13/05/2020


A DESCRENÇA DOS CRENTES

Francamente! Quanto mais velho vou ficando, cada vez me entendo menos com este famigerado planeta e as suas gentes. Julgava que isso não era possível, mas esta pandemia teve o condão de pôr os meus neurónios num curto-circuito que estoirou com os poucos disjuntores que ainda possuo no cérebro.
Hoje, 13 de Maio, dia comemorativo da primeira encenação do Teatrinho das Aparições em Fátima, os crentes ficaram em casa com medo do contágio. Mas, então, que confiança é que têm na tal Maria (neste caso a de Fátima) que até já “curou” alguns doentes conforme as promessas que lhe fizeram? Porque não foram para lá de velinha na mão, rastejar como um réptil e cantar aqueles hinos (por sinal bem bonitos) para destruir essa obra de Satanás chamada “Covid-19 ? (para o Trump, foi obra dos chineses). Não é preciso ser nenhum génio para perceber que essa gente não confia na divindade em que acredita e que isto de questões de fé, quando as coisas se complicam, só faz jus ao velho adágio que diz que “quem tem cu também tem medo”. Ou não será? Pois se são as próprias chefias as primeiras a incentivar o confinamento, a começar pelo Sumo Pontífice? (durante algum tempo julguei que sumo pontífice era a urina do papa).
Catástrofe, devem pensar todos os que em Fátima usufruem dos chorudos lucros da Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada criada em 1917 por um tal cónego Formigão.
Sede pacientes e não queiram tudo, digo eu; olhem que Jesus (o alcunhado de Cristo, que em grego significa ungido) disse que era mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no “Reino dos Céus”). Mas, de frases feitas está o planeta inundado, e, com algumas oferendas, promessas, uma tonelada de vaselina e alguma força, pode ser que se consiga fazer passar um camelo; ou um dromedário, que só tem uma bossa. Quem gosta de buracos apertados sabe como é.
Já agora, uma pergunta? Porque não passar o festival do 13 de Maio para o mesmo dia de Agosto? É que nesse dia de 1917 os três pastorinhos (leia-se três crianças sequestradas) ficaram na casa do governador de Ourém brincando com os seus filhos, livres da pata da padralhada. Portanto, não houve representação no “teatrinho” e o público, mesmo sem ter pago bilhete, ficou defraudado. Mas, não há problema, pensaram logo os imaginativos encenadores. Em Outubro até vamos pôr o Sol a bailar. E assim foi, mas só para alguns fanáticos que contaminaram o resto da multidão interpretando um banal fenómeno meteorológico como se fora uma “dança”. É curioso como o resto do mundo e os astrónomos não deram por tal. Sempre há gente muito distraída!
Mas, não foi só o ramo politeísta do Cristianismo de Roma que teve medo. Pois se até os muçulmanos não fizeram a habitual peregrinação a Meca. (Deixa-me estar calado, não vá aparecer por aqui um homem-bomba a caminho de um planeta onde o esperam não sei quantas virgens!)
E, para terminar, apenas uma pergunta: porque é que os astrólogos, videntes, quiromantes, cartomantes, adivinhos e toda essa seita de oportunistas que vive da crendice humana, não previu o aparecimento do vírus? Peço que alguém me responda, se for capaz! 


07/05/2020


O MAIOR PORTUGUÊS ?! (7)


