem a particular virtude de ter graça sem ofender.
  Limita-se a examinar um facto e a comentá-lo com uma ironia bem Portuguesa.

  “Sr. Director – Protesto! Protesto com quanta força que me é dada por esta saúde de ferro que tenho, desde que uso “o elemento ideal para barrar o pão”, pois “já comi a papinha toda”; protesto contra o uso e abuso dos anúncios na Televisão!
  “Estou como nunca”, “estou gordo como um autêntico porco”, com tantos e tantos anúncios, com tanta publicidade, que a toda a hora o pequeno écran e e os respectivos altifalantes nos fazem chegar à vista e aos ouvidos. “Um mau televisor é um prazer negativo”; certíssimo, tão certo como “aquela única lâmina fazer a barba aos tais quinze barbeiros; ora “o progresso exige conhecimento” e eu, francamente, não tenho interesse nenhum em tomar conhecimento com o “ segredo que está debaixo da capa”!
  Eu, é certo, já “estou protegido por um escudo invisível”, (o interruptor) contra os malfadados anúncios do Lumiar; contudo, se eu comprei um aparelho com “o melhor som e a melhor imagem”, não foi “grátis com facas de sobremesa”; tenho “a sede que se deseja” de “mesmo no escuro” poder um dia assistir a um programa sem publicidade.
  Não poderei um dia convidar uma vizinha e dizer-lhe: “vais ter uma surpresa”, anda assistir a um programa branco de anúncios? Não! E não, porque “essa brancura, vizinha”, é tão etérea como “o gás que está onde tu estás”.
  Protesto contra os anúncios! Não é nada…numa destas últimas terças-feiras no programa “Sétima Arte”, antes da fita (já velhota, coitadita!) começar, foram 16 anúncios; no primeiro intervalo, 14; no segundo intervalo, 13 e no final, até à “Meditação”, mais 12! Bolas para tanto anúncio!
  “Envelhecido pelos anos”, não por “superstição, isso era dantes”, mas porque agora já vão sabendo bem umas pantufas “leves, quentes e macias”, porque as “pessoas saudáveis sentem-se bem com a sua pele”, dispõe-se uma pessoa a saborear um bom programa de televisão, após um jantar leve e digestivo, porque “o peru é para o Natal”, e eis que lhe sai “a maior taluda de todos os tempos”; mesmo sem ter que dar “duas recargas vazias”; “num só esguicho e pronto”, antes do Telejornal e depois do “manda-chuva” , chovem os anúncios que são a nova “fibra de eterna juventude” para a Tesouraria da R.T.P.
  “É chique a valer”, “para as pessoas de bom gosto”, correr a comprar quantos detergentes, pomadas, perfumes, dentífricos, bilhas de gás, fibras, esquentadores, talheres, espumantes, sanitas, esfregões, tintas, sabonetes, totobolas, eu sei lá! O pequeno écran nos despeja todas as noites a poucos palmos da carpete.
  Contudo, como “uma chama viva onde quer que viva”, vive em mim latente a forte determinação, tão certa “como nove em cada dez estrelas”, de “não ir atrás do choro”.
  Ah! “Quem acerta no treze tem a fortuna em sua casa”, mas cuidado! Não compre televisão, senão…já sabe: ANÚNCIOS E MAIS ANÚNCIOS! Anúncios que “trituram, espremem, batem, liquidificam” e SATURAM!!!
  Ah! Não vir aí um “cheirinho a primavera” que nos faça “parar, olhar e escutar” para a “sensacional oferta”, como “chave do problema” da malfadada publicidade. Essa publicidade “sempre certa da sua beleza”, ela “quer lá saber?”; é uma “água quente para toda a gente” que nos aquece o juízo e nos dá uma lavagem ao cérebro, com tantos detergentes, sabonetes, esfregões, etc., etc.,… e não protesto mais “porque estou rouco!”
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15/02/2015

AUSCHWITZ, 70 ANOS APÓS A LIBERTAÇÃO!  MAS PORQUE NÃO SE CONTA O QUE SE SEGUIU?

A censura, o compadrio ou o medo continuam a imperar na nossa Comunicação Social. Mais uma vez isso aconteceu nos noticiários sobre a efeméride da libertação dos poucos que sobreviveram naquele campo de morte.
Mas, e depois? Será que os senhores jornalistas são tão ignorantes que não sabem que Estaline, o grande amigo de Hitler, aproveitou os campos de extermínio nazis enchendo-os novamente, agora com quem se opunha à sua vontade?
E que esse homem, o “Pai dos Povos”, deixou morrer de fome milhões de ucranianos para enviar todo o trigo (a Ucrânia era conhecida como sendo o celeiro da Europa) para os Estados Unidos? E que aqueles que se opunham eram executados no local?
Também não sabem que os comunistas que praticaram crimes contra a humanidade podem circular livremente pela Comunidade Europeia?
Porque é que só se fala no “Julgamento de Nuremberga” e na caça aos nazis que se seguiu, cujo caso mais paradigmático foi a captura, julgamento e condenação à morte de Adolf Eichman? 
Se a queda da Alemanha nazi se deu em 1945, a do Bloco de Leste foi apenas há 25 anos.

