09/07/2014

POLÍTICO NA VARANDA...Comentário

Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são 
Só o que passa!
(Fernando Pessoa in “Mensagem”)


Finalmente, aqui está o meu comentário sobre o artigo que publiquei em Abril. Desta vez não vou deixar que a cerveja, a canonização de novos santos ou as asneiras que se dizem na RTP (esta última será o alvo do próximo artigo) me impeçam de cumprir o prometido.

Durante o tempo que levo até conseguir adormecer, em vez de ler qualquer coisa disparatada como a lista telefónica, deu-me, mais uma vez, para folhear o “Resumo da História de Portugal” da autoria de Tomás de Barros, e oficialmente aprovado pelo regime do Estado Novo (edição de 1948).
Comprei-o há poucos anos, juntamente com outros livros escolares da época em que nasci e onde aprendi o que, oficialmente, se ensinava na instrução primária e no liceu.
Eram os chamados livros únicos que depois de examinados e censurados, eram definitivamente aprovados pelo Ministério da Educação Nacional.
Em boa hora foram reeditados para o saudosismo de velhos como eu, para conhecimento da juventude actual (se é que esta quer saber alguma coisa do tempo em que os pais viveram) e, principalmente, para historiadores não facciosos.
A sua leitura é imensamente pedagógica no aspecto em que, se por um lado mostra a realidade da vida portuguesa naquela época onde havia ordem e respeito, por outro, como se contornava e deturpava a verdade histórica, não fosse esta ofender a “moral e os bons costumes”, a doutrina básica do Estado Novo baseada na trilogia “Deus, Pátria e Família”.

Hoje, e apesar da propaganda anti-salazarista primária que surgiu após a revolução de 25 de Abril, e da qual fui um grande entusiasta como quase todos os portugueses, começo a olhar para trás e a compreender porque a História só se escreve anos depois dos acontecimentos e, na maioria dos casos, se repete.

Ao abrir ao acaso as primeiras páginas referentes à Fundação de Portugal, recordei factos que éramos obrigados a saber de cor e papaguear nos exames das terceira e quarta classes, bem como no de admissão aos liceus.
Decorava-se, repetia-se, e nem nos passava pela cabeça imaginar como a trilogia atrás referida podia justificar as lutas entre familiares para alcançar o poder sob a vigilância de um Deus que protegia alguns em detrimento de outros.
Bastava saber de cor nomes, datas e locais e não fazer perguntas incómodas. Além disto, ainda havia a obrigação de decorar as montanhas, os rios e seus afluentes e as linhas de caminhos-de-ferro, tanto em Portugal Continental como nas Colónias e Ilhas Adjacentes. Aliás, era este o título que encabeçava o mapa do Portugal da época, afixado junto ao quadro preto e acompanhado por uma cruz e as fotografias de Salazar e do presidente Óscar Carmona. Vieram, depois, as de Craveiro Lopes e Américo Thomás, mas a de Salazar permanecia como se fosse eterna.
Todas aquelas lutas, fosse entre pais e filhos, irmãos, sogros e genros e outros graus de parentesco, a que se juntavam os filhos ditos bastardos ou naturais, eram “engolidos” com uma única justificação: o nome de Portugal, pátria de santos e heróis cuja História era a mais bela de todas!

Mas se não se podia explicar o que eram filhos bastardos ou naturais, o autor Tomás de Barros arranjou uma engenhosa maneira de contornar a definição de amante. Refere-se ao conde Fernão Peres de Trava como receptante dos favores de Dona Teresa, mãe de D. Afonso Henriques. E sobre estes ou qualquer outro pormenor mais delicado, não havia que fazer perguntas; até porque o professor poderia ficar embaraçado e, na melhor das hipóteses, mostrar apenas a régua.
E, depois, havia os moiros que, não tendo abraçado a fé cristã como os Visigodos, eram classificados de Infiéis. Era motivo suficiente para lhes roubar as terras que eles, por sua vez, tinham roubado aos que já estavam na Península Ibérica depois de os vencidos terem feito o mesmo aos que já lá se
encontravam, e...etc, etc! Uma variante da conhecida interrogação sobre quem apareceu primeiro: o ovo ou a galinha.

E continuei a folhear o livro, parando aqui e ali, como no episódio de D. Pedro I e Inês de Castro, em D. Sebastião e Alcácer-Quibir ou no assassinato de D. Carlos e de seu filho, poucos anos depois seguido pelo do presidente Sidónio Pais.
Curioso por recordar tantos factos históricos, mas indiferente a toda a série de crimes que a ânsia do poder, a cobiça e a cupidez tornam o ser humano o maior inimigo de si próprio, voltei atrás e detive-me na parte que dá início à era dos Descobrimentos. Aí, pode ler-se: “Portugal sentia necessidade de expandir-se”. “Os filhos mais velhos de D. João I, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, querendo mostrar o seu valor militar, resolveram continuar a luta contra os moiros, em África. Por isso, lembraram ao pai a conquista de Ceuta, cidade muçulmana, rica e importante, no norte daquele continente”. (sic)

Isto recordou-me um facto ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, quando Winston Churchill, primeiro-ministro do Reino-Unido, se encontrou com Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos da América, na Terra Nova em 1941.
À rasca com o bloqueio que os submarinos alemães impunham à sua ilha, e que quase fez os Ingleses morrerem de fome, a ideia de Churchill era convencer Roosevelt a entrar na guerra ao lado dos Aliados.
Há um relato de Elliot Roosevelt, filho do presidente que assistiu à reunião, e do qual faço o seguinte resumo: “a certa altura o meu pai fez referência ao Império Britânico e à exploração desses territórios pelos Ingleses sem qualquer
contrapartida”.
“Contrapondo à resposta de Churchill que esses territórios eram intocáveis, pois pertenciam à Coroa Britânica, o meu pai deu a entender que era isso que a Alemanha (Hitler) estava a fazer na Europa”. (texto adaptado).

Quando recordo este episódio interrogo-me porque é que Churchill não lhe atirou à cara o massacre e quase extinção dos índios, comparável à dos judeus, com a única diferença de os métodos utilizados serem outros. Mas, como sabemos, os alemães são um povo altamente industrializado, e, por isso,
utilizaram as câmaras de gás. Estas tinham a grande vantagem de não fazer feridos ou derramar sangue, coisa que horrorizava Himmler, o chefe da polícia política nazi.

Assim, os dois “geniais” políticos, um a pedir socorro e o outro a hesitar na ajuda, teriam ficado empatados, o que não alteraria em nada a máxima que diz: “fazer a guerra para conseguir a paz”; e eu troco esta sequência dizendo: fazer a paz para conseguir a guerra. É outro empate, embora bastante mais pacífico, já que se trata de um simples jogo de palavras.
Quando se lê um livro de História, do princípio ao fim só encontramos alusões a guerras, batalhas, massacres e usurpações festejadas pelos vencedores, e despertando o sentimento de vingança nos vencidos. Esta, se possível, não
tardará a realizar-se, e, de ambos os lados, haverá sempre heróis, por mais ou menos crimes que tenham cometido.
Mas a memória e a ignorância dos homens são curtas. Além disto existem uns pândegos que se incriminam, a si e aos da sua raça (perdão, etnia!), arranjando justificações para tudo e acreditando que todos os homens são iguais.

