27/06/2009

BÁRBAROS !


Foi inaugurado o Oceanário (perdão, SEA LIFE) no Porto (perdão, OPORTO)!!!
Ouve-se, lê-se, e pasma-se! Quem terá sido o renegado da LÍNGUA PORTUGUESA, o "genial" autor de semelhante nome, e quem será o bárbaro que tal aprovou?

Bárbaro era, entre os antigos gregos, a designação dada a todos aqueles que não falavam grego e, depois, pelos romanos a quem não falasse latim. Ora parece que esta gente usa e abusa de nomes e frases ingleses , ou porque é moda ou por simples petulância, o que é muito pior.
Meus senhores: sois a vergonha do nosso idioma e de toda a literatura produzida pela língua de Camões, uma das principais do mundo (e mesmo que o não fosse) e, por isso, só podeis ser classificados de bárbaros peneirentos (passe o calão), e responsáveis pelas crianças trocarem a palavra oceanário por «sea life».
Seria muito difícil ou impossível dar um nome português? Ou será que existem direitos contratuais que o impõem? Se, de facto, existem, será que se tentou chegar a acordo para uma possível tradução, com vista a não ofender os ouvidos daqueles portugueses que prezam a sua língua? Alguém se lembra ainda dos aviões construídos pela empresa francesa «Sud Aviation» denominados «Caravelle», e que ostentavam nos reactores dos exemplares adquiridos pela TAP a palavra CARAVELA? Se não houve tentativas para arranjar outro nome para o oceanário, a culpa continua a ser dos governos pós-25 de Abril que não defendem a Língua e a Cultura Portuguesas, tal como aconteceu antes do Estado Novo, em que a moda era o francês.
Não sou chauvinista ao ponto de condenar todos os estrangeirismos; eles só enriquecem qualquer língua, mas «uti, non abuti», principalmente quando não se trata da introdução de novas palavras, mas sim da substituição das originais por outras estrangeiras, o que muitas vezes faz com que as primeiras caiam em desuso ou até desapareçam.
Cito apenas «Resort»: Porque não utilizar a portuguesíssima palavra "estância" que já vem do Séc.XIII?
É claro que todos sabemos que o inglês se impôs como língua universal devido ao seu antigo Império, e hoje às novas tecnologias. Mas não será isto anti-democrático, já que os povos de língua inglesa ficam isentos da obrigatoriedade de aprender outro idioma, facto este já debatido na União Europeia?
O naturalista sueco do Séc.XVIII Carl Linneu, criador da classificação dos seres vivos, escolheu o latim para essa classificação por ser uma língua morta. Também os químicos adoptaram as palavras latinas ou latinizadas para os símbolos dos elementos. Assim, e como exemplos, menciono «canis lupus» e «Na». Qualquer cientista independentemente da sua língua sabe que o primeiro significa cão, e o segundo sódio (do latim natrium).
Mas será que pretendo pelo exposto ressuscitar o latim? De modo algum; e embora saiba que o que vou dizer é uma utopia, declaro ser absolutamente defensor de uma língua neutra e de fácil aprendizagem. E foi por isso que o médico e linguista polaco Ludwig Lazar Zamenhof inventou, em 1887, o Esperanto, língua internacional cuja gramática muito simples e regular, utiliza raízes das línguas europeias mais faladas, além dos clássicos radicais gregos e latinos. E até Albert Einstein caiu nessa utopia quando afirmou: «O Esperanto é a solução da ideia de Língua Internacional».
Mas estava-se no Séc.XIX. O Império Britânico era o maior do mundo e as modas (e até os bebés) vinham de Paris. Na Rússia czarista a aristocracia trocava a sua língua natal pelo francês! O Império de Napoleão fora efémero, o Otomano caíra e o Austro-Húngaro aproximava-se do fim. Na segunda metade do Séc. XX Salazar teimava "orgulhosamente só" em remar contra a História, e no leste europeu o Império Soviético, também chamado "O Paraíso dos Trabalhadores", caiu de um dia para o outro.
Hoje, com o planeta retalhado em mais de 200 países, temos o «Império da Tecnologia Baseada no Inglês», embora grande parte dela venha do Japão e também de outros lados, todos dominados por este idioma e pela gravata ocidental.
E pronto. Mais uma vez vou entrar em «stand by», mas antes vou ao «shopping», aproveito para comer um «hot dog» e volto cedo para casa, não vá ser vítima de «car jacking».
Uma vez no meu retiro, verifico se este não sofreu nenhum «home jacking» o que provocaria a utilização do «help phone».
Entretanto, fico à espera de algum «feedback».