Ah, finalmente! Dirão os leitores que têm seguido estes artigos sobre Salazar. A verdade é que, para além da preguiça, este último artigo já foi feito por duas vezes e o estupor do computador apagou. A culpa deve ter sido minha, pois nunca me entendi com estas maquinetas e não é agora, aos setenta e sete anos, que vou conseguir. Veremos o que vai acontecer com este.
Ah, finalmente!” Assim exclama o fugitivo político Angelloti ao entrar na Capela Attavanti na ópera “Tosca” de Puccini.
Lembrei-me desta introdução ao ouvir pela enésima vez aquela ópera e por encontrar uma relação com os presos políticos do Estado Novo Onde há ditaduras, obviamente que tem de haver presos políticos.
Não porque Salazar tenha tido qualquer semelhança com o barão “Scarpia”, a sinistra e sádica figura daquela ópera. Ambos foram ditadores, mas Salazar exerceu o poder totalitário com mão muito mais branda do que os grandes ditadores, sem eles reais ou de ficção.
Como referi no primeiro número deste artigo, só concordo em parte com a afirmação do professor Hermano Saraiva que Salazar foi um “santo”. Concluindo: foi um ditador à portuguesa, impregnado dos brandos costumes do povo a que pertenceu. Mas, como em tudo, também há excepções. Nas duas primeiras décadas do século passado, este povo de “brandos costumes” assassinou um rei, um príncipe e um presidente da república. Não contente com isto inventou a tristemente célebre “camioneta fantasma” que na madrugada de 20 de Outubro de 1921, foi às casas de importantes representantes da República, levando-os para o Arsenal da Marinha onde foram todos fuzilados. Ninguém apareceu a reivindicar talacto que ficou conhecido como “A Noite Sangrenta de 1921”! Foi o momento culminante da desonra e da desordem a que Portugal chegou na Primeira República!
Voltemos agora a Salazar, “o homem que surgiu na altura certa para salvar Portugal”, como aprendíamos na instrução primária.
Abaixo de Deus, Salazar amou Portugal como poucos e considerou sempre o Estado com exemplo de honestidade a seguir. Ser-se funcionário público era ter emprego para toda vida e assistência na doença e na velhice. Por outro lado tinha algumas restrições como a proibição de entrar em salas de jogo, mesmo legalizadas, e pagar multas a dobrar por qualquer infração que cometesse. Salazar foi sempre o primeiro a dar o exemplo e até consta que tinha guardado dinheiro num envelope destinado ao seu funeral caso o Estado não quisesse pagar. Até Mário Soares declarou que, apesar de ser seu inimigo, reconhecia que Salazar nem um tostão do erário público desviou.
Mas, recuemos muitos anos até Maio de 1958.
O mandato do presidente da república terminara (nessa época os mandatos presidenciais duravam sete anos) e o País ia ser chamado a eleições. Como o presidente cessante general Craveiro Lopes se recusara a segundo mandato, segundo constava por divergências com Salazar, surgiram três candidatos: o general Humberto Delgado, o almirante Américo Tomás e o advogado Dr. Arlindo Vicente.
A campanha eleitoral teria decorrido normalmente como as regras do regime exigiam, se não tivesse ocorrido uma grande bronca; ao ser instado sobre o que faria de Salazar se fosse eleito, Humberto Delgado declarou simplesmente: “demito-o, obviamente”. (é por esta ordem que as palavras foram proferidas, e não ao contrário, como se diz).
Tal desplante lançou fogo ao País, farto de trinta anos de “boca fechada”. É óbvio que surgiram logo as manifestações de repúdio e os jornais, controlados pela censura faziam eco de tamanha “heresia”. Mas, a realidade era outra. Onde quer que Delgado fosse, as multidões acorriam a apoiá-lo. E vem a talhe de foice um episódio que se passou perto de mim que nessa altura tinha quinze anos.
Eu ia num autocarro de dois andares pela Av. Da República em direcção à Praça Duque de Saldanha, devendo sair algumas paragens antes da referida praça, para ir a casa da minha avó paterna. Foi quando me apercebi que algo de anormal se passava mais adiante que resolvi continuar no autocarro. Passado pouco tempo ouviram-se o que parecia ser tiros no meio de grande algazarra. De súbito algo bateu com força em qualquer parte do autocarro. O motorista deteve-o e eu e os outros passageiros aproveitámos para desatar a fugir. Mas, curioso como sou, parei na primeira esquina para ver o que se passava.
Divertido na ingenuidade dos meus quinze anos, vi uma multidão que fugia diante de uma carga da GNR a cavalo. Alguns, mais afoitos, aproveitavam-se dos milhares de paralelepípedos que abundavam no chão devido às obras do metropolitano, e atirava-os às forças da ordem. Mas, afinal o que se passava? A resposta é simples: havia uma sessão de propaganda presidida por Humberto Delgado no liceu de Camões, que ainda hoje não sei se chegou a começar.
Tais desacatos abanaram a solidez do regime, o que fez com que Salazar aparecesse na televisão, inaugurada um ano antes. São suas estas palavras:”... mas quero afirmar com a fria serenidade habitual, que se deve restabelecer e rapidamente o ambiente de calma essencial à vida colectiva, quero dizer que o faremos em todas as circunstâncias e pelo emprego de todos meios ao dispor da autoridade”.
Como se sabe o vencedor foi o almirante Américo Tomás, após uma contagem fraudulenta dos votos. Porém Salazar não era parvo e concedeu à “chamada oposição” cerca de um quarto dos votos. Basta ver que em tempos ainda recentes, Sadam Hussein e Kadafi ganhavam com os noventa e nove por cento que o povo tinha de engolir.
Depois deste acontecimento o País regressou à normalidade, excepto para cerca de mil e quinhentos cidadãos que foram detidos pela PIDE. Também o bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, que escrevera uma carta a Salazar protestando contra a viciação dos resultados eleitorais, foi obrigado a exilar-se, bem como o general Humberto Delgado que, entretanto, fora expulso das Forças Armadas. Mas, o pior estava por vir para Salazar e o regime, o terrível ano de 1961.
Logo a quatro de Fevereiro, começa a revolta em Angola com o massacre de brancos e de alguns pretos por métodos tão cruéis que que não vale a pena mencionar. Hoje, esse dia é comemorado como o dia nacional de Angola.
Em Abril o general Botelho Moniz tenta um golpe de estado para derrubar Salazar. Por falta de uma boa organização o golpe falha e Salazar assume cumulativamente a pasta da defesa.
No dia um de Agosto, o Daomé (hoje Benim) que ascendera à independência, ocupa o Forte de São João Batista de Ajudá, pequeno reduto do Império Português, ocupado apenas por dois funcionários portugueses. Salazar ordena a sua retirada após incendiarem o forte.
Finalmente em Dezembro, a União Indiana ocupa o Estado Português da Índia. Salazar ordena ao governador, general Vassalo e Silva, que resista até ao último homem. Pretendia, assim, arranjar cerca de três mil mártires para mostrar ao mundo as razões de Portugal. Mas, o general rende-se perante a impossibilidade de qualquer tipo de resistência e é expulso do exército, sendo apenas readmitido após o 25 de Abril. Este episódio fez-me recordar uma piada que me esqueci de colocar nas “Anedotas Políticas Portuguesas da época de Salazar”. Como sempre o “portuga” tinha de arranjar um trocadilho, tendo o general passado a ser conhecido por “Vacila e Salva-te”.
Depois destes acontecimentos, a teimosia de Salazar em lutar contra os ventos da História, muitas vezes com razão para tentar salvar Portugal da praga do comunismo que se espalhava pelo mundo no pós-guerra, levou-o ao lema do “orgulhosamente sós. Até o Brasil, a velha aliada Inglaterra e os Estados Unidos, fizeram orelhas moucas aos seus protestos. Apenas a África do Sul e a antiga Rodésia (hoje Zimbabué) estavam do nosso lado porque Angola e Moçambique eram uma espécie de tampão a incursões terroristas.
Salazar foi cruel com uns poucos comunistas e outros dissidentes que acabaram por morrer no Tarrafal. Já Mário Soares foi de “férias” para S. Tomé.
Foi hipócrita quando afirmou a sua satisfação ao “ver esta juventude que parte sem um queixume para as distantes terras africanas para afirmar que eram parte da Nação Portuguesa”. Eu que por lá andei, sei com que vontade partia essa tal juventude.
Foi impiedoso com esse grande português que foi Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus, deixando-o morrer quase na miséria. Mas, aqui há que ver a realidade dos factos.
Tinha começado a Segunda Guerra Mundial e a preocupação de Salazar foi manter a neutralidade e salvaguardar a independência Nacional, como já referi num doa artigos anteriores.
Dois anos antes, portanto em 1937, Salazar publicou vários textos em que considerava lamentável que o nacionalismo alemão estivesse fundamentado em diferenças raciais. Também no ano seguinte mostrou a sua preocupação pelos judeus portugueses, dando orientações ao nosso embaixador na Alemanha para que os defendesse com diplomacia, mas com firmeza. Simultaneamente o cardeal Cerejeira criticou o regime hitleriano por se basear na diferença de raças. Será isto o fascismo de Salazar? Mas, adiante. Perante o afluxo de milhares de pessoas que fugiam da fúria nazi que já ocupara metade da França, e a descoberta pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (antecessora da PIDE) de passaportes falsificados, Salazar emite a “circular 14” que autorizava os cônsules a passar vistos para Portugal desde que os requerentes tivessem bilhete de saída e visto de entrada noutro país. Esta determinação parece muito desumana mas era muito menos restritiva do que as leis feitas no mesmo sentido pelos Estados Unidos e Canadá, ou pela Inglaterra que fechou simplesmente todas as portas a estrangeiros. Além disto, sendo Portugal um país pobre, não poderia acolher dezenas de milhar de refugiados.
Mas, sob o dogma de “obedecer à lei de Deus e não à dos homens”, Sousa Mendes deu apenas ouvidos aos seus sentimentos e desatou a passar milhares de vistos indiscriminadamente tendo chegado, até, a falsificar passaportes.
Após ter tomado conhecimento do que se passava, o Ministério dos Negócios Estrangeiros emitiu uma nota de culpa em que, entre outras acusações constavam as de desobediência e falsificação de documentos. Podemos não dar grande relevo à desobediência mas, a verdade é que na situação de guerra em que se vivia, o comportamento de Aristides de Sousa Mendes, pôs em perigo a neutralidade portuguesa com a consequente anexação de Portugal pela Espanha. A quem se interesse pela vida e acção do cônsul português, recomendo a leitura na “Wikipedia” o artigo dedicado a Aristides de Sousa Mendes.
E fico por aqui. Por tudo o que fez por Portugal, que só a sua teimosia (ou amor por um Portugal uno e indivisível) em manter uma guerra em parte apagou a sua obra, Salazar deve ser considerado como um dos MAIORES PORTUGUESES e um dos maiores estadistas do século XX. O mesmo já não direi do seu sucessor, Marcello Caetano, o “cínico”. Mas isso fica para depois.