Citemos, por exemplo, o caso da África. Esses esclarecidos analistas da História, dizem que os conflitos existentes na África se devem ao facto de os brancos terem feito fronteiras “à régua”. É verdade. Mas, será que aqueles povos viviam num autêntico Eldorado antes da chegada dos Europeus? Por
favor: não brinquem comigo.
Quando começou o comércio esclavagista, eram os próprios sobas que vendiam os seus súbditos aos negreiros a troco de algumas missangas, espelhos ou chapéus-de chuva. E, foi preciso ter estado em Angola na Guerra Colonial, paracompreender muitas coisas. Hoje, e apesar de ter tentado fugir a esse conflito, não estou nada arrependido de ter participado nele. Isso dá-me o direito de falar porque estive no local, ou “no terreno”, como agora se diz.

Aos tais pândegos “de biblioteca”, proponho a seguinte questão: será que o “Tratado de Versalhes”, que pôs fim à Primeira Guerra Mundial não fez o mesmo na Europa?
Desmembrou o Império Austro-Húngaro, já de si uma amálgama de povos, línguas e cultura, para reuni-los em novas fronteiras. Foi dar de mão beijada o pretexto a Hitler para desencadear, pouco mais de vinte anos depois, a Segunda Guerra Mundial.
E isto apesar de os políticos, horrorizados com as primeiras imagens que o cinema realizou no teatro da guerra, terem declarado: “uma loucura destas nunca mais se repetirá!”
Viu-se e continua a ver-se que nem com as mais violentas imagens de morte e destruição hoje acessíveis a todos, o homem não consegue viver em paz. Não passamos de seres vivos tais como os outros, que necessitam de “espaço vital”
para sobreviver, seja de que modo for.

Em criança tive de aturar aquela “cançoneta”, ainda hoje em moda em Fátima que, a certa altura, diz assim: “imaculada rainha do céu...faz com que a guerra acabe na terra”.
Mas essa rainha, não sei de que galáxia ou se de todas, ou é surda ou está-se nas tintas para este minúsculo e disparatado planeta. Porém, parece-me muito mais plausível e justo atribuir essa incapacidade ao facto de essa mulher, mãe de vários filhos entre os quais um chamado Jesus, ter morrido há vinte séculos. E isto se é que na verdade, tal dama existiu.
É esta a verdadeira História do Mundo onde, só por excepção, surge um político, um governante, um chefe, ou como lhe queiram chamar, HONESTO!
Mas, seja ele quem for, a populaça (na praça) aplaude sempre qualquer aventureiro que apareça a proclamar mundos e fundos e que as coisas vão melhorar. Para ele, familiares e amigos, como é óbvio.

E, continuando a folhear a História de Portugal, detive-me nas últimas páginas onde surge a figura de Salazar. O motivo deve-se, talvez, ao facto de ter sido “educado” por ele. Por isso voltarei a referir-me a este período da nossa História num dos próximos artigos que terá por título “40 anos após o 25 de
Abril”. Entrementes surgirá uma pequena crítica à jornalista da RTP Inês Gonçalves sobre o começo do Verão.

Conclusão:
Para quê mais citações históricas? Só os idealistas é que dizem que caminhamos para um mundo melhor. Tecnologicamente isto é verdade mas, tal como tudo, a tecnologia serve as duas forças opostas, o bem e o mal. Mas, pergunto: onde está a fronteira? Será que algum dos chamados filósofos consegue defini-la com exactidão?

A realidade é que cada um puxa a brasa à sua sardinha. Seja por razões económicas, territoriais ou hierarquia social. O problema é que, e principalmente nesta última, aplica-se o “Princípio de Peter”. Mas a populaça (na praça) não sabe ́, nem quer saber, o que é. Crer, crer e mais crer, mesmo sem ver, em tudo que lhe impingem.

O ser humano, como todo o ser vivo, é um ladrão porque não pode sobreviver sem se alimentar à custa de outros seres. A vida, tal como a conhecemos, tem de alimentar-se de si própria, senão não consegue sobreviver. Não sei o porquê nem para quê existe esta força inata, mas quem souber a explicação, peço que me elucide. Imploro, apenas, que não me venha com a chamada metafísica. Como escreveu Fernando Pessoa, esta “é uma consequência de estar mal disposto” e já me chegam as indisposições que tenho.

Para atingir o Eldorado, seria necessário desumanizar o homem. Mas, e voltando a citar o poeta, isso exigiria “um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender”.
Nós, europeus, que vivemos actualmente num mundo onde nada falta (comparado com a miséria e os esqueletos vivos das crianças da maior parte do mundo), continuamos a queixarmo-nos de tudo e de todos, quanto mais não seja porque a máquina de lavar se avariou, ou porque o preço de tal produto subiu. Será que pensam no trabalho quase escravo dos que o fabricaram nos chamados países emergentes, ou nos lucros que intermediários e revendedores obtêm? Claro que não! Isso não interessa porque essa gente está muito longe, e ninguém quer baixar de cavalo para burro. Se tenho quatro televisores em casa, como é que vou viver só com três devido a avaria de um deles?
Neste aspecto nós, Portugueses, somos useiros e vezeiros nas lamentações e comparações erradas. Frases como “isto é que vai uma crise”, lá fora é que é bom”, “coisas destas só neste país”, etc. fazem parte do reportório das lamúrias nacionais.
Porém, a verdade é que, para melhor ou para pior, vamos fazer nove séculos de História; e, com algumas pequenas variações, temos as mais antigas fronteiras do mundo! E, embora a nossa privilegiada posição geográfica seja uma das razões, a verdade é que há mais de duzentos anos não sofremos a humilhação de ver o nosso Portugal ocupado ou partilhado por abutres vencedores de todas as guerras que são o dia-a-dia da Humanidade. Como única excepção, temos a ocupação espanhola do tempo dos “Filipes” mas da qual, (rapidamente em termos históricos) nos livrámos. Até fomos reconquistar Angola e o Brasil aos Holandeses, além de termos aguentado a Guerra da Restauração durante vinte e oito anos.

E vou ficar por aqui. Para contradições naquilo que penso e escrevo, já basta nunca me ter entendido com este mundo, o maldito, famigerado ou disparatado planeta, como costumo chamá-lo.

Para mais esclarecimentos, sugiro às pessoas que leiam História. Isto apesar de todas as inexactidões e incoerências que contém.


Nota: Qualquer comentário a este artigo escrito segundo a ortografia do chamado Novo Acordo Ortográfico, será considerado como contendo erros grosseiros e, como tal, corrigido.


