27/08/2014

PEQUENA ANTOLOGIA DE DISPARATES SOBRE MÚSICA (Primeira parte)

Foi no início da década de 90 que eu e outro colega fomos encarregados de fazer a revisão do boletim mensal da programação da Antena-2 da RDP.
Só os revisores das firmas editoras e afins poderão compreender quanto exaustivo é este trabalho, tornado, no nosso caso, ainda mais difícil devido à quantidade de nomes estrangeiros, como compositores, intérpretes, etc.
Mas, tanto eu como ele, desde novos habituados a lidar com nomes como Stanislaw Skrowaczewski devido aos discos que possuíamos, e à experiência adquirida após muitos anos na Emissora Nacional/RDP, esse não era o maior problema. Eram as famosas “gralhas” tipográficas que, mesmo após três, ou mesmo quatro revisões das provas conseguiam sempre escapar. E o curioso é que, por vezes, descobríamos a falta de uma simples vírgula, enquanto uma falha de maiores dimensões escapava à nossa argúcia.
E, a propósito: sabem que num exemplar do “Diário de Notícias” do ano de 1968 houve uma “gralha” que deu brado? Foi “apenas” isto: num anúncio que publicitava colchões de molas faltou o segundo “c”!
Procurem na Internet  e encontrarão alguns deliciosos comentários sobre aquela bronca. Mas voltemos à música.
Desde garoto apaixonado pela música dita clássica, séria, erudita ou como lhe queiram chamar (Leonard Bernstein achava preferível apelidá-la de música exacta pois tem de ser tocada exactamente como o compositor escreveu), coleccionava todos os catálogos de discos que conseguia arranjar, e sublinhava as obras que ambicionava ter.
Quando conseguia reunir a quantia de duzentos escudos, preço médio de um LP naquela época, vinha sempre o embaraço da escolha na lista que elaborara. É que, arranjar aquela quantia não era fácil mas, com poupanças como ir e vir a pé do liceu, guardando o dinheiro do autocarro e as “semanadas”, lá ia conseguindo aumentar a minha discoteca.
E, quando fazia anos, tinha sempre algumas prendas monetárias, entre as quais não posso esquecer a da minha madrinha de duche (perdão, de baptismo) que, apesar de “podre” de rica, dava-me cem escudinhos pelo meu aniversário. Não era mau; chegava para comprar “meio-disco”! Mas foi assim que a minha colecção foi aumentando até que, juntamente com discos de 78 rpm (dos tempos de criança) atinge os mil exemplares, todos catalogados e, alguns, autografados pelos intérpretes, o que era fácil de conseguir devido à minha profissão. É claro que com o advento dos CD, a colecção deixou de aumentar.
De vez em quando dá-me para folhear aqueles catálogos, a maioria em francês, alemão e inglês. Como fui sempre avesso às línguas estrangeiras, fiquei, pelo menos, a saber palavras e frases relacionadas com a música nessas línguas não esquecendo, como é óbvio, o italiano, a língua internacional utilizada pela quarta arte. Isto facilitou imenso o trabalho na rádio.
Mas houve quem se atrevesse, sem ter o menor conhecimento do assunto, a traduzir alguns desses catálogos, como demonstra a edição portuguesa da celebérrima editora de discos Deutsche Grammophon Gesellschaft. A impressão foi feita pela tipografia Barreiro-Lisboa em 27 de Setembro de 1957, sendo a tiragem de 3.000 exemplares.
É claro que na altura engoli todos aquelas asneiras mas hoje, com a idade e conhecimentos que tenho, acho melhor classificá-los, contradizendo o título deste blogue, como “A Alegria do Disparate”!
Como seria fastidioso referir todos os erros de tradução, até porque é rara a página onde eles não acontecem, apontarei apenas, os mais conspícuos. Aqui vão.
O mais “clássico”, e que ainda hoje perdura, é “Cavalaria Rusticana”. O saudoso Dr. João de Freitas Branco contava que quando escrevia sobre aquela ópera de Mascagni, era frequente o revisor corrigir Cavelleria par cavalaria, como se o erro fosse dele. A isto costuma-se chamar “ser mais papista que o papa”!
Ora, o nome da ópera é Cavalleria Rusticana”, e nada tem a ver com cavalos. Traduzido à letra, aquele nome significa, aproximadamente, “cavalheirismo rústico”, no sentido de honra e justiça populares.
O enredo é muito simples: um marido cornudo, depois de várias peripécias em que a música simples mas sublime tornou numa das óperas mais populares, mata o amante da sua mulher à facada num duelo sem regras nem padrinhos. É uma história de faca e alguidar, a que, apenas, falta este último.
Continuando a folhear o catálogo, onde a asneira referida não poderia deixar de existir, (Goebels, o ministro da propaganda nazi afirmava que uma mentira muitas vezes repetida, neste caso uma asneira, transforma-se numa verdade) encontrei mais uma espectacular: a Rapsódia para contralto, coro masculino e orquestra, Op. 53, de Brahms, traduzida por “velha rapsódia”!
A ignorância desta tradução é fácil de adivinhar; abreviando o nome desta obra, os alemães costumam dizer e escrever Alt-Rhapsodie em que alt é uma abreviatura de contralto, a tessitura mais grave da voz feminina. Por sua vez, alte significa antigo, velho, o que fez com que quem traduziu, que até podia ser um “barra” em alemão, cometeu aquele erro por se meter em assuntos que desconhecia e, o que é pior, não se preocupou em investigar.

“Carmina Burana”. Esta cantata de Carl Orff é, ainda hoje, mencionada com o artigo definido “A” no início, como se este estivesse implícito. Trata-se de um erro derivado, possivelmente, do facto de as duas palavras parecerem do género feminino. A realidade, porém, é outra. Carmina é uma palavra latina, do género neutro, e no plural. Do singular Carmen vem o termo Carme que significa canto, poema ou versos líricos.
Quanto a “Burana”, provém de Beuren na Alemanha, onde, no convento dos Beneditinos, foi encontrada uma compilação de textos referentes ao modo de vida naquela confraria, feita por um autor anónimo do séc. XIII. Assim, podemos traduzir por “Cantos Buranos” ou, se quisermos manter a designação consagrada (que acho preferível) devemos dizer “Os Carmina Burana”.
Desta vez o tradutor do catálogo não se meteu em aventuras, e manteve o nome como estava no disco. Porém, julgou, certamente, que os nomes das três partes que constituem a obra eram composições diferentes, e relegou “Carmina Burana” para um tipo de letra mais pequeno e entre parêntesis.
Como consequência disto, a distribuição dos intérpretes ficou de tal modo baralhada, que só quem conhece a obra e está dentro do mundo discográfico, consegue perceber.  
Mas, a mais maravilhosa “tradução” constante neste catálogo, onde em cada página se vê que foi feita por quem nada percebia do assunto, é esta: “escravos vendáveis” e, noutra página, “escravos para venda”, são os títulos de uma ária do “Rigoletto” de Verdi. 
Quando, agora, li isto (e fi-lo de certeza naquele longínquo ano de 1957), detive-me por uns momentos, pensando que não estava a ver bem. Mas era verdade!
Nessa época, o que conhecia daquela famosa ópera, eram uns pequenos fragmentos gravados num disco de 78 rotações que ainda hoje conservo. Mas, não foi preciso muito tempo para, depois de ouvi-la e vê-la representar dezenas de vezes, poder dizer que a conheço de fio a pavio. Não como cantor ou maestro, como é óbvio.
Fechei o catálogo e comecei a tentar raciocinar sobre que diabo de ária seria aquela. No “Rigoletto” não há escravos, nem para alugar ou para vender, mesmo a prestações. Onde encontrar, então, uma explicação para semelhante título? Fui buscar o libreto e tentei encontrar algo que pudesse ter dado origem àquela “tradução”. A única hipótese é o dueto final do segundo acto si, vendetta, tremenda vendetta! (sim
vingança, tremenda vingança)! E isto devido à palavra italiana vendetta, ser um pouco homófona de vendável. Mas, nem esta hipótese é parece-me viável, já que o catálogo menciona apenas o barítono Hermann Uhde e neste caso, como dueto que é, falta o nome do soprano. E, mais palavras para quê? Se alguém conseguir esclarecer-me, fico muito grato.
Mas, não se pense que durante toda a minha vida, tanto pessoal como profissional ligada à música, só no referido catálogo encontrei erros de palmatória. Na Emissora Nacional/RDP, também tive de lidar com alguns que parecem anedotas. Mas, isso ficará para o próximo artigo.
Entretanto, não se esqueçam de procurar os tais colchões de molas na internet.