11/04/2020


PANDEMIA INFORMATIVA

Em primeiro lugar volto a pedir desculpa por ainda não ser desta vez que encerro o tema sobre “o maior português”. Salazar que espere.
A razão continua a ser, como é óbvio, o “coronavírus-covid 19” que graças aos telejornais, se não mata, pelo menos mói o sistema nervoso a quem tem pachorra para os ver e, principalmente, ouvir até à exaustão o dueto “coronavírus-covid 19”. Por favor, senhores jornalistas; nós sabemos do que estão a falar e, uma vez por outra, talvez fosse menos indigesto ouvir pandemia, infeção, contagiado, etc. e não o papaguear constante daqueles palavrões.
Se na última publicação referi-me àquele assunto, resolvi juntar-lhe mais três que, de momento, tenho “em cima da mesa” sobre a ânsia de informar, ou melhor, repisar o que se poderia dizer em menos de metade do tempo. Estamos, portanto, sob uma poluição informativa, como referiu a Organização Mundial da Saúde. É óbvio que as tecnologias actuais permitem todo o tipo de enxurradas com que os jornalistas nos encharcam Basta ver o que se passa com o futebol onde os fanáticos por aquele desporto fazem andar para a frente e para trás uma imagem dezenas de vezes, para ver se um jogador tinha a ponta do nariz ou a cabeça do pénis para lá da linha de grande penalidade. Isto se este último estiver erecto, como é lógico. Mas, vamos ao primeiro assunto. Bolas! onde está ele? Ah! Tinha-o “em cima da mesa” e escorregou para o chão, ou melhor, para o “terreno”. Felizmente fê-lo de uma maneira “sustentável”, excepto no que respeita às minhas articulações que se queixaram provocando dores muito pouco “sustentáveis”.
O primeiro caso deu-se no passado dia 28 do mês passado no telejornal da “SIC”. Na ânsia de mostrar uma zaragata entra a polícia e um grupo de londrinos que se recusavam a ficar em casa, a cena até gás lacrimogéneo e “cocktails” Molotov meteu. Até aqui, tudo bem. Uma típica cena “no terreno” da brandura das relações entre polícia e cidadãos num país democrático. Porém, só houve um quid pro quo: é que as imagens datavam do dia onze desse mês! Claro que no fim lá veio um pedido de desculpas, o que é sempre de louvar, mas fica a pergunta: quantas vezes seremos enganados só porque se tem de mostrar e repetir tudo ao pormenor, enfastiando as pessoas com mortos, contaminados, recuperados, quarentenas, hospitais, profissionais de saúde, camas, máscaras, ventiladores ou a sua falta, para além de ruas desertas ou a ponte dita”25 de Abril” com as bichas do costume, se se deve usar máscara ou não, se é a dois ou quatro metros o mínimo a que uma pessoa deve estar de outra, entrevistas com um jornalista de cada lado e imagens continuamente repetidas a passarem ao meio e... porra e mais porra até “em cima da mesa”! Até este parágrafo ficou infectado com a sua extensão. Que diria a minha professora primária se eu lhe apresentasse tamanha lenga-lenga. De certeza que já morreu há muitos anos e, provavelmente, até esteve “em cima da mesa”, neste caso da anatomia para ser autopsiada.
O segundo caso aconteceu quando os Norte-Americanos resolveram invadir o Iraque.
Não me recordo do que estava a fazer naquele momento; só sei que ouvi a voz de José Rodrigues dos Santos a berrar que estavam sirenes a tocar em Bagdade. Claro que como todos os Portugueses fiquei alarmadíssimo, e o que quer que fosse que estava a fazer, larguei logo “em cima da mesa”. Tive medo que, como represália por o senhor Durão Burroso (perdão, Barroso) mais os seus comparsas terem planeado o ataque nos Açores, os Iraquianos disparassem depois uma das armas de destruição maciça com o objectivo de destruir aquelas magníficas esculturas de José Cutileiro que encabeçam o Parque Eduardo VII. Mas, não! Afinal não havia armas nem moles nem maciças e os Portugueses puderam dormir descansados enquanto os Norte-Americanos e companhia arranjavam mais uma bronca de todo o tamanho.
Giro foi ver na “contra-informação” o boneco que representava o jornalista Carlos Fino, que se encontrava em Bagdade a dizer: “o Rodrigues dos Santos: não grites tanto aí em Lisboa senão não consigo ouvir aqui as sirenes!”
O terceiro e último caso remonta aos anos setenta do século passado, durante uma das crises de petróleo que, periodicamente, costumam “estar em cima da mesa”.
Eu tinha chegado pela manhã à Emissora Nacional quando um colega me mostrou a rir o “Diário de Notícias” que, na primeira página, destacava o seguinte título: “O “Século” enfiou o cofió”. (cofió era uma espécie de barrete que a tropa usava no ex-Ultramar Português). O que é que aconteceu, então? No dia anterior o jornal “O Século”, que havia de passar por tantas vicissitudes após o “25 de Abril” até ser extinto em 1977, noticiara que “enquanto se discute em... (não me lembro do local) a crise do petróleo, estão árabes em Lisboa”. E, para não haver dúvidas, exibia uma fotografia com uns tipos vestidos à moda tradicional dos povos árabes sentados à mesa de um restaurante.
A verdade é que desde que fora encontrado petróleo em Cabinda (Angola), Portugal passou a pertencer ao clube dos países exportadores daquele produto. Até constava que Salazar, sempre prudente e desconfiado como era, exclamara anos antes ao saber do êxito das primeiras prospeções: “só nos faltava mais esta desgraça; agora os afro-asiáticos e os russos vão querer apoderar-se dele”.
Mas, e pondo de parte esta possível piada, há que lembrar que o nosso espírito de humor pode ir até às últimas consequências. Foi assim que um grupo de brincalhões endinheirados, entre eles um filho do embaixador de Marrocos, resolveu pregar uma grande partida à imprensa da época. Para isso decidiram ir jantar ao conhecido restaurante “Tavares Rico” no Bairro Alto vestidos com os trajos arranjados pelo marroquino e num carro da embaixada, fizeram a sua entrada no referido bairro, onde um zeloso polícia, ao ver a matrícula “CD”, deixou-os entrar por uma rua de sentido proibido.
Para não haver problemas de comunicação, um dos comparsas declarou que falava português e que, portanto, serviria de intérprete, enquanto os outros inventavam uma “língua” mais ou menos parecida com o árabe.
Pode calcular-se o impacto que semelhantes personagens provocaram no pessoal do restaurante. Solícito, o chefe trouxe a ementa e não sei se também a lista de vinhos, já que os muçulmanos não podem ingerir bebidas alcoólicas.
Assim que foi servido o primeiro prato deu-se uma grande bronca: o “árabe” que fazia de emir provou e, através do “intérprete”, declarou que no seu país aquilo nem aos porcos se dava. E, um a um , todos os pratos foram rejeitados pelo mesmo motivo. Calcule-se a aflição do pessoal do “Tavares Rico” ao ter que lidar com aqueles clientes, pesando para mais o facto de poderem ter gerado um conflito diplomático. Entretanto, cheios de fome, as ilustres personagens contentaram-se com umas fatias de queijo pagando, apesar de tudo, uma grande quantia.
Não sei como acabou a história no restaurante mas, o que se passou com “O Século”, é que foi lamentável. Sem sentido de humor nem de saber perder, o director daquele jornal (o único que caiu na esparrela na ânsia de sensacionalismo que o levou a não confirmar de fonte fidedigna a presença dos tais “árabes”) recusou a oferta de uma avultada quantia para a “Colónia Balnear Infantil” fundada por aquele jornal e que ainda existe. Com o orgulho ferido, resolveu processar judicialmente os brincalhões, em vez de aceitar o donativo que estes, como se fosse um pedido de desculpas, quiseram oferecer. Porém, a decisão do tribunal deve tê-lo deixado fulo: os réus foram todos absolvidos e durante muito tempo muita gente recordou-se que “O “Século enfiou o cofió”!
E, para terminar, uma gracinha que tenho “em cima da mesa” desta vez devida a uma “gralha” (errare humanum est) saída na página de anúncios do “Diário de Notícias” no dia 26 de Junho de 1968. Querem saber o que é? Então procurem no “Google” “COLHÕES DE MOLAS”!