20/06/2014

POLÍTICO NA VARANDA E A POPULAÇA NA PRAÇA

Comentário ao meu artigo sobre este assunto publicado em 1 de Abril deste ano. Não conduz a nada nem serve para aliviar o meu fígado, já que as últimas análises clínicas mostraram estar em boas condições. E isto apesar dos ataques a que está sujeito por essa divina bebida chamada cerveja. Mas, como há outros órgãos anatómicos que necessitam ser aliviados, seja por estarem cheios ou erectos, transfiro essa necessidade para onde muito bem me apetecer.
Continuando a desviar-me do assunto há tempos prometido por culpa da grata companhia de uma caneca cheia dessa divina bebida que espuma em cima da secretária (ou 'em cima da mesa' como agora se diz), julgo prioritário propor à “Santa” Igreja Católica Apostólica Romana a canonização ou a beatificação de tão sagrada bebida. (Já repararam que com tanta crise, a Central de Cervejas, tal como as agências funerárias, continua sem problemas? A explicação é simples e aplica-se às duas: não lhes faltam clientes!) 
Mas, adiante.
Sem querer intrometer-me nos “divinos “assuntos do Vaticano, julgo que seria interessante utilizar a hierarquia existente entre as divindades que pululam nos céus segundo essa seita sediada naquela cidade-estado. E, já que os anos não têm mais dias disponíveis, era fácil juntá-los em magotes conforme os “milagres” que aquela instituição (e outras afins) apregoa para encher os cofres à custa da crendice humana.
Assim, quem compra (como eu) o venerando almanaque “Borda d’Água” teria, para além das “previsões” meteorológicas (para um ano!) onde se lêem coisas muitos compreensivas, credíveis e científicas como “tempo brusco”, “tempo mudável” ou “calmarias”, as “certeiras” informações astrológicas  ou, ainda, que um planeta qualquer vai ser o responsável por tudo que irá acontecer no ano a que “preside”, encontrar outros santos, beatos  e entidades afins. É que são sempre os mesmos. 
Por que não, e para quebrar a monotonia, fazer uma alternância como, por exemplo, ano sim ano não? Não seria divertido aumentar a rivalidade entre Lisboa e Porto trocando, periodicamente, o Santo António com o São João? Até se poderia dar um jeito para que esses feriados municipais caíssem sempre às Sextas ou Segundas-Feiras.
Mas como isto é impossível, e porque não sofro de falsa modéstia, proponho que no dia 29 de Novembro, dia de S. Saturnino* (terá sido algum meu antepassado?) se acrescentem mais estes: Santa Sagres, protectora dos sequiosos; Beata Superbock, ajudante das drenagens renais; Santa Cergal, amparo dos faxinas dos urinóis públicos; Santo Tuborg, mártir de viquingues embriagados de cerveja; Beata Amstel, que continuou a ser virgem depois de “comida” por um leão no circo de Roma; Santíssima Coral, que enlouqueceu por ter protegido durante trinta anos o presidente da Região Autónoma da Madeira; Mártires Cuca e Nocal**, que caíram sob a tirania de uma família de santos onde pontifica um tal Eduardo dos ditos; Santo Guiness que, apesar de ser morno, não tinha a solidez necessária para acalmar a avidez dos diversos tipos de lábios; Santíssima Cristal, padroeira das virgens de um buraco só; e tantas e tantas outras que, juntas, talvez fizessem o milagre de convencer as outras entidades celestiais para descerem, de canecas de cerveja na mão, ao Inferno. À falta de ar condicionado, era uma oportunidade para refrescar os seus habitantes. E estes diriam, agradecidos: 'Obrigado, Deus Todo-Poderoso, criador dos Céus e da Terra, por esta divina graça recebida!'
E, é óbvio que só um tipo mesmo idiota acrescentaria: 'e do Inferno e do Purgatório'! Ficaria em seco!

E, agora, vou entrar no assunto há meses prometido. Antes, porém vou ao frigorífico buscar mais uma garrafa de cerveja. Está fresquinha e deliciosa, espumando na caneca onde a verto. Ah, meu bom Diabo! Por tua culpa vou adiar, mais uma vez, o assunto. Mas, como posso culpar-te se não acredito em ti? Ora, é sempre fácil arranjar um bode expiatório. Por isso transfiro a acusação para a cerveja. Espero que, para a próxima, não me obrigues a faltar ao prometido. Além de ser feio, a verdade é que não sou político.

* S. Saturnino de Tolosa: Missionário romano nascido em Patras (Grécia) enviado com outros “turistas” para cristianizar a Gália no século III.
** Cervejas angolanas.


Nota: Qualquer comentário escrito segundo o chamado “Acordo Ortográfico” será considerado como contendo erros ortográficos grosseiros, e, como tal, corrigido.  

23/05/2014

RTP ABRE NOTICIÁRIO COM O DESAPARECIMENTO DE “MADDY”!

 Vergonha, é a única palavra que consigo encontrar para comentar o facto de a televisão pública ter começado um noticiário, mais uma vez, com as diligências para encontrar a menina inglesa desaparecida há sete anos! 
Quantas crianças, incluindo portuguesas, estão desaparecidas ou desaparecem todos os dias? 
Mas Maddy, com o nome mais ou menos bem pronunciado pelos jornalistas, numa espécie de concurso entre eles, é INGLESA, súbdita de SUA MAJESTADE! Esta designação é apenas atribuída àquela mulher, embora ainda existam cerca de vinte monarquias no mundo. As outras casas ditas reais não têm direito a tanto.
Mas os Portugueses, como sempre lacaios de tudo o que é estrangeiro (peço desculpa por estar sempre a pisar a mesma tecla) nunca mais têm emenda. Era eu garoto quando os jornais e a rádio (não havia televisão) relataram a coroação daquela jovem que, apenas com 26 anos, passava a ter milhões de “subtidos” por todo o mundo.
Hoje, e depois da França ter estado em moda, curvamo-nos e rastejamos (é o termo) perante tudo o que é inglês. Basta ver todos os take away, fast food, call center (leia-se taiqueauai, fastefude, colcentere, etc. Recentemente descobri que no Fogueteiro há uma clínica médico-veterinária que diz na tabuleta ser low-cost “laucoste”! Felizmente que os animaizitos doentes não reparam nesta idiotice que também prolifera por todo o país.
E no que respeita aos nossos políticos, quando discursam no Parlamento Europeu? Essa gente, quanto mais não seja para mostrar que sabe inglês, embora por vezes cometa erros de português, é a única que não utiliza a língua-pátria! Até aquela caricatura de um barril com membros e cabeça, que dá pelo nome de Merkel, só fala alemão, apesar da origem anglo-saxónica.
Hoje, devido às técnicas de tradução simultânea, e de o inglês ser uma língua oficiosa e não oficial, o “portuga” pela-se por “spicar o enguelixe” e hablar español quando encontra na rua um dos nuestros hermanos”.
Para terminar, recordo a piada utilizada por Moita Flores na muito bem conseguida série televisiva baseada na vida do falsário Alves dos Reis.
É quando a mulher do governador de Angola, queixando-se do clima daquela antiga Província Ultramarina, exclama:
 - “ESTÁ UM CHALEUR DE LA PORRE”!
E porra também digo eu, acrescentando outras interjeições hoje muito usadas mas que me abstenho de escrever.

  
Nota: devido à actualidade do tema, ainda não foi hoje que escrevi o comentário sobre o tema “Político na Varanda”.

(Qualquer comentário sobre este blogue escrito segundo o chamado "Acordo Ortográfico" será considerado como contendo erros ortográficos grosseiros e, como tal, corrigido).

01/05/2014

SANCTUS, SANCTUS, SANCTUS…

Peço desculpa àqueles que me lêem por não cumprir, para já, a promessa de fazer uma breve resenha histórica sobre política, conforme prometi no artigo anterior. Porém, o momento de grandeza espiritual que vivemos graças à entrada de mais dois santos na infinita corte celestial, não poderia passar sem um pequeno comentário. Assim, e como herege que me orgulho de ser, declaro:

Abençoada sejas, Igreja Católica e Apostólica Romana, que te dizes monoteísta mas engendraste para os crédulos todo um exército de deuses e semi-deuses a que, para não seres acusada de machista, incorporaste também muitas mulheres, embora estas com estatuto secundário.. Eles e elas servem, segundo tentaram doutrinar-me em criança, para interceder perante a justiça do Deus-Chefe a fim de defenderem os pecadores das tentações do Diabo que o seu Criador não "aceita mas tolera"! Trata-se de um Deus bizarro que cria o instigador do pecado e, apesar de ser infinitamente bom e que tudo perdoa, castiga com suplícios eternos (o Inferno) ou temporários (o Purgatório) aqueles que lhe desobedecem. Não sei onde estudaram Direito mas, com maior ou menor retórica, são tão inúteis como os advogados oficiosos. Até porque "serão muitos os chamados e poucos os escolhidos"! Logo, há que ter muito medo e respeito por essa divindade para ser totalista no "euro-milhões" do Paraíso.