Nota: qualquer comentário escrito segundo o chamado acordo orográfico, será considerado como tendo erros grosseiros e, como tal, corrigido.



11/08/2014

COMO É POSSÍVEL ENSINAR A ESCREVER PORTUGUÊS?

Começo por pedir desculpa aos meus leitores por, mais uma vez, intercalar um texto antes do que prometi dedicado aos melómanos.
Isto deve-se a um comentário sobre o erro que encabeçava o objectivo deste blogue. Obrigado a quem se esconde sob o anonimato, e chamou a atenção para o erro que, e já lá vão cinco anos, tem perdurado desde o início: o correcto (será?) é vêem e não vêm, grafia agora corrigida como o leitor poderá verificar. Mas, vamos ao âmago da questão.

Foi com alguma nostalgia que reli, saltando aqui e acolá, alguns dos romances de Emílio Salgari que fazem parte da minha biblioteca. Não vou falar de Sandokan ou das dezenas de romances de aventuras com que o desditoso escritor italiano povoou a minha infância e adolescência, tal como Júlio Verne. Entre os que possuo, chamou-me a atenção Os Bohemios (sic), a única história divertida, julgo, que Salgari escreveu.
Como a capa estava em muito mau estado, fiz uma fotocópia com que consegui uma nova encadernação, e comecei a folhear, procurando alguns episódios que tanto me fizeram rir há cerca de sessenta anos.  
Bem disposto, acabei por ler a obra na íntegra, e a minha mulher, que não a conhecia, também a “devorou” em dois ou três dias.
A história foi inspirada no livro “Cenas da Vida Boémia” de Henri Murget. O tema focado, como o nome indica, relata as diabruras que um grupo de artistas faz na Itália da segunda metade do séc. XIX.
Puccini escreveu sob o título La Bohème uma das suas mais belas óperas, e Leoncavallo, o autor de I Paliacci, fez o mesmo; porém, a versão deste compositor caiu quase completamente no esquecimento, embora alguns “intelectuais” afirmem que é melhor do que a de Puccini, quanto mais não seja para divergirem da opinião da maioria dos amantes do canto lírico.
A principal diferença de adaptação da história reside no trágico final das duas óperas: a morte da protagonista Mimi, vítima de tísica. Salgari descreve só cenas divertidas e o livro termina com a dissolução do grupo de boémios, sem alegrias nem tristezas.
Voltando ao livro, e justificando o título deste artigo, vou referir três exemplos da ortografia usada nesta edição, que à falta de datação impressa, julgo ser dos anos trinta do século passado. Aqui estão:
Sótam (sótão); rasão (razão); ha (há). E poderia citar muitos mais exemplos.

Em face disto resolvi folhear alguns dos livros de Júlio Verne que possuo, editados pela Livraria Bertrand igualmente sem data, e que também li na minha meninice.
Eis alguns exemplos da ortografia encontrada:
Elle, anno, sciencia, creado, systematico, phylosophia, etc. etc.
E, nem que de propósito, encontrei um prospecto dentro de um dos livros a informar do lançamento de uma nova edição “reimpressa de acordo com a moderna ortografia”.
Ora eu aprendi a ler e escrever pela “Cartilha Maternal” de João de Deus, com lições dadas em casa por uma professora particular, pois passei todo esse tempo quase sempre doente com todas as doenças virais que atingiam as crianças. A única vacina que havia era apanhar a doença o mais cedo possível; só não tive escarlatina, como a minha irmã mas, em “compensação”, não escapei à difteria, que poucas décadas antes era quase sempre fatal.
Será que hoje não reina a mesma confusão provocada pelos diferentes tipos de ortografia que numa criança, ávida de livros como eu era, tinha de suportar?
Uma vez entrado num colégio para frequentar a terceira classe, tive de aceitar o que se ensinava; mas qualquer falha ortográfica era um erro sublinhado a vermelho pela professora, embora o caos ortográfico que reinava na minha pequena biblioteca fosse o responsável por algumas das “faltas” cometidas.

Hoje penso nas dificuldades que os professores de português tiveram naquela época tal como os de hoje! É que tem havido em Portugal várias corjas de vendedores da Língua Pátria que, com o pretexto de irmos atrás do Brasil e das antigas colónias, a que juntámos agora a Guiné-Conacri numa ânsia idiota de manter um império subjectivo, fazem-me lembrar a teimosia irrealistamente histórica de Salazar do Portugal uno e indivisível do Minho a Timor.
E, paradoxalmente, a ideia parte dessa gente que, se por um lado é uma subserviência, por outro tenta convencer esses países a seguirem o mesmo caminho. Basta ver as reticências que, da parte deles, continuam a surgir.
Sei que as línguas não são estáticas e, por isso, as respectivas ortografias vão sendo alteradas. Mas, estar sempre a mudar por dá cá aquela palha, é apenas incentivar ao erro ortográfico, infelizmente tão corrente no nosso País.
No outro extremo estão os Ingleses que, no futuro, talvez venham a ter uma grafia quase ideográfica se não fizerem uma adaptação fonética. Quando tive, por obrigação, contacto com essa língua, ocorreu-me esta sátira que já publiquei num artigo anterior: “escrevem Sebastião José de Carvalho e Melo e lêem Marquês de Pombal!" 
Ou, como diz um professor de Esperanto, "escrevem hipopótamo e lêem jacaré!" Mas isso é com eles.
As consoantes mudas não se escrevem, dizem os autores do actual “acordo ortográfico”. Mas, quando consultamos essa aberração, verificamos que são só algumas. Por uma questão de lógica, acabe-se com o “h” inicial que já existiu, por exemplo, em “hontem”. A verdade é que, na língua portuguesa, não existem vogais aspiradas. Porquê, então, manter o “h” no início de hoje, haver, hora ou humidade? Porque não imitar o Brasil e escrever “úmido” ou propor-lhes o uso daquela letra na mesma palavra e seus derivados? 
Na linguagem do dia a dia dizemos “pâ” (para) “tô” (estou) e muitas outras modalidades que até variam segundo as regiões. Vamos, então, escrever segundo pronunciamos, conforme vemos na Internet o modo como muitos brasileiros escrevem “português”? 

Como já disse, este fenómeno operado por vendedores da língua nacional parece ser endémico, já que não é de agora. Nas pesquisas que tenho feito sobre este assunto, encontrei um guia turístico sobre Portugal escrito em português, francês e inglês. Tem por título “Ensaio Sobre Costumes e Coisas” e foi escrito por César de Oliveira* e ilustrado por Fernando Bento**. A edição é de 1959.
O realismo e a graça com que são retratados o povo, o clima, os costumes e outras coisas necessárias a interessar o turismo que timidamente se manifestava, são aliciantes e fazem o leitor pensar que, afinal, o nosso povo pouco mudou nos últimos cinquenta anos.
A certa altura pode ler-se isto: “A nossa língua é difícil. Mesmo para nós, acredite. Os acordos do idioma com o Brasil só têm trazido como resultado complicar ainda mais, linguisticamente, as coisas. Cá e lá!”
Comentários para quê? Ainda há duas ou três décadas os advérbios de modo cujo radical tinha acento agudo, passavam a ser indicados com acento grave (só, sòmente). A sua omissão foi mais uma dança interminável, também extensível aos acentos diacríticos, que faz com que muita gente, como eu, cometa erros ortográficos como o que constava na informação sobre os objectivos deste blogue. Mas, serão mesmo erros? Em que ficamos, quando a cambada que está por detrás desta palhaçada “consola” os recalcitrantes dizendo (democraticamente) que quem quiser pode continuar a escrever “à moda antiga”?
Por isto tudo, louvo os verdadeiros professores de português que discordam desta lamentável situação. Sugiro, até, que façam uma greve de zelo deixando passar todos os erros ortográficos dos seus alunos.
Quanto aos ilustres autores deste (des)acordo, como sou bem-educado, mando-os apenas bugiar acompanhados por um tal Aníbal que ratificou esta venda da nossa língua. Mas, como sou livre de pensar, lembrei-me de outros destinos mais adequados que, por uma questão de decoro, abstenho-me de indicar.