Nota: Agradeço a emenda de qualquer inexactidão existente na história dos árabes em Lisboa uma vez que não possuo o “célebre” exemplar de “O Século”.

28/03/2020

Sr. JOSÉ ALBERTO CARVALHO, SOSSEGUE, POR FAVOR!

Mais uma vez peço desculpa de não ter publicado o último artigo sobre “o maior português, mas preciso de desabafar. É que tive a triste ideia e pachorra para ouvir por inteiro dois telejornais da “TVI”, apresentado por José Alberto Carvalho. Não sei quantas vezes aquele senhor disse “coronavírus” e “covid-19”. Depois, e como é costume, vem sempre outro jornalista repetir com maior ou menor desenvolvimento o mesmo assunto. E, como é óbvio, “coronavírus” e “covid-19” continuou a ouvir-se como se fosse o fim do mundo. Julgo que foi a primeira vez que, numa espécie de alívio, dei atenção à publicidade, até que lá voltaram o “coronavírus” e o “covid-19. Mas, o pior ainda estava por vir. Com uma oratória sem fluência, hesitando frequentemente no que ia dizer, imprópria de um profissional veterano, o Sr. José Alberto disse duas vezes que era a primeira vez que o mundo se debatia com tal situação! Então a gripe asiática de 1957 que eu e a minha família incluindo a criada (perdão, empregada doméstica) apanhámos e que a nível mundial (perdão, global) matou cerca de dois milhões de pessoas? E a gripe espanhola de 1918 que matou tanta ou mais gente do que a Grande Guerra terminada nesse mesmo ano? E as epidemias de cólera, febre amarela e tifo que fustigaram a Humanidade durante séculos, cujo paroxismo talvez tenha sido a peste negra surgida no século XIV, e que se calcula que tenha morto cem milhões de pessoas numa população mundial estimada em quatrocentos e cinquenta milhões? É com afirmações sensacionalistas tais como “nunca se viu” que se vai fazendo o jornalismo que, como disse o presidente Bolsonaro, “quem não lê os jornais não se informa; e quem os lê, desinforma-se”.

E, para terminar, Sr. José Alberto, desejo-lhe sinceramente que não apanhe o “coronavírus” ou “covid-19. Mas, se tal lhe acontecer, siga o velho ditado popular: “Abinhe-se, abife-se e abafe-se”


19/02/2020


HISTERIA ANTI-RACISTA

Em primeiro lugar quero pedir desculpa por ainda não ter encerrado o tema sobre o maior português, mas os acontecimentos dos últimos dias deram cabo da pouca paciência que ainda me resta.
De facto, acho que já não há pachorra para aturar o estardalhaço que a comunicação social fez por causa de um jogo de futebol.
Lembro-me de, ainda no tempo da “antiga senhora”, de ouvir os lamentos de um guarda-redes queixar-se de um grupo que, atrás da baliza, (nesse tempo o espaço entre o público e o campo de jogo era muito reduzido) um grupo de energúmenos que passou todo o tempo que durou o desafio a insultá-lo e à família. Que me lembre, o homem até estava com ar de que aquilo eram os ossos do seu ofício e a coisa ficou por ali. Quanto ao Governo, tinha outros assuntos “em cima da mesa” (sou ou não sou moderno?” e não se preocupava com assuntos de “futebois”. Os relvados não tinham cercas e bastava meia-dúzia de polícias sempre prontos a puxar do cassetete para manter a ordem.
Ora o que se passou em Guimarães acabou por fazer-me rir. Afinal havia vários jogadores pretos no campo, mas um pequeno grupo de espectadores resolveu embirrar só com um sabe-se lá porquê. Este não aguentou mais e recusou-se a continuar a jogar. Até aqui tudo bem; ninguém é de ferro como o guarda-redes que referi.
E agora? Vão ser identificados e severamente punidos porque são racistas, mas só no que respeita àquele jogador! Quanto aos milhares de espectadores que em todos os jogos insultam tudo e todos (agora também há o video-árbito”) é obviamente impossível puni-los. Então é a nossa Justiça, seja com ministros brancos ou pretos como agora, ficaria entupida até à eternidade.
O racismo é proibido pela Constituição? Mas que hipocrisia! Toda a gente é racista em maior ou menor grau, sejam brancos, pretos ou os orientais com os olhos em bico. Pronto! Já meti a pata na poça! (Naturalmente vou ser identificado e punido por causa dos “olhos em bico”).
Mas o curioso disto tudo é que quando uma mulher branca decide casar com um preto, a família olha de soslaio com um sorriso amarelo e deseja muitas felicidades rangendo os dentes. Claro que há excepções, mas estou convencido que a este respeito existe uma maioria silenciosa (ou silenciada).
Depois de ter tirado o som à televisão, até porque a seguir era inevitável mais um folhetim sobre o coronavirus, resolvi aguardar pela entrevista a André Ventura. Concordei totalmente com ele, lamentando apenas que não tenha mencionado que todo o estardalhaço ocorrido em Guimarães (maior do que D. Afonso Henriques a “bater” na mãe na Batalha de S. Mamede) se deveu ao facto de ter ocorrido no todo-poderoso futebol. Daí a cobertura da imprensa tanto nacional como estrangeira (no tempo da referida batalha não havia imprensa). Será que o mundo soube o que se passou, por exemplo, no bairro da Jamaica? Aposto que noventa e nove por cento dos portugueses (incluindo eu) nem sabiam da existência desse bairro. Quando muito poderiam julgar que ficaria na ilha do mesmo nome.
E, para terminar, coloquemos a seguinte hipótese: um jogo de futebol num país africano onde haja apenas um jogador branco. Se o público começasse a apupá-lo chamando-lhe branco, clarinho, caucasiano ou caucasóide, tenho a certeza que ele não ficaria nada incomodado; antes pelo contrário, e a notícia desse racismo não correria mundo.
Como disse no artigo anterior, só quem viveu em África é que pode compreender o complexo que a maioria dos pretos tem por causa da sua cor. Porquê, não sei.