Assim, e por mais que queiras, Igreja de Roma, és como as religiões antigas ou ditas pagãs, onde há sempre um Deus principal, o chefe que, como os seres humanos, tem todas as suas qualidades e defeitos. Esqueces-te porém, ou fazes por esquecer e muito menos divulgar a corja de bandidos que foram “Santos Padres” como lhes chamas. E ainda tens a “lata” de declarar que são criaturas infalíveis, e que os cardeais os elegem inspirados pelo Deus que inventaste. Desafio-te, apesar de seres uma seita de cobardes, a teres a coragem de canonizar um Alexandre VI  e outros canalhas da sua espécie. E, já agora, e para mostrar que não és machista, lembra-te da papisa Joana, eleita quando Deus que, "se não dorme", por vezes está distraído. 
Grandes homens foram João XXIII e João Paulo II, não nego mas, o que fizeram para serem santos? Até dizem que o segundo foi o Papa que mudou o mundo! Perante isto, chego a pensar que as notícias que nos chegam continuamente de todo o lado, devem-se, apenas, à mania que os jornalistas têm de fazer “caixa alta” de todas as tragédias que continuam a afligir este planeta. Após essa “grande mudança”, seria muito mais realista divulgar na Comunicação Social (os media, como agora se diz) apenas coisas “felizes”, tais como as gravidezes das princesas, o acariciar das nádegas de uma rainha ou, para criar um ambiente mais erudito, contar a história de “As Alegres Comadres de Windsor” de Shakespeare, genialmente adaptada por Verdi na sua última ópera, “Falstaff”. Ao menos divulgava-se um pouco de Cultura!
Mas, esquecendo, como convém, João Paulo I (porque, presumivelmente, foi assassinado) e o protector dos pedófilos Bento XVI, viras-te para o passado recente e para o actual Francisco, talvez outro candidato à santidade. Mas, afinal não é já o Santo Padre? Porque não tem a coragem de tornar verdadeiro o tema utópico do  filme “As Sandálias do Pescador”, protagonizado por esse extraordinário actor que foi Anthony Quinn? Será porque os incalculáveis tesouros, que jazem nas caves do Vaticano, ainda fedem à carne queimada nas fogueiras da Inquisição, ou ainda retêm os ecos dos gritos lancinantes das suas vítimas? Os esfomeados deste mundo "mudado" não dariam por isso. Antes, dariam graças a Deus ou gritariam que Alá é grande!
Vá, Igreja Católica, continua a deitar poeira nos olhos dos teus milhões de sectários. Continua a violar o mandamento que proíbe a feitura de estátuas, a adoração de relíquias e necrofilias afins. Baralha a estranha mentalidade dos homens com a história de “um só Deus em três pessoas distintas”, da “virgem concebida sem pecado” mãe do teu Deus que,  segundo a tua estranha lógica, não existia antes do filho”. Até o próprio marido, o tal José, também é santo, talvez por ter suportado estoicamente a armação craniana  “afastando-se da sua mulher”, como diz a Bíblia.
Coitado do Cristo se pudesse voltar a este mundo e visse no que degenerou a religião que fundou com tão boas intenções. Ele, que segundo dizem, ressuscitava os mortos (para morrerem mais tarde, como é óbvio) fazia ver os cegos e andar os paralíticos, talvez desse mais valor a um Pasteur ou a um Fleming. A estes, e a um número infindável de beneméritos que nunca serão santificados, e  cuja memória talvez desapareça na voragem do tempo, já que não há mais dias do ano para recordá-los, preenchidos como estão por todos os Deuses e Deusas inventados pela “Santa” Igreja de Roma.  
Esses é que continuarão a ser invocados e representados pela repugnante estatuária pagã que infesta as igrejas que seguem o Papa! E há que não esquecer todas as “virgens” ou “senhoras (de Fátima, de Lourdes, das Dores, do Socorro, etc. cujos nomes enfeitam as caixinhas que emporcalham as igrejas, pedindo aos pobres devotos, qual banco que propagandeasse que quem não tiver lá conta, não terá os pecados perdoados. 
Quanto aos outros semi-deuses como os Querubins e os Serafins, devem ser o refugo da maravilhosa sociedade celestial, já que não têm direito a nome próprio e a representações idólatras. Talvez não passem de empregados de limpeza pot "todos os séculos dos século" Ámen!
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Ao tomar conhecimento da morte de Vasco Graça Moura, resolvi "enviar-lhe" esta mensagem, plagiando Camões: Se lá no assento etéreo onde subiste, memória desta vida se consente, perdoa ao Sousa Lara e ao Mário David que, na sua tacanhez de  modernos inquisidores, quiseram votar José Saramago ao ostracismo por causa do seu romance "Caim", e da revelação que a leitura da Bíblia já esteve proibida em Portugal.
E há que não esquecer a oposição a essa vergonha nacional que é o "Acordo Ortográfico", principalmente enquanto director do Centro Cultural de Belém. Será que irás ser substituido por um Miguel de Vasconcelos da Língua Portuguesa? É o mais provável neste desditoso País de lacaios  de tudo o que é estrangeiro! 

 
  

12/04/2014

A PROPAGANDA DE UM POLÍTICO NA VARANDA, E A POPULAÇA APLAUDINDO NA PRAÇA

“Não discutimos Deus e a Virtude, não discutimos a Pátria e a sua História, não discutimos a Autoridade e o seu Prestígio, não discutimos a Família e a sua Moral, não discutimos a glória do Trabalho e o seu Dever, mas, se algum de vós me quiser seguir…”
Todos, gritava a populaça na praça respondendo à voz de falsete de Salazar a que não faltava o característico sibilar de quase todos que andaram no Seminário.

“Nicht für uns, alles für Deutschland”, berrava histericamente Hitler acompanhando a frase com os seus dotes teatrais adquiridos em frente de um espelho.

“Heil Hitler, über alles, Sieg Heil”, ululava a populaça na praça estendendo o braço em saudação à glória do seu “Führer”, da Alemanha e do seu povo. E porque não? O terceiro “Reich” iria durar mil anos.

“Liberté, égalité, fraternité” proclamava a populaça na praça antes de iniciar a matança que deu origem ao Terror.

Em 1940, Mussolini na varanda anunciava a sua resolução de meter a Itália na guerra do lado dos Alemães, e a populaça na praça, em vez de gritar “un corno”, aplaudia maravilhada, como se fosse aquele palhaço a ir combater.

E Estaline, e Mao-Tsé-Tung, e Hiroito, e…fico por aqui, porque destes espertalhões, esteve, está e estará a História sempre cheia. E apenas estou a referir-me a alguns destes espécimes que infectaram o século passado. Se fosse possível nomeá-los a todos, não haveria memória de computadores que chegasse. Mas, de quem é a culpa? Deles? De modo algum; a culpa é da populaça que acredita nesta espécie de gente.
É a fartura, a paz, a liberdade para todos os homens de boa (ou má) vontade por todos os séculos dos séculos, ámen.
“Sou eu quem vai endireitar o país e o mundo. Construir o homem novo, organizar a sociedade sem classes, acabar com a exploração do homem pelo homem, a paz para todo o sempre”.