05/06/2009

A MANIA DO GLOBAL, DO TERRENO, E MAIS ALGUNS DISPARATES


Hoje tudo é global! É o aquecimento, é a crise (desde que me conheço sempre ouvi falar nela), é o desemprego, é a pobreza (ou a riqueza, pois tudo é relativo), são as alterações climáticas, é a gripe suína (a última foi a das aves e a próxima talvez seja a asinina, sem ofensa aos burros, claro), enfim, é todo um conjunto de coisas ou situações em que o termo 'global' parece ter feito desaparecer dos dicionários palavras como mundial, geral ou total.
Até já ouvi num canal televisivo, não me lembro qual, chamar à guerra de 1939-1945, a Segunda Guerra Global!!.
E a deliciosa frase «estar no terreno»? A primeira vez que chamou a minha atenção foi quando da tragédia da ponte de Entre-os-Rios, em que uma jornalista dizia que «as buscas no terreno continuavam», embora estas estivessem a ser feitas no rio por mergulhadores apoiados por lanchas.
A partir daí, e tal como numa comunidade de papagaios, tudo passou a 'estar no terreno', seja qual for o sítio: terra, mar ou ar (e, quem sabe, qualquer dia no espaço).
A palavra 'local' e a expressão latina «in loco» desapareceram: «O ministro deixou o seu gabinete e foi para o terreno», «há três televisões no terreno a disputar a supremacia», (esta é de Marcelo Rebelo de Sousa), «os inspectores da ONU no terreno já abandonaram o país» etc., etc., etc..
Ora como já dei por mim a dizer em voz alta as palavras global e terreno, antecipando toda a verborreia que os senhores jornalistas despejam nos telejornais para preencher, seja de que maneira fôr, o excessivo tempo que lhes é concedido, começo a pensar seriamente em consultar um psiquiatra para tentar evitar que a minha pobre cabeça fique 'globalmente enterrada e aterrada no terreno global' !
Ora se é um facto que as línguas não são estáticas e, consequentemente, evoluem, pela minha parte considero que a repetição exaustiva de palavras provoca o desaparecimento de sinónimos, uma das riquezas de qualquer idioma.

Mas deixemos isto.