Francamente, senhores jornalistas; hoje, e graças às diversas tecnologias, a História, faz-se com documentos muito mais fiáveis do que antigamente. Além disto, o acesso a fontes diversas é de uma tal facilidade que só quem não quer, seja parcial ou tenha medo, não as torna públicas. 
Ensinar, além de informar, deveria ser um dever dessa profissão, mas, parece que por cá não é assim.
A exibição da bandeira ou símbolos nazis é um horror, concordo! Se forem exibidos por alguém em qualquer sítio, um batalhão de jornalistas vai para “o terreno” (como agora se diz) e até é capaz de deturpar a situação.
Recordo a exibição da suástica no Parlamento da Madeira por aquele pândego chamado José Manuel Coelho, logo classificada como apologia do fascismo, quando o que o homem quis demonstrar (com excessivo exagero, é claro) que aquele era o ambiente político que reinava no arquipélago.

Porém, se sobre o fundo vermelho estivesse a foice e o martelo, ou as carantonhas de Estaline ou Mao-Tse-Tung (o Grande Timoneiro), a notícia seria de somenos importância. Afinal, a nossa estranha Constituição proíbe a apologia do fascismo, mas permite a existência de partidos que seguem as ideologias de Hitler e Estaline, com Karl Marx como pano de fundo.

Alguém se lembra daquele concurso absurdo destinado a eleger o maior português de todos os tempos? E da reacção da Exmª S.ª Dr.ª Odete Santos, deputada do Partido Comunista, quando Maria Elisa anunciou que Salazar tinha sido o “eleito”?
À rasca, a apresentadora virou-se para a ilustre causídica e, tentando pôr água na fervura, declarou que “mesmo assim, Álvaro Cunhal tinha obtido uma boa classificação”. Mas, nem este elogio abrandou a cólera da senhora que desatou a gritar como uma possessa, mais espectacular devido ao seu característico mastigar das palavras, que 'a apologia do fascismo era proibida pela Constituição'.
Quanto ao concurso, nunca mais se falou nele, pudera; a menos que tivesse “ganho” outro candidato proposto, de preferência Mário Soares ou Álvaro Cunhal.

A propósito disto tudo, vou referir um desaguisado que descobri por acaso na Internet , bem como uma série de asneiras que foram ditas num programa da RTP aquando do centenário de Marcello Caetano.

Num dos programas “Ponto Contraponto” da “SIC”, Pacheco Pereira criticou a jornalista Exmª Sr.ª D.ª Teresa Canto Noronha, por ter dito que o Estado do Vaticano é uma monarquia absoluta. Para tal, o comentador usou termos como “mau jornalismo”, “preconceito”, “asneira” e “ignorância”.
É claro que veio logo o protesto, com o clássico recurso aos anos de carreira, profissionalismo, solidariedade dos colegas, confirmação do Vaticano, etc., etc.
Se, de facto, este confirmou, é muito estranho, já que uma monarquia é transmitida entre parentes, começando pelo mais próximo. A isso chama-se dinastia e, por causa desta estupidez, muitos tarados, incapazes e déspotas foram coroados. E, há que recordar, também, que os direitos sucessórios foram desde sempre uma das causas dos grandes conflitos da Humanidade, as chamadas ‘guerras de sucessão’. Só excepcionalmente, como aconteceu com o Mestre de Avis, cognominado D. João I, é que este princípio monárquico pode ser quebrado.
Quanto ao Vaticano, segundo sei, são os cardeais (inspirados por Deus, que costuma estar sempre distraído, como prova a eleição de papas como Alexandre VI) que elegem o sucessor.

Quanto ao segundo caso, que ocorreu no referido documentário da RTP, assinado por Mário Brito à frente de uma equipa de uma dezena de colaboradores, podem-se mencionar as seguintes asneiras:

- Santos Costa, ministro da Defesa.
Correcção: na época, o Ministério da Defesa era designado por Ministério da Guerra.
- Em 1958, Maria Callas cantou a “Aida” no S. Carlos, contracenando com o tenor Alfredo Strauss!
Correcção: Maria Callas cantou “La Traviata” e o tenor foi Alfredo Kraus.
- Marcello Caetano substituiu a União Nacional pela Assembleia Nacional Popular!
Correcção: Acção Nacional Popular.
- LUAR, Liga de Acção e União Revolucionária.
Correcção: Liga de Unidade e Acção Revolucionária; embora união e unidade não divirjam, trata de seguir a sequência alfabética da sigla.