E a populaça eufórica mas ignorante, necessitando sempre de um chefe (nem que seja de cozinha) e, acreditando como é seu hábito, nas palavras dos políticos, berra, dá vivas e morras, estende o braço de mão aberta ou de punho fechado, esfrega-se digital ou manualmente conforme o sexo e fica feliz, radiante, eufórica porque, finalmente chegou o fim de todos os seus problemas. “Com este é que vai ser bom. Vamos pagar menos impostos, ter aumento de ordenado, comer mariscos todos os dias, comprar automóvel novo de rabinho alçado para mostrar aos vizinhos, computadores e telemóveis última moda, ter uma casa com piscina e cores garridas, frequentar festarolas com vestidos espampanantes para aparecer naquelas revistas onde só tem cabimento aquela gentalha dita importante, fazer cirurgias plásticas “à moda de Caneças” para esconder a velhice, trabalhar o menos possível, adoecer quando nos apetecer para aproveitar a baixa como segundas férias nas Caraíbas por indicação do médico, e todas essas coisas básicas para podermos viver decentemente”.

E o político na varanda, promete o reino da fartura à populaça que o aplaude na praça, já esquecida das promessas do espertalhão anterior. Mas não é só na varanda. É no terreno, como agora se diz, que o político faz as promessas da luta final. Vai às cidades, vilas e aldeias, escolhendo os locais de que mais gosta, como as feiras, ou por necessidade imperiosa, as retretes públicas onde desabafa toda a sua sede de poder.
Dá abraços e apertos de mão a todos os que, entusiasmados, caem na esparrela de o aplaudir. Nem as crianças escapam aos seus “beijos de Judas” e, como crianças que são, aplaudem como fazem a qualquer palhaço por muita ou pouca graça que tenha.
E, como é óbvio, em vez de se abster, a populaça vai votar para oferecer ao político o “tacho” que lhe permitirá desafiar a lei da gravidade, isto é, cair sempre para cima quer roube muito ou pouco. Afinal para que é que alguém se mete na política? Salvo raríssimas excepções, toda a gente sabe porquê, mas vota!
Pouco tempo depois a populaça volta à praça mas, desta vez o político não aparece na varanda. Surge na televisão (sempre é mais seguro) e justifica o incumprimento das suas promessas com a ignorância da pesada herança que recebera do governante anterior. Esse sim, é que deu cabo do país, dos trabalhadores e dos reformados.
E enquanto ri interiormente porque sabe que, aconteça o que acontecer, o seu futuro está garantido, tenta justificar que as medidas de austeridade são provisórias. Para ele e os seus acólitos, é claro.

Mais uma vez, frustrada e enganada por sua própria culpa, a populaça volta à praça, mesmo sem o político na varanda. Grita, apupa tudo e todos, tenta invadir o chamado Parlamento onde enriquecem os “representantes” do povo, e desata a cantar, desafinadamente, a já fora de moda “Grândola, Vila Morena”, virando o disco para afirmar a estafada utopia que diz que “o povo unido jamais será vencido”.

Para terminar a grandiosa manifestação de massas, das classes trabalhadoras, da Função Pública e dos pensionistas, vem o momento solene para entoar (também desafinado) o Hino Nacional.
Como ninguém lhes liga nenhuma, até porque a Polícia está lá para evitar desacatos, travam-se interessantes diálogos, um dos quais poderia ser este:

-Olhe que não é “igrégios”; é egrégios.
-Desculpe, mas os meus avós foram sempre à igreja
-Eu logo vi! É por causa dos seus avós, e de todos os lacaios da padralhada, que o País está como está.
-Já vi que vossemecê não acredita em Deus.
-Claro que não. Sou ateu.
-Não se preocupe com isso. Há quem tenha alcunhas piores. E quanto a nomes, ainda ontem um automobilista me chamou cabrão.
-E o que é que lhe respondeu?
-Ora! Que isso não era comigo, mas sim com a minha mulher.
-O quê? Você aceita que lhe chamem cabrão como se a sua mulher fosse uma puta?
-E, como posso saber se é ou não? Apenas por descargo de consciência e quando chego a casa c’os copos, dou-lhe uns enxertos de porrada para desabafar. Mas, cuidado, meu caro senhor; não admito que chamem puta à minha mulher. Se eu dissesse o mesmo da sua mãe, gostaria?
-Partia-lhe os cornos, sua besta!
Entra em cena um terceiro manifestante.
-Calma amigos. Estamos aqui para exigir o cumprimento dos nossos direitos, e não para tratar de questões de família. Lembrem-se que o povo unido jamais será vencido!
-Tem razão, diz um dos dois agastados. Mas o problema é que ninguém nos ouve e ainda arranjo uma cãibra à força de tanto gesticular. Por isso tenho de discutir com alguém. Mas ainda bem que falou de “cãibras” Lembrou bem; Também devíamos exigir que as “cãibras” municipais sejam dirigidas apenas pelo povo.
-Para isso é necessária a “dentadura do pretolariado”.
- Nem pense; já cá temos pretos que cheguem.
-Seu racista de merda; ao menos eles têm os dentes mais brancos do que nós. E não usam nenhum detergente, daqueles que lavam sempre mais branco.
-Isso é do contraste com a cor da pele. Já vi que você julga que todos somos iguais. Se fosse assim não havia inteligentes e estúpidos como você. E isto acontece em todas as etnias. E digo etnias porque agora é proibido dizer raça. Se a censura da democracia continua como está, ainda temos de dizer “etnista”.
-Porra que você agora, além de se armar em esperto, também julga que é sábio e inteligente. Porque não vai para a política ou para presidente de um clube de futebol, seu reaccionário? E a propósito: É do Sporting ou do Benfica?
-Sou do Porto, carago! A única cidade deste País onde se trabalha!
-Isso é uma mania que vocês têm, os lá da chamada “invicta”. Mas Lisboa é que é a capital do país, coisa que lhes provoca uma grande dor de corno.
-E uma grande dor nos tomates se continua a insultar as gentes do Norte.
-Mas ao menos, temo-los sítio. E muito bem blindados.
-Você não passa de um reles “fachista”. Já que é tão valentão, veja lá se é capaz de estender o braço direito à maneira dos nazis.
-Essa de julgar que foram aqueles tipos que inventaram aquele gesto, é de cabo de esquadra; já os Romanos faziam o mesmo quando saudavam alguém. E como sou um homem de “coltura”, sei que diziam AVÉ ao mesmo tempo. Será que agora é proibido dizer “Avé-Maria”?
-Lá vem, outra vez, a porra da religião. Você também acredita que Deus dá o frio conforme a roupa? Pela minha parte acho que faria melhor em dar a roupa conforme o frio.
-Quero lá saber disso; já lhe disse que sou ateu. Porque não vai expor esse argumento ao padreca lá do seu sítio? Seria divertido ver o tipo a pregar isso na igreja. À saída davam-lhe uma sova, à falta de uma fogueira.
Outro manifestante interrompe tão interessante diálogo:
-Irra! Vocês nunca mais acabam com isso? Afinal o que vieram aqui fazer?
-É este “fachista” de merda que me está a provocar. Foi ele que começou. Se eu mandasse enviava-o para a Sibéria para saber como é.
-Cala-te, “comuna” de merda. Não passas de um “fachista de esquerda e foste tu quem começou. Vai fechar o punho em nome do Estaline, esse comparsa do Hitler. Se eu mandasse, ias já para Caxias.