Segue-se mais uma pequena lista de algumas «pérolas» linguísticas apanhadas aqui e ali nos diferentes canais televisivos. A seguir a cada uma vai o meu comentário.
1º- Quadrigas de dois cavalos: Deve tratar-se de uma nova Diane criada pela Citroën.
2º- Golfinhos com formas aerodinâmicas: Que saudade eu tenho do tempo em que eles voavam em bandos no estuário do Tejo
3º- Sapinhos como filhos de répteis: Os batráquios (hoje chamados anfíbios) foram promovidos a répteis.4º- Pássaro aplicado a tudo o que seja ave: Ali vai um bando de avestruzes.
5º- As ventoínhas dos motores de avião: Como é fresquinho voar.
6º- Tigres de Benguela: De facto nunca alguém viu um tigre usar bengala
7º- Medicalização de doentes: Não lhes basta a situação patologica, têm de engolir pílulas de disparates.
8º- Pintos como filhos de todas as aves: Cuidado não pisem as crias dos colibris.9º- Avião estacionado na pista: Devido ao impedimento desta, os outros aviões passaram a descolar e a aterrar na placa.
10º- Cachalotes, narvais, golfinhos e outros mamíferos marinhos classificados como baleias: Deve ser mais um fruto da globalização.
11º- Nevão sobre Lisboa: Sempre os exageros da Comunicação Social.(perdão, dos midia, dos media, dos média... Como quiserem).
12º- 'Tsunami' como onda gigante: A tradução exacta do japonês é 'onda no porto'. Aliás, um maremoto não implica só uma onda, mas também uma subida muito rápida do nível das águas, como aconteceu nas costas orientais da Índia e do Sri-Lanka. Segundo aprendi no livro «Lições de Geologia» para o antigo terceiro ciclo do ensino liceal e do qual conservo um exemplar, este fenómeno denomina-se em português raz de maré.
13º- Fauna animal: Quando olho para uma planta fico na dúvida se esta pertence à flora vegetal.
14º- Navio infundável: Deve ter saído do estaleiro sem fundamento.
15º- Mamíferos de sangue quente: Depois de congelados perdem essa qualidade.
16º- Traças como todos os insectos alados: Os estupores das vespas roeram as minhas cuecas.
17º- Aerofobia como medo de viajar de avião: Quando se abre as janelas faz uma tremenda ventania.
18º- Quando é atacado o pangolim enrola-se ficando totalmente impregnável: Por isso é considerado a melhor esponja que existe.
19º- O general Eisenhower, sargentos e praças a tratarem-se por tu: No exército norte-americano sempre houve uma grande camaradagem, principalmente quando se trata de invadir outros países.
20º- Todos os comandos reunidos num único, permite ao piloto fazer o avião virar, subir, descer e andar para trás: O problema é a falta de espelhos retrovisores.
21º- Tempestades de gelo: Ainda havemos de ter granizo em cubos.
22º- Mamíferos fazendo o ninho: Finalmente vamos ter ovos de vaca, de coelha e de porca, já que de burros e de burras temos com fartura.
23º- Dromedários chamados de camelos: Basta comparar umas fotos para distinguir as diferenças entre uns e outros: Só os "camelos "é que não notam.
24º- Após tantos cuidados com aqueles animais, o resultado foi dramático: salvaram-se todos: Com a mania do "dramático" e de outras palavras traduzidas literalmente do inglês, qualquer dia teremos qualquer coisa do género: o resultado do acidente foi dramático, já que todas as pessoas se salvaram!!!
25º- Quem foi o autor da Sexta Sinfonia? Esta disparatada pergunta foi feita num concurso da RTP. Como amante de música e antigo funcionário da Antena 2 lembrei-me logo de uma dúzia de compositores que escreveram seis ou mais sinfonias. Mas pergunto: será que daria muito trabalho, e até porque a RDP e a RTP se encontram agora juntas, perguntar a quem sabe quando se trata de alusões à chamada música clássica?
26ºA ave pernalta grou rebatisada de "gru": Será que as vogais juntas "ou" passaram a ser lidas à francesa?
27º- Altura como altitude e vice-versa. Cuidado! Quando subirem a um ponto alto poderão ficar sem oxigénio a poucos metros de altura.
28º- "Xitina" como parte integrante do exoesqueleto dos insectos. Sabem tanto inglês mas desconhecem que "chitin" se lê como começasse por"K" e que em português é quitina.

E fico por aqui, mas "o programa segue dentro de momentos". Vou entrar em «stand by» (leia-se setandebai), o que traduzido dá qualquer coisa como «fica por»! Entretanto vou vendo mais um pouco de televisão, mas não muito, não vá a lista anterior chegar ao milhar.

'INGRAVIDEZ'

«INGRAVIDEZ»

Na data em que escrevo, 15 de Maio de 2009, há quatro pessoas que não estão grávidas. Trata-se dos astronautas que estão em órbita a reparar o telescópio Hubble.
O resto da Humanidade encontra-se no chamado estado interessante. (nunca percebi porque é que esse estado reprodutivo tem mais interesse do que outros).