16/02/2020


VERGONHA!

ONDE ESTÁS TU, PORTUGAL?


Um indivíduo de raça negroide insulta a Bandeira Nacional em frente à Assembleia da República. Meia dúzia de traidores ouvem as balelas desse racista, que nem sabe que a actual Bandeira data de 1911, e batem palminhas!
E que faz o Governo? E o senhor Presidente da República, que tal como o Hino, também representa Portugal e, por consequência, também foi ofendido? Segundo a Constituição a ofensa a esses símbolos é punível até quatro anos de prisão mas, parece que o assunto tornou-se tabu. Até porque se a “bosta da bófia” (segundo um assessor do Bloco de Esquerda) tivesse prendido aquele energúmeno, gerava-se logo um alarido em defesa do pobre e inocente pretinho!
É óbvio que se fosse um português branco que tivesse ofendido a Bandeira, provavelmente as coisas tomariam outro caminho. É que só os brancos é que são racistas; os pretos não! Vê-se mesmo que quem pensa assim, enganada por essa malta de fascistas de esquerda, nunca viveu em África!
LEVANTA-TE, PORTUGAL!





03/02/2020


O MAIOR PORTUGUÊS ?! (6)


Um dos maiores mistérios que ainda hoje me intrigam foi como em pouco tempo o delito comum estendeu os seus tentáculos sobre a paz e tranquilidade em que os Portugueses viviam (não vou escrever já sobre a guerra do Ultramar). Como citei no final do artigo anterior, a PIDE só se ocupava dos delitos contra o Estado o que, aliás, era o seu dever; por isso se chamava Polícia Internacional de Defesa do Estado.
Ora, como não andava atrás de homicidas e de ladrões, sou forçado a concluir que a “bandalheira” que em breve se instalou foi que isto a que chamam “democracia”, retirou imenso poder à PSP e à GNR, bem como um enorme abrandamento das penas previstas no antigo Código Penal. Num prospecto turístico sobre Portugal e os Portugueses dos ano 60 pode ler-se que “a delinquência juvenil não se dá bem por cá”. Pois não! Havia as casas de correcção onde os “meninos” aprendiam a portar-se bem em sociedade; isto se os papás não fossem os primeiros a fazê-lo.
Havia censura, claro que sim. E agora? Não se omite nos noticiários se um qualquer agressor é preto ou cigano? Como é que um motorista tem condições psicológicas para voltar ao trabalho depois da surra que levou dos amigos ou familiares da preta que o mordeu? E quantos professores estão de baixa psiquiátrica só por terem dado um piparote num aluno? E se este for preto ou cigano, cai o Carmo e a Trindade porque é racista! Basta de hipocrisias! Todos nós fomos crianças e fizemos as nossas diabruras, mas bastava um pequeno castigo para resolver a situação. É incrível como os menores de quinze anos são considerados inimputáveis como se um garoto de doze ou catorze anos não soubesse o que faz.
Voltando a falar da PIDE, relatarei três casos de que agora me lembrei. O primeiro ocorreu na longínqua década de cinquenta do século passado. O primeiro-ministro da União Indiana, um tal Pandita Nehru, que pretendia anexar os territórios portugueses de Goa, Damão e Diu. Como é óbvio, para Salazar aquela pretensão era absolutamente irrealizável, o que provocou uma tensão política que, em 1961 seria resolvida pela força. (Sobre isto falarei mais adiante.
Ora por essa altura era locutor, actor e realizador de programas radiofónicos, um fulano chamado Igrejas Caeiro (mal sabia eu que, muitos anos depois, viria a tê-lo como colega na Emissora Nacional depois do 25 de Abril).
Numa entrevista dada por esse cavalheiro, (não me recordo se na rádio ou na imprensa) e uma vez inquirido sobre qual era o maior estadista do momento, o nosso homem não achou melhor do que declarar: o Pandita Nehru!
Ora não passa pela cabeça de ninguém, seja em que regime for, considerar que o maior estadista é um inimigo do nosso País. São coisas que se pensam mas não se dizem em público. O resultado foi a suspensão de todos os cargos públicos, o que o não impediu de continuar a sua vida profissional no teatro.
O segundo caso passou-se no Verão de 1960. Uma amiga minha, filha de um médico comunista fanático, andara a distribuir panfletos do PCP no liceu onde andava. O resultado não se fez esperar. Certa noite agentes da PIDE bateram à porta da casa onde vivia e, perante a aflição compreensiva dos pais, levaram-na para a prisão de Caxias onde permaneceu uma semana sendo-lhe permitida a visita dos pais. Depois de umas admoestações libertaram-na sob a promessa de “portar-se bem”. Pode-se não concordar com isto mas a verdade é que vivíamos num sistema de partido único e os comunistas eram os mais perseguidos. Lá diz o ditado: “quem semeia ventos colhe tempestades”. E, já agora, aproveito para citar o outro ditado (hipócrita) que diz que “se não podes lutar contra eles, junta-te a eles”; e eu acrescento: ignora-os e vive o melhor possível porque a política é feita por politiqueiros. Mas, a verdade é que se não fosse feita por esse tipo de gente não seria...POLÍTICA!!!
O terceiro caso deu-se comigo quando estava cumprindo em Angola aquela aberração chamada serviço militar obrigatório. Tinha regressado de uma aldeola situada no Norte daquela província ultramarina (colónia, se quiserem) chamada Nova Caipemba onde passara um ano. Agora tinha que cumprir o resto do tempo naquela aldeia grande chamada Luanda.
Tinha-me instalado numa pensão e certo dia, quando estava a almoçar, chamei o criado preto e dirigi-me a ele nestes termos: “senhor Miguel; veja se pode servir-me um pouco mais depressa porque já estou atrasado”.
Logo a voz de um dos comensais, com ar abrutalhado, fez-se ouvir com a educada frase: “olhe que aqui os pretos tratam-se por tu!”
Irritado, respondi-lhe que os meus pais me tinham ensinado que as pessoas mais velhas ou desconhecidas tratavam-se por senhor.
É por causa de pessoas como o senhor furriel (eu estava fardado) que esta guerra nunca mais acaba”, atirou o tal tipo. “Nem sabem utilizar as armas que, ainda por cima, somos nós que pagamos!”
Esta resposta foi o suficiente para eu perder a cabeça e responder gritando qualquer coisa como: “por mim, estou-me nas tintas tanto para a guerra como para esta terra; vim para cá à força e, se pudesse, mandava já um telegrama ao meu pai que pagaria a passagem no primeiro avião para Lisboa”.
Por momentos reinou o silêncio na sala, enquanto dezenas de olhos me observavam como se fosse um bicho raro. Como o tipo não respondeu, calei-me e, em breve, os ruídos normais de uma sala de jantar voltaram a fazer-se ouvir. Só quando acabei de comer e me preparava para sair, é que reparei que dois sujeitos, um branco e um preto, estavam sentados na esplanada vizinha olhando fixamente para mim.
Mal transpus a porta, ouvi uma voz chamar: “ó patrício, venha cá!”
Antes que eu pudesse perguntar o que ele queria, o tipo indagou: “que conversa foi aquela que eu estive a ouvir?” “Por menos do que aquilo já prendi muita gente!”
É claro que os “tomates” caíram-me aos pés (salvo seja). Não sei como, mas respondi-lhe com a seguinte bravata: “a mim o senhor não me prende; para isso terá de chamar a Polícia Militar!” “Além disso, já que esteve tão atento, deve ter ouvido como tudo começou e ir prender aquele senhor que ofendeu a tropa e o Portugal multirracial que o nosso Governo defende”.
O homem engoliu em seco, não sem antes avisar com ar de poucos amigos:
tenha cuidado!”
Já na rua é que caí em mim. O tipo era da PIDE e, se fizesse queixa de mim, o mais provável era voltar mais uma ano para o mato, agora que só faltavam quatro meses para cumprir os dois anos da praxe. Nos dias seguintes, quando o encontrava na esplanada, passei a cumprimentá-lo com o contumaz: “Como está? Está bem?” E o caso ficou por ali, para meu alívio. Por mim, continuava a abominar aquela terra, os pretos e os brancos que foram para lá.
E hoje fico por aqui. No próximo artigo desta série, falarei da parte negativa e por vezes cruel de Salazar. Irra que o diabo do homem ainda hoje dá pano para mangas. E, possivelmente, ainda virá a dar muito mais!