E a propósito de vender e bugiar: sabem que as Ilhas Desertas, (Deserta Grande, Ilhéu Chão e Bugio) que fazem parte do arquipélago da Madeira (não confundir com as Selvagens que os Espanhóis cobiçam por causa de aumentarem a extensão das nossas águas territoriais) foram vendidas a um casal inglês em 1894 (juntamente com as Selvagens), só voltando todas ao território pátrio em 1971, por um processo de compra?
Ai Portugal, Portugal! Lembra-te que em 2043 vais comemorar os novecentos anos do reconhecimento como nação independente!

*César de Oliveira: acho muito pouco provável que seja o fundador do M.E.S (Movimento de Esquerda Socialista) que nasceu em 1941 e morreu em 1998. Como referi, a edição é de 1959.

**Fernando Bento (1910-1996): foi um desenhador que colaborou, principalmente, no semanário juvenil “Cavaleiro Andante”.
A título de curiosidade, informo que possuo a colecção completa e encadernada (doze volumes) desse semanário nascido em Janeiro de 1951, tendo sobrevivido onze anos.
Se alguém a quiser comprar, informo que não a vendo por preço nenhum!



29/07/2014

“NE, SUTOR, ULTRA CREPIDAM” : SAPATEIRO, NÃO PASSES DO CALÇADO.

Esta frase, latinizada pelo historiador romano Plínio, o “Velho” (23dC-79dC), é atribuída a Apeles, pintor da Grécia Antiga, (352aC-308aC) que tinha por costume esconder-se quando expunha os seus quadros, mas a distância suficiente para ouvir os comentários daqueles que os contemplavam.
Certo dia, ouviu um sapateiro criticar alguns pormenores das sandálias de uma figura presente num dos quadros expostos. Apeles saiu da sombra e fez as emendas segundo os conselhos do sapateiro. Este, porém, resolveu apontar outros defeitos no quadro, o que motivou a resposta do pintor, que hoje continua a ser sinónimo do provérbio que diz, entre várias versões, “não fales ou não opines sobre assuntos que desconheces”.
É claro que a maioria das pessoas não respeita esta máxima. Eu próprio me penitencio porque já o fiz algumas vezes, quanto mais não fosse pelo gosto de contrariar o interlocutor que, por seu lado, fazia o mesmo. Contudo, procuro sempre não entrar em assuntos sobre os quais, infelizmente, pouco ou nada sei como as artes plásticas; ou, se entro, é para aprender com o interlocutor quando este é versado no assunto.

Este artigo já estava preparado há algum tempo, e destinava-se a divertir os melómanos com uma série de traduções que se encontram na minha colecção de catálogos de discos fonográficos. São de morrer a rir e um autêntico “suplício do disparate”!
Mas isto ficará para próximo tema pois, como prometi, vou dar uma explicação à senhora Inês Gonçalves sobre a órbita da Terra. 
É pouco provável que a leia, mas fico, como de costume, com o fígado mais aliviado. 
Antes, porém, quero dizer que sobre este assunto, escrevi há muitos anos para o semanário “Tal e Qual” por causa de uma apresentadora da “SIC” ter dito o mesmo disparate; a este juntei “pérolas” ditas na mesma altura na televisão, tais como ‘a Nova Guiné ficar situada na África’, ‘haver tigres de Benguela’ e, como era Secretário de Estado da Cultura o senhor Santana Lopes, aproveitei para fazer referência à sua extraordinária e mundialmente famosa “descoberta” dos ‘concertos para violino de Chopin’. Aquele antigo semanário deu-me a honra de publicar o meu texto, acompanhado de um cartoon com a legenda “uma coltura de sucesso”!

A primeira das três leis de Kepler diz o seguinte: as órbitas dos planetas são elipses, ocupando o sol um dos focos. Ao mencionar isto não pretendo que todos os que andaram no liceu se recordem daquelas leis espantosamente descobertas pelo célebre astrónomo quinhentista com os meios rudimentares de que dispunha.
O mais provável é não saberem quem foi Johannes Kepler nem o que é uma elipse (não confundir com a elipse gramatical), um dos três tipos de cónicas juntamente com a hipérbole e a parábola. (Não confundir, também, com as parábolas atribuídas a Jesus Cristo e, por favor, não deturpem a palavra cónica)!
O facto mais simples e notório que advém de as órbitas dos planetas serem elipses, é a variação da distância ao Sol que se verifica nas suas órbitas. Como no caso da Terra a variação é muito pequena (cerca de dois milhões e meio de quilómetros numa órbita média de pouco mais de cento e quarenta e nove milhões) a distância, em termos astronómicos, pode ser considerada quase sem variação. Ora o que faz as diferenças de temperatura anuais, bem como a duração dos dias e das noites, é a inclinação do eixo da Terra cuja superfície recebe, por isso, a radiação solar sob ângulos diferentes. O resultado são as conhecidas estações do ano que todos aprendemos em criança e que a maioria das pessoas julga serem extensíveis a todo o planeta, já que as suas mentes não conseguem sair, geograficamente, do local onde nasceram e vivem. 
Se a senhora Inês Gonçalves pensasse um bocadinho não teria dito aquela asneira, uma vez que no hemisfério sul começava o Inverno! Será que, por artes mágicas, a outra metade da Terra estava mais afastada do Sol? E por onde andavam as regiões equatoriais, que não têm estações do ano? Sem comentários!

Mas, falar primeiro e pensar depois (se é que pensam) é uma propriedade inata à maioria dos seres humanos. Muitos animais, como os cães que por vezes rosnam a quem lhes vais dar mimos, ou abanam a cauda e aproximam-se, prazenteiros, para depois levarem um enxerto de porrada de algumas bestas humanas, fazem o mesmo. Mas estes, segundo se diz, são irracionais! 


(Nota: Qualquer comentário escrito segundo o chamado 'acordo ortográfico' será considerado como tendo erros grosseiros e, como tal, corrigido).

13/07/2014


SEGUNDO UMA APRESENTADORA DA RTP, NO INÍCIO DO VERÃO O SOL ESTÁ MAIS PRÓXIMO DA TERRA!

Embora um pouco fora de tempo, não posso deixar escapar mais uma asneira em que os jornalistas são pródigos.

Foi no dia 20 de Junho que Inês Gonçalves, acompanhada por Jorge Gabriel num programa sobre futebol, em vez de se limitar ao evento (o começo do Verão), resolveu acrescentar que naquela data "A Terra  está mais perto do Sol". É um erro muito comum mas, para quem comunica com os outros, principalmente através de um meio tão abrangente como é a televisão, mais vale estar calado do que dizer asneiras; ou melhor, não fazer comentários sobre o que não sabemos, até porque errare humanum est.

É assim que o disparate, esse autêntico suplício, razão primeira deste blogue, vai correndo de boca em boca até se tornar numa verdade. E, assim, a ignorância expande-se depressa, ao contrário do saber porque, afinal, este só interessa a alguns.

No próximo artigo, cujo título será em latim, explicarei a razão de ser daquele disparate. Apesar de não saber aquela língua dita morta, convenhamos que soa a erudição, por mais falsa que seja. E eu, como humano que sou, também gosto de me exibir.