Um amigo meu enviou uma mensagem, muito divertida, a denunciar estas imprecisões mas, como é óbvio, não obteve resposta.
Tal como um certo Aníbal, que nunca se engana e raramente tem dúvidas, parece que a corporação dos jornalistas não aceita a velha máxima latina de errare humanum est.
Aliás, «errare humanum est, perseverare autem diabolicum», ou seja, "errar é humano, mas perseverar (no erro) é diabólico"

Mas assim se vai fazendo a História que, acumulando erros sobre erros, entra numa progressão que, cada vez mais, me faz duvidar de uma grande parte dela no que respeita a pormenores.


Nota: qualquer comentário escrito segundo o chamado novo acordo ortográfico, será considerado como contendo erros grosseiros e, como tal, corrigido.



23/12/2014

PESOS E MEDIDAS

'O Homem é a medida de todas as coisas, enquanto são, e das coisas que não são, enquanto não são'.
Esta afirmação, feita pelo filósofo grego Protágoras (Século V a.C.) mostra como a ideia de que tudo é relativo surgira muito antes das teorias de Einstein no campo da Física.
Mais próximo do ser humano, Protágoras, entendia com base naquela máxima que as leis, regras, cultura, etc. não podem ser enunciadas por uma só pessoa, já que o que é verdadeiro ou falso para alguns, não o é para outros. Logo, o que tem valor num determinado lugar (no espaço ou no tempo) não é aceite noutro.
Para ele, tudo deve ser resolvido por um conjunto de pessoas, apesar da dificuldade (acrescento eu) que apenas duas pessoas têm em se entenderem. Mesmo que ambas estejam de acordo, se começam a aprofundar o assunto, não tardam a surgir as divergências. Quem viveu o 25 de Abril, deve lembrar-se que, só partidos marxistas-leninistas e afins, surgiram cerca de uma dúzia!

Mas deixemos a Filosofia e a porca da Política e passemos aos factos. Apesar de “cada cabeça, sua sentença”, a verdade é que, por razões tão práticas como necessárias, o homem (e talvez algumas mulheres) inventaram regras de pesos e medidas para normalizar as suas compras, vendas, demarcações de terrenos e outras coisas que, muito mais tarde, ficaram conhecidas como estandardizadas.
É claro que como todo o mundo é uma burla e o homem (e as mulheres) já nasceram burlões, todas as medições são passíveis de ser aldrabadas, apesar de terem uma unidade base acordada internacionalmente. Mas isso é outra história.
O sistema decimal é, como o nome indica, fundamentado na numeração com base dez, o que facilita imenso os cálculos do dia a dia.
Mas, como sempre há quem resista ao fácil pelo complicado. Temos o caso da Inglaterra e Colónias (Escócia, Gales e Irlanda do Norte, para só citar estas) dos Estados Unidos e de outros países que conservam medidas próprias, capazes de por a cabeça a andar à roda quando se comparam com o sistema decimal. Entre elas temos a o pé, a polegada, a jarda, a milha marítima, a milha terrestre, o galão, etc. etc.
Se bem me lembro, foi na década de cinquenta que o Reino Unido, adoptou (ou fingiu que o fez) o sistema decimal. Recordo as parangonas que os jornais fizeram sobre a dificuldade que a rainha desse país, a Isabel nº 2, teria para compreendê-lo. Caramba! A mulher poderia ser burra mas, apesar da minha juventude, concluí que era mais uma manifestação da nossa subserviência a Sua Majestade, que era sempre capa dos nossos jornais, nem que fosse por se ter “descuidado” em público. Pobre mulher!  

Nessa já tão distante época, contava-se entre a rapaziada a seguinte anedota: contemplando a Torre Eiffel, encontravam-se vários turistas que, nas suas diferentes línguas, faziam comentários tais como a Torre Eiffel é linda, imponente, espectacular e outros adjectivos semelhantes.
Entre eles, e como era costume neste tipo de anedotas, estava um português. Pasmado, levantou a cabeça, coçou-a, pôs as mãos nos bolsos e exclamou: “eia, c’o caralho”!

Há já uma dezena de anos, dei comigo a investigar a origem da interjeição carago, tão usual no norte do país. Para isso, consultei o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, onde encontrei a seguinte indicação: “veja caralho”.
Seguindo aquela indicação, fiquei a saber que aquele vocábulo provem do latim caraculu que, por sua vez, tem origem no grego chárax que significa “estaca, estaca para vinha; …ramo de oliveira cortado e aguçado na base para ser transplantado;
estaca para palissada, palissada; …madeira de construção”.
Continuando a investigar, consultei o “Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa”*, onde encontrei, entre outras, estas definições: 1- “muito, demasiado, extremamente: ele é alto como o c.  2- “em profusão: veio gente como o c. à apresentação.