(Peço desculpa por ocasionais erros gramaticais e alguma “gralha” involuntária, mas a verdade é que não tenho paciência para rever o texto).






14/01/2020


O MAIOR PORTUGUÊS ?! (5)


Havia ORDEM, RESPEITO E SEGURANÇA. Foi assim que terminei o quinto artigo sobre este tema. Nem que de propósito, poucos dias depois soube do assassínio de um engenheiro de 24 anos que transitava no Campo Grande. O facto provocou-me uma grande emoção porque, para além de mais uma tragédia semelhante (uma das conquistas do 25 de Abril ou da “democracia”, como queiram) porque quando andava no liceu, recebia explicações de um professor de matemática que era noctívago como eu.

Morava na rua de Malpique ao Campo Grande (hoje Dr. João Soares) e as explicações eram dadas das três às quatro da manhã!

São inumeráveis as vezes que fiz o trajecto (ida e volta) a pé entre a minha casa na Av. Santa Joana Princesa (por detrás da igreja de S. João de Brito em Alvalade) e a do explicador sem ter tido qualquer tipo de ameaça.

Também são inumeráveis as idas e vindas de minha casa até ao aeroporto madrugada adentro sem o mínimo temor, do mesmo modo que se passeava tranquilamente à noite pelas ruas da Baixa.

Desde criança que passava as férias grandes em Oeiras e costumava ir à noite para o “Lido”, edifício situado na Estrada Marginal, onde havia vários tipos de jogos, entre eles os flippers e matraquilhos. Os meus pais ficavam tranquilos e eu, sem qualquer receio, vinha de noite por um longo caminho mal iluminado.

Para quem não viveu nesse tempo, ainda dou mais alguns exemplos: entre os diversos vendedores ambulante que existiam, havia um que vendia, simplesmente...OURO!!! E lá ia ele de bicicleta com o seu produto numa caixa presa sobre a roda de trás, gritando a plenos pulmões: Ouro! Ouro! E, para se tornar mais notado, accionava uma buzina com pera de borracha.

No Carnaval havia uma brincadeira que consistia num grupo de mascarados irem bater à porta durante a noite de familiares ou amigos.

Como ninguém pensava que fosse um assalto, abria a porta de boa fé, e os mascarados entravam desafiando os donos para uma festa. Normalmente, só depois de uns passos de dança e algumas inocentes diabruras é que se descobriam os embuçados.

Mas, havia ladrões? Claro que havia; eu próprio tive um em casa quando tinha sete ou oito anos. O caso foi este: já há algum tempo que em nossa casa havia uma persiana encravada. A minha mãe todos os dias lembrava o meu pai para arranjar alguém que resolvesse aquele problema.

Finalmente, certa tarde bateu à porta um homem que sabia que tínhamos uma persiana encravada e que vinha arranjá-la. Confiante, e até porque reconheceu que o meu pai lá se lembrara do assunto, levou o homem à divisão onde existia o problema.

Curioso como sempre, fiquei sozinho a ver o homem trabalhar. Começou por abrir a janela e a dar safanões na persiana. Volta e meia virava a cabeça e olhava para mim com ar de poucos amigos. Passado algum tempo, e vendo que eu não arredava pé, disse-me: “vá chamar a sua mãe porque preciso de falar com ela”. Para arrelia dele, não arredei pé e gritei por ela.

Assim que esta apareceu, o tipo declarou que tinha de ir buscar uma ferramenta e que não se demorava muito. O tempo passou sem ele voltar e, à noite, quando chegou o meu pai, a minha mãe contou-lhe a estranha atitude do “operário” (perdão; agora diz-se trabalhador). “Mas eu não mandei vir ninguém arranjar a persiana” disse o meu pai. Palavras para quê?

Mas, com o golpe de estado do 25 da Abril tudo mudou! E não demorou muito tempo. Dois ou três meses depois começaram os assaltos a pessoas nas ruas e em pleno dia e o roubo de automóveis à descarada durante a noite. Quantas vezes assisti da janela do meu quarto a tentativas de roubos de automóveis incluindo o meu. Quando acendi a luz e gritei já não sei o quê, um dos tipos virou-se para os outros, dizendo calmamente: “vamos tentar noutro sítio porque está ali um filho da puta a ver.”