Entretanto, ponho esta interrogação a quem julga que no solstício de Verão a Terra está mais próxima do Sol: como explicar, então, que no hemisfério Sul comece o Inverno?



(Nota: Qualquer comentário escrito segundo o chamado acordo ortográfico será considerado como tendo erros grosseiros e, como tal, corrigido).



09/07/2014

POLÍTICO NA VARANDA...Comentário

Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são 
Só o que passa!
(Fernando Pessoa in “Mensagem”)


Finalmente, aqui está o meu comentário sobre o artigo que publiquei em Abril. Desta vez não vou deixar que a cerveja, a canonização de novos santos ou as asneiras que se dizem na RTP (esta última será o alvo do próximo artigo) me impeçam de cumprir o prometido.

Durante o tempo que levo até conseguir adormecer, em vez de ler qualquer coisa disparatada como a lista telefónica, deu-me, mais uma vez, para folhear o “Resumo da História de Portugal” da autoria de Tomás de Barros, e oficialmente aprovado pelo regime do Estado Novo (edição de 1948).
Comprei-o há poucos anos, juntamente com outros livros escolares da época em que nasci e onde aprendi o que, oficialmente, se ensinava na instrução primária e no liceu.
Eram os chamados livros únicos que depois de examinados e censurados, eram definitivamente aprovados pelo Ministério da Educação Nacional.
Em boa hora foram reeditados para o saudosismo de velhos como eu, para conhecimento da juventude actual (se é que esta quer saber alguma coisa do tempo em que os pais viveram) e, principalmente, para historiadores não facciosos.
A sua leitura é imensamente pedagógica no aspecto em que, se por um lado mostra a realidade da vida portuguesa naquela época onde havia ordem e respeito, por outro, como se contornava e deturpava a verdade histórica, não fosse esta ofender a “moral e os bons costumes”, a doutrina básica do Estado Novo baseada na trilogia “Deus, Pátria e Família”.

Hoje, e apesar da propaganda anti-salazarista primária que surgiu após a revolução de 25 de Abril, e da qual fui um grande entusiasta como quase todos os portugueses, começo a olhar para trás e a compreender porque a História só se escreve anos depois dos acontecimentos e, na maioria dos casos, se repete.

Ao abrir ao acaso as primeiras páginas referentes à Fundação de Portugal, recordei factos que éramos obrigados a saber de cor e papaguear nos exames das terceira e quarta classes, bem como no de admissão aos liceus.
Decorava-se, repetia-se, e nem nos passava pela cabeça imaginar como a trilogia atrás referida podia justificar as lutas entre familiares para alcançar o poder sob a vigilância de um Deus que protegia alguns em detrimento de outros.
Bastava saber de cor nomes, datas e locais e não fazer perguntas incómodas. Além disto, ainda havia a obrigação de decorar as montanhas, os rios e seus afluentes e as linhas de caminhos-de-ferro, tanto em Portugal Continental como nas Colónias e Ilhas Adjacentes. Aliás, era este o título que encabeçava o mapa do Portugal da época, afixado junto ao quadro preto e acompanhado por uma cruz e as fotografias de Salazar e do presidente Óscar Carmona. Vieram, depois, as de Craveiro Lopes e Américo Thomás, mas a de Salazar permanecia como se fosse eterna.
Todas aquelas lutas, fosse entre pais e filhos, irmãos, sogros e genros e outros graus de parentesco, a que se juntavam os filhos ditos bastardos ou naturais, eram “engolidos” com uma única justificação: o nome de Portugal, pátria de santos e heróis cuja História era a mais bela de todas!

Mas se não se podia explicar o que eram filhos bastardos ou naturais, o autor Tomás de Barros arranjou uma engenhosa maneira de contornar a definição de amante. Refere-se ao conde Fernão Peres de Trava como receptante dos favores de Dona Teresa, mãe de D. Afonso Henriques. E sobre estes ou qualquer outro pormenor mais delicado, não havia que fazer perguntas; até porque o professor poderia ficar embaraçado e, na melhor das hipóteses, mostrar apenas a régua.
E, depois, havia os moiros que, não tendo abraçado a fé cristã como os Visigodos, eram classificados de Infiéis. Era motivo suficiente para lhes roubar as terras que eles, por sua vez, tinham roubado aos que já estavam na Península Ibérica depois de os vencidos terem feito o mesmo aos que já lá se
encontravam, e...etc, etc! Uma variante da conhecida interrogação sobre quem apareceu primeiro: o ovo ou a galinha.

E continuei a folhear o livro, parando aqui e ali, como no episódio de D. Pedro I e Inês de Castro, em D. Sebastião e Alcácer-Quibir ou no assassinato de D. Carlos e de seu filho, poucos anos depois seguido pelo do presidente Sidónio Pais.
Curioso por recordar tantos factos históricos, mas indiferente a toda a série de crimes que a ânsia do poder, a cobiça e a cupidez tornam o ser humano o maior inimigo de si próprio, voltei atrás e detive-me na parte que dá início à era dos Descobrimentos. Aí, pode ler-se: “Portugal sentia necessidade de expandir-se”. “Os filhos mais velhos de D. João I, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, querendo mostrar o seu valor militar, resolveram continuar a luta contra os moiros, em África. Por isso, lembraram ao pai a conquista de Ceuta, cidade muçulmana, rica e importante, no norte daquele continente”. (sic)

Isto recordou-me um facto ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, quando Winston Churchill, primeiro-ministro do Reino-Unido, se encontrou com Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos da América, na Terra Nova em 1941.
À rasca com o bloqueio que os submarinos alemães impunham à sua ilha, e que quase fez os Ingleses morrerem de fome, a ideia de Churchill era convencer Roosevelt a entrar na guerra ao lado dos Aliados.
Há um relato de Elliot Roosevelt, filho do presidente que assistiu à reunião, e do qual faço o seguinte resumo: “a certa altura o meu pai fez referência ao Império Britânico e à exploração desses territórios pelos Ingleses sem qualquer
contrapartida”.
“Contrapondo à resposta de Churchill que esses territórios eram intocáveis, pois pertenciam à Coroa Britânica, o meu pai deu a entender que era isso que a Alemanha (Hitler) estava a fazer na Europa”. (texto adaptado).

Quando recordo este episódio interrogo-me porque é que Churchill não lhe atirou à cara o massacre e quase extinção dos índios, comparável à dos judeus, com a única diferença de os métodos utilizados serem outros. Mas, como sabemos, os alemães são um povo altamente industrializado, e, por isso,
utilizaram as câmaras de gás. Estas tinham a grande vantagem de não fazer feridos ou derramar sangue, coisa que horrorizava Himmler, o chefe da polícia política nazi.

Assim, os dois “geniais” políticos, um a pedir socorro e o outro a hesitar na ajuda, teriam ficado empatados, o que não alteraria em nada a máxima que diz: “fazer a guerra para conseguir a paz”; e eu troco esta sequência dizendo: fazer a paz para conseguir a guerra. É outro empate, embora bastante mais pacífico, já que se trata de um simples jogo de palavras.
Quando se lê um livro de História, do princípio ao fim só encontramos alusões a guerras, batalhas, massacres e usurpações festejadas pelos vencedores, e despertando o sentimento de vingança nos vencidos. Esta, se possível, não
tardará a realizar-se, e, de ambos os lados, haverá sempre heróis, por mais ou menos crimes que tenham cometido.
Mas a memória e a ignorância dos homens são curtas. Além disto existem uns pândegos que se incriminam, a si e aos da sua raça (perdão, etnia!), arranjando justificações para tudo e acreditando que todos os homens são iguais.