Parece absurdo ou anedota, não é? Mas eu explico:
No primeiro programa sobre montanhas russas transmitido pelo canal Odisseia, com tradução e legendagem feitas pela empresa Via-Satélite, assiste-se a uma demonstração dos efeitos de ausência de gravidade a bordo de um velho Boeing 707 que, para consegui-los, faz uma curva parabólica.
Enquanto os voluntários passageiros se divertem com a ausência de peso, surge na legenda a palavra ?!INGRAVIDEZ!!!. Perante isto, o que é que passsou pela minha cabeça? Li mal, é claro, mas vou aguardar até ao fim do programa para verificar, na gravação que estou a efectuar, se foi dos meus olhos, dos óculos ou de uma estranha maleita que, momentaneamente, me atacou.
Mas não! Vista a gravação ela lá está, desafiante, com um certo ar grotesco na sua horrível fealdade gráfica e consequente fonética: INGRAVIDEZ!
Mas, Deo gratias, desta vez o locutor não foi papagaio, pois disse "gravidade zero". Parabéns!

Embora passar horas a ver televisão não seja um dos meus passatempos favoritos, gosto de ver programas onde, apesar dos meus sessenta e seis anos, posso aprender mais alguma coisa. O problema é ter de suportar estoicamente o suplício de ouvir tantas asneiras num único programa. Assim, e cumprindo o que há dias escrevi, vou extraír mais algumas da já extensa lista que, semana a semana, vou tirando dos programas televisivos.

1º- No canal «Travel» uma tradutora chamada Luísa Lopes escreve o número dos séculos com algarismos árabes, quando este deve ser feito com numeração romana, e põe toda a gente a tratar-se por tu, quando esta forma não é natural entre os portugueses, que só a usam quando têm uma relação próxima com o interlocutor. No entanto tenho que fazer justiça a esta senhora que , para além de se identificar, faz traduções para um português correcto e fluente.
2º- É frequente serem mencionadas na Terra temperaturas de muitas dezenas de graus (por exemplo 90º). Claro que é impossível na escala centígrada ou de Celsius. Será que custa muito dizer Fahrenheit (imploro que não pronunciem em inglês!) ou consultar uma tabela de conversões?
Para quem não saiba, a mais alta temperatura registada na Terra, desde que há medições, ocorreu em El-Aziziá na Líbia, onde os termómetros atingiram 57,8ºC à sombra em 1922.
3º- Esquadra, esquadrilha e esquadrão. Segundo o que aprendi no tempo em que fui militar à força, o que fez com que passasse dois estúpidos anos em Angola, 'esquadra' aplica-se a navios, 'esquadrilha' a aviões e 'esquadrão' à cavalaria que, apesar de se ter tornado motorizada, manteve a tradição nominal. E, mais uma vez para quem não saiba, esclareço que o Exército Português utilizou verdadeiras cargas de cavalaria no leste de Angola em 1966, provocando debandadas gerais entre os indígenas que, nunca tendo visto cavalos, chamaram-lhes «palancas sem cornos».
4º- 'Capitão' como sinónimo de 'comandante de avião', é mais uma tradução à letra do inglês. Será que alguém ao viajar de avião ouviu alguma vez dizer: "o capitão (fulano tal) e a sua tripulação dão as boas-vindas aos seus passageiros"...etc?
Embora no Brasil exista o posto de capitão-aviador, não significa obrigatoriamente que seja este a comandar o avião. Em Portugal 'capitão' é um posto do Exército situado entre tenente e major e, na Armada, há vários postos formando combinações tais como 'capitão de mar e guerra' ou 'capitão de fragata', mas quem manda é o 'comandante', qualquer que seja sua patente, tal como na aviação, seja esta militar ou civil.

Pelo exposto peço aos excelentíssimos tradutores que evitem o suplício de ter de ouvir ou ler constantemente «o capitão do avião» ou «o capitão do navio». Está bem? Muito obrigado!