Não há dúvida; os Portugueses têm razão quando o utilizam como medida. Mesmo variando de macho para macho, a sua espectacular capacidade de passar de anão a gigante, de simples penduricalho a aríete, conforme as duas funções que possui, confere-lhe a categoria de ser ele “a medida de todas as coisas”, modificando assim a afirmação de Protágoras.
É claro que como neste mundo nada é perfeito, no macho humano por vezes tem a função de incomodar, quando se trata de arrumá-lo com os respectivos apêndices nas cuecas. Mas isso é, apenas, um pequeno inconveniente. As vantagens são, indubitavelmente, muito superiores, tanto para a maioria das mulheres como para as “bichas” e derivados.
Confesso que fiquei surpreendido com aquela revelação, mas os tempos mudam. E se ontem a anedota sobre o “portuga” pasmado ante a grandeza da Torre Eiffel, era contada às escondidas, hoje quase pode ser considerada uma “anedota de salão”. Mas, por motivos de respeito por certas pessoas, acho de bom-tom interrogá-las primeiro sobre a sua sensibilidade, o que tenho por hábito fazer. 

*Publicado no Brasil em 2001 e, um ano depois em Portugal numa versão adaptada, a este dicionário foi imposta (11 anos depois!) a retirada do mercado pelo governo brasileiro por conter definições racistas. Entre elas encontra-se como sinónimo de cigano aquele “que trapaceia, velhaco e burlador”, como se esta definição não fizesse parte da gíria popular tal como judeu (que também aparece no mesmo dicionário no mesmo contexto) entre tantas outras. Os italianos, por exemplo, chamam portughesi àqueles que tentam entrar sem pagar em locais onde é obrigatório fazê-lo. Por mais que queiram negar, os “amigos de gente” (cito F. Pessoa) deviam aceitar que todas as histórias e lendas têm um fundo de verdade.
Assim, com esta mania de anti-racismo primário, que oficialmente se quer impor como “censura democrática”, qualquer dia teremos de dizer (como escrevi num dos artigos anteriores) “Clara das Neves e os Sete Homens Baixinhos”!
É caso para dizer que é uma coisa do c... (!)


Nota: qualquer comentário escrito segundo o chamado novo acordo ortográfico, será considerado como contendo erros grosseiros e, como tal, corrigido.
PARABÉNS, MAFALDA!

E parabéns também para ti, Quino, o “pai” dela e de todos os seus companheiros.
Neste ano em que se comemoram cinquenta anos do seu aparecimento, quero ainda felicitar toda a equipa que colaborou na realização do álbum “Toda a Mafalda - Edição Comemorativa dos 50 anos”. Embora lançado em Novembro último, já vai em segunda edição.
Além das 1929 (mil novecentas e vinte e nove!) tiras que Quino desenhou e escreveu sobre a Mafalda, o álbum contém cerca de 200 páginas com os mais variados assuntos sobre aquele ícone da banda desenhada. Versando sobre tudo o que lhe está relacionado, até inclui cronologias dos principais acontecimentos históricos da época para melhor compreensão.
As primeiras tiras surgiram em Portugal em 1970 dispersas por pequenos fascículos; três anos depois Quino poria fim à sua maior criação.
Ao relê-las, bem como a muitas que desconhecia, não consigo deixar de rir, embora com uma certa amargura. O mundo continua exactamente na mesma, tanto há cinquenta anos como agora. E, não só há cinquenta como desde sempre e assim continuará.
O que mudou foi a tecnologia e as moscas. Talvez já não falte muito para que ambas destruam tudo aquilo a que chamamos Civilização! Pode ser que outro ciclo comece, como tem acontecido ao longo da História. E, se não acontecer, também não é preciso.
E, depois deste desabafo de pessimista, um grande abraço para ti, Quino. Não te conheço pessoalmente, mas considero-te como se fôssemos grandes amigos. Afinal, vemos o mundo da mesma maneira na sua triste realidade, e rir é o melhor remédio.

Nota: qualquer comentário sobre este artigo escrito segundo o chamado novo acordo ortográfico, será considerado como contendo erros grosseiros e, como tal, corrigido.  


10/12/2014

ÓPERA, NAFTALINA E... PANELEIROS*

(Terceira parte)


A ópera nasceu na Itália no século XVII. Nos primeiros tempos, as figuras e histórias lendárias da Antiguidade Clássica foram os temas preferidos pelos libretistas e compositores. Foi uma consequência do Renascimento, após a “longa noite medieval” onde a crendice e estupidez humanas atingiram na Europa um dos seus pontos mais altos.