Citemos, por exemplo, o caso da África. Esses esclarecidos analistas da História, dizem que os conflitos existentes na África se devem ao facto de os brancos terem feito fronteiras “à régua”. É verdade. Mas, será que aqueles povos viviam num autêntico Eldorado antes da chegada dos Europeus? Por
favor: não brinquem comigo.
Quando começou o comércio esclavagista, eram os próprios sobas que vendiam os seus súbditos aos negreiros a troco de algumas missangas, espelhos ou chapéus-de chuva. E, foi preciso ter estado em Angola na Guerra Colonial, paracompreender muitas coisas. Hoje, e apesar de ter tentado fugir a esse conflito, não estou nada arrependido de ter participado nele. Isso dá-me o direito de falar porque estive no local, ou “no terreno”, como agora se diz.

Aos tais pândegos “de biblioteca”, proponho a seguinte questão: será que o “Tratado de Versalhes”, que pôs fim à Primeira Guerra Mundial não fez o mesmo na Europa?
Desmembrou o Império Austro-Húngaro, já de si uma amálgama de povos, línguas e cultura, para reuni-los em novas fronteiras. Foi dar de mão beijada o pretexto a Hitler para desencadear, pouco mais de vinte anos depois, a Segunda Guerra Mundial.
E isto apesar de os políticos, horrorizados com as primeiras imagens que o cinema realizou no teatro da guerra, terem declarado: “uma loucura destas nunca mais se repetirá!”
Viu-se e continua a ver-se que nem com as mais violentas imagens de morte e destruição hoje acessíveis a todos, o homem não consegue viver em paz. Não passamos de seres vivos tais como os outros, que necessitam de “espaço vital”
para sobreviver, seja de que modo for.

Em criança tive de aturar aquela “cançoneta”, ainda hoje em moda em Fátima que, a certa altura, diz assim: “imaculada rainha do céu...faz com que a guerra acabe na terra”.
Mas essa rainha, não sei de que galáxia ou se de todas, ou é surda ou está-se nas tintas para este minúsculo e disparatado planeta. Porém, parece-me muito mais plausível e justo atribuir essa incapacidade ao facto de essa mulher, mãe de vários filhos entre os quais um chamado Jesus, ter morrido há vinte séculos. E isto se é que na verdade, tal dama existiu.
É esta a verdadeira História do Mundo onde, só por excepção, surge um político, um governante, um chefe, ou como lhe queiram chamar, HONESTO!
Mas, seja ele quem for, a populaça (na praça) aplaude sempre qualquer aventureiro que apareça a proclamar mundos e fundos e que as coisas vão melhorar. Para ele, familiares e amigos, como é óbvio.

E, continuando a folhear a História de Portugal, detive-me nas últimas páginas onde surge a figura de Salazar. O motivo deve-se, talvez, ao facto de ter sido “educado” por ele. Por isso voltarei a referir-me a este período da nossa História num dos próximos artigos que terá por título “40 anos após o 25 de
Abril”. Entrementes surgirá uma pequena crítica à jornalista da RTP Inês Gonçalves sobre o começo do Verão.

Conclusão:
Para quê mais citações históricas? Só os idealistas é que dizem que caminhamos para um mundo melhor. Tecnologicamente isto é verdade mas, tal como tudo, a tecnologia serve as duas forças opostas, o bem e o mal. Mas, pergunto: onde está a fronteira? Será que algum dos chamados filósofos consegue defini-la com exactidão?

A realidade é que cada um puxa a brasa à sua sardinha. Seja por razões económicas, territoriais ou hierarquia social. O problema é que, e principalmente nesta última, aplica-se o “Princípio de Peter”. Mas a populaça (na praça) não sabe ́, nem quer saber, o que é. Crer, crer e mais crer, mesmo sem ver, em tudo que lhe impingem.

O ser humano, como todo o ser vivo, é um ladrão porque não pode sobreviver sem se alimentar à custa de outros seres. A vida, tal como a conhecemos, tem de alimentar-se de si própria, senão não consegue sobreviver. Não sei o porquê nem para quê existe esta força inata, mas quem souber a explicação, peço que me elucide. Imploro, apenas, que não me venha com a chamada metafísica. Como escreveu Fernando Pessoa, esta “é uma consequência de estar mal disposto” e já me chegam as indisposições que tenho.

Para atingir o Eldorado, seria necessário desumanizar o homem. Mas, e voltando a citar o poeta, isso exigiria “um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender”.
Nós, europeus, que vivemos actualmente num mundo onde nada falta (comparado com a miséria e os esqueletos vivos das crianças da maior parte do mundo), continuamos a queixarmo-nos de tudo e de todos, quanto mais não seja porque a máquina de lavar se avariou, ou porque o preço de tal produto subiu. Será que pensam no trabalho quase escravo dos que o fabricaram nos chamados países emergentes, ou nos lucros que intermediários e revendedores obtêm? Claro que não! Isso não interessa porque essa gente está muito longe, e ninguém quer baixar de cavalo para burro. Se tenho quatro televisores em casa, como é que vou viver só com três devido a avaria de um deles?
Neste aspecto nós, Portugueses, somos useiros e vezeiros nas lamentações e comparações erradas. Frases como “isto é que vai uma crise”, lá fora é que é bom”, “coisas destas só neste país”, etc. fazem parte do reportório das lamúrias nacionais.
Porém, a verdade é que, para melhor ou para pior, vamos fazer nove séculos de História; e, com algumas pequenas variações, temos as mais antigas fronteiras do mundo! E, embora a nossa privilegiada posição geográfica seja uma das razões, a verdade é que há mais de duzentos anos não sofremos a humilhação de ver o nosso Portugal ocupado ou partilhado por abutres vencedores de todas as guerras que são o dia-a-dia da Humanidade. Como única excepção, temos a ocupação espanhola do tempo dos “Filipes” mas da qual, (rapidamente em termos históricos) nos livrámos. Até fomos reconquistar Angola e o Brasil aos Holandeses, além de termos aguentado a Guerra da Restauração durante vinte e oito anos.

E vou ficar por aqui. Para contradições naquilo que penso e escrevo, já basta nunca me ter entendido com este mundo, o maldito, famigerado ou disparatado planeta, como costumo chamá-lo.

Para mais esclarecimentos, sugiro às pessoas que leiam História. Isto apesar de todas as inexactidões e incoerências que contém.


Nota: Qualquer comentário a este artigo escrito segundo a ortografia do chamado Novo Acordo Ortográfico, será considerado como contendo erros grosseiros e, como tal, corrigido.