10/05/2009

Uma breve história daquilo a que chamo tradutores ignorantes e locutores/papagaios


Esta história não é de agora. É evidente que desde que o Homem começou a falar, aconteceu a inevitável consequência: o disparate linguístico, que se agravou com a tentativa de transmitir os seus pensamentos para outros idiomas, até porque cada um contém expressões e palavras intraduzíveis que provocam muitas vezes o disparate e até a hilariedade quando traduzidas à letra.

Mas avancemos até ao início dos anos 80 do século passado. Alguém se lembra, ainda, da série “A Vida na Terra” de David Attenborough, e da qual possuo todos os episódios, gravados no velho sistema"beta"? O consagrado Eládio Clímaco, por quem aliás tenho muita admiração como apresentador, seguiu à letra dezenas de disparates devidos a má tradução. Talvez o melhor de todos seja aquele em que diz, no 7º episódio: “…a certa altura os répteis desenvolveram na cabeça saliências ósseas em forma de barretes dramáticos”. É espantoso, não é? Espantoso e dramático não saber que este adjectivo não tem o mesmo significado em português e, que pode e deve ser substituído por espectacular, assinalável, notável, conspícuo, etc. Espantoso é também o facto de se tratar de uma locução feita em estúdio, e não em directo onde qualquer disparate pode acontecer. Como fui profissional da RDP na Antena-2, sei quantas paragens são necessárias para corrigir inevitáveis erros e enganos; e isto no tempo em que não existiam computadores e tudo era gravado em fita magnética, onde os operadores de som faziam autênticos milagres para intercalar ou omitir qualquer palavra ou frase.

Ora actualmente é muito difícil admitir que empresas como “Pátio das Cantigas”, “Pim-Pam-Pum”, “Ideias e Letras”e outras que de momento não me recordo, não ponham mais cuidado nos disparates dos tradutores com que depois os locutores-papagaios nos supliciam.
Ver um programa que dura cerca de 50 minutos e ouvir constantemente que “um relâmpago caiu”, “um relâmpago atingiu fulano...”, “um relâmpago fendeu uma árvore”, etc, não será um suplício? Não saberão que relâmpago é a luz emitida pelo raio e que este, e só este, pode provocar as situações atrás descritas? Ou então termos de aturar “a progenitora isto” ou “o progenitor aquilo” durante todo um programa? Embora não esteja errado, uma das grandes riquezas da língua portuguesa é evitar a repetição de uma palavra na mesma frase. Porque não alternar de vez em quando com pai, mãe, ou pais?

Aquando do 11 de Setembro, a jornalista da RTP Andreia Neves repetiu vezes sem conta que “as torres gémeas colapsaram”, papagueando o que ouvia em inglês. Mas o verbo colapsar, não se aplica normalmente a edifícios. Para isso, e em bom português, temos desmoronar, ruir, cair, desabar, abater, etc. Mas, claro, o que dá menos trabalho é traduzir certas palavras à letra e não consultar fontes técnicas para evitar disparates. Depois termos de ouvi-los pela voz de locutores, alguns até com excelente dicção e voz radiofónica, mas que parece seguirem à risca o que lhes pôem diante dos olhos. Mas o que é mais importante é pronunciar com uma ênfase exagerada a língua inglesa, idioma que já por si é enfático e que possivelmente provocaria num cidadão britânico a exclamação típica “I beg your pardon!”, mesmo que fosse de Oxford. Os outros povos não se preocupam com isso, a começar pelos próprios ingleses. Todos sabemos como eles pronunciam Mourinho, por exemplo.

