09/06/2013

MODERNICES LINGUÍSTICAS EM CIMA DA MESA

O “KNOW-HOW” DA “FAST-FOOD” A “LOW-COST”, E OUTRAS MODERNICES LINGUÍSTICAS EM CIMA DA MESA.

(Leia-se: saber como fazer comida rápida a baixo custo e outras modernices linguísticas “on the table”).



Como tenho afirmado noutros artigos deste blogue, os comentários que se seguem não sugerem, de modo algum, que sou contra quaisquer modificações que ocorrem naturalmente em todas as línguas. Estas, como todas as coisas, não são estáticas, senão ainda estaríamos a emitir uivos e guinchos como os primeiros hominídeos. Outrossim é contestar como as línguas evoluem por moda ou por submissão imperialista, como acontece agora, na maioria dos casos, com o inglês. Já aconteceu com o grego, o latim e o francês, e é preciso não esquecer que no antigo bloco de Leste, a língua russa era imposta aos países satélites.

A lista que se segue é fruto do pouco tempo que dedico a ver televisão. No entanto é suficiente para se tornar num suplício ter de ouvir e ler, até à exaustão, a repetição de palavras que quando surgem no nosso vocabulário, parecem ter entrado num aviário de papagaios. (Foi este o tema do meu artigo intitulado “Uma breve história daquilo a que chamo tradutores ignorantes e locutores/papagaios” inserido neste blogue e publicado no dia 10 de Maio de 2009.

E, como presunção e água benta cada qual toma a que quer, chamo a atenção para uma lista de disparates tirados de programas dos canais televisivos, que publiquei a 5 de Junho do mesmo ano. Nessa altura disse que iria continuar a fazer tão aliciante recolha, mas “ostras” plenas de “pérolas” desse género são tantas que perdi a pachorra. Afinal, o principal objectivo deste blogue é, como consta no título, utópico.

Mas, como seguimento dessa lista, vai aqui outra que poderia ser chamada de “modernices linguísticas”, “a subserviência à língua inglesa” ou “a psitacose, doença comum aos papagaios, que também se propaga aos humanos”.

Assim, é comum ouvir-se dizer repetidamente, por vezes até à exaustão, algumas palavras como seguem. Note-se, no entanto, que a maioria destas “modernices” não constituem erros de português, mas sim uma subserviência à língua inglesa, como demonstram as traduções literais, e as mudanças políticas influenciadas por uma certa “esquerda”que rebaixou socialmente o nome de certas profissões, não modificando em nada o trabalho necessário e honesto de cada membro da sociedade em que todos somos precisos.



Bicha – fila (no meio de tantos palavrões que hoje se dizem “à moda do Porto”, bicha é que é feio).

Notável, maravilhoso, grandioso, imponente – dramático (embora aceite pelo dicionário Houaiss, será que soa bem uma frase como “o resultado foi dramático: salvaram-se todos”).

Alcorão – Corão (trata-se de um atentado à influência da língua árabe na cultura peninsular. Quem quiser, procure a historieta que escrevi neste blogue em 1 de Março de 2009).

Ruir, cair, desmoronar, etc. – colapsar (será que os prédios passaram a ter colapsos cardíacos?)



Mãe – progenitora.

Insurrecto – insurgente.

Mortal, mortífero – letal.

Legista – forense.

Serviços secretos – serviços de inteligência (?!)

Hospedeira – assistente de bordo (parece que ser-se hospitaleiro, no sentido de receber bem, está fora de moda).

Montar programas de rádio, etc. – editar (às vezes tenho pena de já não estar na RDP para ter de editar, em vez de montar um programa. Ou será que montar implica complexos a alguns pudicos excêntricos?)

Total, geral – global.

Maciço – massivo (em cinco dicionários da língua portuguesa, não encontrei esta palavra. Talvez naqueles que, entusiástica e “patrioticamente” aderiram a mais um acordo ortográfico).

Comandante de avião, navio, etc. – capitão (quem viaja de avião, alguma vez ouviu dizer: o capitão fulano deseja boas-vindas a bordo?)

Campeonato – liga (e venha a champions).

Conjunto musical – banda (em português, uma banda é basicamente uma orquestra de instrumentos de sopro e percussão).

Criada – empregada doméstica (até parece que servir, todos fazemos ou já fizemos nas diferentes profissões, é uma vergonha).

Folheto ou prospecto que acompanha os medicamentos – bula. (lembro-me de quando a minha mãe pagava bulas à Igreja Católica para podermos comer carne, já não sei a que dias do ano. Isto já depois de três séculos após ter surgido um “herege” chamado Martinho Lutero).

Países em vias desenvolvimento – países emergentes. (estranhos países, principalmente os da África Negra, que apesar das riquezas que possuem, há muitas décadas que não conseguem sair da cepa-torta).

Aviões construídos pela firma canadiana “Bombardier” – Aviões bombardeiros a combater incêndios!!!

Climático, climatológico – climatérico. (que grande confusão entre os fenómenos atmosféricos e femininos. Mesmo depois do professor Anthymio de Azevedo ter criticado este galicismo, a “sapiência” dos chamados media é superior.

Ponto em vez de vírgula a representar números fraccionários – (espero nunca ter de passar por uma ponte em que os engenheiros não distingam, na matemática, um sinal do outro).

E… EM CIMA DA MESA (on the table)! É só ver e ouvir os telejornais. Tudo agora que está em discussão, está em cima da mesa. Até os gravadores de CD ou DVD chamam-se gravadores de mesa!

Ora como em cima de uma mesa pode fazer-se muita coisa, este termo repetido vezes sem conta “no terreno” dos chamados media, já me deu vontade de dar um murro no televisor que, como é óbvio não tem culpa das pessoas estarem a perder

uma das maiores riquezas da língua Portuguesa: a abundância de sinónimos.

Mas, aproveitando o uso e abuso das menções a esta peça de mobiliário, deu-me vontade de enunciar algumas das muitas e utilíssimas funções de tão prático e funcional móvel que o génio do homem inventou, possivelmente após aprofundados estudos de carpintaria e, quem sabe, após longas meditações metafísicas. Eis alguns dos inúmeros usos a que tão simples objecto pode prestar-se:

Comer, jogar cartas, xadrez e outros jogos de mesa, dar murros, escrever, etc. etc. etc. e até fazer amor, mesmo que o tampo seja frio como os de mármore. Com o atrito dos ritmados movimentos causados pelo dito acto, em breve este ficará quente, coisa que, aliás, não preocupa os intervenientes. Afinal, como horizontal que é, a mesa torna-se tão prática como o chão ou uma cama. É possível que haja quem já tenha feito amor (só para reprodução, claro, em cima de um piano de cauda, obtendo assim sonoridades insuspeitadas, numa orquestração que, junta aos suspiros, gritos e outros sons dos actores, fariam inveja a um Rimski-Korsakov, Stravinski ou Ravel.

Mas, para os que preferem a cópula sentada, até um piano vertical pode servir. Neste caso, a posição do que fica por baixo deve estar em cima do teclado com a tampa levantada. Que sons e ritmos espantosos não poderiam ser assim tirados, inspirando alguns génios dos chamados compositores de vanguarda que, como escreveu Sravinski em “Poética da Música”, “estão juramentados perpetuamente a exceder-se a si próprios, pretendendo que a música satisfaça o gosto pela cacofonia absurda”. Afinal, sempre há gostos para tudo, até porque muito poucos têm a coragem de dizer que “o rei vai nu”.

E, mudando de assunto e como tenho umas garrafas de cerveja EM CIMA DA MESA, vou esvaziá-las antes que a morte me surpreenda e seja cumprida a minha última vontade (registada notarialmente) de servir para estudo EM CIMA DA MESA da anatomia. Só tenho pena que entre os estudantes não possa lá estar o “Vasquinho da Anatomia”. Sabem quem foi?



P.S. Já uma vez comentei a mania do “terreno”. Que tal este título que li num dos últimos números jornal “O Correio da Manhã”, que encontrei por acaso EM CIMA DA MESA de um café?

“Polícia Judiciária no terreno (com esta palavra em vermelho!) procura pistas”.





11/04/2013

D. ANÍBAL, “O GRANDE”


D. ANÍBAL, “O GRANDE”,
REI DA BELALÂNDIA

Conto infantil por João Maia-Saturnino
  (Para crianças actuais, obviamente)

Nota: Qualquer semelhança com personagens reais é pura coincidência.