Meses depois, fui assaltado em, plena Estrada Marginal, por quatro tipos que atravessaram o carro deles (roubado, soube depois) à frente do meu. Num ápice vi uma caçadeira de canos serrados apontada à minha cabeça; e lá se foram o relógio de pulso e todo o dinheiro que tinha o que, aliás não era muito.

Senti uma raiva enorme em não ter uma pistola para esvaziar o carregados sobre o carro quando este se afastava. Mas, foi uma sorte. Como vim a saber depois, se tivesse atingido algum dos tipos, teria de prestar contas à justiça passando de vítima a agressor. É esta a situação em que se passou a viver: chegar ao cúmulo de não podermos defender as nossas coisas ou a própria vida. Aliás, esta espantosa situação foi explicada num debate televisivo onde um advogado chamado Arroubas da Silva explicou que uma pessoa que tenha uma pistola legalizada a utilizar contra um agressor que a ameace, por exemplo, com um bastão, isso será “excesso de legítima defesa”! Abençoada democracia onde se mata mulheres a uma média de duas por mês, os assaltos, os sequestros, os roubos, os furtos violentos, as agressões, as intimidações, as chantagens, etc. tornaram-se o pão nosso de cada dia. Uma grande parte da juventude droga-se, embebeda-se nas famigeradas discotecas sob luzes psicadélicas e estridências sonoras, e organiza-se em gangues à moda norte-americana.

Lembro-me que quando se estreou na década de sessenta do século passado o célebre filme musical “West Side Story”, eu e os amigos que o viram, termos ficado espantados como nos Estados Unidos existiam aqueles gangues que se degladiavam sem a polícia poder intervir com firmeza.

Um assalto (e este é só um exemplo) como o que correu já vai para dois anos à Academia do Sporting, seria impossível durante o Estado Novo porque as prisões não eram parecidas com os actuais hotéis de luxo onde até se fazem festas de aniversário. Qualquer delito de direito comum aparecia nos jornais com as seguintes palavras: “o criminoso já se encontra detido nos calabouços do Governo Civil”. Não sei como eram os tais calabouços, mas que eram dissuasores, eram. Aliás, mesmo que aquele assalto se tivesse dado, e perante o flagrante delito existente, o tribunal teria resolvido imediatamente o assunto com mais ou menos anos de pena nos tais calabouços. Reparem, no entanto, que não estou a falar de delito do foro político. Isso era com a “PIDE”, a que me referirei no próximo artigo desta série.


28/12/2019


O MAIOR PORTUGUÊS ?! (4)



Não foi só como ministro das finanças que Salazar e grande empreendedor das grandes obras do Estado Novo. Como estadista de génio, é preciso lembrar o papel que desempenhou durante a Guerra Civil Espanhola (1936/1939) e a Segunda Guerra Mundial (1939/1945).
Com o triunfo da Revolução Bolchevique na Rússia, os ideais comunistas começaram a avançar como uma peste pelo centro e sul da Europa. No caso da Espanha, tinham-se juntado ao Partido Republicano que então governava o país, e tinham a intenção de anexar Portugal e impor o regime comunista, tal como a Rússia fizera aos seus vizinhos. Contra aquele partido, opuseram-se os “Nacionalistas” chefiados pelo general Franco.
Este, por sua vez, aglutinara em torno de si todos os partidos de direita e, como é óbvio, a Igreja Católica. Tendo vencido a guerra, Franco assumiu-se como ditador e fascista, corrente que também florescia pela Europa, como se sabe. São modas que, tais como os extremos, tocam-se.
Salazar, como católico que era e sobretudo um GRANDE PATRIOTA, não hesitou em apoiar Franco para impedir que Portugal perdesse a independência e caísse nas garras do comunismo. Porém, acabada uma guerra, começa outra; é o triste destino do bicho homem na sua ganância e estupidez!
No mesmo ano de 1939 deflagra a Segunda Guerra Mundial. Com uma política e sentido de estado excepcionais, Salazar joga nos dois lados conseguindo, assim, gradar a Gregos e Troianos, para além de conseguir que a Espanha também se mantivesse neutra. Assim, a Península Ibérica, manteve-se um oásis de paz numa Europa em fogo, que os espiões de ambos os lados aproveitaram para se vigiarem uns aos outros, tornando-se Lisboa a sua cidade preferida. Entre eles destacou-se o agente-duplo catalão Juan Pujol, um autêntico génio da mentira, que convenceu Hitler que o desembarque dos Aliados no dia “D” se efectuaria em “Pas-de-Calais”, e não na Normandia como veio a acontecer.
Toda a minha geração cresceu a ouvir dizer que Salazar nos tinha livrado da guerra bem como Nossa Senhora de Fátima, “madrinha” de Portugal! Não sei em que ponto aquela mulher interveio no caso, até porque se esqueceu de nós na Primeira Grande Guerra; por isso prefiro homenagear apenas o primeiro, e deixar a segunda em paz “lá no assento etéreo onde subiu” (Camões).
Por outro lado, não se pode negar que havia muita pobreza. Mas, as grandes fortunas estavam na posse de poucas famílias que investiam na economia e industrialização do País; e os bancos não faliam! Hoje temos uma quantidade de milionários feitos pela corrupção e benesses que até o próprio Estado concede em vez de dar o exemplo como fez Salazar.
Quanto mais se ganha, mais subsídios disto e daquilo são concedidos.
No princípio da década de noventa do século passado, aquando de um dos Governos de um pobre idiota chamado Aníbal, surgiram nas empresas públicas os chamados “cargos de estrutura” de que eu fui um dos milhares de felizardos contemplados com tal aberração.
Assim, e contra mim falo, aqueles “tachos” eram concedidos a partir dos chefes de serviço, que era o meu caso na RDP. Assim, passei a usufruir de subsídio de isenção de horário (quantas vezes fiquei, por vergonha, a “fazer” horas até de madrugada) de subsídio de “cargo de estrutura” e cheques para despesas de gasolina, dos quais nem um quarto gastava incluindo as deslocações privadas. Volto a repetir: contra mim falo. “Não sou parvo, nem romancista russo aplicado, e romantismo sim, mas devagar” (Fernando Pessoa). Mas, há mais: os directores, para além de aquelas “benesses” que eram maiores, ainda tinham direito a carro da empresa, podendo ficar com ele após três anos de utilização. Quanto aos administradores, nem vale a pena falar: chegavam ao ponto de mandar mudar as alcatifas dos seus sumptuosos gabinetes se não gostavam da cor!
Tudo isto faz-me lembrar o presidente da Emissora Nacional que tinha, no velho edifício da rua do Quelhas, uma pequena divisão onde trabalhava. Ai Salazar, Salazar!
Fascismo em Portugal nunca houve como afirmou o saudoso historiador Herman Saraiva. Aliás, pode dizer-se que essa palavra só surgiu após o 25 de Abril quando os comunistas e uma dezena de grupelhos de extrema-esquerda como o MRPP, começaram com o slogan “fascismo nunca mais”, logo repetido pelo povo cuja maioria nem sabia o que isso significava.
Porém, nunca os ouvi falar em Rolão Preto, um tipo que em 1932 fundou o Partido Nacional-Sindicalista, cujos membros usavam camisas azuis e faziam a saudação romana adoptada pelos nazis.
Salazar proibiu aquele movimento porque “inspirava-se em certos modelos estrangeiros”, nomeadamente no fascismo italiano. Coisas. Quanto a Rolão Preto, foi preso e exilado em Espanha onde conspirou contra Salazar mesmo, ainda no tempo deste, quando regressou a Portugal.
Será que a “Mocidade Portuguesa” tinha algo que se parecesse com a “Juventude Hitleriana”? Na verdade havia uma educação patriótica (hoje se-se patriota é ser xenófobo e racista excepto no futebol, claro) e um cultivo da saúde física e mental, nada comparável à autêntica preparação militar e lavagem ao cérebro de cariz ultra-racista contra judeus e eslavos. (Quanto aos pretos era como se nem existissem). Nas nossas salas de aula estavam as fotografias de Salazar e do Presidente da República; mas, ninguém era obrigado a levantar-se e estender o braço gritando “viva Salazar”, como acontecia na Alemanha com o famigerado “Heil Hitler” rigorosamente obrigatório desde a instrução primária.
Também a Maçonaria não escapou à perspicaz inteligência de Salazar, colocando essa seita na clandestinidade cujos membros protegem-se sob juramento uns aos outros, devendo mesmo mentir em tribunal em defesa dos seus apaniguados. Deve ser por isso que hoje os processos judiciais arrastam-se durante anos até prescreverem.
Voltando à Ex.ma Doutora Odete Santos, ocorreu-me agora que naquele concurso televisivo referiu-se a o texto do célebre fado “Uma Casa Portuguesa”. Ora a letra não é de Salazar, embora este cultivasse os ideais de pobreza (que não é o mesmo que miséria) e da modéstia. Segundo consta, até odiava o fado, que classificava como o exemplo típico das lamurias nacionais. Quem não conhece aquela cena do filme “A Canção de Lisboa” em que Vasco Santana diz que “o fado é o veneno da Raça”- “Eu sou médico; sou obrigado a curar as chagas de carácter nacional”? Esta era uma piada a Salazar, bem como a frase “beber vinho é dar o pão a um milhão de portugueses” que Ribeirinho profere em “O Pátio das Cantigas”.
No mesmo filme, durante a cena de pancadaria que se desenrola no pátio, Vasco Santana conduz um grupo de crianças para dentro de uma loja que, “por acaso”, tem o nome de Salazar, e diz: “podem estar descansadinhos que aqui não lhes acontece mal nenhum”.
Ora aqui é que vou tocar no ponto que julgo ter levado mais de 40% pessoas a votarem em Salazar: É que havia SEGURANÇA, ORDEM E RESPEITO!