20/06/2014

POLÍTICO NA VARANDA E A POPULAÇA NA PRAÇA

Comentário ao meu artigo sobre este assunto publicado em 1 de Abril deste ano. Não conduz a nada nem serve para aliviar o meu fígado, já que as últimas análises clínicas mostraram estar em boas condições. E isto apesar dos ataques a que está sujeito por essa divina bebida chamada cerveja. Mas, como há outros órgãos anatómicos que necessitam ser aliviados, seja por estarem cheios ou erectos, transfiro essa necessidade para onde muito bem me apetecer.
Continuando a desviar-me do assunto há tempos prometido por culpa da grata companhia de uma caneca cheia dessa divina bebida que espuma em cima da secretária (ou 'em cima da mesa' como agora se diz), julgo prioritário propor à “Santa” Igreja Católica Apostólica Romana a canonização ou a beatificação de tão sagrada bebida. (Já repararam que com tanta crise, a Central de Cervejas, tal como as agências funerárias, continua sem problemas? A explicação é simples e aplica-se às duas: não lhes faltam clientes!) 
Mas, adiante.
Sem querer intrometer-me nos “divinos “assuntos do Vaticano, julgo que seria interessante utilizar a hierarquia existente entre as divindades que pululam nos céus segundo essa seita sediada naquela cidade-estado. E, já que os anos não têm mais dias disponíveis, era fácil juntá-los em magotes conforme os “milagres” que aquela instituição (e outras afins) apregoa para encher os cofres à custa da crendice humana.
Assim, quem compra (como eu) o venerando almanaque “Borda d’Água” teria, para além das “previsões” meteorológicas (para um ano!) onde se lêem coisas muitos compreensivas, credíveis e científicas como “tempo brusco”, “tempo mudável” ou “calmarias”, as “certeiras” informações astrológicas  ou, ainda, que um planeta qualquer vai ser o responsável por tudo que irá acontecer no ano a que “preside”, encontrar outros santos, beatos  e entidades afins. É que são sempre os mesmos. 
Por que não, e para quebrar a monotonia, fazer uma alternância como, por exemplo, ano sim ano não? Não seria divertido aumentar a rivalidade entre Lisboa e Porto trocando, periodicamente, o Santo António com o São João? Até se poderia dar um jeito para que esses feriados municipais caíssem sempre às Sextas ou Segundas-Feiras.
Mas como isto é impossível, e porque não sofro de falsa modéstia, proponho que no dia 29 de Novembro, dia de S. Saturnino* (terá sido algum meu antepassado?) se acrescentem mais estes: Santa Sagres, protectora dos sequiosos; Beata Superbock, ajudante das drenagens renais; Santa Cergal, amparo dos faxinas dos urinóis públicos; Santo Tuborg, mártir de viquingues embriagados de cerveja; Beata Amstel, que continuou a ser virgem depois de “comida” por um leão no circo de Roma; Santíssima Coral, que enlouqueceu por ter protegido durante trinta anos o presidente da Região Autónoma da Madeira; Mártires Cuca e Nocal**, que caíram sob a tirania de uma família de santos onde pontifica um tal Eduardo dos ditos; Santo Guiness que, apesar de ser morno, não tinha a solidez necessária para acalmar a avidez dos diversos tipos de lábios; Santíssima Cristal, padroeira das virgens de um buraco só; e tantas e tantas outras que, juntas, talvez fizessem o milagre de convencer as outras entidades celestiais para descerem, de canecas de cerveja na mão, ao Inferno. À falta de ar condicionado, era uma oportunidade para refrescar os seus habitantes. E estes diriam, agradecidos: 'Obrigado, Deus Todo-Poderoso, criador dos Céus e da Terra, por esta divina graça recebida!'
E, é óbvio que só um tipo mesmo idiota acrescentaria: 'e do Inferno e do Purgatório'! Ficaria em seco!

E, agora, vou entrar no assunto há meses prometido. Antes, porém vou ao frigorífico buscar mais uma garrafa de cerveja. Está fresquinha e deliciosa, espumando na caneca onde a verto. Ah, meu bom Diabo! Por tua culpa vou adiar, mais uma vez, o assunto. Mas, como posso culpar-te se não acredito em ti? Ora, é sempre fácil arranjar um bode expiatório. Por isso transfiro a acusação para a cerveja. Espero que, para a próxima, não me obrigues a faltar ao prometido. Além de ser feio, a verdade é que não sou político.

* S. Saturnino de Tolosa: Missionário romano nascido em Patras (Grécia) enviado com outros “turistas” para cristianizar a Gália no século III.
** Cervejas angolanas.


Nota: Qualquer comentário escrito segundo o chamado “Acordo Ortográfico” será considerado como contendo erros ortográficos grosseiros, e, como tal, corrigido.  

23/05/2014

RTP ABRE NOTICIÁRIO COM O DESAPARECIMENTO DE “MADDY”!

 Vergonha, é a única palavra que consigo encontrar para comentar o facto de a televisão pública ter começado um noticiário, mais uma vez, com as diligências para encontrar a menina inglesa desaparecida há sete anos! 
Quantas crianças, incluindo portuguesas, estão desaparecidas ou desaparecem todos os dias? 
Mas Maddy, com o nome mais ou menos bem pronunciado pelos jornalistas, numa espécie de concurso entre eles, é INGLESA, súbdita de SUA MAJESTADE! Esta designação é apenas atribuída àquela mulher, embora ainda existam cerca de vinte monarquias no mundo. As outras casas ditas reais não têm direito a tanto.
Mas os Portugueses, como sempre lacaios de tudo o que é estrangeiro (peço desculpa por estar sempre a pisar a mesma tecla) nunca mais têm emenda. Era eu garoto quando os jornais e a rádio (não havia televisão) relataram a coroação daquela jovem que, apenas com 26 anos, passava a ter milhões de “subtidos” por todo o mundo.
Hoje, e depois da França ter estado em moda, curvamo-nos e rastejamos (é o termo) perante tudo o que é inglês. Basta ver todos os take away, fast food, call center (leia-se taiqueauai, fastefude, colcentere, etc. Recentemente descobri que no Fogueteiro há uma clínica médico-veterinária que diz na tabuleta ser low-cost “laucoste”! Felizmente que os animaizitos doentes não reparam nesta idiotice que também prolifera por todo o país.
E no que respeita aos nossos políticos, quando discursam no Parlamento Europeu? Essa gente, quanto mais não seja para mostrar que sabe inglês, embora por vezes cometa erros de português, é a única que não utiliza a língua-pátria! Até aquela caricatura de um barril com membros e cabeça, que dá pelo nome de Merkel, só fala alemão, apesar da origem anglo-saxónica.
Hoje, devido às técnicas de tradução simultânea, e de o inglês ser uma língua oficiosa e não oficial, o “portuga” pela-se por “spicar o enguelixe” e hablar español quando encontra na rua um dos nuestros hermanos”.
Para terminar, recordo a piada utilizada por Moita Flores na muito bem conseguida série televisiva baseada na vida do falsário Alves dos Reis.
É quando a mulher do governador de Angola, queixando-se do clima daquela antiga Província Ultramarina, exclama:
 - “ESTÁ UM CHALEUR DE LA PORRE”!
E porra também digo eu, acrescentando outras interjeições hoje muito usadas mas que me abstenho de escrever.

  
Nota: devido à actualidade do tema, ainda não foi hoje que escrevi o comentário sobre o tema “Político na Varanda”.

(Qualquer comentário sobre este blogue escrito segundo o chamado "Acordo Ortográfico" será considerado como contendo erros ortográficos grosseiros e, como tal, corrigido).

01/05/2014

SANCTUS, SANCTUS, SANCTUS…

Peço desculpa àqueles que me lêem por não cumprir, para já, a promessa de fazer uma breve resenha histórica sobre política, conforme prometi no artigo anterior. Porém, o momento de grandeza espiritual que vivemos graças à entrada de mais dois santos na infinita corte celestial, não poderia passar sem um pequeno comentário. Assim, e como herege que me orgulho de ser, declaro:

Abençoada sejas, Igreja Católica e Apostólica Romana, que te dizes monoteísta mas engendraste para os crédulos todo um exército de deuses e semi-deuses a que, para não seres acusada de machista, incorporaste também muitas mulheres, embora estas com estatuto secundário.. Eles e elas servem, segundo tentaram doutrinar-me em criança, para interceder perante a justiça do Deus-Chefe a fim de defenderem os pecadores das tentações do Diabo que o seu Criador não "aceita mas tolera"! Trata-se de um Deus bizarro que cria o instigador do pecado e, apesar de ser infinitamente bom e que tudo perdoa, castiga com suplícios eternos (o Inferno) ou temporários (o Purgatório) aqueles que lhe desobedecem. Não sei onde estudaram Direito mas, com maior ou menor retórica, são tão inúteis como os advogados oficiosos. Até porque "serão muitos os chamados e poucos os escolhidos"! Logo, há que ter muito medo e respeito por essa divindade para ser totalista no "euro-milhões" do Paraíso.