Primeiro capítulo:
O País e o Ministro

Era uma vez um pequeno país chamado Belalândia. O seu nome devia-se à beleza das suas paisagens e à benevolência dos seus habitantes, que se consideravam, muito justamente, como um povo de brandos costumes.
A sua longa História de quase nove séculos, durante os quais os seus navegadores e alguns pedestres percorreram o mundo, era um dos seus maiores orgulhos. No entanto, e talvez por modéstia, tinham a mania de dizer que lá fora (diga-se fora das suas fronteiras) tudo era bom, ao mesmo tempo que, estranhamente, diziam mal de si próprios e da sua terra, apesar de crerem que ela era abençoada por Deus e ter por madrinha a chamada Virgem (?!) Maria. Talvez fosse, para além da referida modéstia, um certa dose de masoquismo.
Também tinha a mania de que falava todas as línguas do mundo, preterindo o seu próprio idioma a favor do francês e, posteriormente, do inglês. Este estranho hábito levava-o muitas vezes a pronunciar a última com um zelo tal, que chegava a atingir palavras de outras línguas que nada tinham a ver com ela.
Mas, adiante. Ninguém é perfeito e os povos também não. Assim, e apesar de guerras, crises, pestes, fomes, terramotos e outras catástrofes acontecidas com a bênção do seu Deus e a cumplicidade da Madrinha, que teve um filho mas tinha o hímen intacto, (o que era a coisa mais importante), o sol dourado, o azul do oceano, e toda uma plêiade de santos e heróis constantes da sua História, a mais bela de todas como se ensinava no regime político anterior àquele em que este conto decorre, continuavam a justificar o nome de Belalândia.
Ora, como todos sabemos, é muito certo o rifão que diz que no melhor tecido pode cair uma nódoa. E, a par dos grandes ladrões de terras do passado (perdão, conquistadores) que criaram um dos maiores impérios mundiais com o pretexto de levar a fé cristã à barbárie, surgiram também uns imbecis capazes de envergonhar todos os chamados grandes do passado.
Entre eles surgiu na história recente da Belalândia um pobre diabo, nascido nas terras mais meridionais do país, que apostou na ideia de um dia vir a ser governante, e se possível fundar uma nova dinastia chamada da “Casa de Bule-e-Queima”, nome do lugarejo onde foi parido por sua mãe, senhora que, segundo consta, era possuidora das mais elevadas virtudes, embora, pelo menos após o parto, não fosse virgem, o que nunca lhe permitiria vir a ser madrinha do país.
Consta que empurrado pelo pai, um vendedor de petróleo refinado para veículos motorizados, achou que o melhor caminho para alcançar tão ambicioso projecto, era tirar um curso de Ciências Económicas e Financeiras. Mesmo que não aprendesse mais nada para além do estritamente necessário, como saber ler, escrever e contar, confiou na máxima de que em terra de cegos quem tem um olho é rei, ou melhor, ser doutor em qualquer matéria fosse como fosse. Até porque na Belalândia, ser-se bacharel ou licenciado abria todas as portas a qualquer cidadão, mesmo que fosse um imbecil.
Assim, lá partiu a caminho de Belaboa, a capital do país, bem instalado numa camioneta, uma vez que os burros quadrúpedes da sua aldeia se recusavam a transportar qualquer burro bípede nas suas costas. Em tudo deve haver um mínimo de respeito e decoro, e aqueles solípedes, apesar do nome que lhes puseram, merecem também o nosso respeito.
Mas, o ambiente da grande cidade, fez-lhe despertar a cobardia que lhe era inata, e  fazia-o esconder-se atrás de um colega para escapar às reprimendas dos mestres, atirando assim com as culpas para os outros. E, tal como os gauleses da aldeia de Astérix, adquiriu a mania que o céu lhe poderia cair em cima da sua obtusa cabeça. Este facto aconteceu quando viu, aterrorizado, que vários monstros voadores passavam sobre a cidade, coisa que não acontecia na sua aldeia, e que fez com que, anos mais tarde, mandasse fechar o espaço aéreo da área da sua residência, não fosse uma daquelas estranhas aves deixar cair um ovo em cima dele. Este facto ofendeu as dezenas de “seguranças” de que sempre se rodeou; então eles não tinham capacidade para dar um chuto num ovo, mesmo que fosse maior do que o de uma avestruz? Mas ele não era homem para se impressionar com protestos e manifestações. Quero, posso e mando era a sua divisa, inspirada pelo medo. Afinal, quem tem rabo também tem medo (de levar umas chicotadas) e, os terrores dele já tinham evoluído para uma autêntica paranóia.
Mas, mesmo os medrosos também têm os seus romances de amor, apesar de o casamento ser uma aventura muitas vezes ingrata, pelo que o povo também lhe chama forca. Assim, o nosso indígena da Bule-e-Queima, meteu temporariamente todas as fobias num saco, e deu o nó com uma prendada senhora chamada Maria, como a maioria das mulheres do país. Enlevados, arranjaram uma moradia e puseram-lhe um nome formado pelas iniciais dos seus nomes. Que romântico! Mas, como escreveu um poeta chamado Fernando Gente, “romantismo sim, mas devagar”. É que o problema surgiu quando a prendada senhora se revelou tanto ou mais megalómana do que o marido, isto é, queria ser a primeira-dama e, se possível, Dª Maria III, esposa de D. Aníbal I “O Grande”, no caso da Belalândia voltar a ser a monarquia que já fora.
Inspirado por sua esposa, conseguiu chegar a ministro das finanças no Governo de um primeiro-ministro chamado Sá Cordeiro, tragicamente desaparecido. Mas, foi sol de pouca dura: pouco tempo depois era corrido como incompetente.
-Ai, Maria! (bufou com a sua voz roufenha). O que vai ser dos nossos belos sonhos de poder. A minha vontade é escavacar a bosta deste pais.
-Não te preocupes, meu amado esposo, afirmou ela com a força esmagadora da sua personalidade de trazer por casa. Não dês cavaco à populaça. Se não serves para ministro, servirás para Chefe do Governo, e só terás, na hierarquia do Estado, duas pessoas acima de ti. Tem calma; lá virá o dia em que serás o mais importante do teu país, e eu subirei a teu lado. Para isso, e para começar, vou passar a dar-te lições de boas maneiras e cultura geral. De modo algum quero voltar a ver-te comer um bolo-rei com a boca aberta, dizer que “Os Belasíadas” têm quatro cantos e que leste “A Utopia” de Tomás Men. Estive a investigar e descobri que Thomas More (e não men) foi um inglês que nasceu no século XV, foi executado por ordem de Henrique VIII e, séculos depois santificado, tornando-se o patrono dos políticos. E tu bem precisas de um patrono, pelo que deves dedicar-lhe as tuas orações. Se, de facto, leste a “A Utopia”, devias saber isto. O outro, Thomas Mann era alemão e foi prémio Nobel da literatura em 1925, e pronuncia-se com se escreve. Estás a ver o que tive de investigar para saber isto? Ai essa falta de cultura! Espero que, ao menos, tenhas aprendido isto e que passes a ler jornais, à falta de melhor. E dizes tu que és um homem que nunca se engana e raramente tem dúvidas!Olha que está a emergir na nossa política um idiota a quem o pai baptisou  Socretino em homenagem a um filósofo que disse “sei apenas uma coisa: é que nada sei”. Cuidado porque ele pode tornar-te a vida negra.
-O quê, Maria, ele disse isso?
-Não foi o português, foi um filósofo grego que esteve cá há pouco tempo a passar férias. Mas, continuemos.Procura, também, corrigir essa horrível pronúncia. Não se diz “purgrama do gurveno”. Até parece que levaste uma purga.
- É um defeito que a minha língua tem desde que nasci.
-Isso sei eu, desde que casei contigo. Não sabes usá-la de maneira nenhuma. Nem a falar nem a comer, entre outras coisas. Portanto, ouve-me e cala-te. Lembra-te, também, que este povo é uma paz de alma. Até fez uma revolução com cravos, o que deixou muita gente encravada. Chegou a altura de aproveitares a situação. E, por hoje, basta. Vamos para a cama para eu te ensinar o que é que os belalandenses têm de fazer para conseguir ter mais filhos. Será que ainda te lembras?

***

Segundo capítulo:
O Primeiro-Ministro

E o tempo passou. Maria foi profeta. Mal informado, ou desiludido com os governantes anteriores, o povo da Belalândia votou no Aníbal de Bule-e-Queima tempos depois de este, medroso como sempre mas oportunista, ter desaparecido da cena política.
E foi eleito Primeiro-Ministro por três vezes, para alegria de uns e tristeza daqueles que viam as tristes figuras que fazia no seu país e no estrangeiro, e olhavam para os seus esgares e ar de idiota, quando aparecia na televisão ou em fotografias nos jornais, muitas vezes tiradas de propósito, nos seus melhores (ou piores) momentos. E, quando ia à praia, mandava afastar os outros banhistas cem metros para cada lado, não fosse alguém perturbar as suas profundas meditações enquanto conduzia o barco do estado, julgava ele, com mão segura. É claro que não tinha culpa; ele era mesmo assim. Mas isto era o menos, comparado com o que estava para vir.
Cumprindo os preceitos que caracterizam os falsos bons alunos, a que juntou a cobardia e a ignorância sobre os debates políticos, aceitou todas as imposições que o clube de países a que pertencia a Belalândia ditou. A troco de dinheiro fácil, mandou abater a frota pesqueira, abandonar a exploração agrícola, destruir a indústria e levar o país a uma dependência quase total do estrangeiro. Além disto criou uma enorme classe de novos-ricos, autorizando alcavalas a quem ganhava mais, como subsídios de gasolina, reformas antecipadas com compra de anos de serviço por meia dúzia de cêntimos, e montes de outros benefícios. Assim, aumentou o fosso entre ricos e pobres, coisa que nem um antigo ditador chamado António Azeitoneira Sal e Azar, que governou o país durante quase quarenta anos, fez. E, apregoava, na sua rude imbecilidade, ser “o homem do leme” ao mesmo tempo que berrava “deixem-me trabalhar”!
Rodeado de ladrões, corruptos e oportunistas, não houve obra cujo orçamento não “derrapasse” do previsto, sem que Aníbal prestasse contas sobre o paradeiro de tanto dinheiro desaparecido, ou mandasse identificar e prender os ladrões.
Finalmente, e após um terceiro (des)governo, perdeu as eleições, o que fez com que desmaiasse durante a tomada de posse do seu sucessor.
Parecia o fim político do “homem do leme”, mas não foi. Sempre cobarde, a perguntas sobre o seu futuro político, respondia que isso era tabu. Mas o plano do casal tinha de ser executado à risca, ou eles não ambicionassem o poder a qualquer preço, mesmo que Aníbal tivesse de se esconder o tempo necessário. Também o seu provincianismo, no mau sentido do termo, obrigou Aníbal a dar razão aos ditados que dizem “nunca peças a quem pediu” e “nunca sirvas a quem serviu”. O que poderia, então, ter como posto mais alto que não fosse o de Presidente da República da Belalândia, e a sua esposa a primeira-dama, já que a monarquia era uma causa perdida?
Assim, concorreu duas vezes a eleições presidenciais, mas em ambas foi derrotado.Voltou, então, aos seus tabus, e desapareceu novamente, esperando por nova oportunidade, que chegou passados dez anos, como vingança sobre a populaça ignorante que o havia renegado.

***

Terceiro capítulo:
O Presidente (1º Mandato)

Nas vésperas da tomada de posse como Presidente da República da Belalândia, em que tentava pôr em ordem os confusos e poucos pensamentos inteligentes que lhe passavam dentro da caixa craniana, pouco superiores aos de um chimpanzé de dois anos, teve de aturar a sua amada esposa que lhe ministrava, mais uma vez, doses maciças de boas maneiras e cultura geral: ó homem, quando voltares a falar em público, lembra-te que no teu anterior reinado tiveste um tipo ligado a essa estúpida coisa chamada cultura, um tal Santa-Ana Popes, que deu bronca quando disse que gostava dos concertos para violino de Xou-Pang.
-Xou quem?
-Xou-Pang, aquele músico chinês do tempo de Mao-Tesão-Dong. E, a propósito de tesão: nas cerimónias oficiais a que terás de presidir, cuida de pôr o nó da gravata direito, mesmo que eu esteja lá para arranjá-lo em frente de toda a gente. E, se voltares a desmaiar, enfio-te uns dentes de alho pelas ventas adentro, para ficares bem teso.
-Ai, Maria! Larga-me a braguilha, pois já não posso aturar os teus sermões.
-Não é só o que está dentro da braguilha, homem. Quero-te todo teso, nem que para isso tenhas de pôr o país no mesmo estado.
-Mas, o país já está todo escavacado, Maria.
-Deixa lá, não foste só tu a fazê-lo. O que é preciso é que agora te portes bem e atires as culpas para os outros, como sempre fizeste. Lembra-te que és o primeiro entre os primeiros. Mas, precisas de mais conselhos. Por exemplo, se um dia fores ver como hoje se ordenham as vacas, não penses que elas estão a sorrir, mas sim a olhar para ti com os cornos apontados em ar de compaixão.
-Mas, Maria, há muitos anos que olho para uma vaca!
-Estás a referir-te a mim, estúpido?
-Não, meu amor. Mas a saudade da minha terra, à qual ordenei que mudassem o nome de Poço de Bule-e-Queima para Fonte de Bule-e Queima, recordou-me  a  Marilú, a vaquinha que o meu pai mungia antes de trocar o leite pela gasolina. É que, na época, havia uma frase que dizia: “tens muito leite”, e que significava ter muita sorte. Mas, apesar da troca de líquidos, o meu pai conseguiu, como sabes, enviar-me para Belaboa, onde me tornei doutor.
-Licenciado, queres dizer.
-Ora. Tu bem sabes que na nossa terra licenciado e doutor é a mesma coisa. Para os segundos inventou-se o título professor doutor, que soa muito melhor. De qualquer modo, também me doutorei e, por isso, sou professor embora não saiba grande coisa de finanças. E hoje sou também doutor honoris causa, como sabes. A propósito: lembras-te daquele escritor chamado José Sal-Amargo a quem deram o Prémio Nobel? O palerma, que nem sabe usar a pontuação naquilo que escreve, disse que quando eu falava era o campeão da banalidade, entre outras cretinices a meu respeito. Pobre idiota. Mas, quando ele morrer, vou vingar-me não indo ao funeral dele. Vais ver como, mesmo depois de morto, vai ficar chateado. Se eu tivesse poder absoluto mandá-lo-ia enterrar na Feialândia.
-Onde fica isso, meu amor?
-Não sei. Mas para um herege que disse que a nossa querida Bíblia é um manual de maus costumes, era uma boa ideia que existisse, já que o Papa Wojtyla acabou com o inferno.
-Cala-te, que é melhor, porque afinal não és lá muito católico. A propósito: quando é que vais à missa?
-Sabes que não gosto de dar nas vistas. Rodeado de seguranças e ter de mandar fechar o espaço aéreo, seria provável que alguém reparasse em mim.
-Então não confias no Deus da Bíblia?
-Confio. Mas, como sou desconfiado, receio que, numa coisa ou outra, o tal Sal-Amargo tenha razão quando disse que esse Deus não é de fiar!
Cala-te, homem. Para pecados já chegam os que tens feito ao teu País. Mas está na altura de escolhermos o fato que vais usar na tomada de posse. É pena não seres militar para ires com a farda coberta de dezenas de fitas com coisinhas de metal penduradas, cordões dourados e tantas outras mariquices de que a tropa tanto gosta. Alguns até as usam no pijama. Mas não te rales. Lembra-te que vais ser o comandante supremo das Forças Armadas, e eu a primeira generala da Belalândia. Vá! Põe-te teso!
-Outra vez, Maria?
-É para teres um ar machista quando passares revista às tropas em parada. Ao menos que seja apenas nessas ocasiões, já que estou farta desses estranhos delinquidos que te dão nas raras vezes que devias portar-te como um homem. Não te esqueças: cabeça erguida olhando aqueles tipos olhos nos olhos. Não quero que faças como um antigo Ministro da Defesa, o Paulito Janelas, que olhava sempre para uma zona mais abaixo.
-Credo mulher, ainda não me passei para o outro lado, embora haja cada vez mais quem faça. Por isso, quando for o Presidente da Belalândia, vou promulgar a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Esta e muitas outras leis polémicas. E, assim, para a História, ficarei para sempre D. Aníbal “O Grande”. Pena é que, em vez de presidente não possa ser rei mas, apesar disso, confia em mim!
-Rei ou presidente é a mesma coisa. Apesar de não teres sangue azul vamos viver num palácio dos arredores da capital onde fabricam uns pastéis de se lhes tirar o chapéu ou a coroa, conforme a situação. Aliás, com a mania de vir a ser rei já temos o D. Duardos que ostenta, orgulhosamente, aquele espanador das partes íntimas femininas, para além de ter cara de parvo e dificuldades de dicção como tu. Mas deve ser mais culto, o que não é difícil. E lembro-te, mais uma vez, que deves fechar a boca se um dia te apetecer comer em público aqueles famosos pastéis. Também convém que a mantenhas fechada o mais tempo possível, já que quando a abres ou entra mosca ou sai asneira. Lembra-te que da última vez, em vez de asneira, saíram pedaços de bolo-rei. Não queiras que da próxima vez saltem da tua boca migalhas de bolo-presidente.
E chegou o grande dia. D. Aníbal portou-se o melhor que a sua mediocridade permitiu, e agradeceu com os seus esgares usuais as palavras de felicitações que os donos do Poder, como sempre representados pelo clero, políticos, militares e seus lacaios, costumam papaguear tanto para um génio como para um cretino qualquer, o que era o caso. “Dêem-me uma varanda estrategicamente colocada numa grande praça, e colocarei no poder seja quem for”, é uma máxima verdadeira dita por um político de um país da América do Sul chamado Pirum.
Uma vez instalado em tão elevado cargo, não faltaram oportunidades para evidenciar a sua tacanhez bem como a da esposa. Certa vez em que o palácio da terra dos pasteis estava aberto para a populaça poder visitar os aposentos de Sua Excelência, Maria, sempre desejosa de mostrar a subida na hierarquia do país do seu adorado esposo, apontando aos basbaques o gabinete de trabalho, exclamava embevecida: fala aqui a voz da experiência. Referia-se aos muitos anos que Aníbal tivera como primeiro-ministro, o que lhe dera muitos conhecimentos sobre como governar.
Mas, o Presidente dessa época, um bocchechudo com ar impertigado que se julgava dono da democracia após a tal Revolução dos Cravos, embirrava solenemente com ele. Por sua vez, este chamava ao outro "força de bloqueio". Quem diria que, tempos depois, Socretino (o português) havis de provocar a inversão dos papéis. Agora, a tal força era o Aníbal e, enquanto Socretino esbanjava as finanças da Belalândia, mantinha-se calado para mais tarde dizer: eu bem avisei!.
***