Centenas de óperas, não estou a exagerar, foram escritas por muitos compositores, alguns deles tornados célebres, sobre aqueles motivos, tendo a maior parte sido perdida ou esquecida.
Para desempenhar os papeis daqueles heróis, e devido à interdição dos palcos às mulheres, utilizavam-se os castrati, ou seja, homens que, em garotos, tinham revelado excelentes vozes mas que a puberdade iria destruir. Assim, era natural o consentimento dos pais na ablação dos testículos, para manter a mesma qualidade de voz dos filhos bem como do rendimento familiar.
Surgiram, assim, as mais ridículas personagens ornamentadas com plumas e adornos espampanantes de toda a espécie que, com voz de falsete, faziam o papel de um Hércules, de um Aquiles ou de um Ulisses.
Típicas eram também as rivalidades que surgiam entre eles; usando como armas as vozes e atitudes a que hoje dizemos serem próprias de bichas, desrespeitavam as partituras, entrando em disputas canoras pseudo-artísticas que, não raras vezes, conduziam a agressões em pleno palco.
É claro que o público delirava com este tipo de cenas, baixando a ópera a um nível em que o mau gosto aumentava proporcionalmente às exibições. Até a música, se em alguns casos tinha qualidade, descambou em partituras medíocres, razão pela qual a maioria foi esquecida como já foi dito.
Por outro lado formavam-se elites, e era de bom tom os grandes senhores ficarem a conversar fora dos camarotes, permanecendo nestes os criados incumbidos de chamá-los quando se aproximavam as árias ‘ditas’ principais ou mais conhecidas.

Embora com métodos diferentes, existia uma certa analogia com as récitas a que assisti no S. Carlos e em Luanda, conforme relatei nas duas primeiras partes deste artigo. Ir à ópera ia-se tornando um espectáculo de elite, quer se gostasse ou não. Talvez o único país onde isto não aconteceu foi a Itália, sempre pronta a apreciar aquele espectáculo como pertencente aos verdadeiros amantes do belcanto, fossem eles aristocratas ou plebeus. Mas, como é costume dizer-se, ‘os italianos já nascem a cantar’.

Os anos passaram e, devido à minha profissão, assistir a récitas de ópera no S. Carlos iria tornar-se numa rotina. Mas, o trabalho preliminar que tinha de fazer para assegurar a transmissão pela rádio (e também pela RTP onde fiz alguns biscates) permitiram-me penetrar no âmago da “arte suprema”.
Não vou falar de todos aqueles que põem de pé tão grande edifício como é uma récita de ópera. Desde carpinteiros, costureiras, electricistas, encenadores (e tantos outros a quem peço desculpa por não mencionar), até aos músicos, maestros e cantores, lidei com dezenas de profissionais cujo empenho era produzir o melhor que podiam e sabiam.

Mas, deixemos os artífices e passemos à assistência que aprendi a classificar em três grupos:
1º Os verdadeiros amantes de ópera, um tanto incómodos porque aplaudem com os indispensáveis “bravos” o final de uma ária, mantendo uma tradição que, muitas vezes, faz com que não se oiça o que vem a seguir.
2º As elites, que julgo ainda existirem porque os chamados novos-ricos devem ter substituído o que resta da também chamada aristocracia.
3º Finalmente, temos os derivados dos fabricantes de panelas, cientificamente classificados como homossexuais (também conhecidos na linguagem popular como “bichas” e, mais recentemente, como gays!
Em relação à primeira classificação recordo que, há muitos anos, o grande humorista e contestatário brasileiro Juca Chaves fez um trocadilho com primeiro termo dizendo que Omo*sexual era sabão em pó para lavar vaginas.

Os gritos histéricos desses cavalheiros, bem como a sua estranha paixão pelas vozes femininas (de preferência meio-soprano e contralto) ainda hoje ecoam na minha já velha cabeça.
Como exemplo máximo a que pude assistir por várias vezes, destacava-se um tipo cujo nome não vou mencionar, mas que era conhecido no meio pelo cognome de “lombriga maluca”.
Além de ser o tipo de “bicha” que gosta de exibir as suas preferências sexuais, aliava este hábito a defeitos físicos que o obrigavam a deslocar-se de canadianas. Quando andava, salientando o rabo e com todo um conjunto de tiques próprios das “bichas”, até aqueles aparelhos ortopédicos pareciam fazer parte dele. 
Poderá ser triste e até ofensivo mencionar este facto mas, no meu modo de ver, a realidade deve ser revelada por mais cruel que seja.
As atitudes daquela personagem tornaram-se tão incómodas que, segundo consta, implicaram a proibição de entrar no S. Carlos. Se é verdade ou não, declino qualquer responsabilidade, até porque numa conversa recente com um amigo, soube que tão ridícula personagem já faleceu. Se acreditasse na alma, desejar-lhe-ia a paz eterna, até porque dizem que era uma excelente pessoa. Se fosse muçulmano lamentaria as não sei quantas virgens que esperam que apareça um tipo qualquer que as livre de tão vergonhosa situação.