Assim, e por mais que queiras, Igreja de Roma, és como as religiões antigas ou ditas pagãs, onde há sempre um Deus principal, o chefe que, como os seres humanos, tem todas as suas qualidades e defeitos. Esqueces-te porém, ou fazes por esquecer e muito menos divulgar a corja de bandidos que foram “Santos Padres” como lhes chamas. E ainda tens a “lata” de declarar que são criaturas infalíveis, e que os cardeais os elegem inspirados pelo Deus que inventaste. Desafio-te, apesar de seres uma seita de cobardes, a teres a coragem de canonizar um Alexandre VI  e outros canalhas da sua espécie. E, já agora, e para mostrar que não és machista, lembra-te da papisa Joana, eleita quando Deus que, "se não dorme", por vezes está distraído. 
Grandes homens foram João XXIII e João Paulo II, não nego mas, o que fizeram para serem santos? Até dizem que o segundo foi o Papa que mudou o mundo! Perante isto, chego a pensar que as notícias que nos chegam continuamente de todo o lado, devem-se, apenas, à mania que os jornalistas têm de fazer “caixa alta” de todas as tragédias que continuam a afligir este planeta. Após essa “grande mudança”, seria muito mais realista divulgar na Comunicação Social (os media, como agora se diz) apenas coisas “felizes”, tais como as gravidezes das princesas, o acariciar das nádegas de uma rainha ou, para criar um ambiente mais erudito, contar a história de “As Alegres Comadres de Windsor” de Shakespeare, genialmente adaptada por Verdi na sua última ópera, “Falstaff”. Ao menos divulgava-se um pouco de Cultura!
Mas, esquecendo, como convém, João Paulo I (porque, presumivelmente, foi assassinado) e o protector dos pedófilos Bento XVI, viras-te para o passado recente e para o actual Francisco, talvez outro candidato à santidade. Mas, afinal não é já o Santo Padre? Porque não tem a coragem de tornar verdadeiro o tema utópico do  filme “As Sandálias do Pescador”, protagonizado por esse extraordinário actor que foi Anthony Quinn? Será porque os incalculáveis tesouros, que jazem nas caves do Vaticano, ainda fedem à carne queimada nas fogueiras da Inquisição, ou ainda retêm os ecos dos gritos lancinantes das suas vítimas? Os esfomeados deste mundo "mudado" não dariam por isso. Antes, dariam graças a Deus ou gritariam que Alá é grande!
Vá, Igreja Católica, continua a deitar poeira nos olhos dos teus milhões de sectários. Continua a violar o mandamento que proíbe a feitura de estátuas, a adoração de relíquias e necrofilias afins. Baralha a estranha mentalidade dos homens com a história de “um só Deus em três pessoas distintas”, da “virgem concebida sem pecado” mãe do teu Deus que,  segundo a tua estranha lógica, não existia antes do filho”. Até o próprio marido, o tal José, também é santo, talvez por ter suportado estoicamente a armação craniana  “afastando-se da sua mulher”, como diz a Bíblia.
Coitado do Cristo se pudesse voltar a este mundo e visse no que degenerou a religião que fundou com tão boas intenções. Ele, que segundo dizem, ressuscitava os mortos (para morrerem mais tarde, como é óbvio) fazia ver os cegos e andar os paralíticos, talvez desse mais valor a um Pasteur ou a um Fleming. A estes, e a um número infindável de beneméritos que nunca serão santificados, e  cuja memória talvez desapareça na voragem do tempo, já que não há mais dias do ano para recordá-los, preenchidos como estão por todos os Deuses e Deusas inventados pela “Santa” Igreja de Roma.  
Esses é que continuarão a ser invocados e representados pela repugnante estatuária pagã que infesta as igrejas que seguem o Papa! E há que não esquecer todas as “virgens” ou “senhoras (de Fátima, de Lourdes, das Dores, do Socorro, etc. cujos nomes enfeitam as caixinhas que emporcalham as igrejas, pedindo aos pobres devotos, qual banco que propagandeasse que quem não tiver lá conta, não terá os pecados perdoados. 
Quanto aos outros semi-deuses como os Querubins e os Serafins, devem ser o refugo da maravilhosa sociedade celestial, já que não têm direito a nome próprio e a representações idólatras. Talvez não passem de empregados de limpeza pot "todos os séculos dos século" Ámen!
                                ..……………………………………

Ao tomar conhecimento da morte de Vasco Graça Moura, resolvi "enviar-lhe" esta mensagem, plagiando Camões: Se lá no assento etéreo onde subiste, memória desta vida se consente, perdoa ao Sousa Lara e ao Mário David que, na sua tacanhez de  modernos inquisidores, quiseram votar José Saramago ao ostracismo por causa do seu romance "Caim", e da revelação que a leitura da Bíblia já esteve proibida em Portugal.
E há que não esquecer a oposição a essa vergonha nacional que é o "Acordo Ortográfico", principalmente enquanto director do Centro Cultural de Belém. Será que irás ser substituido por um Miguel de Vasconcelos da Língua Portuguesa? É o mais provável neste desditoso País de lacaios  de tudo o que é estrangeiro! 

 
  

12/04/2014

A PROPAGANDA DE UM POLÍTICO NA VARANDA, E A POPULAÇA APLAUDINDO NA PRAÇA

“Não discutimos Deus e a Virtude, não discutimos a Pátria e a sua História, não discutimos a Autoridade e o seu Prestígio, não discutimos a Família e a sua Moral, não discutimos a glória do Trabalho e o seu Dever, mas, se algum de vós me quiser seguir…”
Todos, gritava a populaça na praça respondendo à voz de falsete de Salazar a que não faltava o característico sibilar de quase todos que andaram no Seminário.

“Nicht für uns, alles für Deutschland”, berrava histericamente Hitler acompanhando a frase com os seus dotes teatrais adquiridos em frente de um espelho.

“Heil Hitler, über alles, Sieg Heil”, ululava a populaça na praça estendendo o braço em saudação à glória do seu “Führer”, da Alemanha e do seu povo. E porque não? O terceiro “Reich” iria durar mil anos.

“Liberté, égalité, fraternité” proclamava a populaça na praça antes de iniciar a matança que deu origem ao Terror.

Em 1940, Mussolini na varanda anunciava a sua resolução de meter a Itália na guerra do lado dos Alemães, e a populaça na praça, em vez de gritar “un corno”, aplaudia maravilhada, como se fosse aquele palhaço a ir combater.

E Estaline, e Mao-Tsé-Tung, e Hiroito, e…fico por aqui, porque destes espertalhões, esteve, está e estará a História sempre cheia. E apenas estou a referir-me a alguns destes espécimes que infectaram o século passado. Se fosse possível nomeá-los a todos, não haveria memória de computadores que chegasse. Mas, de quem é a culpa? Deles? De modo algum; a culpa é da populaça que acredita nesta espécie de gente.
É a fartura, a paz, a liberdade para todos os homens de boa (ou má) vontade por todos os séculos dos séculos, ámen.
“Sou eu quem vai endireitar o país e o mundo. Construir o homem novo, organizar a sociedade sem classes, acabar com a exploração do homem pelo homem, a paz para todo o sempre”.

E a populaça eufórica mas ignorante, necessitando sempre de um chefe (nem que seja de cozinha) e, acreditando como é seu hábito, nas palavras dos políticos, berra, dá vivas e morras, estende o braço de mão aberta ou de punho fechado, esfrega-se digital ou manualmente conforme o sexo e fica feliz, radiante, eufórica porque, finalmente chegou o fim de todos os seus problemas. “Com este é que vai ser bom. Vamos pagar menos impostos, ter aumento de ordenado, comer mariscos todos os dias, comprar automóvel novo de rabinho alçado para mostrar aos vizinhos, computadores e telemóveis última moda, ter uma casa com piscina e cores garridas, frequentar festarolas com vestidos espampanantes para aparecer naquelas revistas onde só tem cabimento aquela gentalha dita importante, fazer cirurgias plásticas “à moda de Caneças” para esconder a velhice, trabalhar o menos possível, adoecer quando nos apetecer para aproveitar a baixa como segundas férias nas Caraíbas por indicação do médico, e todas essas coisas básicas para podermos viver decentemente”.