Quarto capítulo:
O Presidente (2º Mandato)

E passaram cinco anos, término do seu mandato. Porém, a ambição do casal era muita, como se sabe, o que o levou a recandidatar-se novamente, aproveitando-se da Constituição da Belalândia que permitia dois mandatos consecutivos. A campanha que fez foi hilariante. Acompanhado sempre por sua esposa, tão bem classificada por uma jornalista da TV como o seu GPS, tanto um como outro fizeram as mais tristes e ridículas figuras que, como é óbvio, não conseguiam entender.
Tendo sido reeleito segunda vez, embora com menos votos do que na primeira, coisa que, pelo contrário, não acontecera aos seus três antecessores, isolou-se cada vez mais e, o que foi melhor, procurou não falar muito. Rodeado pelos seus servidores, que por sua vez se serviam das suas limitações, só uma vez por outra aparecia em público, fugindo dos apupos com que era brindado pelo povo.
Lembrando-se de que, quando era primeiro-ministro, tinha sido apupado no estádio de um clube de futebol da capital, o Malfica, fugiu, apavorado, de uma manifestação contra ele organizada por alunos de uma escola que ia visitar.
Chegando a palácio dos pastéis, com os característicos esgares ainda mais acentuados, rosnou (sem ofensa aos cães) para a sua querida esposa: Maria, calcula que um grupo de matulões queria matar-me!
-Credo, meu esposo. Tu não ias apenas visitar uma escola de miúdos?
-Sim, mas cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Por isso ordenei ao motorista a retirada imediata, porque às vezes, as crianças crescem muito depressa. Nunca se sabe o que elas me poderiam fazer. Olha, como já é quase noite, manda apagar todas as luzes do palácio. Tenho sempre medo que alguma coisa nos possa cair sobre a cabeça e é muito chato ter de mandar fechar o espaço aéreo outra vez.
-Ora, não penses mais na aldeia do Astérix. Todos os teus receios são reflexo das fantasias que te meteram na cabeça quando eras criança sobre papões, bruxas, fantasmas, e duendes. Já tens idade para não acreditar nelas e confiar apenas em mim. Repara que quando te dei lições de cultura geral, falei de vaquinhas a sorrir? Não me ligaste nenhuma, e fizeste aquela triste figura na visita que fizeste aos Alhores. Como vês parece que consigo prever o futuro, como aquela gaja chamada Maga que está podre de rica graças à credibilidade das pessoas. E, a propósito de riqueza. Como vamos viver após a tua reforma?
-Ai, Maria, não me lembres isso. Já basta a bronca que dei quando disse que ela mal dava para pagar as despesas quando acabar o tacho que tenho agora. Viste aquela desavergonhada que passou aqui em frente com uma lata na mão a pedir uma esmolinha para nós? E aquela cançoneta que surgiu logo a dizer que vão tirar do buraco um pensionista escavacado? E os comentários e gargalhadas que, e era bom que fosse só isso, provocaram? Será que acabou o respeito a que, tal como à bandeira e ao hino, tenho direito? Começo a pensar que teria feito melhor se tivesse ficado na minha querida terrinha a vender gasolina como o meu pai. Na realidade, não tenho jeito para isto.
-Gasolina e gasóleo, que é mais ordinário. Na verdade, começo a estar arrependida de ter ido atrás dos teus medíocres planos de grandeza. Mais uma vez, prevejo: vais ficar na História do nosso país como uma nódoa, um imbecil, um cretino, um idiota. 
-Então, agora sou tudo isso? E tu também não tens culpas no cartório? Parece que já não te lembras quando, na última campanha eleitoral, me empurraste pelo rabo para um estrado e disseste “gand’Aníbal”. Não me obrigues a zangar. Se tenho medo de todos, de ti não tenho.
-Zangam-se as comadres e descobrem-se as verdades. Afinal, o meu digníssimo esposo, não passa de um medricas. Até, como comandante supremo das Forças Armadas, não conseguiu pôr esses tipos na ordem, e mandar a tropa limpar as matas, colaborar com os bombeiros, ajudar as polícias na protecção do povo, e proibir-lhes as manifestações às quais não têm direito. Até traíste a nossa língua, o belalandês, promulgando um acordo com países estrangeiros. Sabes que mais? Vai à merda!
Esta pacífica conversa foi bruscamente interrompida pelo chefe da casa militar. Como não tinha tido tempo de se fardar completamente, apareceu em cuecas com as medalhas colocadas na dita peça de roupa, exibindo um esquisito bailado em mistura com os penduricalhos naturais, tal era a atrapalhação do pobre lacaio. Mas, apesar da triste figura, não se esqueceu de fazer continência e bater com os calcanhares, como o seu cérebro, programado por anos de caserna, ordenava. Como não estava calçado, sentiu uma dor aguda o que aumentou o berro com que disse: Excelentíssimo e digníssimo Senhor Presidente. Aconteceu uma grande desgraça. Uma ameaça esmagadora, terrível, mortífera, horrível, letal…
-Basta de palavreado. O que foi que aconteceu, guinchou o Aníbal com as nádegas bem apertadas e os habituais esgares na carantonha que se tornara pálida. A tropa revoltou-se e vai matar-me?
-Não é isso, excelência. É bem pior. O Socretino voltou e vai vingar-se de si fazendo comentários na TV pública!
-Aaaaah, exclamou o pobre diabo desmaiando nos braços da sua querida, mas agora odiada, esposa.
E levaram-no para a cama. Deram-lhe uma purga e só não lhe fizeram uma sangria, porque recearam sujar o chão do palácio dos pastéis com o fluido sanguinolento que lhe corria nas veias.
Finalmente, reanimado com água fria despejada sobre a sua inculta cabeça, olhou em volta com ar apático. Jamais conseguiria compreender as tristes figuras que havia feito durante o tempo em que fora poderoso.     
Maria, mais uma vez, foi profeta. O reinado de D. Aníbal, que se julgava grande, acabou mal. Gozado e achincalhado em toda a Belalândia, retirou-se no fim do mandato com a mulher para a sua moradia. Com a idade entrou em delírio e tinha pesadelos horríveis. Via vacas que davam gasolina em vez de leite, julgava estar perante um tribunal da Feialândia acusado de ter sido cúmplice na destruição do seu país, via bebés a ameaçá-lo com biberões e chupetas, ovos a cair do céu, gargalhadas fantasmagóricas daquele que foi o seu povo, choros de todos os corruptos lamentando a sua falta, pedintes com latas a suplicar-lhe uma esmolinha por amor de Deus, mangueiras de bombas de combustível com cornos que diabos lhe enfiavam como clisteres e, horror dos horrores, o Socretino a rir como um possesso com uma forquilha na mão e asas de demónio, a correr atrás dele pronto a dar-lhe uma purga. Enfim, todo um horror de pesadelos que seria inútil e cruel mencionar mais.
Por fim teve um ataque de loucura violenta, mas não foi necessário pôr-lhe um colete-de-forças. Bastou um pequeno pedaço de cordel para o imobilizar, e acabou no chamado País dos Sonhos lançando uma última careta para o céu que, afinal, sempre lhe caiu sobre a cabeça. 
E assim acabou um pobre homem que, incapaz de medir o alcance das suas forças, acabou ridicularizado nos manuais de História que, infelizmente, está cheia deles.
E esta foi mais uma história de contos de fadas que começou com o tradicional “era uma vez”, mas não terminou com o conhecido e estafado “casaram e foram felizes para sempre”. Coisas da vida!          

***
EPÍLOGO MORALISTA

Meus meninos (era assim que se fazia o conceito das histórias no meu tempo). Depois do que lestes, deveis tirar as seguintes lições, tantas vezes badaladas mas raramente cumpridas.
1 - Como foi referido, procura, sempre que a vida o permitir, nunca servir a quem serviu nem pedir a quem pediu.
2 - Nunca queiras ser mais do que as tuas possibilidades permitem. Lembra-te que quem semeia ventos colhe tempestades e, o que é pior, poderás arrastar para o abismo outros que em ti confiaram.
3 - Em tudo que fizeres, põe sempre o teu melhor. Lembra-te que as coisas devem ser feitas o mais perfeito possível, senão não vale a pena perdermos tempo com elas. Há muitos ramos onde podemos aplicar a nossa inteligência, saber e experiência.
4 - Lembra-te sempre que os génios são uma minoria. No entanto, todos somos necessários. Como diz o velho rifão, mais vale um bom sapateiro do que um mau médico.
5 - Se vieres de uma classe socialmente baixa, o que não é de modo algum uma vergonha, educa-te, estuda, lê e aprende para, no caso de subires na vida, não fazeres figuras tristes.
6 - Por maior razão, se tirares um curso não te limites apenas ao necessário. O saber não ocupa lugar.
7 - Se alguma vez estiveres entre várias pessoas, principalmente desconhecidas, e elas estiverem a rir, mantém-te sempre sério. Poderão estar a rir-se de ti e pensa na triste figura que farás se rires também.
8 - Procura não falares daquilo que não sabes e, muito menos, seguir atrás das aparências. Estas enganam muito e estão por detrás de toda a crendice humana. Por isso deves ter sempre espírito de crítica sobre tudo em que acreditas.
9 - Se exerceres o teu direito de votar, pensa sempre que todos os candidatos vão prometer tudo, para depois de eleitos não darem nada. Se fores honesto, só pelo teu esforço conseguirás subir lealmente na vida.
10 - A História ensina que qualquer pessoa, bem ou mal intencionada, pode alcançar o Poder. Porém, os primeiros estão condenados ao fracasso porque são uma minoria de sonhadores, além de não perceberem que os povos não sabem usar a liberdade que lhes querem dar.
11 - A Humanidade é contemplada, de quando em quando, com alguns génios. Estes, porém, tanto podem usar o seu talento no bem como no mal. A História prova que os segundos estão em larga maioria. Se não sabes, (o que é muito provável com o “ensino” que se dá hoje) investiga temas como a Revolução Francesa ou a Revolução de Outubro na Rússia. E, não esqueças também, que a Instituição (dita militar) que fez o "25 de Abril de 1974" foi a mesma que fez o 28 de Maio de 1926".
12 - E poderia dar muitos mais conselhos. Mas, quem sou eu para fazê-lo?
Limito-me apenas a dizer: Se um dia te encontrares num beco sem saída, traído pelos amigos e por todos aqueles que diziam que te amavam, não desanimes. Ergue a voz, e grita bem alto: SOU EU. ESTOU SOZINHO, MAS SOU EU!