Palavra puxa palavra, empurrão daqui e de acolá, em breve os dois representantes do povo unido, em que ficámos sem saber a que partido ou crendice pertenciam, chegaram a vias de facto. Enquanto uns os incitavam em nome da política, outros tentavam separá-los por via da mesma.
Finalmente, tudo serenou, Após umas bastonadas da política da polícia, a praça ficou vazia, enquanto para lá da varanda ninguém bulira.
Só tempos depois, nas eleições seguintes, outro político voltou à varanda. E a mesma populaça na praça, como sempre crédula e ignorante, aplaudiu entusiasmada.

Conceito: O POVO UNIDO CONTINUA E CONTINUARÁ A SER VENCIDO!

Depois de ter escrito esta historieta para me divertir, ocorreu-me fazer um comentário sobre o seu conteúdo. Afinal, se o povo continua (e continuará) a ser vencido, no meu modo de ver talvez pessimista, pareceu-me oportuno fazer uma pequena resenha histórica do passado.
Ficará, assim, completada a trilogia: passado, presente e futuro.
Será este o tema do próximo artigo. Cruel, divertido, ou ambas as coisas?
Uma única certeza: será inútil, mas ajudará a aliviar as minhas ‘iscas’ já bastante abaladas após setenta e um anos neste disparatado (e famigerado) planeta!

Obs: não sei quando farei o comentário. Como disse num artigo anterior, tenho andado ocupado (quando me apetece) a escrever a história da minha ida à Guerra Colonial. Vou a caminho das cem páginas, e ainda não cheguei à partida para Angola.
Se conseguir acabá-la, é pouco provável que a publique neste blogue. Iria incomodar algumas pessoas, principalmente militares e anti-racistas primários. Mas, quem sabe? Por enquanto penso mandar fazer uma edição privada para a família e amigos. O futuro dirá.

Nota: Qualquer comentário escrito conforme o chamado 'novo acordo ortográfico' será considerado como contendo erros grosseiros e, como tal, corrigido!


19/02/2014

SEBASTIÃO DEL CANO? NUNCA OUVI FALAR!

FERNÃO DE MAGALHÃES? NÃO ME DIZ NADA!

Estes são os “deliciosos” comentários de uma professora, julgo que de línguas, no concurso “Quem quer ser milionário” transmitido no canal-1 da RTP no passado dia 14 de Fevereiro.
A pergunta era esta: “Quem foi o português, ao serviço da Espanha, que comandou a primeira viagem de circum-navegação”? 
As hipóteses eram, como de costume, quatro: Sebastião del Cano, Fernão de Magalhães, Diogo Cão e Vasco da Gama.
A douta professora começou logo por dizer que nunca tinha ouvido falar no primeiro; quanto ao segundo, declarou que o nome nada lhe dizia, e de Diogo Cão nem falou. Quanto a Vasco da Gama sabia, apenas, que não fora ao serviço da Espanha. (É de perguntar se sabe quem foi que descobriu o caminho marítimo para a Índia).
Enquanto a docente raciocinava para responder correctamente a tão difícil pergunta, Manuela Moura Guedes parecia querer disfarçar a sua incredibilidade com uma expressão da grande profissional que é.
Depois de muitos raciocínios, a professora chegou a mencionar o Estreito de Magalhães. Mas, saberá onde fica? Tanta ginástica mental lembrou-me o único raciocínio lógico que Obélix conseguiu fazer em todas as suas aventuras (para os fans de Astérix, ver a página 23 de “La Grande Traversée” [A Grande Travessia]). A diferença residiu em não ter deitado fumo, como o gordo gaulês, provocado pelos curtos-circuitos dos neurónios.
Por fim, e após ter repetido várias vezes que nunca tinha ouvido falar em Sebastião del Cano, lá concluiu, por exclusão de partes, que fora Fernão de Magalhães. 
Os meus mais sinceros parabéns! Só foi pena que Manuela Moura Guedes não tivesse dado um lição a essa senhora, explicando porque o “desconhecido” navegador espanhol também é
lembrado nessa primeira viagem de circum-navegação.
Mas vieram mais duas perguntas de cultura geral que atrapalharam a professora, embora tenha conseguido acertar, como na anterior, após muitos raciocínios confusos e demorados.
Primeira: As auroras, boreais e austrais, são devidas a: asteroides, magnetismo, satélites de outros planetas, ou buracos negros?
Perante esta pergunta que, aliás, é um pouco especializada, revelou, no entanto, o seu desconhecimento básico do assunto. Interiormente divertida, Manuela Moura Guedes perguntou-lhe o que responderia a um aluno se a interrogasse sobre o que era um buraco negro.
Naturalmente, respondeu: “diria que é um buraco negro”. 
- "E se ele perguntasse o que era um buraco branco?" 
- “Diria que é um buraco negro!”
Depois deste jogo de palavras, que quero acreditar não ter passado disso mesmo, a apresentadora perguntou: "já viu alguma aurora?" 
Por entre mais trocadilhos engraçados (haja Deus) disse que não sabia, mas que eram comuns nos países do Norte. O problema estava nas auroras austrais. Para ajudar a evitar mais confusões (ignorância?), Manuela fez um gesto com as mãos para mostrar polos opostos. Perante isto, a concorrente perguntou se eram duas coisas que se encontravam no meio. Finalmente, e mais uma vez por exclusão de partes, lá acertou no magnetismo.
Segunda: o país mais pequeno do mundo, uma ilha, é: Madagáscar, Arménia, Nauru ou Jamaica?
É claro que não pretendo que alguém saiba que a resposta é Nauru.
Embora, e desde criança, eu seja um apaixonado por geografia, não sabia que era o mais pequeno (em população).  Não ignorava, porém, que faz parte da Micronésia, grande grupo de ilhas dispersas pelo Pacífico Sul.
Depois de após longo raciocínio ter eliminado Madagáscar e Jamaica pelas suas dimensões, e mostrar espanto sobre o que seria a Micronésia, lá acertou na resposta, parecendo que desconhece que a Arménia não é uma ilha. Nem deve saber onde fica esse país nem o ressentimento que ainda hoje o seu povo mantém pelo massacre feito pelos Turcos no primeiro quartel do século XX, e nos últimos tempos recordado na Comunicação Social. Ou, ainda, que só recobrou a sua independência após a queda da União Soviética.
Se eu fosse o apresentador do concurso, decerto teria estragado a minha carreira porque seria difícil conter-me perante a ignorância de quem tem a obrigação de ter um mínimo de cultura geral. 
Não sei quais foram os motivos (falsos ou verdadeiros) que levaram a censura da ditadura-democrática em que vivemos a afastar durante tanto tempo Manuela Moura Guedes da sua vida profissional. Mas, para uma pessoa que não tem papas na língua, conseguiu manter-se séria.
Lembro-me de há alguns ela ter corrigido o português de um (uma) Secretário de Estado da Cultura, com esta frase: “e é isto um (uma) Secretário da Cultura; mas eu corrijo."  E corrigiu!
A terminar, sugiro à digníssima “sotôra” que aprofunde os seus conhecimentos antes de se apresentar em público, e não repreenda os seus alunos se estes gozarem, com o devido respeito, é claro, a triste figura que fez. E que nunca falte às manifestações contra a avaliação dos professores porque, e citando o velho provérbio ao contrário, “quem deve teme”!