Como conclusão, acrescento que ir à ópera, por vontade ou por motivo profissional, tornou-se uma chatice para mim, não só pela histerias mencionadas, mas também pelas anedóticas encenações que há já bastante tempo infestam o mundo da ópera, como os Nibelungos a escreverem à máquina, Violeta Valery (La Traviata) a morrer tuberculosa mas com uma garrafa de soro fisiológico pendurada a seu lado, ou um personagem vestido de smoking a fazer de Wotan mas que, por necessidade do texto, saca de uma espada.
Mas a ópera é mesmo assim e, com ou sem razão, como em quase tudo, a maioria é que vence. Mas, o que será a razão?!
Posto isto, e como vivo dentro do possível à parte deste mundo, prefiro ver e ouvir, ou só ouvir, conforme seja em DVD ou CD, gozando na tranquilidade da minha casa, todo esse vasto mundo que é a ópera sem ter de aturar os bravos, as tosses e os espirros dos assistentes, bem como as manifestações histéricas dos derivados dos fabricantes de panelas!

*OMO: Um dos primeiros detergentes para lavar roupa. 
(O detergente em pó OMO foi criado pelo grupo inglês Unilever na década de 1930) 

Nota: qualquer comentário a este artigo escrito segundo o chamado acordo ortográfico será considerado como tendo erros grosseiros e, como tal, corrigido


19/11/2014


ÓPERA, NAFTALINA E... PANELEIROS*

(Segunda parte)
 

Curiosamente, seria em Angola que iria assistir alguns dos mais caricatos espectáculos de ópera. Corria o ano de 1966 e encontrava-me em Luanda cumprindo essa aberração chamada “serviço militar obrigatório”, agora modificada num ridículo dia intitulado “de defesa nacional” só para justificar a existência da tropa.
E, já agora, uma coisa que nunca entendi é a razão a existência de ministérios da defesa, comum a quase todos os países (honra seja feita à Costa Rica que não possui forças armadas) quando nenhum outro tem ministério do ataque! (Sou muito ingénuo, não sou?)
Mas voltemos à vaca-fria, neste caso a ópera. 
O episódio que se segue já está mencionado na história da minha ida à guerra que, lentamente, continuo a escrever; já tem perto de duzentas páginas e ainda vou nos primeiros meses em Nova Caipemba. Sabem onde fica? Procurem num mapa.

O meu grande amigo José Manuel Serra Formigal fundara nesse ano a Companhia Portuguesa de Ópera em colaboração com a FNAT (Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, a que o bom humor lusitano logo classificou de 'Famintos Nacionais Agarrados ao Tacho'). *
Curiosamente, aquela Companhia, sedeada no Teatro da Trindade em Lisboa, e onde, por um preço módico, se podia assistir a um boa récita feita por artistas portugueses, foi extinta a seguir ao 25 de Abril por conotações com o fascismo. Foi um dos curiosos resultados daquela revolução que derrubou uma ditadura para quase instalar outra, acabando por conduzir à ditadura da democracia em que vivemos. Como diz o velho ditado, "a merda é a mesma, as moscas é que mudam".
Nesse mesmo ano da sua fundação, e para tentar, por todos os meios, impingir ao mundo que as colónias eram Portugal, o Governo decidiu enviar a Companhia Portuguesa de Ópera a Luanda. A acompanhá-la foram também o coro do Teatro de S. Carlos e a Orquestra de Ópera da Emissora Nacional.
“Silêncio que está a cantar ópera”, como diz António Silva no papel de burguês rico em “O Pátio das Cantigas”, é o que mais se aproxima da reacção da elite branca (perdão, clara) luandense ao acontecimento; quanto aos pretos (perdão, negros) provavelmente interrogaram-se sobre que diabo de feitiço ou de remédio seria mais aquela “branquice”.
Mas, para mim, foi uma alegria enorme, principalmente por reencontrar o meu velho amigo “Zé” (Serra Formigal) e a mulher, que andara comigo ao colo. Passei bons momentos com eles, além de ter tido a possibilidade de assistir a alguns ensaios.
A representação das três óperas do cartaz, La Bohème, Lucia di Lammermoor e Rigoletto deu-se no Cine-Teatro Restauração, única sala com um mínimo de possibilidades para o evento, mas que não eram suficientes. Porém, devido à arte do desenrasca inata no nosso povo, a coisa funcionou. Apenas a mudança de cenários entre os actos prolongou os intervalos, muito animados pelos sons de carpintaria que se ouviam para lá do pano de boca. Tratava-se de desfazer e refazer os cenários a que o palco improvisado obrigava.
Quanto às récitas, recordo o desencontro vocal entre o soprano Ana Lagoa e o tenor João Rosa, no final do primeiro quadro de La Bohème. Tratou-se de um problema mal resolvido nos ensaios, que não cabe explicar neste contexto. Aqui teria resultado numa grande pateada; lá, foi muito aplaudido.
Já no Rigoletto gozei à farta com os “aaahs!” do público quando, finalmente, chegou a área La donna è mobile.  Pareceu um alívio semelhante ao que fazemos quando, à espera de qualquer coisa, ela chega finalmente. O entusiasmo foi tal, que o maestro Jaime Silva (filho) resolveu bisá-la. Depois, houve que aguardar que aquela 'chatice' acabasse.**