FIM

Amadora, 1 de Abril do ano da graça (ou da desgraça) de 2013
Visto pela Santa e Geral Inquirição
    NIHIL OBSTA
              IMPRIMATUR



01/02/2013

ACORDO ORTOGRÁFICO? CADÊ A LÍNGUA PORTUGUESA?

ACORDO ORTOGRÁFICO? CADÊ A LÍNGUA PORTUGUESA? PERAÍ, MUIÉ. EU FALA PRA VOCÊ, MAS NÃO ESQUEÇA: EU TÔ FORA DESSA!


Este poderia ser um dos muitos textos que se lêem na internet, escrito por brasileiros!
Por isso, pergunto: Que raio de português se ensina no Brasil, ou o que é que os brasileiros aprendem se o resultado é este? É que não se trata só de pessoas que, em princípio, revelam pouca cultura. Isto ouve-se até da boca de grandes artistas nas telenovelas brasileiras. Claro que falar não é a mesma coisa que escrever. Nós também dizemos “Caixodré” e escrevemos Cais do Sodré. É o normal, em qualquer língua, na fluência usada na conversação. O problema está, no caso do Brasil e das outras ex-colónias portuguesas, no facto de a grafia se adaptar à pronúncia, ao bel-prazer de cada um, o que reforça a minha pergunta inicial: Que raio de português, “brasileirês” ou “pretuguês” é que se ensina, ou se aprende, nos diversos estados brasileiros? É óbvio que num país tão vasto e com tanta mistura de raças (agora diz-se etnias), deve ser muito difícil impor uma grafia única. Mas, façam-no ou não, o problema é deles e deve ser respeitado. Nós, os verdadeiros culpados deste famigerado “acordo”, parece querermos impedir que, no futuro, apareça uma verdadeira Língua Brasileira cuja origem estará apenas no português de Portugal, seu berço natural. É como se os antigos Romanos quisessem perpetuar o latim sem as suas derivações que deram origem ao Português, Castelhano, Francês, Italiano e Romeno.
As telenovelas e a nossa mania de imitar tudo que vem de fora fazem-nos, mais uma vez, fazer acordos que mais nenhum país faz. Mas o pior é que a imitação vai para além da ortografia. Embora não seja oficial (por enquanto) os verbos reflexos perdem-se, como “o barco virou”! (Para bombordo, estibordo ou de quilha para o ar?) ou a “comissão reuniu” (com quem?) Também a primeira pessoa do plural do pretérito perfeito, apesar de (ainda) levar acento agudo, é pronunciada como este não existisse: “acabâmos” e não acabámos!
E não é só com a língua. Basta recordar a nossa História e lembrarmo-nos do Ultimato de 1890 com que o Reino Unido nos “brindou” para nos obrigar a ceder-lhe o território entre Angola e Moçambique. Vinte e sete anos depois, entrámos na Grande Guerra por nos recusarmos a fechar os nossos portos aos navios ingleses. Como é bela a centenária aliança que tem mais de seis séculos!
Em relação à linguística, parece inquestionável que uma das características do modo de falar, não respeitando a concordância gramatical de género e número (ainda há pouco tempo ouvi na TV um senhor brasileiro engravatado dizer “seis milhão”), provém dos escravos pretos (agora diz-se negros; se um dia não podermos dizer brancos e outras coisas, agora tornadas ofensivas, teremos a história de “Clara de Neve e os Sete Homens Baixinhos”). Quem viveu alguns anos em Angola, como eu, sabe que isto é verdade. Trata-se de uma estranha realidade que séculos de colonização, para o bem e para o mal, não conseguiram corrigir. E, de facto, também não era necessário, já que línguas e dialectos não faltam em África, tal como o quimbundo em Angola. Quem ouve os emigrantes das ex-colónias a falar entre eles, já terá notado que, a maior parte das vezes, não utilizam a nossa língua.
Porque será? Talvez por hábito ancestral e respeito pelas línguas dos seus antepassados ou porque não aceitam as dos colonizadores, agora impostas oficialmente pelos governantes dos seus novos países. Na verdade, é um facto muito estranho que os povos invadidos, colonizados e escravizados por Portugueses, Espanhóis, Ingleses e Franceses, tenham adoptado como língua oficial a dos seus antigos “donos”.
Também é paradoxal que, depois da chamada “pendance” (deformação da palavra francesa indépendance, introduzida em Angola após a independência do Congo Belga), os povos das ex-colónias europeias emigrem, alguns desesperadamente, para os países dos seus odiados colonizadores, já que a riqueza das suas terras está agora nas mãos de meia-dúzia de exploradores oriundos dos seus próprios povos.
Sob certos aspectos, pode-se fazer uma comparação com os ucranianos, que receberam as tropas de Hitler como libertadoras do jugo de Estaline. Sempre a velha história de ir de Herodes para Pilatos, tão repetida através dos tempos.
Mas o mundo é assim. A História de Portugal (a mais linda de todas!) é feita de “heróis” e de “santos” na sua luta contra os “infiéis” e incumbidos de propagar a “Fé e o Império”, mesmo que para isso fosse preciso matar, roubar e escravizar, já que os Portugueses tinham um mandato divino e a protecção da Virgem. Por seu lado, Angola converteu o dia 11 de Fevereiro em feriado nacional, para comemorar o início da luta armada contra Portugal, dia esse que, em 1961, começou com o massacre de civis, mulheres violadas e esventradas, jogos de “bola” com cabeças de bebés, etc.
Mas tudo isto está certo. Da História não se deve pedir desculpa, e todos os povos têm culpas no cartório, como é costume dizer-se.   
Mas, voltando ao chamado acordo, vi e ouvi, finalmente, a conferência online em que os doutores Margarita Correia e Pedro Ferreira tentam fundamentar as suas teses, por motivos sócio económicos (pasme-se). Com um ar de quem é dono da verdade imposta pelo Governo, Margarita Correia começa por explicar que o “acordo” visa apenas a ortografia (é óbvio; por isso se chama ortográfico!).
Continuou afirmando que quem conheça as convenções entre os grafemas e os sons da língua italiana pode pronunciá-la com bastante correcção (mas esqueceu-se de referir a enorme quantidade de palavras com consoantes dobradas que caracteriza aquele idioma), dizendo depois que o mesmo não acontece com o francês e o inglês em que não há correspondência entre os sons e os grafemas (no francês, senhora doutora?)
Que eu saiba, as regras são claras: “ou” lê-se “u”, “u” é igual a “ü” “ai” lê-se “é”, “aï” pronuncia-se “aí” (naïf), etc. etc. O mesmo acontece com o alemão. Portanto refira-se apenas o inglês, onde é necessário decorar a pronúncia das palavras, tais como em “enough” e “though”).
Disse depois que a grande reforma ortográfica de 1911 foi feita sem qualquer acordo com o Brasil. (E porque é que tínhamos de fazê-lo? Os Brasileiros só em 1944 é que aceitaram essa reforma, como atesta a colecção das obras de Júlio Verne, que possuo, impressas no Brasil em data anterior.
Continuou, depois de dizer que o “acordo” foi aprovado em conselho de ministros e que, pela primeira vez, aquele tem uma base legal (!), fazendo uma recapitulação das mudanças ortográficas das últimas décadas, sob o lema “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. (De facto a tendência universal para a asneira propaga-se rapidamente, tal como o hábito faz o monge. E, a propósito de base legal, pergunto: a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras, que oficializaram o acordo de 1944, são ilegais?)
As consoantes que não se pronunciam, vão ser omitidas. Mas será que todos os portugueses não as articulam? Eu, por exemplo, por vezes digo acto pronunciando o “c”. Serei obrigado a corrigir este “defeito de pronúncia”? Por esta ordem de ideias, se amanhã alguém começar a dizer “de fato”, virão logo os eruditos (ou um governo) a mandar retirar o “c” da grafia?
Será que esses doutores não percebem que o “c” e o “p” servem para abrir a vogal que se lhes segue, facto de que os brasileiros não necessitam porque já abrem as vogais naturalmente? Esta questão é explicada pelo linguista brasileiro António Houaiss, co-autor do Dicionário da Língua Portuguesa que porta o seu nome, publicado em 2002, e está disponível na internet.
É claro que estes doutores não ignoram estes factos, que a maioria do nosso Povo, bem como grandes nomes da nossa cultura, não quer aceitar.
Processem-me se quiserem, mas sou obrigado a chamar-lhes os “Miguel de Vasconcelos”* da Língua Portuguesa e submissos lacaios do poder representado (salvo raras excepções) por uma corja de deputados oportunistas e ignorantes.
Cancelar este acordo seria apaziguar as relações entre os Portugueses, tão deterioradas nos tempos que correm.
Não há dúvida que somos um povo paradoxalmente sem personalidade. Senão, vejamos: vamos fazer 900 anos de História e temos as fronteiras mais antigas da Europa, senão do mundo. Perdemos a independência durante 60 anos e, quando a maioria dos Portugueses já tinha nascido “espanhola”, reconquistámos a liberdade, retomámos a posse do Brasil e de Angola (ocupadas pelos Holandeses) e aguentámos a chamada Guerra da Restauração que durou vinte e oito anos.

E vou terminar.
Quem ler este texto, e se pertencer a uma certa “esquerda” que Fernando Pessoa tão bem apelidou de “amigos de gente” ou “os pregadores de verdades deles”, vou ser acusado de racista, fascista, xenófobo de patriota, o que hoje parece ser um crime contra a Humanidade, excepto em relação ao futebol, claro.. Mas, também já me chamaram tanta coisa, desde comunista a idiota, de social-democrata a imbecil, de direitista a reaccionário… Mas, curiosamente, esta palavra só é atribuída aos “direitistas”; será que na Rússia actual, não serão os comunistas que ainda há por lá, que reagem ao novo regime, tornando-se assim reaccionários?
Toda esta baralhada fez-me recordar um dos meus “mentores espirituais”, que é, (pasme-se) o grande humorista brasileiro Juca Chaves. Afinal, rir é o melhor remédio. Fazendo minhas as suas palavras, passo a citar:

Não sou homem de direita,
Nem numa de esquerda eu entro;
E, como ninguém me aceita,
Eu sou mesmo é contra o centro.

E, a propósito, cito também uma rábula feita ao jornalista João Coito, já falecido, que durante o governo de Marcelo Caetano tentou ‘dar uma no cravo e outra na ferradura’:

Uns dizem que eu sou das esquerdas,
Outros afirmam que eu sou das direitas;
É tudo falso, porque o coito
Sempre se deu no centro.



*Miguel de Vasconcelos:

Traidor português, ao serviço de Espanha, que foi encontrado escondido dentro de um armário durante a Revolução de 1640. Depois de ter sido morto a tiro, foi atirado pala janela para o Terreiro do Paço.