E, por hoje, chega; continua no próximo ano.

07/12/2019

O MAIOR PORTUGUÊS ?! (3)

Continuando com este polémico artigo, lembrei-me do já tão longínquo ano de 1954, em que fui morar com os meus pais, irmã e avó materna para o novo bairro lisboeta de Alvalade. A razão foi a de o meu pai não poder suportar a renda de casa na Av. Marquês de Tomar onde, então, morávamos.
Ora no bairro de Alvalade as casas eram de renda limitada, além de esta ser mas barata. Quer isto dizer que, dado ao facto de practicamente não haver inflação, os senhorios não poderiam aumentar as rendas por tempo indeterminado. Assim, a renda que o meu pai pagou durante vinte anos, foi sempre de 950$00. Depois, veio o 25 de Abril, e os “revolucionários”, dando cabo das finanças e da economia do País, provocaram o caos, tanto para inquilinos como para senhorios. Mas, se tivesse sido só nisto...
Naquele bairro novo nada faltava no que respeita ao comércio; na segunda parte da Av. da Igreja, todas as actividades relacionadas com o indispensável para uma vida modesta mas digna. “Até há uma casa de gelados”, dissera entusiasmado o meu pai quando a descobrira. Chamava-se “Gelataria Alfo Tarlatini” e não sei se ainda existe.
Parece impossível como vocês foram morar para tão longe”, comentavam familiares e amigos” ao que a minha mãe, de quem talvez tenha herdado o espírito de contradição por não me entender neste mundo, retorquía explicando que não precisava de ir à Baixa pois tinha tudo perto de casa e mais barato. E, quanto a transportes, tínhamos mesmo em frente da porta a paragem da carreira 21 de autocarros que, por 1$50, nos conduzia à Praça dos Restauradores.
É claro que podem dizer que eu falo assim por ser menino da cidade; porém, os livros das 3ª e 4ª classes faziam gala em mostrar a vida no campo, já que Portugal era e é um país essencialmente agrícola.
Aqueles livros focavam os assuntos mais diversos entre os quais a necessidade de se aprender a ler e a escrever. Se, como afirmou naquele concurso a ex-deputada comunista Odete Santos (que deve estar podre de rica) que Salazar dissera que um povo culto é ingovernável, esta noção só se poderia aplicar à cultura política. Na verdade, o comunismo era apresentado como um regime monstruoso, o que afinal se veio a verificar após após o desabar da União Soviética. Comparados com a polícia política soviética (KGB) e a sua homóloga nazi (Gestapo) os tipos da “PIDE” não passavam de meninos de coro! Por muito que seja condenável a existência das prisões de Caxias, Peniche ou do Tarrafal, onde morreram algumas dezenas de comunistas, estas não se podem comparar com os “Arquipélagos Goulag” soviéticos onde trabalharam até à morte milhões de presos políticos. Parece incrível mas na nossa Assembleia da República, onde marcam presença (quando não faltam) dezenas de oportunistas, este assunto continue tabu. Talvez o tipo do “Chega” ou lá o que é, ou a preta gaga que só vê racistas por todo o lado, um dia atire isto à cara do Sr. Jerónimo ou da dona Catarina, mas não acredito. Há que defender o “tacho” que a “populaça na praça” (nome de dois artigos deste blogue publicados em Abril e Junho de 2014) lhes ofereceu. E basta por hoje. 
Mais uma vez vou deixar o assunto “em cima da mesa”. Mas não sem antes recordar aquela quadrinha do poeta brasileiro Luiz Vieira, que reza assim:

Se bicudo vem de bica,
E se grota* vem de gruta,
Conforme a palavra indica,
Deputado vem de puta.

  *Grota do italiano grotta através do latim Cripta; galeria escura, subterrâneo, caverna.