Mas, o melhor de tudo foi observar os trajes da assistência. Muitos homens foram de smoking enquanto as senhoras primavam pela exuberância dos colares, das pulseiras, dos brincos e de vestidos mais ou menos decotados, não tendo esquecido, algumas, casacos de peles!
Assim, além do cheiro da naftalina, juntou-se o do suor inutilmente disfarçado, ou melhor, misturado com perfumes. Para completar, e por razões óbvias, faltava o ingrediente catinga. Tudo misturado, talvez tivesse afugentado qualquer canídeo esfomeado que por lá aparecesse.
Quanto aos comentários da imprensa local sobre tão pomposo acontecimento, destaco o semanário “Notícia” que, sem se meter em apreciações musicais, gozou à farta com as fardamentas surgidas naquela cidade, onde se escorre suor de manhã até à noite. Tenho pena de não ter guardado o respectivo exemplar daquela revista, considerada por irreverente nos meios luandenses da época.
Hoje, e passados tantos anos, permito-me afirmar com alguma nostalgia, que o que aconteceu não foi ópera, mas sim “silêncio que se está a cantar ópera”!

Nota: brevemente será publicada a terceira e última parte, dedicada aos fabricantes de panelas e seus derivados.

*Este trocadilho está mencionado na minha antologia de anedotas políticas do tempo de Salazar.
**A interpretação do Rigoletto demora cerca de duas horas e, aquela que é, talvez, a ária mais conhecida de Verdi, só surge pouco depois do início do terceiro e último acto.


   

07/11/2014

ÓPERA, NAFTALINA E... PANELEIROS*

(Primeira parte)

“A ópera é o espectáculo supremo. Nele se fundem todos os grandes géneros artísticos, realçados pela expressão transcendente da música. Dir-se-ia que o homem se inspirou nos eternos elementos da Natureza, conjugando as vozes do mar, do vento, das aves e da tempestade, para criar tantas páginas imortais do lirismo, de harmonia e do canto!”
Este texto é a introdução de uma longa nota feita pelo empresário Ricardo Covões que, durante muitos anos, esteve à frente dos destinos do Coliseu dos Recreios.
Encontra-se num programa da temporada de ópera de 1947 e é uma resposta a uma nota do Governo de Salazar, que proibia a realização de espectáculos de ópera no Coliseu dos Recreios, nos meses de Abril e Maio, em favor do Teatro Nacional de S. Carlos.
A nota governamental está reproduzida integralmente no programa**, seguida de comentários para a época muito corajosos, que relatam os prejuízos causados e o que foi possível fazer para cumprir, dentro do possível, a presença dos artistas em datas diferentes das estipuladas nos contratos já feitos. O programa que mencionei faz parte da colecção que possuo, onde também constam as temporadas de 1922/23. São herança dos meus avós paternos.
“A ópera é o espectáculo supremo”, escreveu Ricardo Covões”! Não tenho a menor dúvida; e eu especifico os elementos da Natureza por ele citados, como a música, o teatro, a pintura, a poesia e até o bailado nalgumas delas.
Mas, na minha juventude, quando comecei a interessar-me
pela música disparatadamente classificada como “clássica”, os meus conhecimentos sobre a “arte suprema” eram mais que rudimentares. Apenas os nomes das mais conhecidas e a audição de fragmentos em discos de 78 rotações na velha grafonola que existia lá em casa.

Um dia, tinha eu catorze anos e já era uma apaixonado pela  música “clássica”, deu-se o caso de jantar na casa de uns tios muito ricos. E seria nessa mesma noite que iria, pela primeira vez, assistir à representação de uma ópera. Mas, antes de contar porque tal aconteceu, é preciso relatar o ambiente que na época, rodeava a ópera.
A respectiva temporada, realizava-se no Teatro de S. Carlos e no Coliseu dos Recreios. Ao primeiro ia a elite lisboeta que tinha a obrigação social assistir a todos os espectáculos da temporada porque era ser “bem”, como se dizia na época, gostar de ópera.
Até Salazar, aquando da visita da Isabel nº 2 (mais conhecida por Sua Majestade a Rainha Isabel 2ª de Inglaterra) a Portugal, teve de acompanhá-la a uma récita. Se era rainha tinha de gostar de ópera e Salazar, como anfitrião, teve que cumprir o protocolo imposto para a visita de tão importante personagem.
Para os outros, onde se encontrava a maioria dos verdadeiros amantes de ópera, estava destinado o Coliseu. Os bilhetes eram muito mais baratos e, apesar da péssima acústica que tinha, a sala enchia-se de um público entusiasmado.