Francamente! Longe de mim a ideia de querer fazer o mesmo aos que defendem o chamado acordo ortográfico. Limitar-me-ia a uma defenestração, atirando primeiro com um nativo de Boliqueime chamado Aníbal, mas tendo o cuidado de pôr uns colchões muito fofinhos em baixo. E isto porque, normalmente, não costumo ser agressivo, mas o facto é que andei na guerra em Angola. Perdão, "nos guerra". 



10/08/2012

ANEDOTAS POLÍTICAS PORTUGUESAS

ANEDOTAS POLÍTICAS PORTUGUESAS DA ÉPOCA DE SALAZAR



Texto e compilação de João Saturnino.

(Este texto está escrito em português actual, desobedecendo ao famigerado acordo ortográfico imposto pela corja de governantes lacaios dos interesses político-comerciais, que conduziram Portugal ao desgraçado estado em que se encontra.)

Nota preliminar:
A palavra anedota provém do adjectivo grego anékdotos que significa “não entregue”, “não publicado”, “inédito”. Sob o título anédokta, o poeta bizantino Procópio publicou, no século VI, uma obra repleta de pormenores sobre as pessoas e acontecimentos da sua época. No sentido moderno aparece com Voltaire, e terá entrado em Portugal por via francesa.
Trata-se, assim, da narrativa de um episódio histórico curioso e pouco divulgado, que se tornou num conto curto, normalmente de autor desconhecido, com um final inesperado que provoca o riso. Talvez seja o sexo o tema que mais se tem prestado a este tipo de relação humana, embora a política, principalmente quando as coisas correm mal, seja um dos alvos preferenciais.
Também é muito importante o jeito inato que algumas pessoas têm para contar anedotas; de facto, contar uma “boa piada” é algo que exige uma certa arte, já que uma anedota, por mais engraçada que seja, pode perder muito do seu humor intrínseco quando contada por uma pessoa sem aptidão, sendo a situação inversa também verdadeira. Um bom contador pode provocar logo o sorriso, quando interroga: “Vocês já sabem a última?”
Bastante importante é, ainda, a mímica usada quando a anedota se passa simultaneamente no espaço e no tempo. Quando bem desempenhada, aumenta muito o prazer da escuta e a hilaridade que advém no final.

As anedotas que se seguem, ou apenas excertos delas, resultam do que resta na memória das quase sete décadas que já vivi.
Por sugestão de alguns amigos, resolvi fazer uma compilação do nosso costumado e típico humor, tão bem classificado, não sei por quem, com o lema de “pobretes mas alegretes”. Basta ver o que aparece hoje na “Internet” sobre a actual e endémica crise nacional. Para minha satisfação vejo que, pelo menos, o nosso sentido de humor não se perdeu. Valha-nos isso!

Assim, vou relatar as que conservo na mente e gosto tanto de contar, antes que o chamado “Alzheimer” ou a morte me surpreendam.
Por julgar que estas anedotas fazem parte intrínseca do nosso Povo, nada pretendo em troca da sua revelação. Apenas agradecia que, se alguém tomar contacto com este texto, e se lembrar de outras “pérolas” do anedotário político português, entre em contacto comigo, a fim de enriquecer esta grande faceta da nossa cultura.
Estou inteiramente ao dispor através do correio electrónico “jsaturnino8@gmail.com.
Assim, e à medida que mais anedotas surgirem na minha memória, ou devido à colaboração de outras pessoas, estas serão contadas em anexos, a fim de evitar a leitura integral do texto inicial.


Mas, antes de começar, quero testemunhar a minha admiração, que julgo comum a todos os Portugueses, por todos aqueles anónimos que a História nunca assinalará, e que foram os autores deste tão divertido como crítico modo de ver a malfadada política. E, malfadada porquê? Porque é feita por politiqueiros; mas, a verdade é que, se não fosse feita por esse tipo de gente, não seria…política!  
    E, agora, vamos a isto!

01 - Corria o ano de 1951. Tinha sido eleito Presidente da República o General Craveiro Lopes, casado com Berta Ribeiro Artur, conhecida popularmente pela Dona Berta. Como esta senhora usava o cabelo muito encaracolado, surgiu logo a anedota: “PORQUE É QUE O CRAVEIRO NÃO DÁ CRAVOS? POR CAUSA DOS CARACÓIS DA BERTA”!

02 - Dois anos depois, Craveiro Lopes e a mulher foram convidados a visitar o Reino Unido. Foi logo motivo para o aparecimento de duas anedotas.
Assim, contava-se que sabendo que a vogal “i” em inglês normalmente lê-se “ai”, o casal resolveu treinar-se, pronunciando em português todos os “is” como se fossem aquele ditongo.
A primeira conta que, uma noite, Dona Berta acordou o marido, dizendo: “Ó CHAICO! DÁ CÁ O PENAICO QUE EU QUERO FAZER XAI-XAI”!

A segunda ocorre já em Londres. Depois de ter ido à casa de banho, o Presidente quis puxar o autoclismo, mas não conseguiu compreender o que estava escrito na parede. Por isso chamou o camareiro e disse-lhe que não sabia o que, em inglês, significava “paise nâu pídal”.
Solícito, o camareiro retorquiu: «Por amabilidade nós escrevemos a instrução em português. O que está escrito é “PISE NO PEDAL”»

03 - Avancemos até 1957. A Rainha Isabel II de Inglaterra veio visitar Portugal.
Por ordem do Governo de Salazar, os mendigos foram encarcerados para que “Sua Majestade” não visse a miséria do País. A desculpa era que, quando recebemos alguém em nossa casa, procuramos dar-lhe o melhor aspecto possível.
Como cantava José Viana em “O Zé Cacilheiro”, na revista “Zero, Zero, Zé – Ordem Para Pagar”, eram «outros tempos, outras gentes, outra alegria…!»
Mas, nesse ano, as avenidas da República, Fontes Pereira de Melo e da Liberdade tinham as laterais do lado direito (na direcção dos Restauradores) esventradas devido à construção do metropolitano a céu aberto. Por isso faziam-se, apressadamente, obras de disfarce.
Vem, a propósito, explicar a típica expressão “é para inglês ver”. A sua origem parece ter surgido em 1808, aquando da ida da Corte Portuguesa para o Brasil, fugindo das Invasões Francesas. O porto da cidade de Salvador, na altura capital da colónia, iluminou-se para a recepção, o que terá provocado ao príncipe regente, futuro D. João VI, o seguinte comentário: “Isto é para inglês ver”. Referia-se ao almirante inglês, comandante do navio que escoltava os Portugueses. E, assim, a frase perdurou até aos nossos dias, quando nos referimos a uma obra de fachada.
Por este motivo, o basbaque lisboeta da época, farto de ver arrancar árvores, colocar tapumes, e de escorregar no lamaçal que do imenso buraco invadia as avenidas quando chovia, ao contemplar as obras de emergência para disfarçar, o melhor possível, aquele espectáculo, passou a comentar: “ISTO É PARA A INGLESA VER”!

04 - Nessa época era projectado um anúncio nos cinemas (a televisão estava a dar os primeiros passos em Portugal) relativo a um relógio à prova de água. Via-se uma menina de fato de banho inteiro (o biquíni era proibido e o monoquini nem sequer passava pela cabeça de ninguém), lançar-se para dentro de uma piscina. Então uma amiga gritava: “Ó Isabel, olha o relógio”, ao que ela respondia: “Não faz mal; é um ‘Butex’ à prova de água”!
Como réplica à repetição crónica daquele anúncio, que os espectadores tinham de suportar cada vez que iam ao cinema, surgiu logo a seguinte rábula: “Sabem qual vai ser a primeira coisa que o Presidente da República vai dizer à Rainha assim que ela desembarcar? É simples: Aponta para o relógio do arco da Rua Augusta, e diz: “Ó ISABEL, OLHA O RELÓGIO”!

05 - Em 1958 o mandato de Craveiro Lopes terminou. Nesse tempo os mandatos presidenciais duravam sete anos, e o Presidente cessante fora afastado de concorrer novamente devido a divergências com Salazar. A União Nacional, único partido legal, indicou o Almirante Américo Tomás como seu candidato, e perseguiu os outros dois: O General Humberto Delgado e o Dr. Arlindo Vicente, que eram apoiados pela “chamada oposição”, designação que, oficialmente, classificava tudo e todos que se opunham ao regime.
Como se sabe, foi o Almirante Américo Tomás que foi eleito como resultado de uma eleição fraudulenta.
Necessário para a compreensão do texto que vai seguir-se, é saber que o Ministro da Guerra, nesse tempo, era um militarão chamado Fernando de Santos Costa.
Na confusão que se gerou em Portugal por causa do apoio popular ao General Humberto Delgado, cujo assassinato havia de ocorrer, às mãos da “PIDE”(1), sete anos depois, surgiu a inevitável anedota:
«UM CIDADÃO PASSEIA, SEM DESCANSAR, DE UM LADO PARA O OUTRO SEMPRE NO MESMO SÍTIO E OLHANDO PARA O CHÃO. INTRIGADA, OUTRA PESSOA PERGUNTA-LHE O MOTIVO DE TAL AGITAÇÃO, OBTENDO ESTA RESPOSTA: ‘SABE, ESTOU MUITO PREOCUPADO! SE OLHO PARA A FRENTE, VEJO O VICENTE; SE OLHO PARA O LADO, VEJO O DELGADO; SE OLHO PARA TRÁS, VEJO O TOMÁS; SE OLHO PARA O AR, VEJO O SALAZAR; VOU PELA RUA, DOBRO UMA ESQUINA, E ENCONTRO LOGO UMA PESSOA DE QUE NINGUÉM GOSTA QUE É O SANTOS COSTA; E, AGORA, ESTOU A OLHAR PARA O CHÃO PARA VER QUAL É ESTA SITUAÇÃO’ »!
Temos de concordar que as coincidências são extraordinárias. Até parece que os nomes foram escolhidos para as diferentes posições. Mas há mais.
A “Tabaqueira” tinha introduzido um novo cigarro nacional, o “CT FILTRO”, motivo suficiente para surgir uma interpretação da sigla destinada ao novo Presidente: “CARO TOMÁS: FOMOS INTRUJADOS; LISTAS TROCADAS; ROUBARAM (A) OPOSIÇÃO”!

06 - Nessa Primavera de 1958, a fim de intimidar o povo, Salazar mandou colocar alguns carros de assalto na Avenida da Liberdade. O “espectáculo”, com os tapumes das obras do metropolitano como fundo, foi capa de uma revista francesa, julgo que o “Paris Match”, logo apreendida pela “PIDE” (1).  O título da fotografia era o seguinte: “GUERRA MUNDIAL? NÃO! APENAS AS ELEIÇÕES EM PORTUGAL”!

E enquanto a Polícia Política perseguia tudo e todos que esboçassem qualquer gesto ou opinião favoráveis a Humberto Delgado, os estudantes de Coimbra manifestavam-se como podiam. São exemplos dois desfiles protagonizados por eles: No primeiro, um grupo seguia um colega agarrando uma pasta, gritando: “Ó OLIVEIRA, LARGA A PASTA!” (Alusão a Oliveira Salazar)
No segundo, a cena era semelhante, mas o perseguido exibia um pau muito fino, enquanto os outros gritavam: “VIVA O FININHO!” (Alusão a Humberto Delgado)

07 - Em Janeiro de 1961, um grupo armado de portugueses e espanhóis, chefiados pelo Capitão Henrique Galvão, apoderou-se do navio “Santa Maria” em pleno Atlântico, tendo sido interceptado, dias depois, por navios de guerra americanos. Mais uma vez, o episódio deu origem a várias anedotas, entre as quais se destaca a adaptação das duas primeiras estâncias de “Os Lusíadas” ao acontecimento:

“AS ARMAS E OS GALVÕES ASSINALADOS,
QUE DA MAIS ORIENTAL PRAIA VENEZUELANA,
POR MARES JÁ DANTES PIRATADOS,
PASSARAM AINDA ALÉM DE COPACABANA;
EM PERIGOS E GUERRAS ESFORÇADOS,
MAIS DO QUE PERMITIA A FORÇA HUMANA,
ENTRE OS NAVIOS AMERICANOS EDIFICARAM
NOVO GOVERNO QUE TANTO SUBLIMARAM.