Nota para os “coca-bichinhos” como eu:
Indonésia, Micronésia, Polinésia e Melanésia, são grupos de ilhas do oceano Pacífico cujos nomes significam, respectivamente, ilhas indianas, pequenas ilhas, muitas ilhas e ilhas de pretos.
As etimologias são as seguintes:
O prefixo “indo” deriva do latim e refere-se à Índia e tudo com ela relacionado. Os outros três, “micro”, “poli” e “mela” provêm do grego mikós (pequeno) poly (muitos) e ”mélanos” (preto). O sufixo “nésia” também procede do grego nêsos (ilha, península).
Sebastião del Cano: navegador espanhol que assumiu o comando da primeira viagem à volta da Terra, após a morte de Fernão de Magalhães em combate com os indígenas nas Filipinas.

E a propósito:
Quem se lembra de o Pedro Santana Lopes, ex-Secretário de Estado da Cultura, afirmar que gostava dos “concertos para violino” de Chopin?...


06/02/2014

TSUNAMI

ONDA GIGANTE, MARÉ GIGANTE, MAREMOTO OU RAZ DE MARÉ?


Acabo de receber imagens, enviadas por um amigo, de um tsunami num rio do Japão. Não vi, como esperava, nenhuma “onda gigante”. Esta talvez não chegasse a um metro de altura, mas os estragos que provocou foram devastadores, coisa que uma onda, por maior que seja, pode provocar. Mas, a comunicação social é fértil em falar de “ondas gigantes”, quer se trate das provocadas por um sismo submarino ou das que, na praia da Nazaré, brindam os surfistas.
Mas, então, porque é que estas últimas estão muito longe, felizmente, de provocar uma catástrofe? 
Vamos a factos concretos.
Uma onda é uma vibração que atravessa qualquer corpo sólido, líquido ou gasoso. As moléculas dão um “coice” umas nas outras, mas ficam sempre no mesmo sítio. Toda a gente que toma banhos de mar sabe que, para lá da rebentação, subimos e descemos sobre as ondas, mas continuamos onde estamos. O movimento é apenas vertical. O que faz cair (rebentar) a onda, é o atrito que as moléculas que estão junto ao fundo sofrem, diminuindo a sua velocidade que não é acompanhada pelas que estão em cima. Gera-se, assim, uma sucessão de travagens que faz com que a onda desenhe aquela curva tão característica. Depois dá-se a “explosão” à medida que as partes superiores encontram um obstáculo sólido, seja areia ou rocha.
No primeiro caso, e conforme a extensão e inclinação da praia, bem como a altura da onda, esta progride em maior ou menor distância, recuando logo a seguir.
Quanto ao tsunami, cujo étimo japonês quer dizer “onda no porto” e não gigante, é provocado por um desnivelamento dos fundos marinhos que, por vezes, acompanham os sismos subaquáticos. O que importa é a maré que resulta desse desnivelamento e não as ondas, maiores ou menores, que a precedem. Estas são empurradas pela maré que, a uma velocidade muitíssimo maior das marés normais, progridem como resultado do princípio físico dos vasos comunicantes. Foi isto que aconteceu em Lisboa aquando do terramoto de 1955. Toda a gente pode ver as inúmeras imagens que circulam na internet e, se repararem bem, nenhuma onda se compara às da Nazaré.
Quanto ao uso (e abuso) da palavra tsunami, que se popularizou após a catástrofe que atingiu a Indonésia e outros países em 2011, declaro que sou neutro, apesar de ter aprendido a designar o fenómeno por raz de maré, como consta nas “Lições de Geologia” do antigo terceiro ciclo dos liceus. Isto é uma resposta às críticas que tenho recebido por causa da minha aversão aos neologismos e provo, assim, que não sou tão fundamentalista como dizem. Eles só enriquecem as línguas e as relações entre os povos. Odeio, sim, é a “snobeira” com que muita gente e a maioria do comércio gostam de se exibir, com os fast-food, take-away, resort, call-center, e um nunca mais findar de anglicismos inúteis que emporcalham a nossa língua, ignorando que existem os equivalentes no nosso idioma. Em criança tive de aturar os galicismos, agora tenho de suportar aqueles e, talvez ainda viva o suficiente para ver a invasão do mandarim, quanto mais não seja por ser moda.

Nota para os curiosos:
Se quiserem verificar o movimento ondulatório nos corpos sólidos, façam a seguinte experiência: ponham duas moedas bem encostadas uma à outra sobre uma mesa. Com um dedo, segurem firmemente uma delas. Depois, atirem uma terceira moeda de encontro à que não está segura com o dedo. As ondas de choque vão propagar-se através da moeda fixa e empurrar a que está encostada, que se detém logo que perde a energia recebida. Simples, não é? Pois isto é que é uma onda! 


   

15/01/2014

CARTA A EUSÉBIO

Meu caro Eusébio.

Se o Além existe, o que muito duvido, talvez leias esta carta. Nasceste no mesmo ano que eu, em plena Segunda Guerra Mundial. Tu na então Província Ultramarina Portuguesa de Moçambique, e eu em Lisboa, na época a Capital do Império.
Tiveste uma origem muito modesta. O mesmo não posso dizer, porque a minha família pertencia à classe média-alta.
Muito antes de pensares vir para a Metrópole (se é que sabias o que isso era) eu ia com o meu pai ver alguns jogos do Sporting, clube de que sou apenas simpatizante. À parte isto, o futebol pouco me interessa.
Nessa época tão distante, e para afirmar a portugalidade dessas terras hoje tão desgraçadas, o Estado Novo tinha feito vir para Lisboa algumas promessas do futebol nacional, onde se destacaram os irmãos teus conterrâneos Matateu e Vicente, ambos no Belenenses.
Quando chegaste à capital, foste “caçado” pelo Benfica que se adiantou ao Sporting na contratação. Poderias, assim, ter sido sportinguista, mas o mundo é de quem chega primeiro.
Só te vi jogar na televisão, e não posso esquecer os dois jogos em que o Benfica se sagrou campeão europeu, transmitidos em directo, novidade na época.

Depois, veio o “Mundial de 66”. Eu estava em Luanda, onde não havia televisão, mas ouvíamos todos os relatos da selecção, cujas vitórias punham todos, brancos e pretos, em autêntica loucura. E posso afirmar que eram manifestações verdadeiramente espontâneas. 
Não vou falar do Portugal-Coreia (toda a gente sabe a história) mas de uma situação caricata que se passou no jogo com a Inglaterra. Jantava em casa de um amigo enquanto, pela rádio, ouvíamos ansiosos o relato feito por Artur Agostinho. A certa altura, quando perdíamos por 2-1, pareceu-nos ouvir “Eusébio remata e gooolo!” Com o entusiasmo levantámo-nos e a mesa, que era de tripé, virou-se deitando tudo para o chão. O meu amigo escorregou e parece-me que ainda o estou a ver no chão a exclamar: “se, ao menos tivesse sido golo!...”

E quatro décadas passaram. Um acaso fez com que te visse no aeroporto de Munique, aquando do “Mundial de 2006”. Estavas sentado, encolhido é mais o termo, numa cadeira. Algumas pessoas cumprimentavam-te e outras, tal como eu, apenas olhavam. Já íamos muito alto quando, olhando para trás, reparei que ias no mesmo avião.
Disse para a minha mulher: “o Eusébio está sentado mais atrás; até parece que ninguém dá por ele”. E, como poderia dar se a tua imagem, como sempre, irradiava, nobremente, a contumaz singeleza?