Mas o cúmulo do ridículo acontece quando se pronunciam em inglês nomes que nada têm a ver com a Inglaterra. Que o digam o astrónomo alemão Kepler que já foi apelidado de ‘kipler’, ou o também astrónomo de nacionalidade dinamarquesa Tycho Brahe, quase sempre pronunciado como 'Táicau'. Também a Bielorrússia já foi chamada de ‘bielorrâxia’. Ora, o nome do país provém do russo 'bielo' (branco) mais Rússia e isto, para quem não saiba, deve-se ao facto de os seus habitantes terem o cabelo, os olhos e a pele muito claros. Portanto, traduzido à letra seria Rússia Branca. E, entre dezenas de exemplos, vou citar ainda o caso da pobre ninfa Io, que deu o nome a um dos satélites de Júpiter, e é tão conhecida dos amantes de palavras cruzadas. Pasme-se, mas a dita ninfa já foi chamada de “Aiôu”. Coitada! Já não lhe bastou ter sido violada por Zeus e por ele transformada em vaca. Agora mudaram-lhe a nacionalidade, e qualquer dia são capazes de lhe chamar ‘the cow Aiôu'.
E, já agora, para os curiosos que tenham a paciência de me ler, e sem querer entrar em mais pormenores sobre esta figura mitológica, esclareço que foi ela que deu o nome ao mar Jónico (Iónico) e, depois de atravessar o estreito que separa o mar Negro do mar de Mármara, e que hoje divide a cidade de Istambul, lhe deu o nome de Bósforo, o que em grego significa ‘estreito da vaca’.
Meus amigos: quando não sabemos a que língua pertence uma palavra, o melhor é pronunciá-la em português. O meu saudoso pai contava que uma vez na Espanha, pediu ao empregado do hotel uma "escueva". Sem entender o pedido, o espanhol solicitou-lhe que falasse português, já que talvez fosse mais fácil compreender. Depois de ouvir, exclamou: "Si, una escova"!

Concluindo: é melhor falar e pronunciar na nossa língua, do que cometer erros grosseiros só para mostrar que falamos todos os idiomas do mundo.

E por hoje fico por aqui. Para a próxima vou elaborar uma lista de ‘pérolas’ em que as empresas atrás aludidas são férteis.


10/04/2009

OS DISPARATES NÃO SÃO DE AGORA...


Na gala das comemorações dos 25 anos da RTP, realizada no Casino Estoril em 1982, o cineasta António Lopes Ribeiro, ao recordar a figura do padre Raul Machado e as suas inesquecíveis “charlas linguísticas”, leu um texto, escrito não sei por quem, que começava assim: - “Na minha óptica, e ao nível dos ouvintes, etc, etc …” Quando concluiu a leitura, exclamou: - “se o venerando padre Raul Machado fosse vivo, pregava-me uma grande descompostura, e tinha toda a razão”. Aludiu também ao facto do uso e abuso de palavras inglesas tais como ‘pub’, ‘snack-bar’ e à novidade que era o ‘videotape’. Visto isto, e passados mais 27 anos sobre o que atrás ficou dito, resolvi, quanto mais não seja para me divertir, escrever um texto “actualizado”. Aqui vai: “Na minha óptica, e porque me encontro globalmente "seqüéstrado" por motivos de reforma voluntária, o que de modo algum é dramático, verifico como os canais de televisão no terreno contribuem para o colapso letal da Língua Portuguesa. E como não há no terreno qualquer entidade forense que evite tal colapso, receio ser eu próprio a colapsar no terreno perante tantos e "massivos" disparates. Ora, e falando global, tenho de concluir que o meu "know-how"(leia-se nâuáu) nesta matéria poderá parecer um "fait-divers"(leia-se fédivér) ou um "fair play"(leia-se férplâi). Embora saiba e compreenda que as línguas evoluem no terreno, mantenho que há regras dramáticas que não podem ser alteradas no terreno sem uma entidade forense que as aprove sob pena do colapso definitivo da língua. Até porque a nível global, a globalização vai englobando as pessoas numa linguagem global que, no terreno, acaba por se tornar global.” E "prontos"! Vou entrar em "stand by" (leia-se setandebái) Vou voltar ao meu "seqüestro" voluntário e entrar em meditação, porque tudo isto soa muito mal na minha 'acústica'. Além disso, já "esgotâmos" o nosso tempo, como diz Judite de Sousa, e não quero, por hoje, que este assunto se torne “perpétuo para toda a vida” como disse Sandra Felgueiras em relação à pena a aplicar ao chamado ‘monstro da Áustria’. Para a próxima, irei expor uma lista de disparates na qual locutores-papagaios repetem, até à exaustão, as asneiras dos tradutores. Começarei por Eládio Clímaco e os seus ‘barretes dramáticos’. Será que alguém se lembra da série ‘A Vida na Terra’ transmitida na RTP no início dos anos 80? Eu tenho a gravação integral e vou recordar alguns dos disparates que infestaram essa esplêndida série de David Attenborough.
- Até à próxima.