E TAMBÉM AS MEMÓRIAS GLORIOSAS
DAQUELES DELGADOS, QUE FORAM DOMINANDO
O VÍCIO, O MEDO; E OUTRAS COISAS ESCANDALOSAS
QUE O MUNDO PORTUGUÊS ANDAVAM DEVASTANDO,
E AQUELES QUE POR OBRAS VALEROSAS
SE VÃO DO CRU ANTÓNIO* LIBERTANDO,
CANTANDO ESPALHAREI POR TODA A PARTE,
SE A “PIDE”ME DEIXAR, E EU TIVER ARTE.

      *António, nome próprio de Salazar.

Mas, relacionado com o sequestro do “Santa Maria”, recordo-me de mais duas histórias. A primeira é outra adaptação, desta vez da oração “Ave-Maria”:

“AVE-MARIA, TRAZ-NOS O SANTA MARIA;
NÃO VÁS EM VÃO, E TRAZ O GALVÃO;
SEM GRANDE PESAR, LEVA O SALAZAR;
VOLTA ATRÁS, E LEVA O TOMÁS;
E NÃO FAZES ASNEIRA SE LEVARES TAMBÉM O CEREJEIRA (2)”.

A segunda conta que o “Santa Maria” estava cheio de pó. E porquê? Porque Salazar tinha mandado a fragata “Pêro Escobar” com ordem para afundar o transatlântico! Assim, tinha enviado o navio de guerra “PARA O ESCOBAR”.

08 - Com o início da Guerra Colonial, em 1961, surgiram duas organizações de mulheres com o fim de dar apoio às tropas portuguesas no Ultramar. Foram a Secção Feminina da Cruz Vermelha, de Amélia Pitta e Cunha, e o Movimento Nacional Feminino fundado por Cecília Supico Pinto. Eram, como se dizia na época, “senhoras bem”.
A respeito da primeira, contava-se a seguinte anedota:
«Numa exposição de pintura estavam expostos quatro quadros, representando, respectivamente, um pote de barro rachado, Amélia Pitta e Cunha com um vestido cheio de folhos, uma pata nadando com os filhotes atrás, e uma sessão de deputados na Assembleia Nacional.
Por baixo de cada um, podia ler-se: «AS FALHAS DO POTE, OS FOLHOS DA PITTA, OS FILHOS DA PATA, e… SEM LEGENDA!»

09 - No mesmo ano de 1961, e depois de fracassada a tentativa dos Generais Botelho Moniz e Craveiro Lopes para derrubar Salazar, seguiram os primeiros contingentes militares para Angola. Mais ou menos por essa altura surgiram os primeiros pacotes individuais de açúcar granulado, servidos juntamente com as ‘bicas’, e que apresentavam a marca “Sempa”. Imediatamente, o humor português tratou de arranjar duas siglas. Uma lida da esquerda para a direita, e a outra da direita para a esquerda: «SALAZAR ENVIA MILITARES PARA ANGOLA» – «ANGOLA PEDE MANDEM EMBORA SALAZAR».

10 - Quando, em 1969, a Administração dos Correios, Telégrafos e Telefones de Portugal foi transformada em Empresa Pública, com o logótipo CTT e um postilhão a cavalo tocando trompa, surgiu logo a inevitável interpretação anedótica:
CONTINUAMOS TODOS TESOS, GAITA! (esta última referia-se à trompa que, tal como a gaita, é um instrumento de sopro).

11 - O tempo corria e o Presidente Américo Tomás, com a sua voz monocórdica e com pausas capazes de adormecer qualquer um que tivesse paciência para ouvir os seus confusos discursos, começava a ser alvo de várias anedotas.
As suas duas filhas, que muito pouco deviam à beleza, eram apelidadas de “OS CANHÕES DA ARMADA”. Lembro-me de algumas anedotas, relacionadas com elas e com o pai, que passo a citar:

1ª) Natália, a filha mais velha, foi à discoteca Valentim de Carvalho comprar um disco. Embaraçada, a empregada informou que não lhe podia vender o disco que ela desejava. A cliente ameaçou-a revelando de quem era filha, mas sem resultado. Despeitada, Natália chegou a casa e fez queixa ao pai. Indignado, Américo Tomás foi à discoteca para esclarecer o assunto. Aflita, a empregada explicou que a sua recusa se baseara no facto de ser um disco pornográfico. O Presidente compreendeu o embaraço, desculpou-se e, chegando a casa, berrou para a filha:
“OUVE LÁ, Ó SUA ESTÚPIDA! ENTÃO QUERIAS COMPRAR UM DISCO PORNOGRÁFICO, SABENDO QUE NÃO TEMOS UM PORNÓGRAFO PARA PODER OUVI-LO?”

2ª) Da mesma Natália, contava-se que ao chegar ao Brasil acompanhando o pai em visita oficial, perguntou como se chamava uma certa planta. Explicaram-lhe que era conhecida como vinha-virgem, ao que Natália comentou: “ENTÃO ESTA É QUE É A VINHA-VIRGEM?" 
"É, SIM", RESPONDEU O INTERPELADO; e acrescentou: "VINHA, E VAI!"

3ª) Ofereceram um automóvel a Américo Tomás. Quando tentou introduzir a chave esta não entrava. Solicito, o representante da marca, esclareceu: é com os dentes para cima, Sr. Presidente. Continuando com a chave na mesma posição, VIROU A CABEÇA PARA CIMA, MOSTROU OS DENTES, E DISSE: "AH! É?"

4ª) Ao tomar conhecimento de que, um dia, iríamos ter televisão a cores, Américo Tomás declarou: “ PARA MIM QUERO UMA AZUL”! 

5ª) O Presidente estava na varanda do Palácio de Belém enquanto Natália passeava pelos jardins. Ouviu-se então a voz da mulher dizendo: Ó Américo, chama a Natália para dentro. INSPIRANDO O AR, GRITOU: Ó NATÁLIA!

6ª) Nesta anedota conta-se que Tomás, já trôpego, tentava atacar um sapato. Porque não põe o pé em cima de uma cadeira, perguntou o mordomo? Tem razão, não me lembrei. E LEVANTANDO O OUTRO PÉ, ACABOU CAINDO NO CHÃO!

12 - É claro que existem muitas mais anedotas relacionadas com Américo Tomás, tendo muitas delas transitado para Samora Machel, primeiro Presidente de Moçambique e, depois, para os alentejanos.
Mas Salazar também era alvo de muitas, e dizia-se que até achava graça quando tomava conhecimento delas. Mas não terá ficado muito satisfeito com os poemas
que Fernando Pessoa lhe dedicou, entre os quais cito este:

“ESTE SENHOR SALAZAR, É FEITO DE SAL E AZAR.
  SE UM DIA CHOVE, A ÁGUA DISSOLVE O SAL,
  E SOB O CÉU FICA SÓ O AZAR. É NATURAL.
  OH! C’OS DIABOS. PARECE QUE JÁ CHOVEU”.

13 - Quando morreu uma das quatro irmãs de Salazar, não me lembro qual delas, se Laura, Maria Leopoldina, Elisa ou Marta, surgiu logo uma anedota respeitante ao funeral:

À FRENTE MARCHARAM AS BANDAS, OS BANDULHOS E OS BANDALHOS; SEGUIA-OS O CAIXÃO DA MORTA COBERTO DE COROAS, MUITAS COROAS* E, LOGO AGARRADO ÀS COROAS, O IRMÃO DA MORTA; ATRÁS DELE MARCHAVA A FORÇA PÚBLICA, SEGUIDA DO PÚBLICO À FORÇA; NO FINAL, SALAZAR COMOVIDO, AGRADECEU DIZENDO “OBRIGADO MEU POVO”, AO QUE ESTE RESPONDEU: "OBRIGADOS FOMOS NÓS!"

* Coroa era o termo popular usado para as moedas de Esc. $50 centavos, também conhecidas por cinco tostões; por analogia, as de Esc. 2$50 eram chamadas cinco coroas ou vinte e cinco tostões.

14 - Outra piada comparava os Governos dos Estados Unidos, da Inglaterra, da então Checoslováquia e de Portugal:
NOS ESTADOS UNIDOS HÁ ELEIÇÕES LIVRES, E NÓS ESTAMOS LIVRES DE ELEIÇÕES; A INGLATERRA TEM UM GOVERNO PARLAMENTAR, E PORTUGAL TEM UM GOVERNO PARA LAMENTAR; NA CHECOSLOVÁQUIA O GOVERNO ESTÁ EM PRAGA, E NÓS TEMOS UMA PRAGA NO GOVERNO!

15 - Após a morte, em 1953, do ditador soviético Estaline, sucedeu-lhe Nikita Krustchov que, apesar de ter feito uma crítica severa sobre os crimes do seu antecessor e amnistiado muitos “dissidentes”, manteve o sistema de ditadura comunista.
A anedota baseia-se numa hipotética visita de Salazar à União Soviética.
Querendo mostrar como o povo estava sob o seu controlo, Krustchov levou Salazar a uma varanda que dava para uma praça apinhada de gente.
QUERES VER, ANTÓNIO, COMO OS TENHO NA MÃO? ENTÃO OUVE. E, VIRANDO-SE PARA O POVO, GRITOU:
QUEM É O VOSSO PAI?
ÉS TU, NIKITA, RESPONDEU A MULTIDÃO
QUEM É A VOSSA MÃE?
É A NOSSA PÁTRIA, A RÚSSIA
QUAL É A VOSSA MAIOR AMBIÇÃO?
ACABAR COM AS FRONTEIRAS, ACABAR COM AS FRONTEIRAS!
Tempo depois, é a vez de Krustchov visitar Portugal. Salazar resolve fazer a mesma demonstração perante o convidado:
QUEM É O VOSSO PAI?
SALAZAR, SALAZAR, É A RESPOSTA
QUEM É A VOSSA MÃE?
É A NOSSA PÁTRIA, PORTUGAL
QUAL É A VOSSA MAIOR AMBIÇÃO?
SER, ÓRFÃOS DE PAI, SER ÓRFÃOS DE PAI!

16 - Naquele tempo os estudantes, que até eram obrigados a estudar, tomavam as suas notas em cadernos de papel ordinário chamados “Sebenta”. Esta palavra originou a seguinte sigla: SALAZAR É BURRO E NÃO TEM ALBARDA.

17 - Mas é no Teatro de Revista que, durante décadas, imperou o humor político português.
Partindo da popularidade de Santo António, e do facto de este ser também o nome próprio de Salazar, são incontáveis os trocadilhos que englobaram ambos. Os censores, zelosos protectores da imagem de Salazar, só depois de várias sessões é que iam percebendo a verdadeira intenção dos textos. Por esse motivo, os espectadores procuravam assistir às estreias, pois os inevitáveis cortes iam surgindo sessão após sessão. E, mesmo assim, muito se perdia, já que os censores assistiam aos ensaios gerais.

Voltando ao fim da década de 50 e às obras do metropolitano, inaugurado em 1959, acho que têm aqui cabimento duas rábulas pertencentes à revista “Não Faças Ondas”, e interpretadas por João Villaret. E escolho estas devido ao facto de possuir uma gravação com excertos dessa revista. Não sei se está reeditada.
Acrescento ainda, por curiosidade, que essa gravação copiei-a de um disco de vinil pertencente à Emissora Nacional, para a qual entrei, como assistente de programas musicais, em 1968.
Chamou-me a atenção o facto de algumas faixas estarem riscadas com lápis de cera amarelo. Era assim que se procedia com as obras gravadas cuja transmissão era proibida, além de, na capa, estar escrito a vermelho: não transmitir!
Com muito cuidado consegui remover as marcas do lápis, que, aliás, não tinham feito grande estrago, copiei para uma bobina, e voltei a riscar o disco do mesmo modo, devolvendo-o depois aos arquivos sonoros da EN.

A primeira chama-se Rosa Araújo, e, para compreensão dos leitores, faço os seguintes esclarecimentos:
José Gregório da Rosa Araújo, foi um presidente da Câmara Municipal de Lisboa na segunda metade do século XIX. Deve-se-lhe, entre outras obras, a construção da Avenida da Liberdade. Teve uma estátua, tal como Alexandre Herculano e Oliveira Martins, na lateral da Avenida da Liberdade, onde foi escavado o túnel do metropolitano, não tendo sido necessário remover a do último.
Foi, também, nessa época que foram afixados uns cartazes muito grandes destinados à campanha para a alfabetização dos adultos.
Também é necessário dizer que, no final do século XIX havia transportes públicos de tracção animal, entre os quais o Rippert, O Chora, O Americano, e uma empresa do ramo cujo proprietário chamava-se Salazar.