Agora morreste! De repente, todo o Portugal se levantou, chorou, recordou (embora muito mais de metade dos portugueses não ser ainda nascida ou era criança no tempo da tua glória) e até te querem colocar no Panteão! Se soubesses disto penso que ficarias horrorizado, já que a tua verdadeira modéstia compreenderia que há valores muito mais altos do que o futebol.
Sem querer meter-me na vida alheia e pedindo desculpa por abordar este assunto, julgo que também ficarias admirado com a “pensão” que o Benfica atribuiu à tua mulher. A maior parte dos portugueses trabalhou quarenta anos ou mais, e recebe menos de um décimo dessa quantia! Votado ao ostracismo quando a tua glória se eclipsou, foi o Benfica que te deu, merecidamente, a mão, agora tornada hereditária.
Claro que ela não tem culpa, até porque é humanamente agradável viver à custa da glória dos outros.

Para terminar, e porque sei que isto te faria rir, acho oportuno dizer que os ilustres deputados que fazem as leis deste país deviam propor a substituição da esfera armilar da nossa Bandeira por uma bola de futebol. Por sua vez, os castelos iriam sendo substituídos, à medida que Eusébios e Ronaldos fossem desaparecendo, pelos seus retratos.
Será talvez o provável futuro desta ditosa Pátria, há várias décadas governada por ladrões, corruptos e oportunistas. Salvam-se uns poucos que, por não quererem fazer parte das quadrilhas, ou com medo da ‘censura’ da chamada Democracia, estão calados e quietos.

Um grande abraço, do planeta Terra para o Além.



17/12/2013

SOCORRO!

SOCORRO!
QUEM NOS SALVA DOS ECONOMISTAS?

Esta noite tive um pesadelo. Vi a troika na sua verdadeira acepção da palavra, isto é, o carro russo montado sobre esquis puxado por três cavalos. Mas, estes, para além de serem homens, não emparelhavam bem no que respeito ao aspecto físico. Um, alto e careca, tinha um ar patibular, outro a cor típica dos monhés e, o terceiro um pouco rechonchudo de estatura média. Em comum, e em vez de arreios, tinham pastas de cabedal recheadas de papeis referentes a acções, obrigações, títulos, empréstimos, câmbios, juros, tesouro, produto interno bruto, IVA (Imposto Validador das Aldrabices), IRS, IRC e todas essas trapalhadas que os economistas inventaram para complicar a vida dos outros, e entreterem-se a calcular se são precisas meia ou uma dúzia de galinhas para valerem um porco. E, o mais curioso é que raramente estão de acordo uns com os outros, o que faz com que nenhum resolve algo que se veja. Até os que ganharam o Prémio Nobel! (Quanto ao povo, ora o povo. Deus ajuda quem tem fé!)
Por seu lado, o carro estava atascado de políticos, deputados, corruptos, ladrões, militares do exército, trabalhadores com falsa baixa médica, trabalhadores em greve por “dá cá aquela palha”,  dirigentes sindicais, cronistas sociais, traficantes e todos os outros parasitas da sociedade amontoados num delirante bacanal ritmicamente marcado por guizos pendurados nas pastas e pescoços dos três tipos que puxavam aquela carripana de perdição. 
Atrás, com ar submisso de bom aluno e mão estendida, implorava, o nosso venerando, sábio e excelentíssimo Presidente da República, com a sua característica voz de asmático agora tão cavernosa que até metia dó.
Mas, para completar este cortejo dantesco, numa massa impossível de descrever, seguia a arraia-miúda de lusitanidade nascida ou malparida, agitando-se numa confusão de ritmos de fado, fandango e, principalmente, de chulas. À sua frente marchava, solene e altaneiro, um chefe. Mas, não era a espada de D. Afonso Henriques que ele empunhava. Autêntica cópia da figura do Zé-Povinho, tal como Rafael Bordado Pinheiro criou, fazia aquele gesto tão gracioso que, por vezes, provoca mais efeito do que as mãos postas em frente da estátua da chamada Virgem Maria que, passados quase dois mil anos, ressuscitou e apareceu em Fátima num tipo de nuvem desconhecido dos meteorologistas. As suas emanações pestíferas mataram uma pobre azinheira mas, em compensação, continuam a fazer entrar muito dinheiro que, despois de analisado pelos economistas, os políticos distribuem com a sua costumada imparcialidade.
E, todo aquele abençoado povo, descendente de santos e heróis, para não destoar dos puxadores da troika, arrastava consigo barris que, em vez de carrascão, estavam também cheios de papeis. Estes, porém, tinham nomes diferentes, tais como, dívida soberana, dívida pública, dívida externa, dívida bancária, dívida à farmácia, dívida à mercearia, dívida ao chulo, enfim, dívidas de todos os tipos e para todos os gostos.
Entretanto, a minha bexiga a abarrotar da santa e omnipresente cerveja, deu sinal de alarme. Mal-humorado por ter de sair do quentinho, e, depois de cumprida a missão de aliviar aquele órgão do seu conteúdo exagerado, voltei a deitar-me. Pus-me de barriga para cima, posição em que costumo entrar nas minhas meditações metafísicas, e a música das finanças começa a martelar-me, de novo a cabeça, desta vez acordado: acções, obrigações, juros, tesouro, dívida pública, dívida soberana, dívida externa, produto interno bruto, etc. etc.
Enquanto isto soava dentro da minha pobre cabeça, comecei a sentir uns estranhos formigueiros pelo corpo. As coisas começaram a baralhar-se mais até que me fixei no chamado produto interno bruto.  A brutalidade deste termo, obrigou-me a por instintivamente a mão numa zona delicada do corpo, como que para a proteger. Sem perceber porquê, lembrei-me ao mesmo tempo do gesto do Zé-Povinho!
Perto do delírio comecei a ver notas de banco a voar, o chamado papel-moeda. Mas, se é papel, não pode ser moeda, pensei. E, se pode, porque não há de haver moeda-papel?
E o ouro, esse elemento metálico que tem mais valor do que os outros, embora haja muitos mais raros! Com as “injeções” de Mandela que os telejornais, lembrei-me que a África do Sul está cheia dele, mas está longe de ser um país rico. Pela minha parte prefiro uma boa feijoada, já que o ouro deve ser muito indigesto. E até perde alguma graça pelo facto de não provocar gases. Por outro lado os países árabes estão ricos graças ao petróleo, crude, brent, ouro negro ou como lhe quiserem chamar. Pelo menos, em termos do número de nomes, vale mais que o ouro amarelo, embora também deva ser terrivelmente indigesto.
Tentei acalmar-me mas não consegui, pelo que resolvi tomar um ansiolítico. Mas, enquanto não fazia efeito, apeteceu-me gritar: acções, obrigações, títulos, câmbios, juros, empréstimos, dívida pública, dívida soberana, divida isto ou aquilo, cifrões, milhões, biliões de cifrões, o Produto Interno Bruto e…aaaa!!! Tive de correr para a casa de banho, e, com uma tremenda explosão, livrei-me daquele famigerado produto! Nem queria acreditar, mas era verdade!
Muito mais aliviado, voltei para o “quentinho” e deitei-me de barriga para baixo como é meu hábito.  Afinal é melhor pensar que tudo isto não passou de um disparatado pesadelo num mundo disparatado, originado pelas lavagens ao cérebro que são os malditos telejornais. Vou deixar de os ver porque a paciência tem limites. É uma utopia, bem sei, mas o melhor é pensar e sonhar que a realidade é outra.
Para mim, e dentro do possível, é muito mais interessante e aprazível saber quando chega a Primavera!