E o político na varanda, promete o reino da fartura à populaça que o aplaude na praça, já esquecida das promessas do espertalhão anterior. Mas não é só na varanda. É no terreno, como agora se diz, que o político faz as promessas da luta final. Vai às cidades, vilas e aldeias, escolhendo os locais de que mais gosta, como as feiras, ou por necessidade imperiosa, as retretes públicas onde desabafa toda a sua sede de poder.
Dá abraços e apertos de mão a todos os que, entusiasmados, caem na esparrela de o aplaudir. Nem as crianças escapam aos seus “beijos de Judas” e, como crianças que são, aplaudem como fazem a qualquer palhaço por muita ou pouca graça que tenha.
E, como é óbvio, em vez de se abster, a populaça vai votar para oferecer ao político o “tacho” que lhe permitirá desafiar a lei da gravidade, isto é, cair sempre para cima quer roube muito ou pouco. Afinal para que é que alguém se mete na política? Salvo raríssimas excepções, toda a gente sabe porquê, mas vota!
Pouco tempo depois a populaça volta à praça mas, desta vez o político não aparece na varanda. Surge na televisão (sempre é mais seguro) e justifica o incumprimento das suas promessas com a ignorância da pesada herança que recebera do governante anterior. Esse sim, é que deu cabo do país, dos trabalhadores e dos reformados.
E enquanto ri interiormente porque sabe que, aconteça o que acontecer, o seu futuro está garantido, tenta justificar que as medidas de austeridade são provisórias. Para ele e os seus acólitos, é claro.

Mais uma vez, frustrada e enganada por sua própria culpa, a populaça volta à praça, mesmo sem o político na varanda. Grita, apupa tudo e todos, tenta invadir o chamado Parlamento onde enriquecem os “representantes” do povo, e desata a cantar, desafinadamente, a já fora de moda “Grândola, Vila Morena”, virando o disco para afirmar a estafada utopia que diz que “o povo unido jamais será vencido”.

Para terminar a grandiosa manifestação de massas, das classes trabalhadoras, da Função Pública e dos pensionistas, vem o momento solene para entoar (também desafinado) o Hino Nacional.
Como ninguém lhes liga nenhuma, até porque a Polícia está lá para evitar desacatos, travam-se interessantes diálogos, um dos quais poderia ser este:

-Olhe que não é “igrégios”; é egrégios.
-Desculpe, mas os meus avós foram sempre à igreja
-Eu logo vi! É por causa dos seus avós, e de todos os lacaios da padralhada, que o País está como está.
-Já vi que vossemecê não acredita em Deus.
-Claro que não. Sou ateu.
-Não se preocupe com isso. Há quem tenha alcunhas piores. E quanto a nomes, ainda ontem um automobilista me chamou cabrão.
-E o que é que lhe respondeu?
-Ora! Que isso não era comigo, mas sim com a minha mulher.
-O quê? Você aceita que lhe chamem cabrão como se a sua mulher fosse uma puta?
-E, como posso saber se é ou não? Apenas por descargo de consciência e quando chego a casa c’os copos, dou-lhe uns enxertos de porrada para desabafar. Mas, cuidado, meu caro senhor; não admito que chamem puta à minha mulher. Se eu dissesse o mesmo da sua mãe, gostaria?
-Partia-lhe os cornos, sua besta!
Entra em cena um terceiro manifestante.
-Calma amigos. Estamos aqui para exigir o cumprimento dos nossos direitos, e não para tratar de questões de família. Lembrem-se que o povo unido jamais será vencido!
-Tem razão, diz um dos dois agastados. Mas o problema é que ninguém nos ouve e ainda arranjo uma cãibra à força de tanto gesticular. Por isso tenho de discutir com alguém. Mas ainda bem que falou de “cãibras” Lembrou bem; Também devíamos exigir que as “cãibras” municipais sejam dirigidas apenas pelo povo.
-Para isso é necessária a “dentadura do pretolariado”.
- Nem pense; já cá temos pretos que cheguem.
-Seu racista de merda; ao menos eles têm os dentes mais brancos do que nós. E não usam nenhum detergente, daqueles que lavam sempre mais branco.
-Isso é do contraste com a cor da pele. Já vi que você julga que todos somos iguais. Se fosse assim não havia inteligentes e estúpidos como você. E isto acontece em todas as etnias. E digo etnias porque agora é proibido dizer raça. Se a censura da democracia continua como está, ainda temos de dizer “etnista”.
-Porra que você agora, além de se armar em esperto, também julga que é sábio e inteligente. Porque não vai para a política ou para presidente de um clube de futebol, seu reaccionário? E a propósito: É do Sporting ou do Benfica?
-Sou do Porto, carago! A única cidade deste País onde se trabalha!
-Isso é uma mania que vocês têm, os lá da chamada “invicta”. Mas Lisboa é que é a capital do país, coisa que lhes provoca uma grande dor de corno.
-E uma grande dor nos tomates se continua a insultar as gentes do Norte.
-Mas ao menos, temo-los sítio. E muito bem blindados.
-Você não passa de um reles “fachista”. Já que é tão valentão, veja lá se é capaz de estender o braço direito à maneira dos nazis.
-Essa de julgar que foram aqueles tipos que inventaram aquele gesto, é de cabo de esquadra; já os Romanos faziam o mesmo quando saudavam alguém. E como sou um homem de “coltura”, sei que diziam AVÉ ao mesmo tempo. Será que agora é proibido dizer “Avé-Maria”?
-Lá vem, outra vez, a porra da religião. Você também acredita que Deus dá o frio conforme a roupa? Pela minha parte acho que faria melhor em dar a roupa conforme o frio.
-Quero lá saber disso; já lhe disse que sou ateu. Porque não vai expor esse argumento ao padreca lá do seu sítio? Seria divertido ver o tipo a pregar isso na igreja. À saída davam-lhe uma sova, à falta de uma fogueira.
Outro manifestante interrompe tão interessante diálogo:
-Irra! Vocês nunca mais acabam com isso? Afinal o que vieram aqui fazer?
-É este “fachista” de merda que me está a provocar. Foi ele que começou. Se eu mandasse enviava-o para a Sibéria para saber como é.
-Cala-te, “comuna” de merda. Não passas de um “fachista de esquerda e foste tu quem começou. Vai fechar o punho em nome do Estaline, esse comparsa do Hitler. Se eu mandasse, ias já para Caxias.

Palavra puxa palavra, empurrão daqui e de acolá, em breve os dois representantes do povo unido, em que ficámos sem saber a que partido ou crendice pertenciam, chegaram a vias de facto. Enquanto uns os incitavam em nome da política, outros tentavam separá-los por via da mesma.
Finalmente, tudo serenou, Após umas bastonadas da política da polícia, a praça ficou vazia, enquanto para lá da varanda ninguém bulira.
Só tempos depois, nas eleições seguintes, outro político voltou à varanda. E a mesma populaça na praça, como sempre crédula e ignorante, aplaudiu entusiasmada.

Conceito: O POVO UNIDO CONTINUA E CONTINUARÁ A SER VENCIDO!

Depois de ter escrito esta historieta para me divertir, ocorreu-me fazer um comentário sobre o seu conteúdo. Afinal, se o povo continua (e continuará) a ser vencido, no meu modo de ver talvez pessimista, pareceu-me oportuno fazer uma pequena resenha histórica do passado.
Ficará, assim, completada a trilogia: passado, presente e futuro.
Será este o tema do próximo artigo. Cruel, divertido, ou ambas as coisas?
Uma única certeza: será inútil, mas ajudará a aliviar as minhas ‘iscas’ já bastante abaladas após setenta e um anos neste disparatado (e famigerado) planeta!

Obs: não sei quando farei o comentário. Como disse num artigo anterior, tenho andado ocupado (quando me apetece) a escrever a história da minha ida à Guerra Colonial. Vou a caminho das cem páginas, e ainda não cheguei à partida para Angola.
Se conseguir acabá-la, é pouco provável que a publique neste blogue. Iria incomodar algumas pessoas, principalmente militares e anti-racistas primários. Mas, quem sabe? Por enquanto penso mandar fazer uma edição privada para a família e amigos. O futuro dirá.

Nota: Qualquer comentário escrito conforme o chamado 'novo acordo ortográfico' será considerado como contendo erros grosseiros e, como tal, corrigido!