“Oiçamos” João Villaret no papel de Rosa Araújo:

FIZ A AVENIDA, E OS EDIS FIZERAM AH!
TIVE A ESTÁTUA ALI ESCULPIDA, QUE AFINAL JÁ LÁ NÃO ESTÁ.
FUGIU PL’O CANO, PORQUE EU DISSE ÀQUELE PRIMOR,
CAVA ATRÁS DA DO HERCULANO PORQUE TU AINDA ÉS PIOR:
SÓ O OLIVEIRA MARTINS FICA NUM TALHÃO;
OS OLIVEIRAS NUNCA SAEM DONDE ESTÃO!

Estribilho:
FIZ A AVENIDA, RASGADA, COMPRIDA, QUAL ESTRADA FLORIDA NUM HINO À CLARIDADE;     
                                                                                                     
NO FIM DE TUDO, CAVARAM, FURARAM, PARA ABRIR UM CANUDO, E FOI-SE A LIBERDADE!   

CÁ NO MEU PLANO NÃO HAVIA, PODEM CRER,
ESTE METROPOLITANO QUE A AVENIDA VAI CONTER;
ISTO É DE AGORA, NO MEU TEMPO E PARA ANDAR,
TINHA O “RIPPERT’INHO” AO CHORA, O AMERICANO E O SALAZAR.
ESTE DOS QUATRO FOI TALVEZ O MAIS VELOZ,
MAS JÁ NÃO ANDA, FAZ-NOS SÓ ANDAR A NÓS!

Estribilho:
FIZ A AVENIDA…

OS HOMENS CULTOS DESTA NOVA GERAÇÃO,
P’RA EDUCAREM OS ADULTOS QUE NÃO TÊM INSTRUÇÃO;
IDEALIZARAM UNS CARTAZES BESTIAIS,
NA AVENIDA OS AFIXARAM A CHAMAR AVÓS E PAIS.
E OS TAIS CARTAZES FORAM ÚTEIS A VALER;
ANALFABETOS, NEM UM SÓ DEIXOU DE OS LER!
      Estribilho repetido para acabar.

Na segunda rábula João Villaret faz o papel de Santo António, e canta:

NOS MEUS ROGOS, NOS MEUS VOTOS, PEÇO A DEUS NO PARAÍSO, QUE ME DÊ MUITOS DEVOTOS, DE VOTOS É QUE EU PRECISO;
QUERO VER O POVO UNIDO NO MEU LINDO PORTUGAL,
QUERO-O JUNTO E NÃO PARTIDO, NA UNIÃO TRADICIONAL.

Estribilho:
SE CONCEDO UM “TACHO” PROTEJO UM NAMORO,
LOGO O POPULACHO VEM CANTAR-ME EM CORO,
MEU RICO SANTINHO EU NÃO SEI, NÃO SEI,
MEU SANT’ANTONINHO ONDE TE POREI!

QUEM ME ENGANA OU CONTRADITA,
APONTO NO MEU CADERNO;
VAI COM UM CARTÃO DE VISITA,
P’RÁS PROFUNDAS DO INFERNO.
DIZEM RIVAIS MEUS OPOSTOS,
MILAGRES SÃO MANIGÂNCIAS,
MEUS MILAGRES SÃO IMPOSTOS,
P’LA FORÇA DAS CIRCUNSTÂNCIAS:

Estribilho:
SE CONCEDO UM “TACHO”…

NO CÉU VIVO SOSSEGADO,
ENTRE OS MEUS QUERIDOS SANTINHOS;
CONSTANTEMENTE INSENSADO,
E EM VOLTA, SÓ VEJO ANJINHOS.
COM MEUS HÁBITOS DE FRADE,
SEMPRE A VISTA NO CHÃO POSTA,
É DESTA MINHA HUMILDADE,
QUE A CORTE DOS SANTOS GOSTA!
     Estribilho para finalizar.

18 - Outra analogia entre os nomes próprios de Santo António e do Presidente do Concelho de Ministros, que quer queiram quer não endireitou as finanças de Portugal, consta esta pequena quadra:

SANTO ANTÓNIO CASAMENTEIRO,
ARRANJA-ME COM QUEM CASAR;
DE UM MAIS UM FAZIAS TRÊS,
COMO FAZ O SALAZAR.

19 - Fora do contexto político, recordo os tempos de criança em que se dizia que os leiteiros aumentavam o volume do leite adicionando-lhe água. Esclareço que, nesse tempo, o leite era distribuído aos consumidores pelos próprios leiteiros, que utilizavam vasilhas para o transporte, e mediam a quantidade requerida pelos clientes em púcaros de diversas capacidades. Esta suspeita levou a uma procura de densímetros pelos clientes, incluindo a minha mãe que reclamou, com algum sucesso, algumas fraudes perante os vendedores. Foi remédio santo, pelo menos no que respeitava à nossa casa.
Mas tempo depois correu o boato (seria mesmo?) que para compensar a baixa densidade, os leiteiros passaram a urinar no leite. Uma vez que a urina é mais densa que a água, a aldrabice poderia ser dificilmente desmascarada.
Verdade ou não, a desconfiança enraizou-se. Por isso, quando pela primeira vez surgiu o leite engarrafado sob a sigla UCAL (julgo que significava União das Cooperativas Abastecedoras de Leite, o Português, desconfiado mas com o seu inalterável sentido de humor, arranjou logo um substituto para a sigla: “URINA COM ALGUM LEITE".                            

20 - Embora não relacionada com Portugal, uma vez que respeita ao já aludido Krustchov e à situação do pós-guerra, e me tenha sido contada por um amigo francês, não resisto a mencionar esta anedota, embora a falta de mímica e a audição das onomatopeias façam muita falta.

FARTO DA POLÍTICA, O DIRIGENTE SOVIÉTICO RESOLVEU VIAJAR INCÓGNITO PARA A SUA QUINTA, AFIM DE DESCANSAR UMAS SEMANAS. ENFIOU UM GRANDE CHAPÉU E METEU-SE NUM VELHO COMBÓIO PUXADO POR UMA LOCOMOTIVA A VAPOR. ENQUANTO O COMBÓIO SE ARRASTAVA LENTAMENTE, CHEGOU-LHE O SONO. MEIO ADORMECIDO PARECEU-LHE OUVIR O “POUCA-TERRA” DA LOCOMOTIVA TRANSFORMADO EM CHANG-KAI-CHEK, CHANG-KAI-CHEK, CHANG- KAI-CHEK…
A SITUAÇÃO REPETIA-SE CADA VEZ QUE DORMITAVA, PELO QUE RESOLVEU SAÍR NA PRIMEIRA ESTAÇÃO E APANHAR UM COMBÓIO RÁPIDO. MAS, DESTA VEZ, NÃO FOI CHANK-KAI-CHEK QUE O PERTUBOU; PARECEU-LHE OUVIR CHURCHIL, CHURCHIL, CHURCHIL…
FURIOSO, E AGORA AINDA MAIS CONVENCIDO QUE ESTAVA A NECESSITAR DE FÉRIAS, SAÍU NA ESTAÇÃO SEGUINTE, CHAMOU UM TÁXI E GRITOU: PARA ROSKOV! ASSUSTADO, PENSANDO QUE O CLIENTTE ERA ALGUM TIPO DA “KGB”, O MOTORISTA ACELEROU BRUSCAMENTE, PROVOCANDO UM RUÍDO QUE PARECEU SOAR COMO “ROOOOOOSEVELT”.
COMPLETAMENTE FORA DE SI, BERROU: PARE IMEDIATAMENTE!
ATERRORIZADO, O MOTORISTA TRAVOU A FUNDO, O QUE MOTIVOU QUE OS PNEUS FIZESSEM “HIIIIIIITLER!
JULGANDO QUE ESTAVA A ENLOUQUECER, NIKITA SAÍU DO TÁXI E PROCUROU UM CAFÉ ONDE PEDIU UMA CERVEJA. MAS, QUANDO ESTAVA A DESPEJÁ-LA NO COPO, JULGOU OUVIR: “DE GAULE, DE GAULE, DE GAULE”…
DE CABEÇA COMPLETAMENTE PERDIDA, ATIROU O COPO E A GARRAFA PARA O CHÃO, QUE PRODUZIRAM O SOM: “STALINE”!


Nota: Esta compilação de anedotas e o texto que as acompanha, foram feitas por João Daniel Maia Saturnino em Dezembro de 2011, com a esperança de que possa ser continuamente aumentada. Para este fim e como atrás disse, serão feitos os anexos necessários, à medida que mais anedotas me venham à memória ou sejam lembradas por outrem.
Também, e por sugestão de um amigo, vou procurar ser mais esclarecedor sobre os personagens visados que, apesar de fazerem parte da nossa História recente (século XX), são desconhecidos da maioria da juventude, graças ao tipo de “ensino” que hoje se pratica.

(1)  “PIDE”: Polícia Internacional e Defesa do Estado, polícia política que investigava, perseguia e prendia os cidadãos suspeitos de se oporem ao “Estado Novo”, o regime vigente instaurado pelo golpe de estado de 28 de Maio de 1926.
(2)  Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977): Cardeal Patriarca de Lisboa de 1929 a 1971, amigo íntimo de Salazar.

ANEXO – 01
Nota:
Em 1966, a poetisa Natália Correia teve a “ousadia” de organizar e publicar, pela editora “Afrodite”, uma “Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”. O resultado foi o julgamento e a condenação, em Tribunal Plenário, da autora, do editor e de outras pessoas ligadas ao assunto. Se os autores dos poemas compilados, desde Martim Soares (séc. XIII), (passando por Camões, Bocage, e tantos outros) a João de Deus, tivessem vivido durante o Estado Novo teriam, decerto, o mesmo destino que Natália Correia e todos os que foram condenados pela Censura, tão zelosa em fazer cumprir a “moral e os bons costumes” da época. Sempre o sexo visto como coisa pecaminosa!
Mas, e como escreveu David Mourão Ferreira no prefácio da “amaldiçoada” primeira edição, “não ter medo das palavras e não recear as realidades que elas exprimem, é, sobretudo, evitar o trânsito pelo consultório de um psiquiatra. Os maiores dos nossos poetas conheceram, desde sempre, esta forma de terapêutica. Difundi-la, eis o que importa (…) mas é provável que também suscite, em meia dúzia de paranóicos, a sádica nostalgia das fogueiras do Santo Ofício”.

E, já agora, vem a propósito lembrar o embaraço com que os professores de português tentavam explicar a “incómoda prenda”, ou seja, “quecas à vontade", dada aos nossos navegantes, no episódio da Ilha dos Amores, constante no nono canto de “Os Lusíadas”, onde a estância LXXII reza assim:

“Outros por outra parte vão topar
Com as deusas despidas, que se lavam:
Elas começam súbito a gritar,
Como que assalto tal não esperavam.
Umas fingindo menos estimar
A vergonha que a força, se lançavam
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que às mãos cobiçosas vão negando.”

É um exemplo típico da maioria das mulheres, em que o cérebro diz não, mas as hormonas sexuais fazem-no mudar de ideias. Perdoem-me a piada!
Perante isto, e também por incitamento de um amigo, não tenho qualquer rebuço em incluir nesta colectânea, algumas anedotas que possam chocar a tal meia dúzia referida por David Mourão Ferreira.
Mais esclareço que as palavras usadas mais adiante são classificadas, em Linguística, como tabuísmo, isto é, com acepção tabu. São os chamados palavrões e referem-se sobretudo ao metabolismo do corpo, como ‘cagar, mijar', aos órgãos e funções sexuais, 'caralho, foder’, ou disfemismos como ‘puta, paneleiro, cabrão’, etc.