27/03/2009

Tradutores/Locutores/Papagaios

O que se ouve nos canais televisivos, e muito especialmente nos da TV por cabo, onde imperam empresas como “O Pátio das Cantigas”, “Pim-Pam-Pum”, “Ideias e Letras” etc, cada qual mais apostada em erros de português e cultura geral, é de pasmar.
É óbvio que ninguém pode saber tudo, mas manda a honestidade e o respeito pelo telespectador que os tradutores e os “papagaios” que lêem os textos, se documentem antes de falar daquilo que não sabem.
Para quando um Governo que crie uma comissão constituída por linguistas e consultores técnicos, que imponham a essas empresas uma disciplina didáctica que não possuem?
De facto, o que se ouve hoje através dos meios de comunicação social (os chamados media) é de pôr os cabelos em pé a qualquer pessoa que se preocupe com a língua portuguesa, ou com assuntos básicos da cultura geral.

Comecemos, e apenas por hoje, pelo nome do livro sagrado dos muçulmanos: Corão, ou Alcorão?

Tendo dúvidas sobre esta questão, e devido a ela ter dormido muito pouco, resolvi passar o fim de semana em ‘Bufeira, no ‘Garve.
Assim, cedo abandonei as ‘mofadas, vesti uma camisola de ‘godão, meti algum dinheiro na ‘gibeira e lá fui na minha carripana. Passei o vale de ‘Cântara, atravessei a ponte dita 25 de Abril, e deixei ‘Mada para trás.
Chegado a ‘Cácer’ do Sal, parei para comer umas ‘môndegas de ‘catra, acompanhadas com salada de ‘face temperada com um excelente ‘zeite. Prossegui viagem, e tendo parado em ‘Justrel, aproveitei para beber uma cerveja sem ‘cool e ver uma antiga 'zenha. Finalmente cheguei a ‘Bufeira, onde, para meu espanto, não encontrei nenhum odor relacionado com essa palavra, a qual me parece mais empestar a língua portuguesa do que as narinas dos cidadãos!

Este seria um texto que os defensores de 'Corão? teriam de utilizar se fossem coerentes. Mas já que insistem nesse disparate, esclareço:
O artigo árabe ‘al’ ou ‘az’, conforme a consoante seguinte seja lunar ou solar, distinção própria do alfabeto árabe, entrou na Península Ibérica aquando da invasão muçulmana em 711. Os povos que então a habitavam, começaram a ouvir o referido artigos ligado aos substantivos, pelo que o primeiro se tornou parte integrante dos segundos. Como tal, quase todas as palavras começadas por 'al' ou 'az' (exceptua-se por ex., almoço, que vem do latim), mantêm o artigo como fazendo parte integrante da palavra. Se a consoante seguinte for lunar será 'al': al-qaçr; se for solar o 'l' passa a 'z': az-zait.
Logo, o termo correcto é Alcorão, e não Corão como alguns nos vêm tentando convencer, seja para mostrar uma erudição que não possuem ou, pior aímda, imitando os franceses, ingleses, e outros povos que nunca estiveram sob a dominação árabe. Sempre o nosso complexo de inferioridade!

Quem não estiver de acordo comigo, peço o favor de consultar o prefácio do Presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa, publicado na edição do “Alcorão” pela editora Europa América, ou ainda, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa e o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado.

- E por hoje é tudo! Prometo mais, e muito mais…