Depois deste esclarecimento, vou voltar à minha história.
Nessa noite os meus tios iam ao S. Carlos onde, todos os anos, mandavam o motorista comprar a assinatura. A ideia parecia não vir do meu tio, engenheiro civil, pessoa muito modesta, que confessava não apreciar muito aquele tipo de espectáculo.
Mas, sob a pressão da mulher e do filho, lá cumpria o que a alta sociedade determinava. (Recordo uma vez em que me confessou, quase a medo, que só não ia às óperas de Wagner porque o tempo que demoravam fazia-lhe doer o rabo).
O jantar estava a acabar quando o meu primo teve a feliz  ideia de propor que eu fosse também, sugestão que aceitei, entusiasmado. É claro que, naquele tempo, mesmo que dissesse que não queria, teria de ir na mesma. Mas, surgiu um problema: os homens só podiam entrar nas soirés daquele teatro de elite vestidos de smoking.
O problema foi resolvido com a dita (e ridícula) peça de roupa, emprestada pelo meu primo e que, com um puxa daqui estica dali, serviu para o efeito. Acabou por me ser oferecida e, depois de melhor adaptada, viria a utilizá-la noutras récitas.
Entre os vários automóveis que o meu tio possuía, constava um Rolls-Royce. Por isso, não me espantou a respeitosa intervenção de uma das várias criadas, dizendo que um dos dois motoristas desejava saber qual o carro que nos levaria ao S. Carlos.   
Simples como era, o meu tio respondeu que seria o Peugeot, logo interrompido pelo meu primo que exclamou: “Oh, pai! Para o S. Carlos tem de ir o Rolls-Royce!"  
E lá fomos.
Chegados ao largo, o automóvel, com o seu emblema alado abrindo caminho por entre outros carros de luxo que já lá se encontravam, parou debaixo da arcada. Como era regra, o motorista, de boné na mão, abriu-nos as portas e saímos do carro. Depois, foi procurar um lugar para estacionar, enquanto o desfile automobilístico prosseguia sob aquela mítica arcada.
Assim que entrei no foyer daquele teatro que só conhecia por fora, e tentando acomodar-me o melhor possível dentro da “armadura” a que me tinham sujeito, comecei a admirar todo aquele luxo.
Depois de entrar e admirar a sala de espectáculos, e de reparar nos sumptuosos casacos de peles das senhoras e na 'fardamenta' rigorosamente igual dos cavalheiros, tal como a minha, sentei-me no meu lugar. 
Foi, então, que o meu olfacto detectou um estranho cheiro. Farejando, disfarçadamente, o ar, consegui identificá-lo: tratava-se de naftalina! É claro que, nessa altura, não percebi a relação com as indumentárias presentes. Até porque no que estava mais interessado, era assistir ao primeiro espectáculo de ópera da minha vida.
Tratava-se do Werther de Massenet, compositor que só conhecia de nome, e cujo enredo ignorava completamente.
Quando a representação terminou, a minha tia disse-me que não tinha gostado muito porque a “música não entrava no ouvido”!
Contrapus dizendo que, pelo contrário, fora o que mais tinha gostado. Depois, pensei cá para mim: a partir de agora sei que vou passar a assistir de borla a muitas óperas. 
Causas? Eram fáceis de determinar: ou faziam doer o rabo ou não entravam no ouvido. E assim aconteceu.

    Notas:
*Paneleiro: fabricante de panelas; armário onde se guardam panelas. Por tabuísmo, homossexual, gay. (in Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.)

**Para os que gostam de História, aqui vai a nota transcrita conforme o original:

Lisboa, 15 de Novembro de 1946.

Ex.mo Senhor Ricardo Covões, Coliseu dos Recreios-Lisboa.

      Para conhecimento de V.Exª comunico que, por despacho de Sua Excelência o Presidente do Conselho, de 12 do corrente,

     “Não é permitida a realização de espectáculos de ópera no Coliseu dos Recreios no período de 1 de Março a 30 de Abril de 1947, para não haver sobreposição de espectáculos de ópera e ser dada a preferência ao Teatro de S. Carlos.

A Bem da Nação
                                                                 O Inspector-Chefe
                                                               a) Óscar de Freitas.

                                                       *****