01 - Voltemos a 1961 e ao sequestro do navio “Santa Maria” pelo Capitão Henrique Galvão. Por essa altura dizia-se que o Papa resolvera canonizar o revolucionário português. E porquê? Porque nasceu no Seixal (na data concelho do Barreiro) na Rua SÃO FILIPE NÉRI, no dia de SÃO JOÃO DE BRITO; foi baptizado na Igreja de SANTA CRUZ; foi julgado no Tribunal Militar de SANTA CLARA; esteve doente no Hospital de SANTA MARIA; evadiu-se no dia dos CINCO SANTOS MÁRTIRES DE MARROCOS; assaltou o SANTA MARIA; pôs-lhe o nome de SANTA LIBERDADE; fugiu para as terras de SANTA CRUZ; mora agora em SÃO PAULO; e tudo isto por causa de um homem* que mora em SÃO BENTO e nasceu em SANTA COMBA DÃO!
   *Salazar.

02 - E, usando os chamados palavrões, vou contar estas três anedotas que agora me vieram à mente e que tão bem caracterizam a brejeirice do nosso povo.

1ª - Nas salas de cinema, antes da exibição do filme principal, era hábito projectar os chamados complementos, desenhos animados ou temas informativos, entre os quais as “Actualidades Francesas” (ainda me lembro muito bem do tema musical que servia de indicativo). A cena parece ter ocorrido no cinema S. Jorge, em Lisboa. Numa dessas actualidades foram exibidas algumas jóias da coroa britânica e, a certa altura, o locutor apresentou uma peça, esclarecendo:
E PODEM VER AGORA ESTE BROCHE INTEIRAMENTE FEITO À MÃO. Nisto, ouviu-se alguém gritar: "À MÃO??..."

2ª - Em 1959, aquando da inauguração do monumento a Cristo Rei, em Almada, dizia-se que o Marechal Saldanha, cujo braço direito da estátua na praça do mesmo nome em Lisboa, aponta para a margem sul do Tejo, perguntou:
- HÁ PUTAS DESSE LADO?
Ao que Cristo, de braços abertos, respondeu:
- NÃO SEI. CHEGUEI MESMO AGORA!

3ª - No início de 1962 entrou em vigor a lei que proibia a prostituição em Portugal, com todos os incentivos criminosos e anti-higiénicos que acarretou. Mas Salazar declarou: “já não há prostitutas em Portugal”! O mais espantoso é que esse problema continua hoje a existir no país que legalizou o aborto e os casamentos homossexuais, com todos os problemas que resultam do que é feito na clandestinidade.

Mas passemos à anedota que essa proibição provocou:

Nessa época estavam em voga o fado “Belos Tempos Que Eu Vivi”, cantado por Fernando Farinha, o tango “Esperanza”, interpretado por Niño de Murcia” e a canção “Et Maintenant, Que Vais Je Faire”, criada por Gilbert Bécaud.
Assim, perguntava-se às pessoas:

AGORA QUE A PROSTITUIÇÃO ACABOU, SABEM O QUE OS CHULOS, AS PUTAS E OS PANELEIROS VÃO CANTAR?
POIS É SIMPLES: OS PRIMEIROS CANTARÃO “BELOS TEMPOS”... AS PUTAS “ET MAINTENANT”… E OS PANELEIROS “ESPERANZA”!  

ANEXO – 02
Neste segundo anexo junto mais três anedotas.

1ª- Esta surgiu por volta de 1960. Salazar completara 71 anos, idade avançada para a época, que justifica a anedota que passo a contar:

“NUMA SESSÃO DA ASSEMBLEIA NACIONAL, FOI POSTO À DISCUSSÃO O PROBLEMA DO LOCAL ONDE DEVERIA SER ENTERRADO O DITADOR QUANDO MORRESSE.
-POR MIM, AFIRMOU UM DEPUTADO, JULGO QUE O LUGAR QUE LHE COMPETE SERÁ NO MOSTEIRO DOS JERÓNIMOS, AO LADO DE CAMÕES E DE OUTRAS GRANDES FIGURAS QUE LÁ REPOUSAM.
-ACHO QUE NÃO, CONTARIOU OUTRO; NA VERDADE O HOMEM TEM SIDO MUITO IMPORTANTE, MAS, A SUA ORIGEM REMETE-O APENAS PARA UM PROVINCIANO NASCIDO EM SANTA COMBA DÃO.
-NESSE CASO, ENTERRA-SE NO MOSTEIRO DA BATALHA, AO LADO DO SOLDADO DESCONHECIDO, OPINOU OUTRO DEPUTADO.
-ISSO TAMBÉM É REBAIXÁ-LO DEMAIS, EXCLAMOU OUTRO, COM AR INDIGNADO; JUNTO A UM SOLDADO QUE, AINDA POR CIMA, NINGUÉM SABE QUEM É!
A DISCUSSÃO CONTINUOU TENDO OS TRABALHOS DA ASSEMBLEIA TERMINADO SEM QUALQUER CONCLUSÃO.
ASSIM, OS DEPUTADOS SAIRAM DE S. BENTO, A PENSAR NO ASSUNTO.
DESCIA UM DELES NO SEU “CADILLAC”, (1) A AVENIDA DA LIBERDADE, QUANDO REPAROU NUM ARDINA (2) APREGOANDO OS JORNAIS. ORDENOU AO MOTORISTA QUE PARASSE E CHAMOU O RAPAZ AFIM DE SABER AS ULTIMAS NOTÍCIAS, E, LEMBRANDO-SE QUE, ÀS VEZES, A VOZ DO POVO TEM GRANDES IDEIAS, PERGUNTOU-LHE:
-OUVE LÁ, MIÚDO: ONDE É QUE TU MANDARIAS ENTERRAR SUA EXCELÊNCIA O SENHOR PROFESSOR DOUTOR OLIVEIRA SALAZAR QUANDO ELE MORRER?
ATRAPALHADO, O MOÇO RESPONDEU: OLHE, EM JERUSALÉM!
ÉS PARVO! MAS QUE DISPARATE. VÊ-SE LOGO QUE NÃO SABES O QUE DIZES.
O DEPUTADO SEGUIU O SEU CAMINHO, ENQUANTO O ARDINA, APAVORADO, CORREU PARA CASA, ONDE GRITOU: PAI! PAI! VOU SER PRESO!
-O QUE FIZESTE?
-CALCULE, QUE HOJE UM TIPO QUE PARECIA SER DO GOVERNO, PERGUNTOU-ME ONDE ENTERRARIA O SALAZAR QUANDO MORRER!
-E TU QUE RESPONDESTE?
-OLHE. COMO NA CAPA DO JORNAL ESTAVA UMA NOTÍCA SOBRE O CONFLITO ISRAELO-ÁRABE, DISSE-LHE A PRIMEIRA COISA QUE ME VEIO À CABEÇA: EM JERUSALÉM!
-AH DESGRAÇADO, MEU GRANDE MALANDRO! ENTÃO NÃO SABES QUE HOUVE UM TIPO QUE MORREU LÁ E RESSUSCITOU AO FIM DO TERCEIRO DIA”?!

        (1) “Cadillac”. Automóvel de luxo norte-americano que, tal como outros da mesma nacionalidade, circulavam em Portugal, como os “Chevrolet”, “Buick”, “Dodge, “Oldsmobile”, “Chrysler”, “De Soto”, “Pontiac”, etc.
Automóveis enormes, eram uma das ostentações da gente rica. Embora a anedota se referisse ao “Cadillac”, a verdade é que Salazar nunca permitiria que qualquer membro do Governo ou deputado fizesse essas exibições, o que não acontece hoje!
Aliás, todos os automóveis pertencentes ao Estado, tinham uma placa com essa indicação, afim de evitar abusos por parte dos seus utilizadores.
       (2) Ardina. Palavra de origem obscura com que se designava em Lisboa os vendedores de jornais ambulantes, geralmente garotos, que percorriam as ruas gritando os títulos dos jornais e revistas que traziam dentro de uma sacola. A sonoridade típica dos seus pregões, transformava muito os nomes dos jornais, mas toda a gente os entendia. Por exemplo, o “Diário Popular” soava, mais ou menos, como “diérepléri”.

E vem a talhe de foice recordar que no jornal “República”, fonte de tantos conflitos após o 25 de Abril de 1974, escrevia um jornalista cujo apelido era Rocha (não me lembro do nome próprio), que dava-se ao luxo de atacar Salazar escapando, não sei como, da Censura. Por este motivo dizia-se: “FALA O ROCHA, O SALAZAR À BROCHA”.
Assim, para chamar a atenção dos compradores sem dar nas vistas, quando saía um artigo dele no “República”, os ardinas apregoavam: “ROCHA NA RÉ”!

2ª - Em Outubro de 1958, após a morte do Papa Pio XII, foi eleito novo Pontífice o cardeal Angello Guiseppe Roncalli, que adoptou o nome de João XXIII. O seu apelido originou a seguinte comparação com que se interrogava as pessoas: 
- "SABES QUAL É A SEMELHANÇA ENTRE SALAZAR E O PAPA? É QUE SALAZAR RESSONA AQUI E O PAPA RONCA ALI”.

3ª - E A SEMELHANÇA ENTRE O PAPA E A “MERCEDES”? É QUE O PAPA ABENÇOA E A MERCEDES BENZ(E).

E, a terminar este segundo anexo, e já que falei de deputados, não resisto em citar a quadra do poeta brasileiro Luiz Vieira, que reza assim:

“SE BICUDO VEM DE BICA,
E SE GROTA (3) VEM DE GRUTA,
CONFORME A PALAVRA INDICA,
DEPUTADO VEM DE PUTA”

        (3) Grota: do italiano grotta” através do latim crypta. Galeria escura, subterrâneo, caverna.

***

ANEXO – 03

Em primeiro lugar quero agradecer a todos os que têm lido e elogiado esta colectânea de anedotas. Em segundo, esclarecer que a longa paragem entre este anexo e o anterior se deve ao facto de não me ter lembrado de mais anedotas. Mas, eis que há dias, algum escondido neurónio da minha estafada cabeça veio “segredar-me” mais duas. Ei-las:

1 - Um leão fugiu do Jardim Zoológico e começou a percorrer a cidade aterrorizando todos os que o viam e ouviam os seus urros. Embora perseguido pela Polícia conseguiu sempre esquivar-se dos tiros, e percorreu Lisboa até à Rotunda do Marquês de Pombal onde finalmente assentou arraiais, talvez devido à presença do “colega” que acompanha a estátua do marquês.
Cercado pela Polícia, GNR e Exército, o leão conseguia sempre esquivar-se, chegando mesmo a ferir e matar alguns mais ousados que se aproximaram dele.
Nisto, do meio da multidão que se juntara e espreitava de longe, surgiu um jovem que, para horror dos presentes, avançou para a fera com a qual iniciou uma luta sangrenta. Finalmente conseguiu estrangular o leão e, embora muito ferido foi levado aos ombros e festejado como um herói nacional.
Uma vez serenado o entusiasmo, um jornalista acercou-se dele e, depois das perguntas disparatadas inerentes à profissão, começou o seguinte diálogo:
-O senhor, tão corajoso e valente, deve pertencer à Mocidade Portuguesa, não é verdade?
-Não. Por acaso não pertenço.
-Ah! Então deve ser da Legião Portuguesa.
-Não. Também não faço parte dessa instituição.
-Mas deve ser aluno do Colégio Militar.
-Também não.
-Mas é da situação, claro.
-Desculpe contradizê-lo, mas também não sou.
Perante isto o jornalista terminou a reportagem.
No dia seguinte, nas páginas interiores dos jornais, saiu esta notícia: 
«LEÃOZINHO BARBARAMENTE ASSASSINADO POR COMUNISTA!»

2 - Os arqueólogos não conseguiam identificar uma múmia descoberta recentemente no Egipto. Enviaram-na para vários países, onde os especialistas mais eminentes em egiptologia a examinaram não conseguindo chegar a nenhuma conclusão. Finalmente, tiveram a ideia de enviá-la para um país com pouca tradição científica onde, por vezes, a esperteza suplantava o conhecimento. O país escolhido foi Portugal. Aqui, andou de mão em mão também sem qualquer resultado até que, por brincadeira, alguém sugeriu que fosse enviada para a sede da PIDE. 
Dias depois a múmia foi devolvida, acompanhada da seguinte mensagem: 
"RAMSÉS II; FALECEU EM 1260 AC; CONFESSOU TUDO! "

 ***